quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Relatioship status

Queria anunciar que não faço ideia nenhuma do que estou fazendo. Não sei se estou tentando dominar o mundo como o Pink e o Cérebro, se estou planejando um roubo a banco ou se apenas me apaixonei e não sei o que fazer com meu coração à noite.

Eu não me engano: apaixonar-se é treta. É saber que eu me sinto vulnerável pra caralho perto de você, e ainda assim ter certeza de que eu não tenho outra escolha a não ser peitar esse medo e me permitir sentir tudo: seu beijo, seu cheiro, sua bronca, seus cabelos, sua respiração no meu ouvido.

Se apaixonar é querer dormir três dias seguidos só pra chegar a hora em que eu finalmente te vejo e te beijo. Se apaixonar é dizer tudo de uma vez em uma noite e, ao mesmo tempo, achar que só o silêncio basta. Ter certeza que sim. É a descoberta de que existe cafuné melhor que chocolate. Que existe uma cama no peito de alguém e que dormir nela é mais confortável e incrível que numa king size de hotel cinco estrelas.

Eu nunca quebrei a perna, mas a cara e o coração eu já perdi as contas. Então, por quê me permitir ser vulnerável pra você? E por que é que é COM VOCÊ que me sinto assim agora - e não com outros e antes de hoje? Não sei a resposta. Se apaixonar é não saber e não querer ter que explicar tudo. 


Gostar de você é uma afronta à minha racionalidade capricorniana, ao senso comum e às regras vigentes. E gostar de você também é uma confirmação de que o senso comum e as regras vigentes sempre estiveram errados - porque nada é mais certo que gostar de quem me faz lembrar de todas as coisas lindas que eu ainda sou capaz de sentir.

Obrigada pelo frio na barriga. Obrigada por mudar meu relationship status pra saudade: esse estado que parece permanente, sem cura e que deixa o coração apertado, mas ao qual a gente sobrevive porque nos sabemos juntos, mesmo longe. 



Obrigada por esse abraço que encaixa perfeitamente em mim - de um jeito que me faz ter certeza de que tanta precisão cirúrgica requer no mínimo umas três pós graduações. Não é normal alguém saber fazer isso sem manual, mas entre nós dois nada é muito normal mesmo. E ainda bem: seria uma pena se fôssemos tão previsíveis. 



Namora comigo?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Como não ser, eis a questão



Eu poderia falar sobre tudo o que eu sou agora. Sobre as mudanças incríveis que fiz na vida, sobre a "coragem" que eu tive de largar empregos, relacionamentos, falsas seguranças, amores de infância.

Acontece que falar sobre aquilo que eu sou é chover no molhado. É óbvio demais ser quem eu sou, porque eu não saberia ser outra coisa. Mas dentro de tudo o que a minha vida é agora, o que as pessoas não veem é tudo o que a minha vida poderia ter sido. As coisas das quais abri mão - por imaturidade, loucura, burrice ou escolha consciente. E todas essas coisas que não fui estão escondidas na minha vida que é agora: os amores que eu escolhi não viver, o emprego que eu deixei, os caminhos que abandonei.

Tudo o que eu deixei de ser faz parte de mim e de quem eu sou hoje e me tornam maior, porque eu aprendi a amar as minhas escolhas, mesmo as mais "erradas" e questionáveis. E o fato de eu assumir e não menosprezar o que eu decidi não escolher me fazem amar o que sou agora. Eu nunca neguei as minhas dúvidas e indecisões. E se pra seguir um caminho eu precisei abrir mão de outro, nunca tentei me convencer de que o outro caminho era ruim ou menor: eu sei que às vezes a gente apenas tem que escolher no cara ou coroa, porque ficar parado na encruzilhada sem saber o que fazer nem sempre é uma opção.

Você é a minha escolha agora. E escolher você contém, ao mesmo tempo, todas as coisas das quais eu abro mão pra viver o que a gente é quando está junto. Eu poderia menosprezar a nossa história porque ela é curta, clichê e não é nenhuma novidade diante do mundo de histórias sensacionais que ouvimos por aí sobre duas pessoas que se conheceram e se gostaram.

Mas eu quero fazer isso direito e quero olhar pro que importa: você me leva pra onde minha alma se encanta. Onde mais eu poderia querer estar? Eu não entendo tudo agora. E eu não tenho zero medo de um coração partido na próxima esquina, mas tenho uma lista de coisas que eu quero não escolher pra viver o que sentimos:

Não quero ser quem fui até aqui, seria um desperdício te conhecer e não ser mais do que fui ontem. Não quero contar as probabilidades que moram entre o que somos e o que podemos vir a ser - estar com você agora é mais incrível que o infinito matemático de chances de não estar com você.

Aliás, não quero não estar com você - isso nem parece mais ser uma opção, a essa altura.

É oficial: deixo todas as minhas não escolhas na mesa e escolho você. Escolho me sentir vulnerável de novo. Escolho sentir saudade até as 3 da manhã das sextas-feiras, pra acordar sabendo que é tarde demais pra me apaixonar como adolescente e, ao mesmo tempo, é cedo demais pra me negar a viver isso.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Eu não sou a minha bunda



Vinicius de Moraes até que estava certo: beleza é fundamental. Pena que ele não explicou isso direito ou todo mundo entendeu tudo errado. Talvez a gente nem saiba o que a beleza significa, porque essa noção e o desejo associado a ela é construído social e culturalmente, tijolo a tijolo, pelo Photoshop, pelas Giseles, Gracianes, Paolas, Grazis. Pelas revistas, pelas novelas, pela indústria da moda, pela moda fitness-whey-low-carb-maromba-pugliesi e pela pornografia.

Nenhum homem nasce virando o pescoço pra olhar as bundas das mulheres. Nenhum mulher nasce usando o corpo como mercadoria e arma pra conquistar o outro e se sentir bem. Isso não é matéria na escola, mas é algo que nos ensinam a nossa vida inteira e que reproduzimos sem saber.

A gente não sabe o que a gente deseja de verdade porque nunca ninguém nos deixou descobrir o outro com o olhar. Nos enfiam goela abaixo o padrão de fora pra dentro sobre bundas, peitos, pintos, peso, cabelos, six pack e lifestyle. Como vamos saber do que gostamos que já escolheram tudo pra gente?

Nos distanciamos tanto de olharmos as coisas e as pessoas sem esse filtro, que desaprendemos a re-conhecer o outro. Aliás, como é que a gente reaprende a olhar esse outro que já nem é mais ele mesmo? Você é o terno Armani que veste. O carro esportivo que dirige. O emprego que traz status e que diz mais do que o coração.

E a gente não olha o que está na nossa frente porque deixamos de ser quem somos para sermos essa alegoria de coisas que permitimos que nos definam: o bairro onde moramos, o emprego que temos, a profissão que escolhemos, a música que escutamos, os lugares que frequentamos, as viagens que fizemos ou pretendemos fazer. A gente já não lembra que o cheiro do outro não é o perfume Calvin Klein.

Talvez não seja óbvio, mas quanto mais homens virarem o pescoço pra olharem uma bunda e quanto mais mulheres se acharem gostosas e com a auto-estima em dia porque homens quebram o pescoço pra olhar essas mesmas bundas, maiores serão as nossas solidões. Porque precisamos sim de beleza, mas não de qualquer tipo.

Eu não estou aqui pra negar o padrão de beleza vigente e dizer que sou imune a ele. Não estou aqui pra dizer que ele não me afeta. Mas posso dizer o quanto é incrível quando a gente se percebe capaz de ir além do que nos foi oferecido como belo.

Porque a verdadeira beleza que enxergo não é feita só do que eu aprendi a achar esteticamente bonito. Beleza de verdade pode ser feita de conexão, de encontro, de saber que o outro tem vários tipos de sorrisos - desde aquele amarelo quando fica sem graça até aquele sorriso de felicidade genuína que é quase impossível capturar numa foto.


E a beleza é feita de abraços, de beijo de esquimó, de muitas pequenas coisas que só você repara nele - uma pinta ou todas as pintas que você conhece tanto que quase deu nome pra elas. A beleza é feita de se permitir ser pro outro todos os nossos personagens - até mesmo aquele ogro e orgulhoso que briga com você domingo à noite.

Quando um homem olha a minha bunda, não sinto raiva do indivíduo em questão. Sinto o peso de todo o patriarcado sobre as nossas cabeças. Sinto que a vida veio distorcendo, diminuindo e enfeiando a todos nós. Podemos ser mais do que peitos e bundas. E pode ser libertador experimentar a beleza que a gente enxerga sem abrir os olhos, a beleza que a gente sente com o nariz, com as mãos, no choro; a beleza desmedida que existe em permitir que a outra pessoa seja ela mesma, sem colocar sobre ela o peso das nossas expectativas.


Não é que eu queira que os homens parem de olhar pra minha bunda. Pra falar a verdade, eu até quero. Mas, mais que isso, o que eu realmente adoraria é que nós percebêssemos o quanto estamos perdendo por olharmos só isso. Uma bunda é muito pouco.

Talvez a gente só devesse olhar as bundas depois de aprender a olhar todas as outras coisas. Talvez a gente possa olhar uma bunda pelos motivos "certos". Talvez as bundas sejam superestimadas. Porque tem feiúra que bunda nenhuma salva.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Carta de uma mãe aos futuros pais


Você descobriu que vai ser pai. Pode ser que esteja assustado. Ou muito feliz. Ou feliz e assustado ao mesmo tempo. Pode ter sido planejado ou não. Pode ter sido quase planejado, ou muito sonhado. Ou nada disso e tudo isso junto. A gente tem um monte de ideias sobre como vai ser ou como a gente gostaria que fosse e como a gente não quer que seja. Mas a verdade é que ser pai pode mesmo ser assustador: não é um título que você ganha automaticamente só pelo fato de ter contribuído com 50% do material genético que dá origem a outro ser humano. Por mais que o seu pai tenha te falado, por mais que você tenha amigos, primos e irmão com filhos, você não faz ideia do é que ser pai, até se tornar um. 

E é exatamente isso: você se TORNA pai. Não é diferente pra mulher, ainda que pareça que nascemos pra isso e que pra gente é muito mais natural. Não, não. Ser mãe também NÃO é uma coisa que a mulher já nasce sabendo. Ninguém nasceu pronto pra isso - a gente se torna mãe e se torna pai numa jornada - que pra alguns é muito difícil e, pra outros, só difícil.

Ser pai (com P maiúsculo) não é fácil, justamente porque isso não acontece da noite pro dia. Assim como ser mãe, ser pai é como pular a faculdade e ir direto pro mercado de trabalho. É nunca ter estudado engenharia e teu chefe te pedir pra fazer um cálculo estrutural como se fosse a coisa mais normal do mundo. A princípio é meio assustador, você acha que o prédio vai desabar bem no meio da sua cabeça. Pior é que às vezes desaba mesmo. Na sua cabeça, na sua cara, no dedinho mindinho do pé.

Mas chega aqui. Vem cá que, como mãe, eu quero te acolher e te dizer que pode ser incrível: pode ser uma jornada de cura da sua infância, da sua relação com você mesmo, de se permitir ser frágil, de ressignificar o conceito de masculinidade e talvez tudo o que você entendia sobre ser forte. 


Eu imagino que não seja fácil ser pai na sociedade machista que a gente vive - já não é fácil ser apenas gente nesse mundo, e ser gente responsável por uma outra vida, traz um senso enorme de responsabilidade. Não é fácil viver num mundo com tantas exigências de todos os lados. Não é fácil porque a maioria dos pais cresceu com uma referência social de pais com papéis bem definidos, que só brincam de vez em quando ou passam o dia inteiro trabalhando. E com mães que, sobrecarregadas, muitas vezes estavam exaustas e infelizes.

Não se preocupe com trocas de fraldas, banho, trocar roupa e qualquer outra coisa parecida. Acredita em mim: você vai se sentir ridículo por ter se preocupado com isso algum dia. Isso é o mínimo pra cuidar de um bebê e você vai fazer tanto que será impossível não ficar craque. Ser pai também é isso, embora a gente viva numa sociedade na qual um pai que troca fraldas merece o prêmio nobel da paternidade. Por favor, não seja esse pai. Seja mais que isso, ou você vai perder a parte mais linda que fica no final do arco-íris.


De verdade? Claro que as fraldas sujas tem que ser trocadas e sua mulher vai precisar que você seja parceiro dela e divida as tarefas. E eu não estou aqui pra dar conselhos sensacionais e mostrar o caminho - porque esse caminho não tem mapa, meu amigo. Mas se eu tivesse que sugerir apenas uma coisa, seria: ESTEJA PRESENTE. 

A parte mais difícil - e eu acredito que a mais importante - é essa que a gente aprende a oferecer a nossa presença, nosso olhar atento capaz de permitir que nossos filhos sejam quem eles vieram ser e, ao mesmo tempo, permitir também que essa experiência nos transforme completamente. Não se trata de QUANTO tempo você passa com seu filho - embora eu possa dizer que quase tempo nenhum não é presença suficiente - mas COMO você passa esse tempo é mais importante do que a quantidade de horas.

Quando nasce essa criaturinha tão fofinha e cheia de dobrinhas 
a gente se vira do avesso. Essa coisinha frágil que chora e chora e não sabe falar pra dizer o que há de errado, que fica doente e deixa a gente sem dormir várias noites seguidas, ou meses e - acredite - talvez anos seguidos. Mas essa não é a parte mais difícil. Claro, a gente sempre acha que o nosso filho vai dormir a noite toda aos três meses. Depois que o bicho pega, a gente começa a trabalhar a mente pra sobreviver até um ano, pra no final descobrir que talvez só tenhamos uma noite inteira e sono depois que o nosso filho tiver dois. Ou três. Não conte com uma matemática exata nesse caso. Ser pai é muito impreciso. 

Ser pai não é o único desafio que te espera. Além de tudo que muda e se desestrutura e reestrutura na sua vida, você de repente passa a viver com outra mulher: uma mulher que dorme pouco, que está aprendendo a cuidar de outra vida, que sofre uma avalanche diária de hormônios, queda de cabelo, noites mal dormidas e tantas mudanças no corpo e na cabeça. Uma mulher que alimenta seu filho noite e dia sem descanso e exclusivamente por seis meses seguidos: algo como fazer 182 noitadas seguidas sem direito a cervejinha pra relaxar. E muitas vezes sem saber se está dando conta.

Acredite em mim: a mulher que você ama não morreu, ela só ganhou outras caras e, se você conseguir olhar bem pra ela, vai reconhecê-la - mesmo se ela estiver descabelada e com olheiras gigantes. Acredite em mim: ela vai sair mais forte e mais incrível do que jamais poderia ser - mas nunca é de um dia pro outro e ela precisa muito de você. Se você acha que é difícil pra você, imagina pra ela: que sofre uma pressão insuportável do mundo sobre o que é ser mãe, com todas as cobranças externas e internas. Porque se você apenas trocar as fraldas e levar no parquinho, já vai ser o pai do ano.

Mas se ela for a melhor mãe do mundo, ainda assim vai ser pouco. E nem mesmo 9 meses de gestação e a dor do parto preparam a mulher pra essa avalanche de mudanças e de cobranças. Ser mãe é sofrer o dobro de pressão que a gente já sofre por ser mulher. Seja paciente com ela e não seja mais um cara que só olha o quanto você perdeu a atenção que tinha só pra você. 


Por último, mas não menos importante: seja incrível. Ou daqui a 30 anos, você vai se arrepender de ter sido só mais um paizinho que posta foto com o filho nas redes sociais naquele passeio de fim-de-semana. E o pior de tudo é que se você for só isso, quem vai sair perdendo mais nem é o seu filho, mas você. Porque você é quem não vai estar lá pra descobrir que crianças nos dão de graça muito mais do que somos capazes de oferecer pra elas. Crianças podem ser assustadoras, mas são incrivelmente generosas e pacientes com nós, adultos que esqueceram como sermos nós mesmos e, pior ainda, como precisamos ser criança outra vez. 

domingo, 3 de setembro de 2017

Você é o meu ato falho

Dizem que as quintas-feiras são os piores dias pra se conhecer alguém. É por isso que eu prefiro conhecer alguém todos os dias da semana - só pra não dar sorte pro azar. Que fique claro: nada de bom acontece numa véspera de sexta, mas às vezes o controlador dos dias da semana dorme em serviço e deixa algumas coisas passarem. 

Eu tenho a mania inútil de dizer pra mim mesma: "tá tudo sob controle". Mas nada nunca está sob controle. E quanto mais eu achar que está, mais eu vou me assustar quando descobrir que existe no mundo uma pessoa capaz de desarmar todos os meus alarmes de proteção, pra me mostrar que a falha também pode ser perfeição. 

E aí: você. Você que eu digo que não quero beijar, mas já morrendo de vontade de morder. Você que me faz ficar tentando controlar o futuro quando no fundo eu faço zero ideia do que está acontecendo agora. Você que me obriga a concordar com Freud, com quem estou brigada desde 1983. 

Agora Freud tá em algum lugar rindo pra cacete toda vez que eu troco as palavras, porque ele já sacou que você é meu ato falho: a sequência dos erros mais acertados que já cometi, a certeza de que nenhum gesto, palavra ou pensamento acontecem acidentalmente, nem mesmo aqueles que envolvem três taças de vinho. 

É com você que eu planejo falar uma coisa e na hora sai outra. E é com você também que eu planejo passar o final de semana. Eu digo que é loucura eu conhecer seus amigos, mas no minuto seguinte compro os ingressos do show da sua banda favorita pra estar lá com todos eles ao mesmo tempo. Você é essa dose de loucura que parece lucidez - a não ser que seja só loucura mesmo. E falta de juízo. E falta de ar.

Pra onde eu vou, eu nunca sei. Mas, do nada, eu quero que você esteja lá. Você é o meu caso de amor com todos os lugares e a máquina do tempo que mostra que, na verdade, o tempo não faz diferença quando eu deito no seu peito. 

Não vou com a lata desse tal de Freud -  ele está morto e nem vai reclamar. O fato é que eu não acredito em Freud, mas parece que ele acredita nessa loucura de nós dois juntos. 


sábado, 2 de setembro de 2017

Essa não é mais uma carta de amor

Eu podia estar na praia pegando um bronze, eu podia estar beijando alguém por aí - a não ser que não possa porque tá difícil isso de encontrar homens que não me façam desistir do beijo na primeira frase. Mas vim aqui só pra causar mais uma desilusão e dizer uma coisa que as pessoas não querem ouvir: O AMOR NÃO SUPORTA TUDO. Eu sei que está na Bíblia até, e que todos os poetas em trocentas mil línguas já disseram que o amor sempre vence no final, que ele supera qualquer coisa - desde toalha molhada em cima da cama até a traição mais desleal que houver nessa vida.

Eu sei que daqui a pouco vai aparecer aquela galera revolts pra me dizer que eu só digo isso porque eu nunca amei de verdade, porque né, se eu amasse, eu não falaria uma coisa dessas. Não é à toa que o post mais lido e comentado que escrevi (Só se ama uma vez) ainda recebe comentários revoltados, apesar de ter sido escrito em 2010. 

Sério, gentes: apenas parem . A gente precisa parar de achar que só existem finais felizes. Aliás, "final feliz" não é marca registrada e ele pode ter muitos formatos. Não, mais que isso. Precisamos nos abrir para o fato de que existe felicidade independente dos finais. E que o amor - e talvez a própria vida - pode não estar atrelado ao nosso mundinho cor de rosa cheio de caixinhas.

Existem relacionamentos que nada "salva" - nem o amor. Aliás, deixem o amor em paz, ele nunca teve essa obrigação de cumprir as exigências culturais e sociais do felizes para sempre. O amor não tem absolutamente nada pra provar pra ninguém. Se você amar alguém absurdamente e esse relacionamento mudar a sua vida inteirinha - porque, sabe, a missão do amor pode ser essa - que diferença faz se o relacionamento não durou pra todo o sempre? Foi menor por isso?

O amor não é medido na régua do tempo. O amor não é uma fórmula patenteada, uma lei da física. O amor é, no máximo, uma hipótese - não chega a teoria. Ele é isso que todo mundo diz que sente, mas não dá pra testar por métodos científicos e é impossível chegar a um denominador comum analisando algo tão subjetivo. Romance é de exatas: Príncipe+Princesa=Final Feliz. O amor é de humanas. 


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Errar é preciso



Eu ouvi uma vez de um menino muito contrariado, porque eu não correspondia o que ele sentia por mim, que eu tinha que aprender muita coisa ainda e que - tomara - eu não sofresse muito. Parecia uma praga de coração machucado, num tom de profecia, uma mágoa.

Fiquei pensando no que ele disse e no que ele queria dizer com aquilo. Porque eu tenho poucas certezas na vida: uma delas é a morte. E outra é a de que com certeza eu não vou chegar até a primeira sem gastar o coração. Significa que eu ainda vou amar muito, chorar, doer, cair e levantar muitas vezes. Por que qual seria o sentido da vida se não fosse assim? O erro é um ensaio da vida, pra gente treinar e aprender.
  
E tomara que eu leve uma vida inteira pra aprender tudo o que eu tenho que aprender. A vida seria um porre se eu soubesse de tudo e achasse que ninguém mais vai poder me mostrar as coisas que eu não conheço, me levar aos lugares que nunca fui e me dar os esporros que vão me fazer olhar pra dentro e repensar tudo - pra eu poder ficar paradoxalmente maior a cada sinal que o mundo me dá de que eu sou menos do que um grão de areia no universo.

Eu não vou dizer que quero chorar e sofrer. Seria uma tremenda mentira se eu dissesse que quero. Eu miro no alvo, mas tudo bem se eu errar e isso doer. Eu aceito todas essas partes de mim que não saem nas fotos do Instagramnão seguro nenhuma lágrima que queira cair. 

Me sinto viva por me permitir tudo isso. Me sinto viva por poder errar e por saber que tenho tanta coisa pra aprender ainda. Desculpe o transtorno: o cara que me rogou a praga de que eu tenho muito a aprender está certíssimo. Ainda vou errar pra cacete. Estranho seria se eu acertasse sempre. Estranho seria se eu soubesse tudo antes de viver. 

sábado, 12 de agosto de 2017

O maravilhoso mundo das pessoas inteiras

É difícil ser inteiro. Ser você mesmo até quando dói a ponto de você não conseguir respirar. É difícil ser inteiro e não pela metade quando o mundo te esquarteja o tempo todo, te dizendo pra ser várias pessoas e nenhuma ao mesmo tempo. Pra sempre ser quem você não é e jamais deixar alguém te conhecer de verdade - porque, claro, você sem maquiagem, sem Photoshop, sem assunto, sem intelectualidade... você sem um Instagram lifestyle, textões do Facebook e aquelas coisas todas que fazem a vida de qualquer pessoa parecer tão sensacional - sem isso tudo você deve ser feio, chato, vazio, insuportável, inculto, sem assunto, um tédio. 

Não seja idiota no trabalho. Não queira papo cabeça no bar. Não ouse rir fora de hora. Se for homem, não pode ser fraco. Se for rico, seja humilde. Se for pobre, corra atrás. Se for mulher, não seja forte nem feia. Se for feia, não seja burra. Não se esqueça de nunca ser aquela única pessoa que você de fato pode SER de verdade: você mesmo.

A gente enlouquece tanto tentando equilibrar todos os nossos personagens, sendo todas as pessoas que nos mandaram ser desde cedo. Não te parece quase surreal ver livros de autoajuda, o povo do RH, coachings e esses gurus dizendo; "seja você mesmo". Porque, PORRA, ninguém devia mandar a gente ser a gente mesmo, né? Isso devia ser a coisa mais fácil e óbvia do mundo: ser-quem-você-é. Por que se eu não for eu, serei quem?! A Madonna? A Simone de Beauvoir? 

E agora me diz: como é que a gente vive e se relaciona de um jeito equilibrado e bacana, sem saber ser quem a gente é? E pensando além: quem é que se relaciona com o mundo todo o tempo todo se não somos nós?  E, por último: quais são as consequências dessa nossa esquizofrenia socialmente incentivada?  

Claro, essa é a hora que você pode achar que eu vou responder a todas essas perguntas existenciais aí de cima. Vou não, migues. Eu ainda tô no capítulo zero tentando saber quem sou eu. Veja bem: capítulo ZE-RO. Não cheguei nem no "Ser ou não ser, eis a questão". Porque pra ser qualquer coisa, eu ainda tenho que descobrir que coisa é essa que eu sou. 

E, no capítulo zero, eu tenho zero respostas. Mas descobri uma coisa incrível: são as perguntas que me importam mais. São elas que estão me movendo, a cada segundo, na direção de um mundo inteiramente novo e desconhecido da pessoa inteira que eu sempre fui sem saber. 



terça-feira, 13 de junho de 2017

Uma carta para você que vai ser mãe


Eu te conheci quando você tinha só dois anos e agora você vai ser mãe! É claro que eu quero te falar sobre parto, sobre amamentação e sobre ser mãe. É claro que eu eu quero acompanhar vocês nesse caminho lindo e também falar sobre as pedras. Mas, de tudo que eu sei sobre SER mãe, não tem nada que eu possa te ensinar. Nada.

O que eu poderia querer te ensinar sobre isso? Qualquer coisa que eu diga, será presunçosa demais, arrogante demais. Não, eu não pretendo te ensinar qualquer coisa sobre ser mãe, porque quem vem com essa missão está nesse momento crescendo dentro de você. Eu não posso te ensinar nada, mas posso te falar muitas coisas sobre o caminho que trilhei até aqui e que talvez te ajudem a passar por esse processo de mudança se cobrando menos e mantendo o bom humor: isso já é muito mais do que a maioria de nós consegue fazer quando tem um filho. E, olha, bom humor salva a gente!

Ser mãe é definitivamente cuspir pro alto! E já começa no parto. Olha pro meu caso por exemplo: eu achei que ia ser uma musa parideira, daquelas que cospem o bebê enquanto está dormindo. Mas não,  o meu parto foi difícil pra caralho. Eu achei que não ia conseguir. E estamos aqui vivos pra contar a história.  

Olhando pra trás, o meu parto era exatamente o que eu precisava pra conhecer a força que eu não sabia que eu tinha. E essa força foi importante em muitos momentos difíceis. Então, eu acho que a gente tem o parto que a gente precisa ter, pra nascer junto com um bebê a nossa versão mãe. E eu sei que você é incrivelmente forte, amiga. 

Outra coisa que aprendi a duras penas é que ser mãe é sofrer o dobro de pressão que a gente já sofre por ser mulher. Não basta cuidar do filho, deixá-lo limpinho e alimentado. Você tem que estar linda e não pode esquecer de ser mulher: faz unha, cabelo, se depila e esconde as olheiras. Não se deixe pressionar. Porque se quem está com você te amar, vai te olhar descabelada e com a blusa cheia de leite que vazou e saber: "essa é a mulher que eu amo, e vê-la passar por toda essa transformação me faz admirá-la ainda mais".

Por te amar tanto, tudo o que eu quero dizer é que você pode contar comigo e com o meu acolhimento incondicional. Porque, às vezes, quem já trilhou o caminho antes de você pode te ajudar a pegar mais leve consigo mesma e curtir mais. E se tiver qualquer coisa que eu possa te ensinar é isso: vai ser tudo diferente do que você imagina. A gente se preocupa demais com o chá de fraldas e o enxoval, mas não para pra respirar e colocar o corpo e a mente no lugar pra criar espaço. Amiga: não esquece de res-pirar.

Umas coisas você vai tirar de letra, outras não. Ser mãe te vira do avesso. E, tudo bem, às vezes o avesso também é um lado bom seu que você não conhecia.

Eu posso te ajudar com dicas pra cólicas, amamentação, banho e alimentação. Mas, de verdade, no fim do dia, com um mundo cheio de gente que vai querer te dizer o tempo todo o que é melhor pra sua filha, eu te ofereço o que quase ninguém oferece pra gente nessas horas: ouvidos e um abraço pra te dizer "tá tudo bem - eu seguro sua filha no colo, você só precisa dormir um pouco".

Por último, mas não menos importante: vai ficar tudo bem, você vai ser uma mãe incrível e eu vou ter a sorte de poder fazer parte da vida da Cecília e ver que, como a gente, nossos filhos vão poder crescer juntos.

Amo você, Bu. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Feliz dia dos namorados. Ou não.


Sinto muito por estragar um clássico, mas Tom Jobim estava errado. Não é impossível ser feliz sozinho. Chega mais um dia dos namorados, de novo. E de novo. E todo ano tem isso e a gente não aprende. De um lado a turma que finge que tá tudo bem e que a solteirice é a melhor coisa do mundo - mesmo se não sente isso de verdade e lá no fundo bate um desespero por não ter encontrado o amor da vida. Ou, no desespero, qualquer amor serve - até um não amor. 

Do outro lado, a turma deprimida que tem que ficar explicando praquela tia porque não está namorando. Porque se você não está namorando, tem alguma coisa errada com você. Você não deve ser legal, não deve ser certo da cabeça. Ninguém te quer. 

Ser solteiro, separado, desquitado é um estigma. No meio disso tudo fica a galera que namora: entre mortos e feridos, alguns poucos se salvam, alguns poucos estão realmente em relações vivas e felizes. Quando a gente encontra gente assim, dá vontade de celebrar, porque amor de verdade não é comercial de margarina, mas é lindo de ver.

A gente não aprende que pra ficar junto tem que amar ficar sozinho. A gente não aprende que o amor pelo outro é uma extensão do nosso amor e aceitação próprios.

Se temos problemas em amar, aceitar e perdoar a nós mesmos, teremos certamente dificuldades em ter e manter relações equilibradas. Quando a gente não se ama, a gente faz da nossa relação com o outro uma fonte de auto afirmação, de preenchimento das nossas carências. Quando o nosso amor pelo outro é uma extensão da nossa falta de amor e aceitação próprios, a gente espera  que o outro resolva todos os problemas que nós não resolvemos sozinhos. E o problema é que só a gente pode resolver e se responsabilizar pela própria felicidade. 

Ser sozinho deveria ser um exercício de autorresponsabilidade e de amor próprio. Ser sozinho é criar espaço pra se olhar, respirar, se conhecer, se amar. 

Claro que a gente pode se conhecer na relação com o outro. Mas tenha certeza: se você quer fazer geléia com dois ingredientes - açúcar e uma fruta - e você coloca morango estragado na receita, não tem como salvar a geléia. O jeito é jogar fora e começar tudo do zero - ou comer a geléia estragada - se preferir. Tem gosto pra tudo e não são poucas as pessoas por aí comendo geléia estragada. 

Com a devida licença poética - porque, né, você não é morango nem açúcar e ninguém se mistura com o outro ao pé da letra - a gente precisa estar bem e estar pronto pra se relacionar com o outro. Não é problema nenhum querer ficar sozinho, pelo contrário: pode ser sinal de sanidade! Pode ser você pedindo pra parar um pouco, olhar pra dentro. Ficar sozinho pode ser você finalmente percebendo que as coisas não estão bem, e assumindo a responsabilidade em fazer as coisas ficarem bem cuidando de si mesmo - a única variável da equação sobre a qual você tem poderes.  

Se estar sozinho não for medo e uma forma de proteção, mas apenas um escolha de não estar numa relação, acredite em mim: não é uma doença e vai ficar tudo bem. Ser solteiro aumenta drasticamente suas chances de se dedicar aos seus hobbies, cultivar suas amizades, reforçar ou melhorar laços familiares. Existe vida na solteirice feliz, cara-pálida!

De novo: não que não seja possível fazer tudo isso dentro de uma relação a dois. Mas, se você não está bem consigo mesmo e com tudo isso, é a história da geléia com morango estragado, entende?

Então, esse post é só pra desejar feliz dia dos namorados pra você que é de namorado e de construir vínculos, intimidade e de se entregar numa relação. E feliz dia dos namorados pra você que namora a si mesmo. Pra aqueles que não estão nem lá nem cá, PELAMORDEDEUS, pára de esfregar geléia estragada na própria cara e chega de ser morango vencido tentando achar um açúcar pra disfarçar o gosto ruim: bora voltar pro começo do jogo e fazer tudo do zero. De novo. 

Dia dos namorados em 2018 a gente se fala outra vez, tá? 

Beijo.