sábado, 28 de janeiro de 2017

O amor é o que é



Tenta esconder o quanto você quiser ou puder, mas todo mundo tem uma régua, uma escala velada de valores e expectativas com relação à vida e às pessoas. Até aí, nada demais. Nada mais humano que isso nesse mundo em que vivemos mais a teoria que a prática e em que a maioria tenta fingir que está tudo bem.

O problema não é nosso nível de exigência e expectativa com relação ao outro. O problema é nos relacionarmos com os outros sem nunca nos darmos conta de que já viemos com tudo pronto e que já escrevemos a nossa história de amor antes mesmo dela acontecer.

Não nos sentimos amados com a medida do amor do outro. Julgamos as demonstrações de afeto em relação a nossa própria ideia de amor. E se pra mim, quem ama precisa mandar flores, eu só me sinto amado de verdade quando o entregador do Flores Online bate na minha porta no dia dos namorados.

O amor é só uma palavra até que se viva. O amor não existe, até existir sem que a gente se dê conta de que ele está lá. Não é justo com o amor que você tenha que provar que ama alguém de acordo com o que o outro acha que é o amor.

E o amor não se prova e nem se mede ou compara. Amor não existe para atender às expectativas do outro nem às nossas, porque o amor não são só essas coisas e momentos românticos e fotos de viagens e coisas boas que ficam na memória.

O amor é uma jornada para se tornar você mesmo. E é por meio do encontro com o outro que reconhecemos nossas fragilidades. Nem sempre a gente aceita que amor também é desencontro, desencanto, dor, traição. O amor é quem nos mostra nossas limitações e nos faz aceitá-las tanto quanto as limitações do outro.

O amor não é sobre encontrar alguém, é sobre encontrar você mesmo. O amor não é sobre achar a fonte da felicidade - é sobre encontrar a nossa capacidade de lidar com emoções e nossa força pra sermos maiores e mais fortes do que fomos ontem. Todo o resto que vemos é miragem. E o amor é aquilo que não vemos.







quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Se eu pudesse, eu enlouquecia

O ano mal começou e eu já quero perder a cabeça e soltar os cachorros. Sair lá na calçada e gritar até terem certeza de que eu perdi algum parafuso. Pode até ser efeito retardado de 2016, esse ano que me disseram que não queria acabar, mas acabou. Me desculpe, 2017. Eu sei que você acabou de começar e que não tem nada a ver com isso.

Se eu pudesse, eu enlouquecia. Pedia o divórcio, demissão no emprego que todo mundo quer ter, mudava de cidade, mandava uma carta desaforada pra alguém que merecesse, só me relacionava se fosse pra ser de verdade. Todas as obrigações sociais que se danem! Só ia aceitar relacionamentos genuínos, amores que cultivem a paz, um emprego onde eu não precise ganhar só pra pagar as contas sendo infeliz 12 horas por dia.

Eu sei, isso tudo é muito radical. Só pessoas malucas ficam desempregadas de propósito com um filho pra criar. A minha mãe vai querer me internar. Todo mundo vai dizer que eu vou passar fome e arrependimento e que morrerei sozinha, porque relacionamento verdadeiro simplesmente não existe - é muito melhor fingir que tá tudo bem e postar foto do mundo perfeito no Facebook.

Pra que querer mudar o que não está funcionando se você pode fingir que está tudo bem? Mudar dá muito trabalho. Mudar deixa todo mundo desconfortável. Deixa exposto demais que a maioria de nós vive uma vida de mentira.

Pela janela, o trânsito que só gente maluca dá conta, a fumaça dos carros, a gentileza robótica, a violência num grau insuportável e todo mundo dopado, anestesiado. Se eu pudesse, enlouquecia por uma via sem volta. Porque não enlouquecer num mundo tão maluco deve ser um tipo de doença pra qual ainda não inventaram um nome.

Pra falar a verdade, loucura é coisa normal hoje em dia. E ser normal não é normal.

Vai ver eu já enlouqueci e não me dei conta. Como dizia Raul: "a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser uma pessoa normal".


sábado, 7 de janeiro de 2017

Amor que se procura não se encontra



Provavelmente desde que respirou quando nasceu, ele já queria encontrá-la. Antes mesmo de andar, de estrear os joelhos no paralelepípedo e antes de todas as primeiras vezes de tudo. 

Começou a doer quando aquela menina no jardim de infância dividia a maçã do lanche do recreio com outro. Não podia ser ela. E cada vez que não era ela, doía mais do que poderia doer se fosse só mais um fim de namoro comum ou uma ficada que não foi pra frente. Cada vez que não era ela, a sensação de que ela nunca ia chegar. E de que ele nunca iria poder sossegar no aconchego de uma relação com ela que ele vinha esperando desde sempre.

Tem gente que já nasce com um sentimento de que falta alguma coisa. Aí assiste uma comédia romântica e - bingo! - acha que o que tá faltando é aquela pessoa que vai parar o avião pra pedir pra gente ficar. Não é que falte algo (às vezes pode até ser), mas acho que quase sempre, nossos vazios são só a vontade de viver por inteiro, de encontrar um sentido pra vida, de encontrar alguma coisa além de tudo que a gente conhece e de sentir alguma coisa maior que a gente mesmo. 

Mas acontece que não é sobre encontrar a The One, é sobre procurar tanto. A gente não sabe o que procura até encontrar. Então, talvez não devêssemos procurar quando não temos como saber o que estamos procurando. 

Eu sei, tá confuso de entender. Eu vou simplificar: você não precisa mais procurar. Não se preocupe em chegar lá, porque a vida não te deu o mapa, então, não há porque se cobrar tanto. Pode ficar tranquilo se estiver perdido, todos estamos. A gente não tem direção. E, às vezes, se você não sabe onde quer chegar, o jeito é viver o que há no caminho, experimentar todos os lugares. Se não temos mapa, temos o olhar e o sentir. Quando você chegar lá, você vai saber. Vai se sentir em casa e simplesmente vai saber.

E se você não chegar lá? O medo é esse? Não existe não chegar lá para quem não faz da vida uma eterna procura, entende? E você vai encontrá-la apenas quando ela não existir na sua cabeça antes de existir na sua vida. Porque tem umas coisas nesse mundo que precisam obedecer a um certa ordem. A carroça não anda se estiver na frente dos bois. O amor da vida não é uma criação, é uma construção. E o amor da sua vida pode nem ser ela: pode ser um filho, um lugar, um projeto, uma experiência, uma viagem ou descobrir como ser você mesmo.  

Amor que se procura não se encontra, porque amor a gente não procura. É ele quem encontra a gente. 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Desculpe o transtorno, preciso falar do machismo

É difícil falar sobre feminismo. Porque o feminismo, assim como o cristianismo, o islamismo e outros "ismos" são ideias e o ser humano faz com elas o que bem entende. A gente usa as ideias como nos convém, em muitos momentos de forma tão distorcida que a ideia e a prática chegam à beira da esquizofrenia. Por que, né, como é que tem cristão que não ama o próximo? E como tem budista violento?

Mas pra que falar de feminismo? O que isso tem a ver com os relacionamentos e com o mundo? Vem junto comigo... mas venha aberto a ouvir e rever suas posições e pre-conceitos, senão não vale à pena vir.

Pra entender feminismo, primeiro você precisa entender que a busca de igualdade nasceu de uma sociedade patriarcal extremamente violenta e opressiva, com o objetivo de tão somente dar voz às mulheres e mostrar que somos gente também. Se você que tá lendo isso acha que é mimimi e exagero, pensa no seguinte: a minha avó quando nasceu não tinha direito a voto simplesmente por ser mulher. Mulher só passou a ter direito a voto, no Brasil, em 1932! 

A mulher só pôde votar quase meio século depois do fim da escravidão. Assim como o fim da escravidão não determinou o fim do preconceito e das injustiças contra os negros, o direito ao voto para mulheres também não mudou automaticamente o jeito que a sociedade nos enxerga. Algumas coisas só mudam no papel e, de forma muito velada, continuamos sob a influência de uma sociedade machista, racista e de privilégios. Entenda: ontem na história a sociedade oficialmente não reconhecia a mulher como gente. A mulher era moeda de troca e tudo o mais que se pode imaginar e, ainda hoje, é objeto e é por isso que muitos homens se sentem no direito de agredi-las e matá-las.

A gente vê uma cara matar 12 pessoas - entre as quais nove mulheres e o próprio filho e ex esposa - e não consegue enxergar o machismo, não enxerga todo esse imaginário de ódio às mulheres. É mais fácil concluir que ele fez isso porque é maluco, psicopata. Acontece que a cada CINCO minutos um "psicopata" agride uma mulher no Brasil. Só enquanto escrevo esse texto, dá pra perder as contas de quantas mulheres estão sendo vítimas de um "psicopata". Até o final do dia, DEZ mulheres terão morrido - vítimas de nossa cultura machista. E 80% das agressões são praticadas pelos parceiros, ou por pessoas próximas, conhecidas. Não estamos falando do maníaco do parque. 

Há poucos meses atrás, um "pai de família" no Rio de Janeiro, morador da Barra da Tijuca, matou a mulher a facadas, jogou os dois filhos do décimo oitavo andar e depois se jogou. Motivo: estava preocupado em perder o emprego e o padrão de vida. Mas aqui também não vamos falar de machismo, coloca tudo na culpa da depressão. A pressão sobre o "macho provedor" é depressão, certo? Ele se sentir dono das vidas da mulher e dos filhos a ponto de matar todo mundo também não é machismo.  

O massacre que aconteceu em Campinas não é uma exceção e se vamos discutir isso pela ótica de que o cara que cometeu o crime era um psicopata, então, estamos contribuindo para que as coisas continuem como estão e permanecemos no sofá à espera do próximo psicopata.

E é aqui que está a questão principal que muitas pessoas não compreendem: quando se luta por igualdade, para que mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, não é uma luta contra homens, mas a favor de um novo comportamento social. Tem homem machista, mas também tem muita mulher machista! Então, essa discussão não é para atacar os homens e colocá-los como bandidos da história - é para refletir sobre o machismo! Não é pra dizer que homem é tudo filho da puta. Aliás, chamar de filho da puta é machista, entendeu? E xingar o pai do coleguinha de viadinho também é! Porque é definir papéis sobre o que homens e mulheres devem ser e como eles devem agir, é julgamento sobre como cada um deve se comportar sexualmente, moralmente e existencialmente apenas com base no gênero que a pessoa veio ao mundo. 

Não tô aqui pra falar de lugar comum, porque tá todo mundo careca de saber da jornada tripla da mulher, das injustiças nas divisões de tarefas domésticas e no valor (ou falta de valor) dado pelo mercado de trabalho à mulher. Eu queria falar de como a gente pode ser muito mais feliz sem machismo.

Porque machismo não tá só na violência de esculhambar feministas dizendo que elas são feminazi, feias, caídas, cabeludas e mal amadas não. Machismo não está somente em vendermos mulheres semi nuas em outdoors, revistas e propagandas de cerveja ou concursos de miss. O machismo está em cultivarmos um padrão de beleza feminino surreal e também está em cultivar a ideia de que homem tem que ser fortão,  musculozão, virilzão, comedorzão. O machismo está em excluirmos o homem do debate sobre igualdade, do debate sobre o aborto. Excluir é um comportamento tipicamente machista. E, em vez de feminismo - um movimento legítimo - estamos vendo mulheres atacando homens e as próprias mulheres de forma totalmente estúpida e quase ditatorial.

Nem sempre a gente se dá conta, mas ser tratada injustamente apenas por ser mulher, gera uma revolta que quase sempre se expressa de forma velada. E a gente nasce com esse sentimento, sem direito a ter voz, com esse peso daquela sociedade em que mulheres foram totalmente massacradas de formas inimagináveis. 

Sei que da minha avó pra cá as coisas melhoraram, mas ainda precisamos falar sobre machismo nas nossas relações e nos nossos relacionamentos enquanto houver feminicídio motivado por nossa cultura do estupro. Precisamos curar essa ferida para que seja possível nos relacionarmos. Empoderamento não é superioridade, é consciência do seu próprio poder e das suas responsabilidades - conceitos bem diferentes!

Pra gente falar de feminismo, temos que olhar pros comportamentos masculinos (que podem vir de homens ou de mulheres) e nos posicionar, pra dizer que não tá tudo bem e que não aceitamos esse tipo de tratamento. E isso só pode ser feito se estivermos atacando o comportamento em si, e não o gênero que o pratica, entende? 

Pra gente falar de machismo e feminismo, também temos que olhar pra dentro e perceber os nossos próprios machismos. Ele mora sutilmente nas conversas em que menosprezamos os homens pelo tamanho do pau. O machismo mora na ridicularização do homem que brochou na primeira transa entre as amigas - fazer isso não é muito diferente da atitude do homem de escolher mulher pela bunda, que a gente tanto condena. O machismo mora na ideia de que homem tem que pagar motel - porque né, a gente já tá pagando com o corpo. E gentes: não tem problema nenhum se o homem pagar a conta do motel e do restaurante. Não são as coisas que são machistas, mas a motivação a respeito dessas coisas.

Não vamos combater o machismo reproduzindo, como mulheres, os comportamentos que nos agridem. Não teremos um mundo mais humano e menos desigual se acharmos que "meu corpo, minhas regras" nos dá o direito de agredir verbalmente os homens por eles "se meterem" no debate sobre aborto. PELAMORDEDEUS, precisamos sim que os homens participem! Precisamos que eles entendam que o aborto também diz respeito a eles - porque ninguém fica grávida sozinha! Ninguém vai dizer o que temos que fazer com o nosso corpo, mas cada um precisa dizer como se sente e ser ouvido e acolhido no seu ponto de vista.

Precisamos falar de aborto, de licença maternidade e - ainda mais - de licença paternidade! Porque se o mundo é governado, em sua maioria, por homens, nada mais feminista do que exigir que pais tenham o mesmo direito que as mulheres, pelo mesmo período, para estar com seus filhos e cuidar deles e para que tudo seja dividido entre ambos os sexos. Precisamos falar da pressão para o homem ser forte, não chorar, sustentar a família, ter que ser alguém na vida, não poder ser sustentado pela mulher. Homem não pode brochar, não poder falhar, não pode apanhar - tem que bater.

Se queremos falar de feminismo, temos que tratar o homem como queremos ser tratadas. Se queremos falar de feminismo, temos que entender que há diferenças entre homens e mulheres sim, e que elas precisam ser respeitadas. Mais do que isso, essas diferenças precisam ser somadas, para que tenhamos uma sociedade mais equilibrada.  

Desculpe o transtorno. Desculpe o textão. 

Tudo isso era só pra pra dizer que quando você, homem que está lendo esse texto, olhar pra uma mulher, tenha em mente todo esse contexto. Seja essa mulher uma menina bonita ou feia que você viu na rua, seja ela a sua irmã, sua mãe ou sua namorada/esposa: quando olhar uma mulher, não esqueça de tudo que vem sendo embutido no seu olhar sem que você se dê conta. 

Quando você olhar para uma mulher, preste bem atenção: entenda que dizer orgulhoso pros seus amigos que você "ajuda em casa" é parte da cultura que faz um homem matar 12 pessoas numa festa de ano novo.  Não é sempre fácil fazer a conexão entre algo tão brutal e uma coisa tão bobinha do dia-a-dia, mas essa conexão existe. Entenda que trocar a fralda do seu filho não faz de você o super homem. Se precisa de dois pra gerar uma vida, faz sentido ter uma parceria e dividir o trabalho pra cuidar do filho. Se gabar disso, é perpetuar uma cultura de desigualdade que só traz violência.

Entenda que cada véspera de Natal em que você passa o dia bebendo enquanto as mulheres vão pra cozinha, você impede que um mundo novo comece a nascer. Porque precisamos trocar de lugar, mudar as perspectivas, parar de nos colocarmos no lugar do outro só no mundo das ideias para fazermos alguma coisa. A mudança pode ser "só" propor que só os homens da sua família cozinhem a próxima ceia de Natal. Pode ser só parar de fazer aquela piadinha sobre deixar de ser consumidor para ser fornecedor.

Desculpe o transtorno, eu ainda não acabei.

Você, mulher que está lendo esse texto: pense nisso tudo também quando olhar pra um homem. Pense na pressão que os homens sofrem. Pense em como é difícil para eles dividirem as tarefas quando desde pequenos são excluídos disso tudo. Pensa em como é difícil para eles terem um novo olhar sobre as mulheres quando eles são massacrados pela cultura do enxoval azul-carrinhos-lutas e espadas-homem não chora. Quando você olhar um homem, em vez de atacá-lo, abrace-o e convide-o a olhar junto pra tudo isso com você.

Convido as mulheres a refletirem sobre seus olhares para com os homens. Precisamos dar uma chance a eles e a nós mesmas de fazer diferente, de começar do zero. Precisamos encontrar novas formas de diálogo e abrir espaço, permitir que todos sejam ouvidos e acolhidos. Todos sofremos com o machismo. Não é só a mulher quem sofre: é o menino que cresce vendo a mãe apanhar ou apanhando do pai "pra ele aprender a ser homem". O machismo mata mulheres e homens, nos tortura psicologicamente e nos diminui como sociedade.  

No final das contas, pra lutar contra o machismo, a gente só precisa começar pelas coisas mais simples, que são justamente as que a gente menos percebe. 


E, por último, mas não menos importante: Não precisa ser uma briga entre os sexos. Não se deixe dominar por essa pressão social que exige que você assuma papéis de acordo com o seu sexo - seja você homem ou mulher. Não deixe que o machismo te transforme em um opressor(a). A gente é melhor que isso.




Para você que está no futuro

Essa é uma carta para você que eu não conheço e que não me conhece. Não é sempre, mas às vezes eu sinto sua falta, e dói. Ao mesmo tempo, coisas incríveis começam a acontecer dentro de mim porque você não está aqui. É quando sinto sua falta que começo a me dar conta das coisas do dia-a-dia que eu amo e, sem a saudade, talvez eu nunca soubesse o quanto gosto delas. Eu sinto falta de vermos filme abraçados no sofá, de planejar uma viagem ou, melhor ainda, de fazer uma viagem não planejada, assim, só porque a gente resolveu na sexta à tarde.

Porque você não está aqui, percebo também como é bom estar comigo mesma e ter tempo para estar com meus amigos. Mais que isso: me dou conta de que essa parte da  minha vida é essencial e precisa ser mantida mesmo que você apareça sem avisar e comece a preencher toda a minha agenda sem que eu me dê conta de que estou esquecendo de mim mesma e de todas as pessoas queridas com quem quero passar meu tempo.


O fato de você não estar aqui me dá uma perspectiva de vida diferente, me faz perceber coisas sobre mim mesma que só quando estou sozinha posso enxergar bem. Nem sempre é fácil de olhar as minhas sombras, mas me encaro no espelho. E eu percebo também coisas lindas que estão crescendo em mim e que você vai encontrar quando chegar.


Você pode estar no meu futuro - real ou dos meus sonhos. Talvez eu nunca te conheça. Talvez eu até já tenha te conhecido e, nesse exato momento, você esteja bem debaixo do meu nariz, na minha cama, nos contatos do WhatsApp ou na porta ao lado. Eu sei, tem umas pessoas que a gente conhece sem nunca ter visto e tem aquelas que a gente vê todo dia sem conhecer. Conhecer leva uma vida inteira, não é processo de uma viagem, uma noite, uma festa, uma dor. É tudo isso junto e mais silêncio e noites de domingo. Tem hora que nem eu mesma me conheço. 


Mas essa carta era só mesmo pra marcar o encontro, pra eu não ficar ansiosa te esperando. Já que passado, presente e futuro são a mesma coisa, porque a gente só vive no tempo do meio, sejamos claros para não ter erro: me encontra no presente.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Onde está você?

Uma pessoa que eu amo muito brigou comigo e eu com ela. Que sensação ruim essa de se perceber pensando tão diferente de alguém que você ama, ainda mais quando se pensa diferente em questões que gente considera importantes e cheias de significado. 

Vivemos tempos difíceis. Estamos acelerados e exaustos pelo número de horas trabalhadas e desperdiçadas no trânsito e nas relações sem sentido e sem afeto. Tem tanta tecnologia, tanta informação, tanto aplicativo e tantas coisas pra darmos conta que a presença se tornou uma coisa rara - não só a presença de estar junto fisicamente em tempos de Videochamadas e WhatsApp, mas a presença de prestar atenção plena ao que estamos fazendo no exato momento em que estamos fazendo. 

Essa é a nossa doença: estamos em tantos lugares ao mesmo tempo que não estamos de verdade em nenhum. Pensar e processar informações ocupa tudo com tanta intensidade que deixamos de ser quem somos e estar onde estamos. E eu esqueci que nenhuma discussão e opinião é mais importante que a relação de duas pessoas que se querem bem e que se importam uma com a outra. É ridículo esquecer uma coisa dessas,  né?

Mas parece que não sou só eu a única ridícula do planeta. Pode ser só impressão minha, mas eu nunca tinha vivido dias de tanta propagação gratuita de ódio, de tantas brigas por opiniões e ideologias e falta de espaço para diálogo e trocas verdadeiras. É compreensível: conversas pelo WhatsApp e redes sociais não facilitam em nada a empatia, a sororidade e muito menos a compaixão. E se pessoalmente a gente já não tem dado conta de se relacionar de verdade com os outros, imagina virtualmente - com chances exponenciais de sermos mal interpretados. Com chances estratosféricas de não termos acesso a informações de qualidades, que promovam debate em lugar de nos influenciar a escolher um lado, uma ideologia e uma verdade onde não se encaixe o diálogo e a pluralidade dos olhares. 

Ao me perceber em lugar nenhum, lembrei de me perguntar uma coisa essencial dos relacionamentos: onde estou agora? Todo mundo quer estar num lugar em que se sinta acolhido e com alguém com quem se possa conversar. Não vale à pena estar em nenhum lugar onde a minha opinião (que pode mudar semana que vem) é mais importante que uma pessoa que eu amo ou que qualquer pessoa que esteja disposta a dialogar. A gente pode escolher onde quer estar e com quem quer estar, claro. Mas o que pouca gente se dá conta é que podemos SER esse lugar onde queremos estar. 

Quando somos a pessoa que acolhe e ouve o outro de forma amorosa e que se coloca no lugar do outro, não há espaço para estar onde não se está. E só se aproximam da gente as pessoas que querem estar aqui e agora com quem somos. 



segunda-feira, 4 de abril de 2016

A solidão mais dolorida de todas

 
Faz tempo que nós perdemos a conexão. Faz tempo que estamos sem sinal, fora de área e ilhados. Não é fácil perceber isso ao dar bom dia na cama pra pessoa que dorme com a gente ou pro vizinho do elevador. Não é fácil perceber quantas vezes por dia perguntamos "tudo bem?" pra alguém sem nem olhar nos olhos da outra pessoa, sem nos interessarmos de verdade por saber se está tudo bem mesmo. Não é fácil perceber que a gente não sente o que diz e nem diz de verdade o que sente.

Faz tempo que perdemos a sensibilidade. Nos achamos uma espécie tão inteligente, e com todos os nossos equipamentos ultra modernos, são os animais que sobem a montanha primeiro quando acontece um maremoto, antes que chegue o tsunami. Nós, humanos, ficamos aqui distraídos na piscina do resort e só nos damos conta quando a onda já nos engoliu. Perdemos a sensibilidade não só para olhar à nossa volta e nos conectar de verdade com a natureza ou com as outras pessoas - nós perdemos a nós mesmos: não conseguimos reconhecer sequer o que sentimos, mas nos sentimos no direito de achar que sabemos como o outro se sente, sem nem sequer perguntar. 

A solidão mais dolorida de todas é aquela de duas pessoas que resolvem ficar sozinhas juntas. A outra pessoa está lá, eu estou lá, mas ninguém está em lugar nenhum porque ninguém está inteiro. A gente pode pensar em muitos motivos para duas pessoas se perceberem sozinhas morando juntas. Pode ser falta de coragem de terminar, pode ser falta de amor, falta de compatibilidade. Pode ser falta de vergonha na cara, falta de amor próprio, baixa auto-estima ou falta de grana. Pode ser medo de ficar sozinho. O que quase nunca ocorre pensar é que, de todas as coisas essenciais numa relação, a coisa mais importante e, quase sempre a que mais falta, é o diálogo. 

Eu poderia dizer que a comunicação é mais importante do que amor e do que ter afinidades. E arrisco dizer que a nossa falta de habilidade de estabelecer uma comunicação verdadeira com as pessoas é o que envenena a maioria das relações. Não estou falando de falar enlouquecidamente. Não estou falando de reclamar. Não estou falando de criticar o outro, de dizermos o que queremos, ou como queremos que o outro nos trate e se comporte a todo momento. Estou falando de se comunicar de verdade - e isso nem sempre requer usar palavras. 

Quando a gente se comunica de verdade, a gente percebe que precisa não só dizer mais vezes "eu te amo" e "me desculpa". Percebemos que se importar com o outro é, também, lavar a louça que se acumula na pia e estender a roupa no varal. Quando a gente aprende a se expressar de verdade, percebe que cada sentimento guardado cria um espaço a mais que nos separa do outro e da alegria de estar junto. E esses espaços viram facilmente uma mágoa. Achamos que a nossa raiva do outro é por culpa da pia cheia de louça suja, porque a gente não percebe como as mágoas podem virar impaciência, implicância e orgulho num piscar de olhos. 

Se comunicar é, antes de mais nada, se permitir sentir sem julgamento.Se comunicar é dizer agora como nos sentimos, com carinho, respeito e acolhimento - sem guardar nada que possa virar ressentimento amanhã. Se comunicar é também saber ouvir o outro com a mesma atenção e carinho que queremos quando nos abrimos. 

Não importa muito o que a gente sente numa relação e não precisamos julgar o que o outro sente. Pode ser ciúme, pode ser qualquer sentimento barato. O que o outro sente não representa quem ele é. É o que fazemos com o que sentimos que diz muito sobre quem somos. A solidão mais dolorida de todas não é só aquela de duas pessoas sozinhas e juntas. É aquela de quando nos fechamos dentro de nós mesmos, de quando não permitimos que os sentimentos saiam e não percebemos que, ao guardarmos tanto, também não resta espaço para ninguém entrar.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Eu não quero um namorado romântico


Não é exatamente um segredo que eu tenho certa dificuldade de lidar com homens românticos. Eles andam por aí soltos, sem nenhuma supervisão e, infelizmente, eles não vem com uma identificação do tipo "cuidado, homem romântico! Favor manusear com cuidado". Eu confesso, eles me assustam!

Não me entenda mal. É lindo ser acordada com um café da manhã na cama. Derrete o coração receber uma carta escrita à mão e deixada pessoalmente na sua caixa de correio, todos os dias por quase um mês - quando já existe telefone, e-mail, Facebook e WhatsApp.

Mas a minha implicância com os homens românticos não é pelo romantismo em si. Eu poderia dizer que tenho algo contra pessoas que curtem o drama humano, amores trágicos tipo Romeu e Julieta, ideais utópicos e desejos de escapismo. Poderia achar absurda a tendência que os românticos tem de idealizar a vida e sonhar e fantasiar em amar e ser amado para todo o sempre. Mas eu não tenho nada contra os românticos. A não ser que eu tenha. Mas acredite, eu não tenho.

Meu problema com homens românticos é que todos os românticos que conheci são excessivamente carentes. Eles demandam uma atenção surreal. E precisam colocar tudo pra fora, senão morrem sufocados. Eles são absurdamente sensíveis e choram mais do que eu. Eles se apaixonam porque precisam se apaixonar, porque precisam desesperadamente estar em um relacionamento. Não se apaixonam por você, mas se apaixonam pela ideia do relacionamento que teriam com você. E o pior de tudo, eles geralmente querem viver seus sentimentos apoteoticamente: choram, sangram, querem gritar que te amam no meio de uma multidão. Quando você menos espera, eles surgem como um pop up querendo casar com você amanhã, passar a lua de mel nas ilhas gregas e passar cinquenta anos de mãos dadas olhando as estrelas.

Perto de qualquer homem romântico eu me sinto uma troglodita, uma ogra. Eu não consigo suportar a ideia de que alguém queira viver tão simbioticamente comigo. E, principalmente, não conseguiria retribuir todo esse romantismo. Eu me sinto sufocada só de pensar em toda essa intensidade, porque sempre precisei de espaço. Como se não bastasse, geralmente os românticos carentes são extremamente magoativos! Paidoceu! É complicadíssimo fazer qualquer crítica. Se você não soltar fogos com as flores, a declaração e o helicóptero com pétalas de rosas, pode se preparar pra ouvir reclamações e choramingos sobre você não valorizá-lo.

Você, romântico assumido que está lendo esse texto, por favor, não fique magoado comigo. Não é pessoal. É uma dificuldade que eu tenho. Mas aproveita que você está aqui e me diz uma coisa: algum dia alguém na sua vida saiu correndo e pulou o portão de embarque para te impedir de pegar um voo? Seu(sua) ex que você nunca esqueceu invadiu inesperadamente o seu casamento e gritou "você não pode casar com ele(ela) porque eu te amo"?

Não né? Pois é, a vida normal não é uma comédia romântica - eu diria que é muito melhor que isso. Não precisa tanto esforço, por favor! Não precisa se rasgar inteiro, disparar uma metralhadora de fofuras e arremessar presentes pra todo lado! Até o segundo jantar à luz de velas, a gente se encanta e se surpreende, mas depois, todos os dias dos namorados, os aniversários de namoro e essas datas comemorativas ficam muito iguais. Vai ser como se você tivesse festa surpresa no seu aniversário todos os anos. Já não é mais surpresa. E tudo vai parecer uma obrigação - sem falar na imensa pressão que é corresponder a todo esse romantismo. Eu posso apostar com você que toda essa loucura de amor e essa intensidade vão ter cansar. E posso apostar também que, mesmo sem querer, lá no fundo, você vai esperar algo em troca.

Eu prefiro ser surpreendida por momentos simples todos os dias. Prefiro viver um dia-a-dia que não seja apoteótico e nem cheio de flores, presentes e declarações de amor. Mas que tenha a presença do outro de uma forma viva, uma atenção plena e os sentidos aguçados. As coisas simples e sinceras são lindas e não requerem nenhum esforço. E elas fazem um bem danado pra alma!

Eu não preciso de um namorado romântico. Eu não quero um namorado romântico. Aliás, não quero um namorado, nem status, nem promessa, nem um presente de aniversário de namoro ou uma viagem pro Caribe. Eu só quero você. E você pode ser romântico em doses homeopáticas. Pode querer um colo de vez em quando. E eu sei fazer um cafuné muito gostoso e o meu carinho nas costas é imbatível.

Olha, a viagem pro Caribe não é má ideia. E eu aceito olhar as estrelas com você, mas só por uma noite, até o sol nascer. Mas nem pensar em rosas jogadas de um helicóptero, pedidos de casamento em público e drama, tá?

quarta-feira, 2 de março de 2016

Espero que você nunca espere nada de mim



Mas Pah, o que você tem contra os românticos fofos cheios de expectativa? Bom, eu não tenho nada contra as pessoas que tem expectativas - não digo o mesmo quanto aos românticos, mas isso é tema do próximo post. Veja bem: é difícil ter zero expectativa na vida. Porque no fundo, mesmo que seja beeeeem lá no fundo, a gente sempre espera alguma coisa. Secretamente, a gente espera aquele rompante romântico, aquela surpresa específica, aquela loucura planejada. A gente espera ser sequestrada para passar um dia na Serra em plena quarta-feira.

Não há nada de errado em querer alguma coisa. Mas é bom saber a diferença entre uma comédia romântica e a vida real. Não deveríamos ser uma criança que assiste desenhos de super herói e tenta pular do sofá achando que vai voar. Ou até podemos, mas assim: você vai dar com a cara no chão.  Também não tem problema nenhum dar com a cara no chão, porque a cara é sua e você faz com ela o que quiser. 

O que é injusto é jogar toda a responsabilidade das nossas expectativas em cima do outro. É fazer o outro se sentir mal por não agir como VOCÊ esperava. Não tenho medo de quem tem expectativas, tenho medo é das pessoas que não sabem que são cheias de expectativa. Sabe aquele cara que diz pra você escolher o restaurante, e aí quando você escolhe, ele pergunta: "Mas você não prefere um japonês"? Sabe quando ele diz que está tudo bem se vocês forem apenas amigos, mas não está nada bem? Sabe quando ele JURA que não tem expectativa? Não credite nisso: das duas uma (ou as duas): ele está mentindo pra si mesmo ou pra você. E muito provavelmente já está planejando a lua de mel na Itália, já sabe o nome dos dois filhos que vocês vão ter e até o nome do cachorro. 

Acredite em mim quando digo que de todas as coisas estúpidas que um ser humano pode fazer em um relacionamento, ter expectativa é a pior delas. Safado? Ok, a gente tenta. Gay? Ok, a gente experimenta. Distraído? Ok, prestenção aqui meu filho! Imaturo? Ok, vamos ver no que dá. Tem expectativas? Não, nããããão, por favor não! O próximo da fila, por favor.
 

Crie minhocas, elefantes, um leão ou lobos selvagens, crie mofo, mas não crie expectativas. Porque a frustração é o destino certo de toda expectativa, já que a vida não segue um roteiro. E mesmo o melhor dos roteiros de cinema sempre vai esbarrar na improvisação do ator - que às vezes pode ser genial, outra vezes pode ser um idiota. Mas a gente precisa correr esse risco. 

As expectativas são aquele universo conhecido e desejado: de flores, surpresas, viagens de lua de mel, declarações de amor em público, de ser feliz. E quando em vez disso terminamos chorando no banheiro às 3 da manhã, nos dando conta de que ele se apaixonou por outra ou descobrimos que é muito mais difícil do que tudo que já vivemos antes, dói. Mas dói de um jeito paralisante, porque a gente tinha um chão, e esse chão eram as nossas expectativas. De repente, não temos onde pisar. 

Ninguém tem a expectativa de viver um amor, ser traído e perdoar. A gente fica mirando no comercial de margarina, mas deveríamos saber que o outro é capaz de qualquer coisa - tanto quanto eu sou capaz de qualquer imperfeição. E quando não temos em mente o final feliz, existe espaço para aprender. E existe espaço para percebermos que quando as coisas não são como a gente imaginou, não precisamos culpar ninguém, nem a nós mesmos . E não precisamos nos tornar pessoas infelizes, que brigam, esperneiam e cobram do outro. Não precisamos ser quem não somos porque nos sabemos capazes de lidar com nossas expectativas da mesma forma que entendemos que os super heróis são só desenhos.

Não ter expectativas é difícil. Mas mais difícil ainda é viver sem se permitir experimentar
o que um relacionamento tem de mais lindo: o inesperado. Quando a gente não espera, é possível sentir cada coisa sem nenhuma referência anterior. É possível aceitar todas as partes - das mais fáceis às mais difíceis. E é possível nos apaixonarmos pela primeira vez, mesmo que já tenhamos nos apaixonado mil vezes antes.


Zero expectativas é difícil. Mas se for pra esperar alguma coisa do outro, que seja só uma massagem no pé hoje à noite. Se for pra esperar, que seja pegar um cinema no sábado. Lidar com as expectativas não significa que eu não possa planejar nada. Eu posso fazer um jantar lindo hoje à noite. Posso fazer uma surpresa. Eu só não quero a vida pronta. Eu não quero buscar emoções, quero buscar as primeiras vezes.

Espero que você nunca espere nada de mim. Mas dizem que quarta-feira é um ótimo dia para sequestrar alguém e passar o dia na Serra, sabia?

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Tenho medo que nada nunca mude




Como o ser humano pode ter tanto medo de mudar e, ao mesmo tempo, ser capaz de passar uma vida inteira esperando que o outro mude? Aliás, também não entendo como tanta gente diz por aí que ninguém muda. Como alguém poderia passar por esse mundo maluco sem ser afetado por ele? Todo mundo vai mudar durante a vida, só que na maioria das vezes, as pessoas não vão se transformar naquilo que você espera delas, mas naquilo que elas querem ou podem ser.

A gente muda. O tempo todo. Algumas pessoas mudam tão lentamente que quase nem se nota. Outras pessoas mudam silenciosamente e às custas de muita dor. E há pessoas que mudam como quem toma um tapa no meio da cara - repentinamente, radicalmente, de uma hora pra outra, por causa de uma frase mal colocada, um pé na bunda, um acidente de avião ou um anúncio de uma doença grave.  Nos relacionamentos, nosso problema não é com a mudança em si, mas com o fato de que não controlamos a mudança do outro - e às vezes nem mesmo a nossa. 

Nem sempre queremos que o outro mude por ele mesmo. Às vezes só queremos mesmo é transformar o outro naquilo que desejamos ou precisamos que seja, quase como quem diz: eu não te amo, mas posso amar a pessoa na qual quero te transformar. Outras vezes não queremos que nada mude porque estamos estupidamente felizes numa relação que ainda não foi testada pelo tempo, pelas brigas, pela vizinha gostosa, pelos esquecimentos dos aniversários de namoro, noites mal dormidas, tédio e uma sogra que bem que poderia morar no Japão. 

Existem várias razões para alguém mudar: um beijo, um sonho, um abraço, uma briga, um milhão de brigas, um desencontro, um trauma, uma grande perda, uma unha encravada ou simplesmente uma vontade incontrolável de ser melhor, de ser feliz e se encontrar. Seja lá o que for que faça alguém mudar, uma coisa é certa: me assusta infinitamente mais viver num mundo em que as pessoas não mudam do que ter que lidar com o fato de que a vida é movimento - mesmo que às vezes ela se mova numa direção que eu não queria.

Se eu aprendi alguma coisa com os meus relacionamentos é que  eu prometo que vou mudar é uma coisa com a qual não só não deveríamos contar, mas que jamais deveríamos permitir que fizesse parte de um diálogo entre duas pessoas que se amam. Quem realmente quer mudar, toma uma atitude e muda. E ponto. Sem colocar anúncio no jornal, sem prometer nada. Sem desculpas, sem pedir mais uma chance a cada constatação de que nada mudou. 

Não é feio admitir quando não somos capazes de continuar uma relação com uma pessoa do jeito que ela é. Muita gente colocou na cabeça essa ideia romântica de que o amor suporta tudo  - como se aceitar tudo, seja lá o que for - fosse o máximo da evolução, da maturidade, da tolerância. A gente pode aceitar o outro como ele é, mas nem sempre é possível continuar junto como casal. Em alguns momentos, se aquilo que as pessoas são ou querem ser não for aquilo que você está preparado para aceitar, o melhor é terminar, desapegar e seguir em frente. 

A gente devia se conhecer o suficiente para saber até onde o nosso coração pode ir. Até onde as diferenças trazem vida para a relação e nos fazem crescer e em que ponto essas diferenças tiram toda a nossa energia. Nem sempre a gente percebe esse tal ponto. Nem sempre sabemos quando devemos insistir ou desistir. Paciência, a vida não é matemática.

Fazer as pazes com o movimento da vida é aceitar que às vezes uma relação linda se desfaz em mil pedaços e não dá pra colar. Outras vezes, uma relação muito ruim não vai melhorar e ponto. Não mudamos como quem toma remédio de 8 em 8 horas até desaparecerem os sintomas do nosso velho eu, ou do pior eu. Não agendamos a nossa mudança ou a do outro para semana que vem ou pra quando chegar o verão. 

Ninguém muda de verdade só para não perder uma mulher ou um amigo. Muda-se de verdade exatamente quando a gente perde, quando cansamos de não fazer algo a respeito. A gente muda justamente quando percebe que já é tarde demais, mas que ainda dá tempo de mudarmos para não ser tarde demais de novo um dia. 

Mude agora. A si mesmo. Ou daqui a um ano você vai desejar ter começado hoje, e vai ser tarde demais. De novo.