terça-feira, 13 de junho de 2017

Uma carta para você que vai ser mãe


Eu te conheci quando você tinha só dois anos e agora você vai ser mãe! É claro que eu quero te falar sobre parto, sobre amamentação e sobre ser mãe. É claro que eu eu quero acompanhar vocês nesse caminho lindo e também falar sobre as pedras. Mas, de tudo que eu sei sobre SER mãe, não tem nada que eu possa te ensinar. Nada.

O que eu poderia querer te ensinar sobre isso? Qualquer coisa que eu diga, será presunçosa demais, arrogante demais. Não, eu não pretendo te ensinar qualquer coisa sobre ser mãe, porque quem vem com essa missão está nesse momento crescendo dentro de você. Eu não posso te ensinar nada, mas posso te falar muitas coisas sobre o caminho que trilhei até aqui e que talvez te ajudem a passar por esse processo de mudança se cobrando menos e mantendo o bom humor: isso já é muito mais do que a maioria de nós consegue fazer quando tem um filho. E, olha, bom humor salva a gente!

Ser mãe é definitivamente cuspir pro alto! E já começa no parto. Olha pro meu caso por exemplo: eu achei que ia ser uma musa parideira, daquelas que cospem o bebê enquanto está dormindo. Mas não,  o meu parto foi difícil pra caralho. Eu achei que não ia conseguir. E estamos aqui vivos pra contar a história.  

Olhando pra trás, o meu parto era exatamente o que eu precisava pra conhecer a força que eu não sabia que eu tinha. E essa força foi importante em muitos momentos difíceis. Então, eu acho que a gente tem o parto que a gente precisa ter, pra nascer junto com um bebê a nossa versão mãe. E eu sei que você é incrivelmente forte, amiga. 

Outra coisa que aprendi a duras penas é que ser mãe é sofrer o dobro de pressão que a gente já sofre por ser mulher. Não basta cuidar do filho, deixá-lo limpinho e alimentado. Você tem que estar linda e não pode esquecer de ser mulher: faz unha, cabelo, se depila e esconde as olheiras. Não se deixe pressionar. Porque se quem está com você te amar, vai te olhar descabelada e com a blusa cheia de leite que vazou e saber: "essa é a mulher que eu amo, e vê-la passar por toda essa transformação me faz admirá-la ainda mais".

Por te amar tanto, tudo o que eu quero dizer é que você pode contar comigo e com o meu acolhimento incondicional. Porque, às vezes, quem já trilhou o caminho antes de você pode te ajudar a pegar mais leve consigo mesma e curtir mais. E se tiver qualquer coisa que eu possa te ensinar é isso: vai ser tudo diferente do que você imagina. A gente se preocupa demais com o chá de fraldas e o enxoval, mas não para pra respirar e colocar o corpo e a mente no lugar pra criar espaço. Amiga: não esquece de res-pirar.

Umas coisas você vai tirar de letra, outras não. Ser mãe te vira do avesso. E, tudo bem, às vezes o avesso também é um lado bom seu que você não conhecia.

Eu posso te ajudar com dicas pra cólicas, amamentação, banho e alimentação. Mas, de verdade, no fim do dia, com um mundo cheio de gente que vai querer te dizer o tempo todo o que é melhor pra sua filha, eu te ofereço o que quase ninguém oferece pra gente nessas horas: ouvidos e um abraço pra te dizer "tá tudo bem - eu seguro sua filha no colo, você só precisa dormir um pouco".

Por último, mas não menos importante: vai ficar tudo bem, você vai ser uma mãe incrível e eu vou ter a sorte de poder fazer parte da vida da Cecília e ver que, como a gente, nossos filhos vão poder crescer juntos.

Amo você, Bu. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Feliz dia dos namorados. Ou não.


Sinto muito por estragar um clássico, mas Tom Jobim estava errado. Não é impossível ser feliz sozinho. Chega mais um dia dos namorados, de novo. E de novo. E todo ano tem isso e a gente não aprende. De um lado a turma que finge que tá tudo bem e que a solteirice é a melhor coisa do mundo - mesmo se não sente isso de verdade e lá no fundo bate um desespero por não ter encontrado o amor da vida. Ou, no desespero, qualquer amor serve - até um não amor. 

Do outro lado, a turma deprimida que tem que ficar explicando praquela tia porque não está namorando. Porque se você não está namorando, tem alguma coisa errada com você. Você não deve ser legal, não deve ser certo da cabeça. Ninguém te quer. 

Ser solteiro, separado, desquitado é um estigma. No meio disso tudo fica a galera que namora: entre mortos e feridos, alguns poucos se salvam, alguns poucos estão realmente em relações vivas e felizes. Quando a gente encontra gente assim, dá vontade de celebrar, porque amor de verdade não é comercial de margarina, mas é lindo de ver.

A gente não aprende que pra ficar junto tem que amar ficar sozinho. A gente não aprende que o amor pelo outro é uma extensão do nosso amor e aceitação próprios.

Se temos problemas em amar, aceitar e perdoar a nós mesmos, teremos certamente dificuldades em ter e manter relações equilibradas. Quando a gente não se ama, a gente faz da nossa relação com o outro uma fonte de auto afirmação, de preenchimento das nossas carências. Quando o nosso amor pelo outro é uma extensão da nossa falta de amor e aceitação próprios, a gente espera  que o outro resolva todos os problemas que nós não resolvemos sozinhos. E o problema é que só a gente pode resolver e se responsabilizar pela própria felicidade. 

Ser sozinho deveria ser um exercício de autorresponsabilidade e de amor próprio. Ser sozinho é criar espaço pra se olhar, respirar, se conhecer, se amar. 

Claro que a gente pode se conhecer na relação com o outro. Mas tenha certeza: se você quer fazer geléia com dois ingredientes - açúcar e uma fruta - e você coloca morango estragado na receita, não tem como salvar a geléia. O jeito é jogar fora e começar tudo do zero - ou comer a geléia estragada - se preferir. Tem gosto pra tudo e não são poucas as pessoas por aí comendo geléia estragada. 

Com a devida licença poética - porque, né, você não é morango nem açúcar e ninguém se mistura com o outro ao pé da letra - a gente precisa estar bem e estar pronto pra se relacionar com o outro. Não é problema nenhum querer ficar sozinho, pelo contrário: pode ser sinal de sanidade! Pode ser você pedindo pra parar um pouco, olhar pra dentro. Ficar sozinho pode ser você finalmente percebendo que as coisas não estão bem, e assumindo a responsabilidade em fazer as coisas ficarem bem cuidando de si mesmo - a única variável da equação sobre a qual você tem poderes.  

Se estar sozinho não for medo e uma forma de proteção, mas apenas um escolha de não estar numa relação, acredite em mim: não é uma doença e vai ficar tudo bem. Ser solteiro aumenta drasticamente suas chances de se dedicar aos seus hobbies, cultivar suas amizades, reforçar ou melhorar laços familiares. Existe vida na solteirice feliz, cara-pálida!

De novo: não que não seja possível fazer tudo isso dentro de uma relação a dois. Mas, se você não está bem consigo mesmo e com tudo isso, é a história da geléia com morango estragado, entende?

Então, esse post é só pra desejar feliz dia dos namorados pra você que é de namorado e de construir vínculos, intimidade e de se entregar numa relação. E feliz dia dos namorados pra você que namora a si mesmo. Pra aqueles que não estão nem lá nem cá, PELAMORDEDEUS, pára de esfregar geléia estragada na própria cara e chega de ser morango vencido tentando achar um açúcar pra disfarçar o gosto ruim: bora voltar pro começo do jogo e fazer tudo do zero. De novo. 

Dia dos namorados em 2018 a gente se fala outra vez, tá? 

Beijo.

sábado, 10 de junho de 2017

Não namora comigo?


Eu sei que parece uma pergunta absurda. E é exatamente dez vezes mais absurdo vindo de mim. Ou talvez nem tanto. Mas olha, namorar é chato. Pode acreditar em mim, eu consultei o Dicionário e tudo: namorar é terem duas pessoas relacionamento amoroso contínuo ou por um período de tempo. E eu não quero pensar no tempo quando estou com você e também não quero ter nada contínuo – muito antes pelo contrário, quero ficar enlouquecidamente confusa sem saber onde está o começo, o fim e o meio disso tudo. Porque vai ver que começamos pelo fim, pra pular logo essa parte e agora estamos no meio, ou quem sabe acabamos de começar.

Não namora comigo? Não namora pra gente não ter que fazer planos: assim a gente pode comemorar seu aniversário no meio de abril ou no final de junho, quem sabe até no Natal, porque, né, odeio Natal. Não namora comigo porque sem fazer planos a gente pode se jogar na piscina às 3 da manhã, a gente pode esquecer todas as datas sem culpa e saber que os melhores presentes são aqueles que não podem ser embalados e a gente dá numa quarta-feira chuvosa e triste pra fazer o outro sorrir.

Não namora comigo, pra gente poder descumprir todas as obrigações sociais e fugir de todas as festas chatas, porque só os namorados precisam se acompanhar: quem não tem status vai pra onde o coração manda. Não namora comigo não, não me inclui no seu futuro – vive comigo todo o presente porque, no final das contas, é só nele que tudo acontece de verdade. Não namora comigo, senão teremos que prestar contas pra família, vamos ter que conhecer as sogras, escolher nome pros filhos, ter um cachorro, colocar foto do outro como protetor da tela do celular e fazer essas coisas que todos os casais de namorados fazem, já sem nem saber o porquê. Não namora comigo, porque a gente pode fazer tudo diferente e consciente: a gente não precisa de nenhum calendário, flores, aniversário de namoro.

Não namora comigo, pra não me levar a sério. Assim eu posso ser boba como sempre, a gente não precisa cobrar nada um do outro, a não ser um chocolate de presente na TPM, só pra você saber que eu não sou tão diferentona não, tá?


Não namora comigo, pra gente ter o status que quiser, ou pra não termos status nenhum: só aquele status de acordar junto com a pessoa que a gente quer falar antes de dormir, de marcar de passar o final de semana junto ou de mandar mensagem pra perguntar se o outro está dormindo às duas da manhã. Não namora comigo, pra gente não namorar já sendo mais namorados do que tantos namorados que só namoram por medo de ficarem sozinhos. Não namora comigo?

sábado, 28 de janeiro de 2017

O amor é o que é



Tenta esconder o quanto você quiser ou puder, mas todo mundo tem uma régua, uma escala velada de valores e expectativas com relação à vida e às pessoas. Até aí, nada demais. Nada mais humano que isso nesse mundo em que vivemos mais a teoria que a prática e em que a maioria tenta fingir que está tudo bem.

O problema não é nosso nível de exigência e expectativa com relação ao outro. O problema é nos relacionarmos com os outros sem nunca nos darmos conta de que já viemos com tudo pronto e que já escrevemos a nossa história de amor antes mesmo dela acontecer.

Não nos sentimos amados com a medida do amor do outro. Julgamos as demonstrações de afeto em relação a nossa própria ideia de amor. E se pra mim, quem ama precisa mandar flores, eu só me sinto amado de verdade quando o entregador do Flores Online bate na minha porta no dia dos namorados.

O amor é só uma palavra até que se viva. O amor não existe, até existir sem que a gente se dê conta de que ele está lá. Não é justo com o amor que você tenha que provar que ama alguém de acordo com o que o outro acha que é o amor.

E o amor não se prova e nem se mede ou compara. Amor não existe para atender às expectativas do outro nem às nossas, porque o amor não são só essas coisas e momentos românticos e fotos de viagens e coisas boas que ficam na memória.

O amor é uma jornada para se tornar você mesmo. E é por meio do encontro com o outro que reconhecemos nossas fragilidades. Nem sempre a gente aceita que amor também é desencontro, desencanto, dor, traição. O amor é quem nos mostra nossas limitações e nos faz aceitá-las tanto quanto as limitações do outro.

O amor não é sobre encontrar alguém, é sobre encontrar você mesmo. O amor não é sobre achar a fonte da felicidade - é sobre encontrar a nossa capacidade de lidar com emoções e nossa força pra sermos maiores e mais fortes do que fomos ontem. Todo o resto que vemos é miragem. E o amor é aquilo que não vemos.







quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Se eu pudesse, eu enlouquecia

O ano mal começou e eu já quero perder a cabeça e soltar os cachorros. Sair lá na calçada e gritar até terem certeza de que eu perdi algum parafuso. Pode até ser efeito retardado de 2016, esse ano que me disseram que não queria acabar, mas acabou. Me desculpe, 2017. Eu sei que você acabou de começar e que não tem nada a ver com isso.

Se eu pudesse, eu enlouquecia. Pedia o divórcio, demissão no emprego que todo mundo quer ter, mudava de cidade, mandava uma carta desaforada pra alguém que merecesse, só me relacionava se fosse pra ser de verdade. Todas as obrigações sociais que se danem! Só ia aceitar relacionamentos genuínos, amores que cultivem a paz, um emprego onde eu não precise ganhar só pra pagar as contas sendo infeliz 12 horas por dia.

Eu sei, isso tudo é muito radical. Só pessoas malucas ficam desempregadas de propósito com um filho pra criar. A minha mãe vai querer me internar. Todo mundo vai dizer que eu vou passar fome e arrependimento e que morrerei sozinha, porque relacionamento verdadeiro simplesmente não existe - é muito melhor fingir que tá tudo bem e postar foto do mundo perfeito no Facebook.

Pra que querer mudar o que não está funcionando se você pode fingir que está tudo bem? Mudar dá muito trabalho. Mudar deixa todo mundo desconfortável. Deixa exposto demais que a maioria de nós vive uma vida de mentira.

Pela janela, o trânsito que só gente maluca dá conta, a fumaça dos carros, a gentileza robótica, a violência num grau insuportável e todo mundo dopado, anestesiado. Se eu pudesse, enlouquecia por uma via sem volta. Porque não enlouquecer num mundo tão maluco deve ser um tipo de doença pra qual ainda não inventaram um nome.

Pra falar a verdade, loucura é coisa normal hoje em dia. E ser normal não é normal.

Vai ver eu já enlouqueci e não me dei conta. Como dizia Raul: "a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser uma pessoa normal".


sábado, 7 de janeiro de 2017

Amor que se procura não se encontra



Provavelmente desde que respirou quando nasceu, ele já queria encontrá-la. Antes mesmo de andar, de estrear os joelhos no paralelepípedo e antes de todas as primeiras vezes de tudo. 

Começou a doer quando aquela menina no jardim de infância dividia a maçã do lanche do recreio com outro. Não podia ser ela. E cada vez que não era ela, doía mais do que poderia doer se fosse só mais um fim de namoro comum ou uma ficada que não foi pra frente. Cada vez que não era ela, a sensação de que ela nunca ia chegar. E de que ele nunca iria poder sossegar no aconchego de uma relação com ela que ele vinha esperando desde sempre.

Tem gente que já nasce com um sentimento de que falta alguma coisa. Aí assiste uma comédia romântica e - bingo! - acha que o que tá faltando é aquela pessoa que vai parar o avião pra pedir pra gente ficar. Não é que falte algo (às vezes pode até ser), mas acho que quase sempre, nossos vazios são só a vontade de viver por inteiro, de encontrar um sentido pra vida, de encontrar alguma coisa além de tudo que a gente conhece e de sentir alguma coisa maior que a gente mesmo. 

Mas acontece que não é sobre encontrar a The One, é sobre procurar tanto. A gente não sabe o que procura até encontrar. Então, talvez não devêssemos procurar quando não temos como saber o que estamos procurando. 

Eu sei, tá confuso de entender. Eu vou simplificar: você não precisa mais procurar. Não se preocupe em chegar lá, porque a vida não te deu o mapa, então, não há porque se cobrar tanto. Pode ficar tranquilo se estiver perdido, todos estamos. A gente não tem direção. E, às vezes, se você não sabe onde quer chegar, o jeito é viver o que há no caminho, experimentar todos os lugares. Se não temos mapa, temos o olhar e o sentir. Quando você chegar lá, você vai saber. Vai se sentir em casa e simplesmente vai saber.

E se você não chegar lá? O medo é esse? Não existe não chegar lá para quem não faz da vida uma eterna procura, entende? E você vai encontrá-la apenas quando ela não existir na sua cabeça antes de existir na sua vida. Porque tem umas coisas nesse mundo que precisam obedecer a um certa ordem. A carroça não anda se estiver na frente dos bois. O amor da vida não é uma criação, é uma construção. E o amor da sua vida pode nem ser ela: pode ser um filho, um lugar, um projeto, uma experiência, uma viagem ou descobrir como ser você mesmo.  

Amor que se procura não se encontra, porque amor a gente não procura. É ele quem encontra a gente. 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Desculpe o transtorno, preciso falar do machismo

É difícil falar sobre feminismo. Porque o feminismo, assim como o cristianismo, o islamismo e outros "ismos" são ideias e o ser humano faz com elas o que bem entende. A gente usa as ideias como nos convém, em muitos momentos de forma tão distorcida que a ideia e a prática chegam à beira da esquizofrenia. Por que, né, como é que tem cristão que não ama o próximo? E como tem budista violento?

Mas pra que falar de feminismo? O que isso tem a ver com os relacionamentos e com o mundo? Vem junto comigo... mas venha aberto a ouvir e rever suas posições e pre-conceitos, senão não vale à pena vir.

Pra entender feminismo, primeiro você precisa entender que a busca de igualdade nasceu de uma sociedade patriarcal extremamente violenta e opressiva, com o objetivo de tão somente dar voz às mulheres e mostrar que somos gente também. Se você que tá lendo isso acha que é mimimi e exagero, pensa no seguinte: a minha avó quando nasceu não tinha direito a voto simplesmente por ser mulher. Mulher só passou a ter direito a voto, no Brasil, em 1932! 

A mulher só pôde votar quase meio século depois do fim da escravidão. Assim como o fim da escravidão não determinou o fim do preconceito e das injustiças contra os negros, o direito ao voto para mulheres também não mudou automaticamente o jeito que a sociedade nos enxerga. Algumas coisas só mudam no papel e, de forma muito velada, continuamos sob a influência de uma sociedade machista, racista e de privilégios. Entenda: ontem na história a sociedade oficialmente não reconhecia a mulher como gente. A mulher era moeda de troca e tudo o mais que se pode imaginar e, ainda hoje, é objeto e é por isso que muitos homens se sentem no direito de agredi-las e matá-las.

A gente vê uma cara matar 12 pessoas - entre as quais nove mulheres e o próprio filho e ex esposa - e não consegue enxergar o machismo, não enxerga todo esse imaginário de ódio às mulheres. É mais fácil concluir que ele fez isso porque é maluco, psicopata. Acontece que a cada CINCO minutos um "psicopata" agride uma mulher no Brasil. Só enquanto escrevo esse texto, dá pra perder as contas de quantas mulheres estão sendo vítimas de um "psicopata". Até o final do dia, DEZ mulheres terão morrido - vítimas de nossa cultura machista. E 80% das agressões são praticadas pelos parceiros, ou por pessoas próximas, conhecidas. Não estamos falando do maníaco do parque. 

Há poucos meses atrás, um "pai de família" no Rio de Janeiro, morador da Barra da Tijuca, matou a mulher a facadas, jogou os dois filhos do décimo oitavo andar e depois se jogou. Motivo: estava preocupado em perder o emprego e o padrão de vida. Mas aqui também não vamos falar de machismo, coloca tudo na culpa da depressão. A pressão sobre o "macho provedor" é depressão, certo? Ele se sentir dono das vidas da mulher e dos filhos a ponto de matar todo mundo também não é machismo.  

O massacre que aconteceu em Campinas não é uma exceção e se vamos discutir isso pela ótica de que o cara que cometeu o crime era um psicopata, então, estamos contribuindo para que as coisas continuem como estão e permanecemos no sofá à espera do próximo psicopata.

E é aqui que está a questão principal que muitas pessoas não compreendem: quando se luta por igualdade, para que mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, não é uma luta contra homens, mas a favor de um novo comportamento social. Tem homem machista, mas também tem muita mulher machista! Então, essa discussão não é para atacar os homens e colocá-los como bandidos da história - é para refletir sobre o machismo! Não é pra dizer que homem é tudo filho da puta. Aliás, chamar de filho da puta é machista, entendeu? E xingar o pai do coleguinha de viadinho também é! Porque é definir papéis sobre o que homens e mulheres devem ser e como eles devem agir, é julgamento sobre como cada um deve se comportar sexualmente, moralmente e existencialmente apenas com base no gênero que a pessoa veio ao mundo. 

Não tô aqui pra falar de lugar comum, porque tá todo mundo careca de saber da jornada tripla da mulher, das injustiças nas divisões de tarefas domésticas e no valor (ou falta de valor) dado pelo mercado de trabalho à mulher. Eu queria falar de como a gente pode ser muito mais feliz sem machismo.

Porque machismo não tá só na violência de esculhambar feministas dizendo que elas são feminazi, feias, caídas, cabeludas e mal amadas não. Machismo não está somente em vendermos mulheres semi nuas em outdoors, revistas e propagandas de cerveja ou concursos de miss. O machismo está em cultivarmos um padrão de beleza feminino surreal e também está em cultivar a ideia de que homem tem que ser fortão,  musculozão, virilzão, comedorzão. O machismo está em excluirmos o homem do debate sobre igualdade, do debate sobre o aborto. Excluir é um comportamento tipicamente machista. E, em vez de feminismo - um movimento legítimo - estamos vendo mulheres atacando homens e as próprias mulheres de forma totalmente estúpida e quase ditatorial.

Nem sempre a gente se dá conta, mas ser tratada injustamente apenas por ser mulher, gera uma revolta que quase sempre se expressa de forma velada. E a gente nasce com esse sentimento, sem direito a ter voz, com esse peso daquela sociedade em que mulheres foram totalmente massacradas de formas inimagináveis. 

Sei que da minha avó pra cá as coisas melhoraram, mas ainda precisamos falar sobre machismo nas nossas relações e nos nossos relacionamentos enquanto houver feminicídio motivado por nossa cultura do estupro. Precisamos curar essa ferida para que seja possível nos relacionarmos. Empoderamento não é superioridade, é consciência do seu próprio poder e das suas responsabilidades - conceitos bem diferentes!

Pra gente falar de feminismo, temos que olhar pros comportamentos masculinos (que podem vir de homens ou de mulheres) e nos posicionar, pra dizer que não tá tudo bem e que não aceitamos esse tipo de tratamento. E isso só pode ser feito se estivermos atacando o comportamento em si, e não o gênero que o pratica, entende? 

Pra gente falar de machismo e feminismo, também temos que olhar pra dentro e perceber os nossos próprios machismos. Ele mora sutilmente nas conversas em que menosprezamos os homens pelo tamanho do pau. O machismo mora na ridicularização do homem que brochou na primeira transa entre as amigas - fazer isso não é muito diferente da atitude do homem de escolher mulher pela bunda, que a gente tanto condena. O machismo mora na ideia de que homem tem que pagar motel - porque né, a gente já tá pagando com o corpo. E gentes: não tem problema nenhum se o homem pagar a conta do motel e do restaurante. Não são as coisas que são machistas, mas a motivação a respeito dessas coisas.

Não vamos combater o machismo reproduzindo, como mulheres, os comportamentos que nos agridem. Não teremos um mundo mais humano e menos desigual se acharmos que "meu corpo, minhas regras" nos dá o direito de agredir verbalmente os homens por eles "se meterem" no debate sobre aborto. PELAMORDEDEUS, precisamos sim que os homens participem! Precisamos que eles entendam que o aborto também diz respeito a eles - porque ninguém fica grávida sozinha! Ninguém vai dizer o que temos que fazer com o nosso corpo, mas cada um precisa dizer como se sente e ser ouvido e acolhido no seu ponto de vista.

Precisamos falar de aborto, de licença maternidade e - ainda mais - de licença paternidade! Porque se o mundo é governado, em sua maioria, por homens, nada mais feminista do que exigir que pais tenham o mesmo direito que as mulheres, pelo mesmo período, para estar com seus filhos e cuidar deles e para que tudo seja dividido entre ambos os sexos. Precisamos falar da pressão para o homem ser forte, não chorar, sustentar a família, ter que ser alguém na vida, não poder ser sustentado pela mulher. Homem não pode brochar, não poder falhar, não pode apanhar - tem que bater.

Se queremos falar de feminismo, temos que tratar o homem como queremos ser tratadas. Se queremos falar de feminismo, temos que entender que há diferenças entre homens e mulheres sim, e que elas precisam ser respeitadas. Mais do que isso, essas diferenças precisam ser somadas, para que tenhamos uma sociedade mais equilibrada.  

Desculpe o transtorno. Desculpe o textão. 

Tudo isso era só pra pra dizer que quando você, homem que está lendo esse texto, olhar pra uma mulher, tenha em mente todo esse contexto. Seja essa mulher uma menina bonita ou feia que você viu na rua, seja ela a sua irmã, sua mãe ou sua namorada/esposa: quando olhar uma mulher, não esqueça de tudo que vem sendo embutido no seu olhar sem que você se dê conta. 

Quando você olhar para uma mulher, preste bem atenção: entenda que dizer orgulhoso pros seus amigos que você "ajuda em casa" é parte da cultura que faz um homem matar 12 pessoas numa festa de ano novo.  Não é sempre fácil fazer a conexão entre algo tão brutal e uma coisa tão bobinha do dia-a-dia, mas essa conexão existe. Entenda que trocar a fralda do seu filho não faz de você o super homem. Se precisa de dois pra gerar uma vida, faz sentido ter uma parceria e dividir o trabalho pra cuidar do filho. Se gabar disso, é perpetuar uma cultura de desigualdade que só traz violência.

Entenda que cada véspera de Natal em que você passa o dia bebendo enquanto as mulheres vão pra cozinha, você impede que um mundo novo comece a nascer. Porque precisamos trocar de lugar, mudar as perspectivas, parar de nos colocarmos no lugar do outro só no mundo das ideias para fazermos alguma coisa. A mudança pode ser "só" propor que só os homens da sua família cozinhem a próxima ceia de Natal. Pode ser só parar de fazer aquela piadinha sobre deixar de ser consumidor para ser fornecedor.

Desculpe o transtorno, eu ainda não acabei.

Você, mulher que está lendo esse texto: pense nisso tudo também quando olhar pra um homem. Pense na pressão que os homens sofrem. Pense em como é difícil para eles dividirem as tarefas quando desde pequenos são excluídos disso tudo. Pensa em como é difícil para eles terem um novo olhar sobre as mulheres quando eles são massacrados pela cultura do enxoval azul-carrinhos-lutas e espadas-homem não chora. Quando você olhar um homem, em vez de atacá-lo, abrace-o e convide-o a olhar junto pra tudo isso com você.

Convido as mulheres a refletirem sobre seus olhares para com os homens. Precisamos dar uma chance a eles e a nós mesmas de fazer diferente, de começar do zero. Precisamos encontrar novas formas de diálogo e abrir espaço, permitir que todos sejam ouvidos e acolhidos. Todos sofremos com o machismo. Não é só a mulher quem sofre: é o menino que cresce vendo a mãe apanhar ou apanhando do pai "pra ele aprender a ser homem". O machismo mata mulheres e homens, nos tortura psicologicamente e nos diminui como sociedade.  

No final das contas, pra lutar contra o machismo, a gente só precisa começar pelas coisas mais simples, que são justamente as que a gente menos percebe. 


E, por último, mas não menos importante: Não precisa ser uma briga entre os sexos. Não se deixe dominar por essa pressão social que exige que você assuma papéis de acordo com o seu sexo - seja você homem ou mulher. Não deixe que o machismo te transforme em um opressor(a). A gente é melhor que isso.




Para você que está no futuro

Essa é uma carta para você que eu não conheço e que não me conhece. Não é sempre, mas às vezes eu sinto sua falta, e dói. Ao mesmo tempo, coisas incríveis começam a acontecer dentro de mim porque você não está aqui. É quando sinto sua falta que começo a me dar conta das coisas do dia-a-dia que eu amo e, sem a saudade, talvez eu nunca soubesse o quanto gosto delas. Eu sinto falta de vermos filme abraçados no sofá, de planejar uma viagem ou, melhor ainda, de fazer uma viagem não planejada, assim, só porque a gente resolveu na sexta à tarde.

Porque você não está aqui, percebo também como é bom estar comigo mesma e ter tempo para estar com meus amigos. Mais que isso: me dou conta de que essa parte da  minha vida é essencial e precisa ser mantida mesmo que você apareça sem avisar e comece a preencher toda a minha agenda sem que eu me dê conta de que estou esquecendo de mim mesma e de todas as pessoas queridas com quem quero passar meu tempo.


O fato de você não estar aqui me dá uma perspectiva de vida diferente, me faz perceber coisas sobre mim mesma que só quando estou sozinha posso enxergar bem. Nem sempre é fácil de olhar as minhas sombras, mas me encaro no espelho. E eu percebo também coisas lindas que estão crescendo em mim e que você vai encontrar quando chegar.


Você pode estar no meu futuro - real ou dos meus sonhos. Talvez eu nunca te conheça. Talvez eu até já tenha te conhecido e, nesse exato momento, você esteja bem debaixo do meu nariz, na minha cama, nos contatos do WhatsApp ou na porta ao lado. Eu sei, tem umas pessoas que a gente conhece sem nunca ter visto e tem aquelas que a gente vê todo dia sem conhecer. Conhecer leva uma vida inteira, não é processo de uma viagem, uma noite, uma festa, uma dor. É tudo isso junto e mais silêncio e noites de domingo. Tem hora que nem eu mesma me conheço. 


Mas essa carta era só mesmo pra marcar o encontro, pra eu não ficar ansiosa te esperando. Já que passado, presente e futuro são a mesma coisa, porque a gente só vive no tempo do meio, sejamos claros para não ter erro: me encontra no presente.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Onde está você?

Uma pessoa que eu amo muito brigou comigo e eu com ela. Que sensação ruim essa de se perceber pensando tão diferente de alguém que você ama, ainda mais quando se pensa diferente em questões que gente considera importantes e cheias de significado. 

Vivemos tempos difíceis. Estamos acelerados e exaustos pelo número de horas trabalhadas e desperdiçadas no trânsito e nas relações sem sentido e sem afeto. Tem tanta tecnologia, tanta informação, tanto aplicativo e tantas coisas pra darmos conta que a presença se tornou uma coisa rara - não só a presença de estar junto fisicamente em tempos de Videochamadas e WhatsApp, mas a presença de prestar atenção plena ao que estamos fazendo no exato momento em que estamos fazendo. 

Essa é a nossa doença: estamos em tantos lugares ao mesmo tempo que não estamos de verdade em nenhum. Pensar e processar informações ocupa tudo com tanta intensidade que deixamos de ser quem somos e estar onde estamos. E eu esqueci que nenhuma discussão e opinião é mais importante que a relação de duas pessoas que se querem bem e que se importam uma com a outra. É ridículo esquecer uma coisa dessas,  né?

Mas parece que não sou só eu a única ridícula do planeta. Pode ser só impressão minha, mas eu nunca tinha vivido dias de tanta propagação gratuita de ódio, de tantas brigas por opiniões e ideologias e falta de espaço para diálogo e trocas verdadeiras. É compreensível: conversas pelo WhatsApp e redes sociais não facilitam em nada a empatia, a sororidade e muito menos a compaixão. E se pessoalmente a gente já não tem dado conta de se relacionar de verdade com os outros, imagina virtualmente - com chances exponenciais de sermos mal interpretados. Com chances estratosféricas de não termos acesso a informações de qualidades, que promovam debate em lugar de nos influenciar a escolher um lado, uma ideologia e uma verdade onde não se encaixe o diálogo e a pluralidade dos olhares. 

Ao me perceber em lugar nenhum, lembrei de me perguntar uma coisa essencial dos relacionamentos: onde estou agora? Todo mundo quer estar num lugar em que se sinta acolhido e com alguém com quem se possa conversar. Não vale à pena estar em nenhum lugar onde a minha opinião (que pode mudar semana que vem) é mais importante que uma pessoa que eu amo ou que qualquer pessoa que esteja disposta a dialogar. A gente pode escolher onde quer estar e com quem quer estar, claro. Mas o que pouca gente se dá conta é que podemos SER esse lugar onde queremos estar. 

Quando somos a pessoa que acolhe e ouve o outro de forma amorosa e que se coloca no lugar do outro, não há espaço para estar onde não se está. E só se aproximam da gente as pessoas que querem estar aqui e agora com quem somos. 



segunda-feira, 4 de abril de 2016

A solidão mais dolorida de todas

 
Faz tempo que nós perdemos a conexão. Faz tempo que estamos sem sinal, fora de área e ilhados. Não é fácil perceber isso ao dar bom dia na cama pra pessoa que dorme com a gente ou pro vizinho do elevador. Não é fácil perceber quantas vezes por dia perguntamos "tudo bem?" pra alguém sem nem olhar nos olhos da outra pessoa, sem nos interessarmos de verdade por saber se está tudo bem mesmo. Não é fácil perceber que a gente não sente o que diz e nem diz de verdade o que sente.

Faz tempo que perdemos a sensibilidade. Nos achamos uma espécie tão inteligente, e com todos os nossos equipamentos ultra modernos, são os animais que sobem a montanha primeiro quando acontece um maremoto, antes que chegue o tsunami. Nós, humanos, ficamos aqui distraídos na piscina do resort e só nos damos conta quando a onda já nos engoliu. Perdemos a sensibilidade não só para olhar à nossa volta e nos conectar de verdade com a natureza ou com as outras pessoas - nós perdemos a nós mesmos: não conseguimos reconhecer sequer o que sentimos, mas nos sentimos no direito de achar que sabemos como o outro se sente, sem nem sequer perguntar. 

A solidão mais dolorida de todas é aquela de duas pessoas que resolvem ficar sozinhas juntas. A outra pessoa está lá, eu estou lá, mas ninguém está em lugar nenhum porque ninguém está inteiro. A gente pode pensar em muitos motivos para duas pessoas se perceberem sozinhas morando juntas. Pode ser falta de coragem de terminar, pode ser falta de amor, falta de compatibilidade. Pode ser falta de vergonha na cara, falta de amor próprio, baixa auto-estima ou falta de grana. Pode ser medo de ficar sozinho. O que quase nunca ocorre pensar é que, de todas as coisas essenciais numa relação, a coisa mais importante e, quase sempre a que mais falta, é o diálogo. 

Eu poderia dizer que a comunicação é mais importante do que amor e do que ter afinidades. E arrisco dizer que a nossa falta de habilidade de estabelecer uma comunicação verdadeira com as pessoas é o que envenena a maioria das relações. Não estou falando de falar enlouquecidamente. Não estou falando de reclamar. Não estou falando de criticar o outro, de dizermos o que queremos, ou como queremos que o outro nos trate e se comporte a todo momento. Estou falando de se comunicar de verdade - e isso nem sempre requer usar palavras. 

Quando a gente se comunica de verdade, a gente percebe que precisa não só dizer mais vezes "eu te amo" e "me desculpa". Percebemos que se importar com o outro é, também, lavar a louça que se acumula na pia e estender a roupa no varal. Quando a gente aprende a se expressar de verdade, percebe que cada sentimento guardado cria um espaço a mais que nos separa do outro e da alegria de estar junto. E esses espaços viram facilmente uma mágoa. Achamos que a nossa raiva do outro é por culpa da pia cheia de louça suja, porque a gente não percebe como as mágoas podem virar impaciência, implicância e orgulho num piscar de olhos. 

Se comunicar é, antes de mais nada, se permitir sentir sem julgamento.Se comunicar é dizer agora como nos sentimos, com carinho, respeito e acolhimento - sem guardar nada que possa virar ressentimento amanhã. Se comunicar é também saber ouvir o outro com a mesma atenção e carinho que queremos quando nos abrimos. 

Não importa muito o que a gente sente numa relação e não precisamos julgar o que o outro sente. Pode ser ciúme, pode ser qualquer sentimento barato. O que o outro sente não representa quem ele é. É o que fazemos com o que sentimos que diz muito sobre quem somos. A solidão mais dolorida de todas não é só aquela de duas pessoas sozinhas e juntas. É aquela de quando nos fechamos dentro de nós mesmos, de quando não permitimos que os sentimentos saiam e não percebemos que, ao guardarmos tanto, também não resta espaço para ninguém entrar.