segunda-feira, 15 de junho de 2009

Quando a verdade for inacreditável, melhor mentir...


Ele quer tomar um chope inocente com os amigos, sem segundas intenções, mas só com os amigos, SEM VOCÊ. Mas, por medo da sua reação ciumenta-neurótica, ele mente dizendo que vai do trabalho direto pra casa porque está exausto.

Você descobre que ele saiu e fica furiosa: "vou matar aquele cachorro safado!". Sua imaginação passeou entre a traição e uma orgia. Ele sabe que vai ter que se explicar e que você não vai acreditar na verdade (sic). O que fazer? Melhor salvar a pele, dar uma explicação plausível, mentir pra salvar o relacionamento. Enquanto você o xinga ele apresenta argumentos convincentes, fatos e dados, tipo "fui acordado pelo Marcelinho que estava mega bêbado e apareci lá pra levá-lo ao hospital".

Quando você vê o boletim de atendimento do hospital e as ligações do Marcelinho no celular dele fica envergonhada de ter agido como neurótica. Seu namorado sabe até o nome da enfermeira que aplicou a glicose no amigo que ele teve que socorrer no meio da noite! PROVAS E TESTEMUNHAS FORAM APRESENTADAS, a história faz sentido, e isso é melhor que a verdade, já que a verdade é que seu namorado não saiu pra socorrer o Marcelinho. Ele saiu pra beber com o Marcelinho e outros amigos, ele estava no bar o tempo todo, e no meio da bebedeira levou Marcelinho ao hospital e, apesar de não ter feito nada além de mentir por medo do seu ciúme, você jamais acreditaria que ele estava apenas se divertindo inocentemente com os amigos, exercendo a sua individualidade, discutindo futebol, coisa que você odiaria fazer num sábado à noite, mas que ele adora.

E é por isso que eu vou contar esta pequena história pra vocês, queridos leitores:
Havia uma mulher que morava perto da linha de um trem e comprara um guarda-roupas que apresentou um problema estranho: suas portas abriam toda vez que o trem passava. A loja mandou um técnico que foi a casa dela, apertou todos os parafusos, olhou o móvel por dentro e por fora. Mas assim que o trem passou, as portas abriram todas. Intrigado, o técnico propôs o seguinte: vou entrar no seu guarda-roupas e ficarei lá dentro esperando o trem passar pra ver o que acontece pelo lado de dentro, assim a gente soluciona esse mistério.

Enquanto ele estava lá, chega o marido pra almoçar. A mulher, entretida na cozinha, nem lembrava mais que havia um homem dentro do seu armário. O marido vai até o quarto e abre a porta do guarda-roupas e dá de cara com o técnico. Revoltado, o marido pergunta: "O que diabos você está fazendo dentro do meu guarda-roupas, seu safado?! Ao que o técnico responde: "O senhor vai acreditar se eu disser que estou esperando o trem passar?"

Pois é. A verdade pode ser inacreditável. E geralmente é. Temos medo de contá-la, porque ninguém acreditaria que estamos apenas esperando o trem passar. A verdade não tem obrigação de fazer sentido. De tanta neurose nos relacionamentos, é quase como se a gente pedisse: "minta pra mim, pois não vou acreditar se você disser a verdade!" Verdades absurdas não são para os fracos.

As relações viraram um série de mentiras bem contadas. Temos medo de ser julgados como maus amigos ou namorados, de ser desacreditados, mal-interpretados, olhados com suspeita. Construir relações baseadas na verdade, nem sempre lógica, é difícil. Já a mentira, criada especificamente para fazer total sentido, convence mais, gera "confiança", mesmo que ilusória, reconforta a maioria. Talvez por isso, em vez de dizer pro seu melhor amigo "não tô mais a fim de sair" você diz "tô passando mal, não vai dar pra sair". Em vez de dizer "levei um pé na bunda, fui rejeitada", você diz para os seus amigos que descobriu que não estava a fim do cara, ou finge que ai sair com ele quando não vai, inventa que ainda gosta do ex e ri como louca pra convencer a todos que está bem, ótima, feliz pra burro, I've never been better.

Somos mais convincentes e nos sentimos mais reconfortados vivendo uma vida de histórias inventadas. Fingimos alegria pra ninguém perceber que estamos tristes quando o motivo da tristeza não for bom pro nosso ego, e fingimos tristeza quando queremos gerar "simpatia" ao nosso redor, quando convém sermos o coitadinho da história. No meio de tanta confusão, não dá mais pra saber quem mente e quem diz a verdade.

O que será das pessoas que tem coragem de dizer a verdade no meio de um mundo cheio de mentiras lógicas e convincentes? Fazer o quê? Ninguém disse que é fácil fazer "a coisa certa". O mundo nunca pretendeu ser justo e o nariz de quem mente não cresce. Pinocchio é só história pra criancinhas de pais mentirosos que tem medo que os filhos façam com eles o que eles fazem com os filhos.

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