sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Quando foi a última vez que você virou abóbora ?

Já escrevi um post pensando sobre a possibilidade de pessoas mudarem. Conclusão: sim, a gente muda o tempo todo.


Mudar é simplesmente inevitável.

Mas a questão mais importante de todas é o jeito que você muda. Um pouquinho todo dia ou tu
do de uma vez? De Cinderela a abóbora no meio da noite ou sempre igual até que você percebe que chegou aos 80 totalmente diferente e nem se deu conta? Você prefere um caso previsível e morno ou uma paixão que te faz perder o rumo?



Amores previsíveis, de um lado, não despertam vida, não inspiram. São paisagens às quais nos acostumamos, são quadros que nem percebemos mais na parede, personagens que não nos incomodam nem nos estimulam. Apaixonar-se, por outro lado, é mais violento, mais perigoso... é quase como levar um murro na cara.

Sobre isso, no filme Tempo de Recomeçar (original Life as a House) Kevin Kline tem uma fala que adoro: "change can be so constant you don't even feel the difference until there is one.
It can be so slow that you don't even notice that your life is better or worse, until it is. Or it can just blow you away, make you something different in an instant. It happened to me."

Tempo de Recomeçar é meu filme preferido sobre mudança, porque passeia justamente sobre o equilíbrio entre crescermos e mudarmos pouco a pouco e a necessidade de sofrermos, vez por outra, uma mudança brusca, violenta, que nos faça recuperar a sensibilidade perdida pelos olhos acostumados a paisagem morna da vida.

E o amor e a paixão são assim uma montanha russa. É necessário que um complemente o outro porque o que mantém o interesse é a capacidade que os casais possuem de se reinventarem, o que mantém o desejo de estar com o outro é o sobe-e-desce entre a calmaria e a tempestade, a reconquista. Se só a paixão durasse pra sempre a emoção estaria perdida, porque viraria paisagem.

Amo você quando não é você


Há muito tempo atrás li num texto da Martha Medeiros a notícia de jornal sobre uma casal em crise que, em segredo, trocava e-mails com um pretendente virtual desconhecido usando pseudônimos. Cansados da monotonia um do outro e impulsionados pela percepção de que ainda eram interessantes e dignos de despertar o desejo e a atração em outras pessoas, na "traição virtual" eles eram totalmente diferentes do que eram no casamento: mais sedutores, vivos, ousados e, por isso, mais interessantes e apaixonáveis.

Imagina a surpresa quando cada um foi empolgadíssimo ao encontro secreto com seu amor e viram que, na verdade, estavam "interessados" um pelo outro sem saber. Cheios de moralismo separaram-se alegando infidelidade (por incrível que pareça!). Existe explicação pra isso?


Não há o menor mistério aqui. Já vimos essa história mil vezes. Se toda vez que encaramos um problema fugirmos com a desculpa de que a solução para um relacionamento cheio de obstáculos é ser feliz com outro alguém, pularemos de galho em galho pro resto da vida sem aprender nada, porque cada vez que nos depararmos com um problema, nos refugiaremos em algo novo, viveremos de novo a fase fácil da paixão e, em pouco tempo esbarraremos no mesmo problema, e aí começaremos tudo de novo com outra pessoa, num ciclo sem fim. Faz isso quem não emplaca em um namoro mais do que poucos meses, quem procura um amante quando a relação está monótona.


Relacionamentos não são a salada que nossa mãe fazia e a gente podia catar a cebola. Não dá pra viver só aquilo que gostamos sem olhar o outro. Sim: teremos noites de sexo, surpresas, felicidade. Mas também teremos momentos difíceis, tédio, monotonia.

Gostar do outro não pode ser uma obrigação, porque imposições eliminam o que é essencial na manutenção da alegria, do desejo, da sedução, do prazer: o ser espontâneo, a possibilidade de querer estar com o outro por escolha. E é por isso que a vida precisa ir além do outro e o namorado/marido/amante/caso não pode ser um objeto de realização nem a fonte inesgotável de felicidade.

O que eu quero dizer com isso? Não desista tão cedo, porque é possível apaixonar-se de novo pela mesma pessoa (a história do jornal tá aí pra provar isso). Não é sempre que é necessário trocar de príncipe para dar continuidade ao conto de fadas. Mas não podemos ser abóboras o tempo todo. O que mantém o brilho nos olhos é a mudança, a reviravolta, é dar ao outro a chance de surpreender, de ser quem a gente ainda não foi, e manter o interesse do outro mostrando que ele sempre vai ter alguma coisa pra descobrir em você, como um quebra-cabeças gigante, como as histórias das mil e uma noites que nunca terminam, que nos instigam a querer sempre mais.

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