sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Amores Impossíveis IV

Um dia, depois da milésima tentativa de encontrar sua cara-metade, você chega a conclusão de que NÃO existe ninguém no mundo feito pra você. Se você for minimamente observador, vai perceber também o óbvio: TODO MUNDO vem com um tipo de pimentão, tipo item de fábrica de carro.

Então, logo entendemos que a "pessoa perfeita" não precisa ser perfeita. Ela só precisa ser................. especial... aos NOSSOS olhos. Se depois de entender isso você continua implicando com os pimentões ou qualquer coisa no outro e vivendo um romance morno, acreditando que você provavelmente não gosta tanto dele, isso não significa que o outro é ruim ou bom genericamente falando. Significa apenas que ele é mais um na multidão, que os seus olhos não veem nada demais porque esse "ele" não é especial nem único o suficiente PRA VOCÊ quando você o "enxerga" de olhos fechados. Mais do que isso: ele não é especial o suficiente pra fazer com que você se sinta especial.

Em outras palavras: enquanto pudermos definir ou explicar matematicamente a razão de gostarmos ou desgostarmos daquele que dizemos amar, estamos nos afastando do amor. Você a ama apenas 85% porque ela não é muito atenciosa e não tem as mesmas afinidades? Você o ama 100% porque ele é fiel, bom pai e bom companheiro e vocês gostam das mesmas coisas? Você o ama só 30% "porque os amigos são todos uns galinhas e a mãe dele é um vaca"? Isso pode significar que você o ama de verdade 0%. Se somos capazes de explicar o que sentimos de acordo com o que o outro é, se baseamos racionalmente o amor pelo outro de acordo com as qualidades ou defeitos, então estamos analisando o amor. Quando medimos o amor em números nos afastando dele porque estamos deixando de sentí-lo.

O amor não tem um objeto que possa ser alcançado para nos satisfazer. Enquanto continuamos buscando isso, ou um homem carinhoso, alguém sincero, responsável, que mande flores, que faça surpresasa românticas, dê jóias, assim, assado, desse ou daquele jeito, com essa ou aquela qualidade, continuaremos insatisfeitos. Se, por outro lado, apenas fechamos os olhos e nos propomos a perceber o que o outro nos faz sentir, aí então poderemos ser capazes de cessar a busca e o ciclo eterno de experimentação. Acho que, assim, é possível ser quem somos e gostar do outro do jeito que ele é, na medida em que percebemos que o que somos não é exatamente o que mais importa. O que importa é o que fazemos o outro sentir e o que o outro nos faz sentir.

Esse mesmo estudo que mostra a incrível semelhança entre o amor e a loucura e conclui que a reação de modificação do amor é muito próxima a do vício as drogas também revela o detalhe mais bonito de todos sobre o amor: a nossa reação ao amor muda ao longo do tempo, ativando outras áreas do cérebro. Ou seja: aquela coisa de palpitação e frio na espinha vai passar, eventualmente. Mas outros sentimentos e sensações darão lugar e estes. O amor se expande e se transforma à medida em que o experimentamos e na mesma proporção em que damos espaço para que isso aconteça.

Assim, voltamos ao começo de tudo, a uma condição em que precisamos não só sermos nós mesmos e nos mostrarmos pro outro sem medo das fragilidades que temos, mas também aprender a deixar o amor morrer e nascer todos os dias, aceitar a mudança como a única coisa permanente que existe no amor. O segredo é querer reconstruí-lo vivendo todos os dias antes do amanhã... simples como viver no presente, simples como o amor deve ser e, inexplicável, cego e louco como só um sentimento impossível de definir, tocar com as mãos ou enxergar quando abrimos os olhos pode ser.

Pra terminar essa série de posts, nada menos que Drummond "des-explicando" o amor:

As sem razões do amor ( Carlos Drummond de Andrade)

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

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