terça-feira, 16 de março de 2010

Aprenda a tirar a minha roupa



Se algum maluco com bola de cristal tivesse me dito no início desse ano que eu iria a uma praia de nudismo certamente eu ia achar um absurdo, um despautério... e iria rir e dizer "até parece". Existem coisas que fazemos que, para além de chocar os outros, chocam a nós mesmos. Pois eu, a vida inteira extremamente pudica e sempre envergonhada com meu próprio corpo, fui parar numa praia de nudismo.

Quando eu cheguei lá e vi aquela placa "Praia de Naturismo, favor tirar a roupa" obviamente que entrei em pânico. Pode parecer "óbvio", mas quando eu terminei de tirar a última peça de roupa para ficar como vim ao mundo, era impossível eu me sentir mais pelada que aquilo. Eu não conhecia esse tipo de nudez: eu sentia um desamparo, me sentia tão exposta, queria poder jogar uma canga em cima de mim, qualquer coisa que me protegesse daquela exposição toda.
Depois de me "esconder" na água por um tempo suficiente pra ficar com as mãos e os pés enrugados, eu tive que encarar o meu medo.

Respirei fundo e voltei pra areia, mas eu nem conseguia decidir se sentava, se deitava. Eu me sentia pelada de qualquer jeito. Me sentia julgada por todos os olhares. Então eu tinha duas opções: 1. entrar em pânico e ir embora ou 2. respirar fundo e perceber o óbvio... eu não era a única pelada ali! Casais, gays, um homem que lia jornal, uma gringa, uma grávida com o marido, o moço que trabalhava na barraquinha que vendia água de coco e afins: todo mundo estava pelado - do mesmo jeito que eu. E ninguém estava me olhando. Era o meu olhar que achava isso. E o olhar é sempre a questão, e não o que está sendo visto.


A partir dessa constatação, em meia hora eu era outra pessoa. Estava à vontade com meu corpo e comigo mesma. Porque descobri que não é difícil tirar a roupa perto de um monte de gente estranha. O "respeito" que existe ali é até maior do que na praia em que alguns centímetros de tecido nos separam da nudez. Numa praia normal eu certamente já fui muito mais esquadrinhada e alvo de olhares lascivos do que ali. A única coisa realmente indecente que tinha naquela praia era o preço da água de coco: mais de 10 reais!!! Eu era só mais uma pelada naquela praia, IGUAL. Um igual não julga outro igual. Difícil mesmo é se despir para o olhar que julga, o olhar daquele que é diferente de você. Não é uma questão de ser bonito ou feio, mas de ser aceito, aprovado.

Até a praia de nudismo eu não entendia como algumas pessoas conseguiam ir pra cama com um desconhecido, tipo one night stand, tirar e a roupa e se expor tanto pra alguém totalmente desconhecido. Mas eu descobri que tirar a roupa é só um detalhe, tem gente que faz isso sem pensar. Expor medos, fragilidades, expor a alma, é muito mais difícil que expor o corpo. Me chamem de romântica desvairada, mas é por isso que eu acho tão especial o ato de tirar a roupa pra alguém que te vê além da nudez e que te dá em troca muito mais do que umas peças de roupas a menos.

Acho que não existe um melhor jeito de tirar a roupa de alguém, ou seja: não importa se você tira peça por peça, com intervalos longos ou curtos entre tirar uma blusa e uma saia. Pra tirar a roupa, importante mesmo é que você esteja certo de que mostrou antes tudo aquilo que realmente importa e que percebeu no outro o que você está procurando. É preciso que você tenha certeza de que o outro quer não só tirar a sua roupa também, mas ver você por inteiro. Do contrário, veremos só um corpo... perfeito, ou com gordurinhas extras, uma estria aqui, uma cicatriz ali, celulite... pneuzinhos... dois pelados no mundo. Pra mim, nesse caso, se é só pra ficar pelado, que seja de frente pro mar, num lindo dia de sol, numa praia deserta, que é muito melhor.

PS.: A foto é a da praia que fui, fica em Buzios, depois de uma trilha à pé que começa na Praia Brava.

3 comentários:

  1. pagava 500.000 reais pra ver nossa AMIGA MILK lá.......hahahhahahahha....
    bjoooos

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  2. Lindo texto, Lu. Quando estive na Brava pintou a ideia de ir à essa praia e não tive coragem... Quem sabe agora depois de ler seu relato eu consiga ir?
    bjs

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  3. Hahahaha. Bem que eu convidei a Milk pra ir, Wess... mas vc conhece a criatura né? Ela falou que quer ir fazer topless em Ibiza, rsrsr

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