terça-feira, 23 de março de 2010

Até que o tédio nos separe


Eu tenho poucas certezas nessa vida. Uma delas é que, haja o que houver, seja como for, existe um acontecimento inadiável em TODOS os relacionamentos: o tédio. Um dia a monotonia VAI tomar conta do seu relacionamento, é só uma questão de tempo. E quando esse dia chegar, você vai descobrir que precisa de um novo Relationship Status no Orkut: Boring.

Nesse status, você ficará apático e sorumbático com relação ao outro, agindo no piloto automático, com respostas monossilábicas para tudo E/OU vai ficar muito suscetível a irritação: TUDO, até mesmo as coisas que antes eram boas ou indiferentes te farão ficar impaciente; mesmo aquelas tardes inteiras de domingo de sessão pipoca no sofá - interrompida por beijinhos apaixonados - será mais monótona e enfadonha do que enxugar gelo. O tédio pode te transformar prematuramente em um rabugento de 99 anos...

Se você observar tudo friamente pode perceber uma coisa curiosa: frequentemente não há nada de errado com a outra pessoa... ela ainda é aquilo tudo por que você se encantou quando se apaixonaram: bonita, inteligente, divertida. Qual será o problema? Será que acabou o amor? Um amigo recomenda que vocês façam alguma coisa. Uma lingerie nova. Uma viagem a dois. Um jantar romântico, à luz de velas. Pode até funcionar... por um tempo.

A culpa é de quem?

Manter a paixão acesa é difícil justamente pela noção distorcida que temos sobre o que mantém um relacionamento com vida. Pensamos que o problema está na relação, que o outro não nos estimula mais. Nos seguramos no outro como se ele fosse uma bóia de salvação contra o mundo cruel que nos espera lá fora.


Dificilmente imaginamos que o fato de a relação estar morna ou mesmo fria pode ter mais a ver com nós mesmos do que com o outro. Às vezes, a melhor maneira de salvar um relacionamento que perdeu a paixão mas onde ainda existe amor e admiração é investir em si mesmo. Não é a energia da relação que nos move, é a nossa energia que move a relação a dois.

Ao contrário do que parece, o tédio a dois pode ser sinal de que nos tornamos insensíveis a nós mesmos e à necessidade que temos de mudar e de encontrar um novo equilíbrio. Quando fazemos só o que esperamos e o que é esperado de nós, reforçamos um padrão automático que transforma a vida num ciclo previsível e, portanto, chato.

Quando nos acomodamos, acabamos por nos sentir apáticos e acomodados também com relação ao outro porque nos sentimos mais sozinhos. Essa solidão pode ter a ver com o fato de estarmos parados com relação à própria vida. Ela é a noção repentina de que todo o resto do mundo está se movendo e você não. Não foi a vida ou o outro que ficou mais chato, foi você.

Surpreenda-se!

Se você não chacoalhar sua vida de vez em quando, se não se horrotizar consigo mesmo, se não tiver coragem de transgredir e vencer o medo ou a vergonha de fazer algo novo é provável que perca a capacidade de perceber que o seu mundo ficou pequeno. Um mundo estreito é um mundo que não comporta nada novo, em que não existem mais surpresas e... portanto, só existe mais do mesmo: o velho e conhecido tédio.

Uma vez li em algum lugar que surpreender os outros é fácil, porque pra fazer isso a gente parte daquilo que já sabe, dos nossos próprios talentos. A coisa mais difícil, no entanto, é surpreender a nós mesmos. Só quem é capaz de surpreender a si mesmo pode entender o quanto é importante abandonar as velhas "convicções" às quais nos acostumamos para crescer, mudar e tornar-se maior. Somos mais diversos do que imaginamos e nossa natureza é mutante: quando nos surpreendemos e fazemos algo inesperado e espontâneo, nos tornamos maiores porque expandimos para acomodar um novo "eu" que nem sequer imaginávamos que existia.

Fazer algo totalmente inesperado e novo (aprender a dançar, escrever um livro, fazer teatro, viajar sozinho), horrorizar-se (como quando eu fui a uma praia de nudismo, por exemplo), mudar de emprego, descobrir-se mais livre, mais inteligente e irradiar sua energia pelo mundo renova o brilho nos olhos e o próprio sentido da vida. Só conhece o tédio quem não encontra sentido no que é e no que faz. Quando a gente se move pra um mundo novo, nosso próprio mundo fica mais largo.

No momento em que você for capaz de surpreender a si mesmo, provavelmente será capaz de ter um novo olhar sobre o tédio da sua relação. Ter uma vida própria e surpreendente não garante que o relacionamento estará a salvo. Mas, na medida em que somos capazes de entender que nenhum relacionamento é responsável por nos livrar do tédio, temos uma garantia melhor, que é a de perceber exatamente as duas únicas coisas que um relacionamento pode nos dar: amor ou nada. O resto é por nossa conta!

Ou seja: se você revolucionou sua própria vida e a relação continua monótona, sem sal, então tudo fica muito simples, só existe uma prescrição: ao persistirem os sintomas [do tédio], tente outro medicamento [ou o namorado] ;-)

4 comentários:

  1. "ao persistir os sintomas, tente outro medicamento"... é a frase que melhor conclui o raciocínio. Nem sempre o problema está conosco, mas sim na companhia. Porém, entretanto, todavia, nem sempre também estamos dispostos a trocar, ou simplesmente, deixar sua companhia à deriva. É complicado sempre perceber que, NESTE CASO, o melhor é colocar um ponto final. No fundo, você sempre acha que a solução para o tédio é tentar acabar com ela, insistindo na companhia. No meu blog, escrevi um texto que tem a ver com isso que vc escreveu. O nosso cérebro vive a novidade, e tudo que vira rotina passa despercebido. Beijos http://rascunhopassadoalimpo.blogspot.com/2010/03/cerebro-humano-vive-novidade.html

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  2. Discordo que sempre aconteça o tédio. Se os dois forem bem resolvidos com as próprios gostos e coisas e continuarem sendo bem resolvidos juntos, tem tudo pra dar certo, não?

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  3. Não sei se você já teve relacionamentos bem longos, Felipe. Mas os relacionamentos costumam, de alguma forma, acompanhar o nosso estado de espírito em alguns momentos. E temos altos e baixos, às vezes. Eu me acho bem resolvida, mas não é uma coisa que acontece do dia pra noite. Então, você pode estar certo... e eu torço pra que esteja e que eu encontre um homem bem resolvido pra fazer par comigo e juntos engarmos o tédio ;-)
    Em tempo: só pq o tédio (que eu acho que tem solução) surgiu na relação, também não significa que não está dando ou que não vai dar certo...

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