segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre traídos e traidores II

Você é o próprio Neo em Matrix e está ali olhando pra pílula vermelha e pra pílula azul e não sabe qual tomar. A loira gostosa provocante ou a minha namorada fofa? Essa menina de vinte e poucos anos que me faz sentir vivo depois de 20 anos de casamento infeliz ou a minha mulher que reclama de tudo o tempo todo e está sempre com dor de cabeça?

Não importa se você vai tomar a pílula azul ou a vermelha, se vai trair ou não. A pergunta e não a resposta importa muito mais se a gente quer entender a traição de verdade. O mais importante é pensar no que foi que te levou a estar ali, olhando suas duas opções de frente. Dúvida, culpa, desejo, decepção, covardia, egoísmo, infelicidade, ambiguidade, carência, paixão. O que é que te leva a decidir entre pular ou não a cerca?

Trair não é reflexo, não é como se de uma hora pra outra você se visse pelado na cama com um(a) desconhecido(a). Não é como se você caísse de pára-quedas num por-do-sol fazendo planos com um outro alguém "não-oficial". Não é como matar um mosquito que está te picando sem pensar, como auto-defesa. Quando você chega à encruzilhada do traio-ou-não-traio, muita coisa já deve ter acontecido - ou deixado de acontecer - muito antes.

Ele trai sua mulher e, ao ser descoberto, se justifica: "o que aconteceu com aquela mulher não teve a menor importância". Ela se apaixonou por outro. Dois filhos, relação estável e... totalmente falida. Presa a tudo isso, respira fundo, resiste. Muda de itinerário, passa longe da tentação. Volta pra casa orgulhosa de si mesma e da sua fidelidade. O marido está no sofá vendo TV. Ele a ignora, ignora os próprios filhos; sente-se infeliz, faz todo mundo infeliz e trata a todos com um sentimento profundo de raiva, porque afinal, sem perceber, ela enxerga na fidelidade prometida e na obrigação do "felizes para sempre" a razão de já se sentir morta, sem vida e sem paixão antes mesmo do fim.

Quando eu traio, a quem eu traio, afinal? Pode-se dizer que quem ama não trai? Talvez você que lê isso agora tenha essas respostas, eu não. Assumindo que seja possível trair amando, é simples definir quem é o traidor e o traído dessas histórias? Se você perder a mulher que ama, se magoá-la a tal ponto de a relação tornar-se inviável, a quem você está traindo mais: a si próprio ou ao outro? Se você passar a vida inteira fiel e infeliz e fazendo outro infeliz, que propósito tem a fidelidade?

Conheço homens inseguros que traem simplesmente por medo de serem traídos e se sentirem idiotas, passados pra trás. Conheço mulheres que traem o homem atual para se vingar de todas as traições que sofreram no passado e das quais nunca se recuperaram. Pouco a pouco, talvez a gente perceba que nem se trata mais de traição, porque ela é, no final das contas, apenas a ponta do iceberg.

POSTS RELACIONADOS

3 comentários:

  1. Eu sei que por mais que a gente invente um outro olhar sobre cada situação, o que vai restar lá no fundo, lá no seu íntimo, é que você traiu. A pessoa pode até tentar ou fingir esquecer que traiu, mas vai carregar algo disso. Eu parto do princípio que tá tudo ligado e que nada acontece por acaso. Nem que seja pra você se tornar alguém mais enrolado ainda, mas aquele instante vai estar ligado a alguma coisa que vai desequilibrar, caso esteja à procura de algum equilíbrio.

    ResponderExcluir
  2. Fala cabelo.... Trair e ser traido faz parte de viver a vida. É escroto, mas todos passaram por isso em algum momento da vida e isso faz parte do amadurecimento.
    Sei que é meio esgoista, mas sua única obrigação é ser feliz. Tem gente que é feliz traindo por "n" motivos, ou por motivo algum, tem gente que é feliz tomando chifre e fingindo que não vê e tem gente que tem "culhões" de saber o que quer e não quer e fazer o que é "certo".
    Cada um é cada um... ninguem é perfeito e temos que aceitar como as pessoas são.

    ResponderExcluir
  3. Eu não concordo nem discordo de vocês dois. Aliás, o que eu estou falando sobre traição é justamente isso: não se define certo e errado. Eu não estou falando sobre se entir culpado por trair nem em se sentir magoado por ser traído. Fomos educados na dualidade: certo e errado, traído e traidor. Minha visão é que, na vida real, tudo se mistura. Todo mundo tem um pouco dos dois. Mas... Felipe: não acho mesmo que a traição é o que desequilibra. O ato em si é nada, porque antes mesmo de você consumá-lo, você já traiu... e acho que é a razão da traição que pode ser, talvez, um motivo de culpa e não a traição em si.

    ResponderExcluir