quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sobre traídos e traidores III

Eu acredito que é possível dizer que nem sempre quem trai é o traidor da relação. E nem sempre quem é fiel é de fato o bom moço. Acredito que ser fiel por convenção social ou covardia - e não por escolha - é como enganar a si mesmo, e isso também é uma forma de traição. Ter vontade de trair e não fazê-lo é uma fidelidade hipócrita. E isso serve pra quê?

Existe uma arrogância no "eu sempre fui fiel" como se essa fosse a única coisa que se espera do outro, ou como se fosse a coisa mais importante da relação a dois. Será que de fato é? Existem mil e uma maneiras de trair e magoar alguém que não envolve necessariamente ir pra cama com outra pessoa e que podem, aliás, ser muito mais cruéis que a traição em si. Por isso acredito que nem toda fidelidade é necessariamente boa. Da mesma forma, nem toda traição é ruim.

Fidelidade boa não exige "esforço" e não busca uma medalha, não é moeda de troca para ser admirada pelo parceiro, não é nem sequer um argumento pra ser amado de volta. Você é fiel porque é, porque quer ser, porque "sente" que é a coisa certa pra você. E ponto.

Traições, em face das fidelidades hipócritas, podem ser libertadoras na medida em que revelem muito sobre nós mesmos e sobre o outro e permitam recomeços e uma nova percepção do que realmente é importante num relacionamento. A traição pode nos fazer enxergar um relacionamento para além do contrato que diz "você me pertence e eu te pertenço". Pra algumas pessoas, trair ou ser traído pode ser a única forma de acordar, por mais absurdo que isso possa parecer pra quem está de fora. Sim, existem traições covardes, egoístas e egocêntricas. Mas também existem fidelidades tão cruéis quanto a pior das traições que, de tão hipócritas, geram doenças na relação.

Não estou defendendo aqui a traição, mas apenas acho - ao contrário da convenção - que é mais condenável ser um fiel hipócrita que um traidor consumado. Ou seja: defendo a relativização da traição. Como diz o Nilton Bonder, "aquele que engana a si mesmo é mais perverso do que o que engana os outros. O que engana os outros está muito mais próximo de cair em si do que aquele que engana a si mesmo". Talvez por estarmos traindo também a nós mesmos quando traímos o outro nos sintamos tão culpados. Pra alguns, a traição expõe aquilo que não quer ser visto: quem engana a si mesmo, acaba roubando não só a própria possibilidade de um futuro real e autêntico, mas também atrapalha o futuro do outro, que vive se baseando numa fidelidade que tem o fundo falso.

Sob esta perspectiva, os velhos papéis do traidor (como o lobo mau da história) e do traído (o coitadinho, enganado) podem se inverter ou, no mínimo, ser questionados. Mais do que nos preocupar em medir o relacionamento pelo termômetro da "fidelidade" - que supõe falaciosamente que se não estamos sendo traídos, logo estamos sendo amados - deveríamos enxergar o termômetro da cumplicidade, do quanto o outro nos faz rir, do quanto nos apóia e se preocupa de verdade com nossa vida e com nossos sentimentos. E, ao olhar pra tudo isso, devemos nos perguntar também se correspondemos ao amor que o outro nos dá.

Seja como for, no final das contas, torço pra que ninguém se veja diante da pílula azul e da vermelha, entre o trair e o não trair. Mas, se isso acontecer, torço pra que não seja uma escolha vazia, e pra que você perceba qual é o caminho certo pra VOCÊ. Quando o assunto é traição, todo mundo tem o teto de vidro. É por isso que eu adoro o texto do Nilton Bonder (de novo ele) que convida todo mundo a mandar esses moralismos bestas pra %$#@##@#$$$$ ... e diz que, a despeito de todas as convenções e do que os outros acham que é certo, nós temos em nós mesmos um olhar que sabe EXATAMENTE pra onde estamos indo e o que devemos fazer:

"Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, QUE NÃO HESITA em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o da alma"

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6 comentários:

  1. Do jeito que o mundo é, se o cara te trair só uma vez com uma mulher que ele nunca mais vai ter contato, considere um ato de amor. Porque neguinho não se contenta em cometer um deslize, digamos, físico, mas em ser canalha, faltar o respeito: pegar a mulher que senta do seu lado no trabalho ou ter um caso com a irmã da namorada. E eu adoraria estar inventando esses exemplos, mas conheço quem tenha feito isso.

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  2. Putz, eu SEI q vc não está inventando!

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  3. Muito legal esses devaneios... Acho q o problema maior é saber de traição. Como dizem por aí, o q os olhos não veem o core não sente. rsrs...

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  4. E tem também o caso do cara que pegou a mulher do trabalho em uma viagem, na qual deixou a esposa grávida em casa. E que inspirou o post "sabedoria das amigas XIV".

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  5. Luca, concordo com você. Conheço outras mil histórias iguais a essa!

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  6. perfeito! e acho tão difícil encontrar pessoas que concordem com esse pensamenento. os homens que concordar, concordam apenas quando a traição é da parte deles, rsrs. se a traição for da mulher aí eles não sustentam esse discurso. rs. mas enfim, parabéns pelo texto! mais uma vez, perfeito!

    Danielle

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