quarta-feira, 2 de junho de 2010

O sono compartilhado

Sempre achei que, quando você está ficando com alguém, a intensidade do seu sentimento por esta pessoa é inversamente proporcional à pressa que você tem para vê-la sem roupa. Calma lá, eu não disse que você não tem vontade. Você apenas não tem pressa.

Se você realmente está a fim de alguém, tanto faz se vocês vão consumar o relacionamento hoje ou no próximo encontro. Porque você quer que haja um próximo encontro e só estar junto com seu pretendente já é bom te faz feliz por si só. O sexo será a cereja do bolo dos motivos que te fazem querer ficar com ele/ela e quando acontecer você sabe que será ótimo. Mas se você está interessado só em sexo, então não quer perder muito tempo cortejando (não consegui achar nenhum outro termo que traduzisse melhor a ideia) o seu alvo. Entre sair de casa sozinho e voltar acompanhado, o objetivo é gastar o mínimo de tempo e dispender o mínimo de esforço possível; rezar para a pessoa vire uma pizza (do Braz) no dia seguinte e partir para a próxima.

Eu adoro escritores que conseguem traduzir em palavras certos sentimentos ou raciocínios que eu sempre tive, mas nunca soube muito bem explicar, como o que eu acabei de exemplificar. Quando eu li "A insustentável leveza do ser" estava num momento sono compartilhado sem me dar conta e achei em Milan Kundera o meu ghost writer. Então eis o pensamento acima, de uma forma muito mais poética:

"Com as outras mulheres ele nunca dormia. (…) Portanto, qual não foi sua surpresa quando acordou com Tereza segurando firmemente sua mão! Olhou-a e custou a compreender o que estava acontecendo. Evocou as horas que tinham se passado e acreditou respirar o perfume de uma felicidade desconhecida. (…) Tomas pensava: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes, mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher)”.

. Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser .

3 comentários:

  1. No fundo é a mesma coisa do "I wanna hold your hand"

    Bjo

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  2. Aquele papo de alguem se inscrever na nossa memória afetiva é tudo...

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