quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Não acredito em alma gêmea - pronto, falei


No livro Comer, Rezar e Amar, uma psicóloga estava preocupada porque ia trabalhar dando assistência a refugiados. O medo dela era lidar com coisas que ela nunca havia experimentado e com uma realidade distante da vida dela: pessoas que além de perderem todos os seus bens (casa, roupas etc.) perderam também familiares. A surpresa foi descobrir que, no geral, as questões dessas pessoas eram as mesmas dos consultórios, tipo uma mulher de vinte e poucos anos dizer: “ah, eu estou arrasada porque eu conheci um cara no outro campo de refugiados e ele prometeu que viria comigo e me trocou por outra”.

Por que será que o tema relacionamento é tão presente na vida das pessoas? Com um certo exagero, às vezes chego a pensar que o coração é uma das maiores fontes de sofrimento do planeta. E eu conheço muitas pessoas que vivem amarguradas uma vida inteira por causa de um relacionamento ruim, ou pelo menos é o que elas acreditam.

Sob um outra perspectiva, acho que o sofrimento vem, na verdade, da nossa obsessão com os relacionamentos, do desejo insano e inconciliável de encontrar alguém que nos “complete”, de enxergar a vida a partir do outro e até mesmo de responsabilizar o outro pela própria felicidade. Essa é a idéia que muita gente faz de alma gêmea. Não estou dizendo que não devemos sonhar em encontrar alguém, nem que temos que ficar sozinhos pra sermos felizes. Estou apenas defendendo a idéia de que cada um deveria assumir a responsabilidade por sua própria infelicidade e também pela felicidade.

Não acredito que exista uma só pessoa dentre os sete bilhões de pessoas do mundo feita sob medida pra você. Acredito que nos magoamos e nos decepcionamos nos relacionamentos porque insistimos no caminho inverso ao que serial natural e razoável para construir o amor. A maioria das pessoas primeiro imagina o par perfeito, idealiza uma pessoa cheia de qualidades – com nenhum defeito, claro – e depois fica tentando encaixar as pessoas que conhece dentro do seu padrão idealizado. E assim a gente se apaixona por um holograma e quando conhecemos alguém ficamos tão ansiosos pela possibilidade de ser “a pessoa” que procuramos, que nos esquecemos de olhar para a pessoa com a qual estamos de fato.

O resultado é uma máquina de infelicidade: independente do quão especial seja a pessoa do nosso presente, quais são afinal as chances de que ela seja igual à pessoa irreal que se imaginou e desejou? O caminho mais maduro seria relaxarmos com relação a expectativas e deixarmos alguém nos conquistar e nos fazer sentir aos poucos (sem fantasias) vontade de ter uma vida junto. Dessa forma, poderíamos apreciar qualidades que talvez na nossa imaginação nem teríamos pensado que seriam legais e enxergar – por que não? – os defeitos de forma honesta, sabendo que as qualidades estarão sempre lá, mas que os defeitos também e não devemos colocá-los debaixo do tapete: é preciso encará-los e perguntar: será que consigo não só relevar isso, mas até mesmo amar isso como parte da pessoa que eu digo amar?

Eu não sou conselheira nem psicóloga, mas se me perguntassem o que acho que pessoas que sofrem muito por amor poderiam fazer para parar de sofrer, eu diria para tirarem esse disco arranhado cheio frases feitas, tipo “mulher é tudo igual”, ou “homem não presta”, ou ainda “casamento é igual a cadeia” ... e colocar o coração de férias, limpando da mente desejos e expectativas construídos por longos períodos de síndrome da cinderela.

Se você não sabe de que lado você está e não consegue perceber se está ou não vivendo a síndrome de cinderela, é simples descobrir: olhe para todos os homens ao seu redor e responda a si mesma se algum deles se parece ou poderia parecer com o príncipe encantado dos seus sonhos.

Um comentário:

  1. Muito bom! A idealização é sempre uma armadilha. Por isso que o seu conselho é muito bem-vindo. Relaxar e nos deixar conquistar por uma pessoa real com qualidades e defeitos. É por aí...

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