segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Eu e eu mesmo vezes a minha própria pessoa


Joãozinho termina com Mariazinha. Ela sofre por um tempo e depois fica com raiva de sofrer e resolve aproveitar a vida que segue - encontra Pedrinho. Joãozinho fica sabendo que Mariazinha está com outro, tem uma súbita e inexplicável vontade de reatar o relacionamento e ressurge choramingando e dizendo que nunca esqueceu Mariazinha, que a ama etc e tal.

Geralmente, nessa historinha, independente se o motivo do fim foi ou não plausível, um ainda sente que gosta do outro de alguma forma, mas se recusa a "reatar" por orgulho besta, até que os dois trocam tanto os pés pelas mãos e as coisas chegam num ponto de acúmulo de orgulho e de mágoa pré e pós fim do namoro que reatar seria suicídio amoroso: os dois passariam a vida a dois remoendo mágoas e apontando dedos.

Não estamos inventando novas formas de amar, não estamos aprendendo muito com nossos erros, não percebemos sequer o óbvio que deveria estar subentendido na palavra relacionamento: ele é feito de dois - existe sempre o "outro". Contrariando essa lógica, a regra é as pessoas só se relacionarem consigo mesmas.

Mariazinha não decide reatar ou deixar de reatar baseada no sentimento que ainda existe e na admiração e amor que sente ou deixa de sentir por Joãozinho. Decide-se não voltar por causa do pé na bunda (ainda que tenha sido merecido) que resulta numa espécie de "direito adquirido” de fazer o outro sofrer justificadamente: "tá vendo, terminou comigo agora aguenta, tem que sofrer". É direito de qualquer pessoa com o orgulho ferido agir de forma a se sentir quite ou para recuperar sua “auto-estima”, certo?

Por sua vez, Joãozinho, com ou sem razão de ter terminado, também não reatou ou deixou de reatar antes de saber de Pedrinho pura e simplesmente por não querer dar o braço a torcer, por ter orgulho de pedir pra voltar baseado na certeza de que está com a razão e foi ele quem terminou, portanto seria-humilhante-demais-pedir-pra- voltar-estando-certo.

Tudo o que realmente deveria ser levado em conta nessa equação é totalmente esquecido. O relacionamento se resume a uma briga do "eu tenho a razão" misturada com egos feridos e orgulhos inúteis. Se os dois precisam de um espaço para repensar a relação ou se ainda se ama ou não, pouco importa, a prioridade é EU SER FELIZ – ainda que a única felicidade possível seja atender aos meus desejos mais imediatos e muito pouco nobres. Estamos sempre pensando em nós mesmos e o mais irônico disso é que sempre que fazemos isso, o resultado é mais sofrimento do que felicidade. Numa relação de cada um por si e contra o outro, como é possível crescer e encontrar equilíbrio, ou um novo amor (ou seja lá o que for!) agindo sempre com base em sentimentos incompatíveis: raiva, mágoa, orgulho, vingança?

Qual é o resultado mais provável quando numa equação de dois a gente só se relaciona consigo mesmo? Não é possível encontrar a felicidade sendo egoísta porque enquanto estou pensando no meu próprio umbigo, não só ignoro o outro, mas também a mim mesmo e aquilo que realmente quero.

Aqueles que assumem que torturar quem deu um pé na bunda é a coisa mais justa, inteligente e correta a se fazer podem até colher aquele sentimento de desforra, de auto-estima recomposta num curto prazo. Sim, esse sentimento de vingança pode ser gostoso, acho que todo mundo é capaz de admitir isso.

O problema é que, tal e qual o efeito de compra de uma roupa nova, a alegria vingativa passa rápida. Se pra minha auto-estima ficar em alta eu preciso diminuir a do outro agindo de acordo com sentimentos pequenos, posso assegurar que logo, logo essa alto-estima de araque irá ruir e precisará de alguma outra coisa ou pessoa pra tentar remendar o estrago.

O bom de ser humano é a capacidade que temos de fazer escolhas. Quando a gente percebe e entende o saco sem fundo que é construir relações egoístas, temos a chance de aprender a nos relacionarmos de maneira mais amorosa, considerando nossos sentimentos, os sentimentos do outro e agindo da maneira que gostaríamos que agissem com a gente.

Longe de apontar o dedo ou julgar, até porque no quesito relacionar-se-consigo-mesmo eu devo ter sido pelo menos campeã estadual - a ideia é apenas partilhar o que eu aprendi e falar de algo que eu vejo muito nos outros porque já vivi isso - I have been there.

Uma vez que a gente descobre o quão estúpido é agir pensando apenas no prazer e na satisfação imediata de "dar o troco", entendemos que o amor não medíocre não é nada fácil. Por outro lado, não conheço nenhum lugar pior do que aquele em que enxergo o amor a partir do meu próprio umbigo.

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