sexta-feira, 18 de maio de 2012

Não me deixe só, eu tenho medo do escuro



_ Você me assusta! [disse o menino apaixonado que pretende não ligar na semana seguinte, alegando estar com medo de se envolver]

Vamos assumir que a pessoa que está escutando essa frase não é do tipo que realmente assusta qualquer um: desesperada por um namordo(a), louca ou psicopata que diz pra alguém que acabou de conhecer que quer casar ela, ter filhos, conhecer os pais e comprar uma casa com quintal e um cachorro.

Não digo 100%, isso seria muita arrogância; mas as chances de alguém de fato apaixonado dizer um "você me assusta" com sinceridade seria de, hummmm.... 1%, talvez? E as chances de essa frase ser sinônimo de "não estou tão interessado em você" ou "não gosto de você o suficiente pra esticar o braço" seriam de 99% [se ele sumir, provavelmente 100%]. .

Posso não ser a melhor escritora de textos sobre relacionamento, a melhor namorada ou entendedora das coisas do coração. Mas de uma coisa eu sei sobre apaixonar-se: fugir é provavelmente tão difícil quanto ficar. De um lado temos medo - de não sermos correspondidos, do poder que o outro exerce sobre nós, da fragilidade que se sente ao se perceber perdida e irremediavelmente apaixonada -, e do outro lado, temos medo também de não viver essa coisa arrebatadora e "abrir mão" dessa sensação de andar nas nuvens.

Medo e deslumbramento. Não dá pra negar que é difícil se entregar a isso sem ressalvas, sem se achar maluco e inconsequente, sem se sentir suicida por querer se jogar nos braços de algo que faz a gente se sentir frágil e exposto. Eu me perngunto por que diabos nos ensinam tanta matemática, física, química, biologia e gramática e ninguém nos diz o que fazer quando nos apaixonamos? Infelizmente a preocupação máxima dos nossos pais não foge muito de: 1. não nos envolvermos com drogas, 2. não engravidarmos antes da hora, 3. tirar boas notas, 4. fazer faculdade, ganhar dinheiro e ser alguém na vida.

Crescemos num mundo de expectativas em que esperam muitas coisas de nós, mas ninguém se preocupa com o que nós podemos esperar. Sem querer, nossos pais se esforçam tanto pra nos manter seguros e felizes o tempo todo que criam um mundo irreal de felicidade de comercial de margarina ao nosso redor até os limites do impossível.

E uma das primeiras descobertas de que não existe tal segurança no mundo acontece geralmente quando gostamos de alguém. A Fórmula de Bhaskara não equaciona saudade nem amor platônico. É impossível lidar com sentimentos e emoções com base em previsibilidade, racionalidade e planejamento. Quando gostamos de alguém, esforço não garante recompensa. E é aí que a gente se pega pensando: "acho que faltei a essa aula".

Desejamos encontrar nas nossas relações a falácia que nossos pais nos prometeram na vida: segurança, proteção, blindagem total contra sofrimento e decepção, além da realização garantida de todos os nossos desejos. Guess what? Em vez disso, encontramos imprevisibilidade total, um medo visceral de fazermos papel de bobos e ridículos, de não sermos correspondidos ou, se o formos, de que o outro perca o interesse. Temos medo de confiar e sermos traídos, temos medo fazer planos, de sonhar alto e cair da nuvem, de expor qualquer fragilidade que possa permitir que o outro perceba o quanto temos de fato medo.

E se damos a sorte de sermos totalmente correspondidos e felizes, trilhamos outro caminho complicado que é o do apego à relação, aos planos, ao projeto de vida que inclui o pacotão da felicidade. Isso se torna tão importante que ficamos cegos com relação a realidade e deixamos de atuar baseados no que é, para vivermos de acordo com o que gostaríamos que fosse. Dessa forma, amplificamos tudo o que é bom e jogamos pra debaixo do tapete o que é ruim. E assim muitas relações que já acabaram seguem super felizes no mundo do faz de conta porque, de novo, TEMOS MUITO MEDO.

Meu Deus, o que eu faço quando sinto ciúme? Como é que se aprende a perdoar? E se ele se apaixonar pela minha melhor amiga? E se não der certo? E se der certo? Não é nada fácil encarar "a vida como ela é" porque aprendemos desde cedo a negar a realidade. Se nossos pais e professores nos ensinassem a lidar com tudo que não gostamos desde pequenos, não tentaríamos controlar tanto a vida, não seríamos tão loucos a ponto de resistir ao inevitável (ao que é) e entenderíamos que dor, alegria, felicidade, tristeza, paixão, ciúme e tudo o mais que experimentamos são a própria vida.

Ainda não sei ao certo o que a vida É, mas pra mim não faria sentido se a vida fosse um exercício de controle cujo objetivo é não se expor e obter a melhor relação custo-benefício: o máximo de felicidade com o mínimo de risco de um coração partido. Talvez a vida seja muito mais uma jornada para aprender a lidar com os opostos do que uma jornada de exclusão de todos os polos negativos.

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