terça-feira, 19 de junho de 2012

Mentiras sinceras me interessam


(Vídeo: Depeche Mode - Lie to Me)

Talvez House esteja certo e seja uma verdade da condição humana que todos mentem, por milhares de razões – e razão é o que não falta – e que a única variável é sobre o quê mentimos. Todo mundo parece muito irritado com todo mundo por causa da mentira e, nos relacionamentos, um dos maiores vilões - adivinhem só - é a falta de confiança.

No entanto, todos nós aprendemos a negar a realidade desde pequenos. Mentimos pros nossos pais pra fugirmos do castigo. Mentimos pro chefe pra justificar aquela soneca de 5 minutos que durou duas horas. Mentimos pro namorado pra evitar dor de cabeça ou pra esconder o lado da gente que ele não ia gostar de conhecer. Mentimos pro professor pra justificar atraso na entrega do trabalho. Mentimos pro amigo pra não deixá-lo triste quando estamos desanimados pra ir na festa de aniversário dele. Mentimos pros filhos na tentativa de poupá-los, protegê-los ou fazer com que eles obedeçam.

Tenho a sensação que a verdade que se idolatra nos relacionamentos é superficial e que a única confiança que importa é aquela que nos dá controle sobre o outro, é o "saber tudo" que indica que não estamos sendo traídos e nem seremos surpreendidos: não quero saber o que o meu amor pensa, quero saber se ele pensa o que eu desejo. Na confiança que queremos nem sempre há intenção de construir uma relação verdadeira e sincera, porque estamos mais interessados na versão da vida que nos agrada do que na Verdade em si.

Tanta gente pensa que dizer a verdade é tão nobre! Mas será que ser verdadeiro e sincero tem a ver apenas com "dizer a verdade"? A fidelidade é endeusada não por talvez representar amor, mas por causa do sentimento de posse que temos com relação ao outro e por causa da preocupação que temos com o nosso próprio umbigo.  

Acredito que enquanto agirmos tentando agradar à moral vigente, a nós mesmos e aos outros, estaremos perdendo a nós mesmos. Por outro lado, se existe sinceridade, verdade e mentira não ficam parecendo palavras sem significado, meros conceitos relativos e desnecessários?

Se mentirosos negam a realidade para os outros, aqueles que tem certeza absoluta de serem algo que não são, negam a realidade para si mesmos: isso sim é de fato fazer papel de bobo! 

Prefiro um homem com desejo sincero de ser alguém especial, "melhor"(porque de fato quer me conquistar) e que tenta me impressionar mesmo tentando parecer ser alguém que talvez ele não seja inteiramente, mas gostaria SINCERAMENTE de ser, do que um cara que acredita ser um partidão, com a família perfeita, "simples", humilde, com amigos incríveis, conhecedor de tudo o que se possa imaginar (de gastronomia a economia, cultura, viagens, bestsellers e cinema cult) e no final das contas é, em todas as suas atitudes, extremamente arrogante e egóico, só fala de si o tempo inteiro e - embora ele não se dê conta em momento algum - está interessado exclusivamente nele mesmo.   

O escritor e filósofo espanhol George Santayana descreveu com perfeição uma coisa que sempre acreditei: que as "máscaras" que tanto abominamos e criticamos são parte de todos nós: "As máscaras são expressões controladas e ecos admiráveis do sentimento, ao mesmo tempo fiéis, discretas, supremas. As coisas vivas em contato com o ar devem adquirir uma película, e não se pode argumentar que as películas não são corações; (...) palavras e imagens são como as conchas, não menos parte da natureza do que as substâncias que as cobrem, porém melhor dirigidas ao olhar e mais abertas à observação".

Se eu tivesse que escolher entre o mentiroso sincero ou o hipócrita, que seja o primeiro. Mentiras sinceras me interessam muito mais do que "verdades" imorais. 

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