segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ensaio sobre a leveza





Ele a beijou dez anos e dois meses depois de tê-la visto pela primeira vez. Exatamente três mil setecentos e doze dias, considerando os anos bissextos. Esse foi o primeiro beijo, mesmo que eles já tenham se beijado antes por cinco segundos num descompasso. Mas agora era a primeira vez que ela também estava apaixonada por ele.

_ Por que você está me olhando desse jeito, Luiza?

_ Que jeito, Felipe?

_ Esse jeito de enigma da esfinge.

_ É que a gente acabou de se beijar, e passaram pela minha cabeça todos os desencontros dos últimos dez anos. E você sempre brincando comigo que vivia uma paixão platônica. Teve aquele dia na Lapa, que você disse que ia me chamar pra dançar, mas eu saí antes de você conseguir falar comigo, e mesmo assim você desceu as escadas correndo pra me encontrar, mas eu já tinha desaparecido na rua. E teve todos os dias que nos encontramos no ônibus e nenhum dos dois tomou a iniciativa de puxar conversa. Eu sempre achei que você estava brincando sobre ser apaixonado por mim.

Felipe riu e não quis dizer absolutamente nada. Não era preciso. Só o silêncio e esse sorriso eram a resposta completa. Luiza deitou no colo desse homem que ela acabara de beijar e que ela agora sabia que foi platonicamente apaixonado por ela por uma década, e levantou o braço até alcançar a nuca dele para fazer carinho.

_ Sabe o que? Hoje, só hoje, eu estou completamente apaixonada por você. Exatamente agora, te olhando, eu não consigo pensar em nada, não quero estar em nenhum outro lugar. Hoje, a sua paixão platônica foi revogada. 


Felipe olhou Luiza com olhos de quem não esperava ouvir aquilo. Ela o beijou como se tivesse dito que amanhã vai chover e os dois esqueceram de tudo o que poderia existir para além daquele beijo. Porque de verdade, nada mais poderia existir.

Três mil setecentos e doze dias pode parecer uma longa espera, se você estiver contando os dias. Mas quando a gente vive sem esperar nada, até os cem anos do García Marquez passam com leveza. Porque a coisa mais difícil de encontrar em qualquer relação não é o amor, nem a perfeita sincronia que existe quando duas pessoas estão apaixonadas no mesmo tempo e espaço.

A coisa mais difícil de todas é ter leveza. A leveza que só tem aqueles que se permitem viver o agora, que não tem medo do que vai acontecer ou do que pode não acontecer ou ainda do que deixaria de acontecer amanhã. A leveza de quem sabe que a gente não pode agarrar sentimentos, nem controlá-los no tempo. E que não adianta querer marcar território, preencher a agenda do outro e arrumar logo um status para a relação (Mas que relação? foi só um beijo).

Ele poderia querer viver dez anos em um beijo. Poderia, a partir daquele beijo, começar a pensar em como seria se os dois namorassem, em como ia ser para conseguirem mais tempo para se verem. Ele poderia pensar para onde eles poderiam viajar nas próximas férias. Poderia ligar para Luiza no dia seguinte e todos os dias seguintes com uma urgência de morte para encontrá-la a qualquer custo, como se ele tivesse acabado de voltar da guerra dos 335 anos. Ou ele poderia apenas acordar leve e feliz, ainda sentindo o cheiro dela na camisa dele, e mandar uma mensagem para dizer apenas que a noite foi linda. E nada mais.

Sim, ele poderia querer viver dez anos em um beijo, mas ele sabe que beijo nenhum tem esse poder de condensação do tempo. E ele também sabe que quando trazemos para o presente os quases e tudo aquilo que não foi quando a gente desejou que fosse, não se vive o que é.

No jogo do amor

Eu sou a Miss Colômbia 2015.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Amanhã eu não sei




É fato que eu nunca vou poder entender as minhas próprias razões para gostar das pessoas que eu gosto. É como eu tentar explicar porque eu gosto de quiabo, ou de raiz de bardana. Eu simplesmente gosto e ponto (pausa para procurarmos no Google a raiz de bardana que, sim, existe!).

Todas as vezes que tentei entender o que eu sentia e os porquês, me senti absurdamente estranha. E a razão disso é que, lá no fundo do meu coração bizarro, eu não quero explicar o que eu sinto, porque eu só preciso VIVER o que sinto. Quero viver como se fosse um tapa bem no meio da cara, para o qual eu jamais estive preparada.

Porque a vida é mais ou menos aquilo que acontece enquanto a maioria de nós está imaginando como as coisas vão ser, ou ainda como gostaríamos que fossem. Mas a gente não sabe, nem de longe. E é só porque a gente não sabe e não tem como saber que existem as cartomantes: só pra fingirmos aceitar melhor essa coisa obscura que nos espera amanhã. Porque amanhã eu posso me apaixonar. Amanhã posso me desapaixonar. Amanhã um mundo completamente assustador de possibilidades infinitas me espera.

Se apaixonar é viver numa realidade aumentada, é poder enxergar a vida em ultra alta resolução e perceber detalhes que ninguém mais percebe, como todos os redemoinhos da barba dele e o jeito que ele sempre pisca os olhos quando fica um pouco tímido. Ou ainda a forma como ela mexe nos cabelos dele quando o beija e a mania desastrada que ela tem de derrubar as coisas e acertar as quinas.

Sonhar não é problema. O problema é ser só sonho. O problema é não entendermos a diferença entre uma coisa e outra e não permitirmos que a realidade nos surpreenda. Eu posso imaginar um milhão de coisas lindas que gostaria de viver com você. No meu sonho, não tem sapatinho de cristal e cavalos brancos - eu particularmente prefiro pular essa parte, porque é muito traumático quando a minha imaginação toda se autodestrói com uma toalha molhada na cama.

Mas o amanhã que eu desconheço só é possível quando eu estou pronta para enxergar toda a beleza que existe fora do sonho, no lugar onde a vida de fato acontece. Nesse tempo-espaço em que eu sou só uma garota comum apaixonada, sem saber explicar como isso aconteceu nem onde isso vai dar, mas acordada o suficiente pra me permitir viver tudo o que vier.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Eu não me apaixonei por você


Eu não estou apaixonada por você. Já chequei várias vezes, só pra ter certeza. Não acho que conte o fato de o meu coração acelerar só um pouquinho quando eu recebo uma mensagem sua no celular, porque eu sinto o meu coração estressar também quando meu chefe me manda mensagem às 22:00 marcando reunião para as 17:00 no dia seguinte, no centro. Então acho que a possibilidade de eu estar apaixonada por você está descartada.

Não posso estar apaixonada por você só porque eu sinto tanto sua falta quando você não está comigo. Eu também sinto falta da minha infância, da minha primeira bicicleta e dos amigos do colégio. Todo mundo sente falta de alguma coisa, então sentir saudade não é parâmetro, certo?


Eu admito que gosto do seu beijo e que gosto do jeito que você segura a minha nuca. Eu adoro encostar a minha cabeça no seu ombro e fazer carinho nas suas costas. Gosto do jeito que você me olha como se eu não fosse de verdade e do jeito que você implica comigo e me contraria o tempo todo, só por esporte. Adoro o jeito que você me faz rir. Mas a gente conhece tantas pessoas que gostam de tudo isso em alguém, e nem por isso a gente pode afirmar que essas pessoas estão apaixonadas.

Eu não devo estar apaixonada por você, porque eu não quero que você mude. Todo mundo sabe que o sinal universal das pessoas que estão apaixonadas é querer que o outro mude, nem que seja só um pouquinho. Mas como eu não quero que você faça dieta e fique logo sarado, que pare de ser tão dramático e que mude urgente de guardarroupa ou ainda que pare de jogar videogame, então é certo que não estou mesmo apaixonada por você. É meio que oficial até.

Eu confesso que cheguei a ficar em dúvida ontem, porque nos falamos o dia inteiro e me deu uma sensação absurda de que se eu batesse com a cabeça e perdesse toda a minha memória, ainda assim, de alguma forma, eu ia lembrar de você. Mas todo mundo sabe que eu sou maluca e isso foi só um pensamento que devia estar pairando no ar e se chocou com a minha cabeça. A gente nunca sabe de onde vem essas ideias.  


Mas não se preocupe, porque eu não estou apaixonada por você. A não ser que eu esteja. Mas eu NÃO estou. O que eu sinto por você é completamente desprovido de lógica e eu jamais conseguiria explicar. O que eu sinto por você ainda não foi inventado, não é paixão e definitivamente tem outro nome

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre gaiolas e pássaros


Era quarta-feira de lua cheia quando você me falou que eu tinha que ser só sua. Era um momento mágico de noite de eclipse que só acontece a cada 30 anos. Eu estava num jantar à luz de velas quando você  olhou bem nos meus olhos e disse tudo o que eu queria ouvir e ainda prometeu o que ninguém poderia prometer. O que importava era eu saber que você era a pessoa certa. Você falaria ou faria qualquer coisa pra eu te querer para sempre e para eu não desejar ser de mais ninguém.

Não lembro bem ao certo, mas acho agora que foi isso que você disse. Ou foi outra coisa? Não, talvez você tenha falado, olhando nos meus olhos, que ia me ter pelas promessas de amor eterno, me manter ao seu lado por causa do meu medo da solidão e me fazer refém da culpa por eu não ser capaz de retribuir o amor de um homem como você, que tantas mulheres sonham em ter.

É, acho que foi isso. Não, espera. Na verdade você falou algo sobre eu ser a pessoa mais incrível que você já conheceu e que você me achava linda e inteligente e ainda que queria casar comigo e me fazer feliz e envelhecer junto. Acho que você também disse que ia me levar pra conhecer os lugares dos meus sonhos ou algo assim. Que ia ser fiel até que a morte nos separe. Lembro de você ter colocado uma aliança no meu dedo enquanto me dizia que aquela era a decisão mais acertada que você já tomou na vida.

Magicamente, meu corpo era seu. Meus pensamentos teriam que ser só seus - ainda que tudo isso perdesse completamente a beleza por não ser mais livre e espontâneo. Ainda que você fosse passar o resto da vida dono do meu canto às custas de me ter numa gaiola invisível. 

Eu nasci em uma gaiola. Como eu nunca havia voado livre, nunca me dei conta de tudo o que eu não tinha e só me concentrei em ter medo de perder o que me ensinaram a amar. Eu nunca soube como era ter o vento na cara ou como se sente ao contemplar raios e trovoadas no galho de uma árvore, em dia de tempestade. Porque me deram à luz num mundo onde não basta admirar os pássaros voando livres e cantando pra todo mundo poder ouvir. É preciso possuir aquilo que os olhos admiram, diziam. E mais do que isso: humanos tem todo o direito de prender pássaros em gaiolas para ouvir seu canto. É trivial. É normal. 

Mas eu sempre achei que essa gaiola triste era só para os pássaros. Ou para as focas, pinguins e golfinhos do Sea World. Ou para os bichos que os humanos admiram nos zoológicos e que aplaudem nos circos. Ou pros africanos escravizados ou dizimados pelo comércio de diamantes para que uma mulher carente em algum lugar do mundo se sinta a mulher da vida de um homem.

O que eu não sabia mesmo era que eu percebia tudo isso de dentro da minha própria gaiola. Eu não fazia ideia que o pássaro na gaiola também era eu, porque eu precisava de você para aplacar meus medos e me alimentar. Eu era um pássaro na gaiola porque para ter minha auto estima em dia, eu precisava ser amada e precisava de provas de amor. Eu precisava ouvir eu te amo a cada cinco minutos e faria tudo ao meu alcance para te dar o que quer que te fizesse continuar me dando o que eu precisava. 

Nada do que me ensinaram a amar poderia existir fora da minha gaiola e agora eu sinto medo de sair dela, porque eu não aprendi a viver lá fora, livre. Ser livre dá trabalho, porque eu não preciso de motivo algum pra fazer nada. Ser livre dá muito trabalho e é perigoso, porque não dá garantias de nada. Ser livre requer encarar a amplidão do mundo lá fora e coragem pra enfrentar o que vier. Por outro lado, quando a gente finalmente percebe que não é livre, voar para fora da gaiola é a única opção possível, porque essa percepção vem junto com a certeza de que só os amores livres valem à pena. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A pessoa certa pode ser a errada



Preciso confessar um crime: quando eu era adolescente e ia alugar filme na locadora, colocava os filmes de comédia romântica na sessão de ficção científica, só por rebeldia. Nunca acreditei nessa sádica história de que, em algum lugar desse mundo,  existiria uma pessoa certa pra alguém (mentira, talvez eu tenha acreditado nisso algumas vezes, por três ou quatro segundos. Talvez até um pouco mais, só porque eu assisti muitos contos de fada da Disney).

É difícil admitir isso publicamente, porque eu tenho uma reputação de ogra a manter, mas apesar de eu abominar romantismo, flores e jantares com coraçõezinhos, eu adoro assistir comédias românticas. Só que as comédias românticas estão para mim como uma partida de futebol da terceira divisão de juniores da Tanzânia está para os homens: é uma coisa que eu sento no sofá tomando uma cerveja e assisto pra descansar a cabeça e não pensar em nada. 

Por isso, se eu vejo um homem que me chama atenção, seja pela beleza, pelo humor ou pela inteligência, jamais fantasio coisas absurdas com ele. A não ser que o homem em questão reúna essas três qualidades em níveis estratosféricos - nessa caso, seria crime inafiançável eu não me imaginar passando a lua de mel com esse homem (que obviamente não existe ou não é desse planeta) na Toscana.   

Provavelmente existe lá fora um cara que ame trilha, banho gelado de cachoeira ou banho de mar à noite no verão. Que adora o Woody Allen e o Tarantino e que se mataria para conseguir um ingresso de pista premium para o show do Pearl Jam no Maracanã. É possível que exista um homem que ama viajar e tenha vontade de fazer a transsiberiana e assistir a aurora boreal do outro lado do continente. E que de quebra, talvez ame rock, jazz e crianças e seja capaz de se reunir com meus amigos para jogar Imagem & Ação sem morrer de vergonha por todos serem idiotas quando fazem mímicas.

Mas não existe lá fora uma pessoa certa me esperando. O fato de um homem ser do jeito que eu gosto e ter as qualidades que eu penso que combinariam comigo não faz dele a pessoa certa. Nem de longe. E sabem como eu sei isso? Porque não estou esperando ninguém. E as pessoas que são como eu, guardam um segredo. Nós sabemos que por não esperarmos nada, podemos enxergar a vida de um jeito incrivelmente lindo: somos capazes de olhar cada pessoa de um jeito único, sem colocar sobre ninguém o peso das nossas expectativas.

Quando você não espera nada de ninguém, não existe certo e errado. E você pode se apaixonar perdidamente por uma cara que só anda com a roupa amarrotada e com absolutamente tudo descombinado, que tem pelo de gato no sofá e que usa camisa social com estampa florida e colete com calça jeans. Quando você não espera nada de ninguém, a pessoa errada pode ser certa, e qualquer pessoa certa pode ser tão absurdamente errada quanto usar pochete.  

Quando você  não acredita em príncipe encantado, as pessoas reais são mais bonitas e mais inteiras. Elas não precisam te agradar em tudo, porque você sabe que a coisa mais incrível do mundo é ver uma pessoa ser ela mesma, sem precisar disfarçar nada para agradar você ou para não desagradar ninguém. Quando você não espera nada, pode se apaixonar pela pessoa errada, que pode ser a pessoa certa pra você, mesmo que tudo nesse planeta pareça dizer que aquela pessoa é de outra galáxia. 

Uma pessoa certa pode facilitar a sua vida em tudo, pode te acompanhar onde você for sem qualquer esforço. E vocês podem combinar irritantemente em tudo. Mas são as pessoas erradas, mais do que qualquer pessoa certa, que são capazes de te mostrar todos os mundos que você não conhecia e virar a sua cabeça pelo avesso pra você enxergar algo que você já conhecia pela primeira vez. 

A pessoa errada é aquela que, exatamente por ser diferente de você, te traz desconforto - ou te tira da zona de conforto - só pra te lembrar que a vida precisa ser mais do que viver o que for mais fácil, pra viver de um jeito que a gente se sinta vivo de verdade. Uma pessoa errada certamente vai te irritar por causa da louça na pia, ou da toalha molhada em cima da cama e dos livros e sapatos espalhados pela casa. Mas ela também vai te mostrar que nada disso é um problema quando ela te colocar no colo e te fizer carinho.  

A nossa felicidade jamais deveria depender de outra pessoa, seja ela certa ou errada. Mas toda felicidade depende, em certa medida, de sermos capazes de enxergar a vida além das nossas expectativas, das aparências e dos julgamentos. Porque só quando a gente não julga o outro por ele não ser o que esperamos, podemos enxergar tudo o que ele é e que não poderíamos jamais ter sonhado se tivéssemos um modelo mental fechado da pessoa certa.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A primeira vez é sempre a última



_ Me beija
_ O quê?
_ Você entendeu. Eu quero que você me beije
_ Mas assim, do nada?
_ Você não queria me beijar há mais de um mês? Então, qual o problema agora?
_ Não sei. É que eu… 
_ Você o que?!
_ Sei lá, eu não esperava por isso. Eu estou surpreso. Eu não sei como agir, isso é tão maluco. Eu…
_ Para de falar e me beija logo
_ Mas é que eu achei que você não queria que eu te beijasse
_ Mas agora eu quero. Porque hoje é quinta-feira, e está chovendo. E eu tenho 32 anos e 337 dias de vida. E esse dia nunca mais vai se repetir. Eu não tenho nada a perder 
_ Mas é muita responsabilidade. Você não pode fazer isso assim, do nada. E se você não gostar do meu beijo? E se essa for a única chance que eu tenho de te conquistar?
_ Você está me deixando ma-lu-ca, Gustavo. Você vai me beijar ou não?
_ Marcela, eu quero muito te beijar. Eu quis te beijar provavelmente até mesmo antes de saber que você existia. Eu quero tanto te beijar que eu estou em pânico pela possibilidade de tudo o que pode acontecer ou deixar de acontecer por causa desse beijo.
_ Gustavo, você enlouqueceu? 
_ Claro que não! Marcela, eu tenho medo. Tenho medo desse beijo nunca mais se repetir. Acho que eu prefiro não saber como é o seu beijo, porque eu prefiro não ter que lidar com o fato de que esse beijo, esse beijo que eu poderia te dar nesse exato momento, pode ser o beijo mais incrível da minha vida e ele pode nunca mais se repetir. E não é melhor que eu nem saiba como ele seria a ter que viver pra sempre querendo outro beijo?
_ Sério, Gustavo. É só um beijo. Não é o apocalipse nem nada
_ Marcela, você não entende. Eu não consigo parar de te olhar. A sua presença é a coisa mais inspiradora e incrível que eu já conheci. Estar perto de você é como tomar um coquetel de ansiolítico com remédio pra dormir e pra depressão juntos - só que melhor. Eu me sinto vivo, sabe? Quando eu te vejo, é como se eu nem soubesse o que é ansiedade. E está uma chuva do cacete.
_ Espera, mas o que isso tem a ver Gustavo? O que tem a porra da chuva? 
_ Marcela, você não entende? Você teve o pior dia do ano no trabalho, pegou um engarrafamento de três horas e ainda por cima sujou a calça de lama por causa de um ônibus que passou voando por uma poça d’água. Você está estressada, tensa e mal humorada. Eu não posso te beijar hoje. Vai dar tudo errado. Eu preciso que seja perfeito.
_ Gustavo, você não tem como saber.
_ Saber o que?
_ Saber como vai ser o nosso beijo. Esse beijo, que você não quer me dar, ele é único, entende?
_ O que você está dizendo?
_ Que ele nunca mais vai se repetir, Gustavo. Nun-ca.
_ Como assim? Você está dizendo que já sabe que se eu te beijar agora, nós nunca mais iremos nos beijar de novo?
_ Não, Gustavo. Não é isso. É que eu não faço ideia de como vai ser amanhã. Quer dizer, a previsão do tempo diz que vai fazer sol. Mas e daí?
_ E daí o que?
_ E daí que vai fazer sol? E pode ser que não tenha nenhum engarrafamento e que o meu chefe esteja de bom humor. E pode ser que eu me sinta extremamente relaxada e sexy. E eu posso não querer te beijar de novo. Mas eu posso querer te beijar também. E tudo pode acontecer. Mas agora, nesse exato segundo, eu quero que você me beije como se o amanhã não fosse existir. 
_Mas e se você não gostar do meu beijo?
_Ca-ra-lho Gustavo. Isso não existe. Você não existe. Essa porra toda é surreal. Você tem medo de me beijar, tem medo da morte e medo de avião. Você tem medo da vida!
_ Não é isso.
_ É. E te digo mais. Você não sabe como é me beijar. Como é me ganhar ou me perder. Você tem medo é do que você perdeu no passado, das coisas que você fez na hora errada e de tudo o que já passou. Você não consegue ver a diferença? Eu estou te dizendo que hoje é quinta-feira, dia três de dezembro de 2015. Esse dia nunca existiu antes. Eu, você, isso tudo está acontecendo pela primeira vez. A gente não sabe o que acontece depois.

E por trinta segundos, pela primeira vez na vida, ele esqueceu tudo o que sabia, tudo o que já havia sentido. Ele era uma folha em branco. Tudo o que ele sabia é que a mulher por quem ele era estupidamente apaixonado estava ali bem na frente dele, pedindo pra ser beijada. E de repente, a única opção possível era segurar a nuca dela, puxar o corpo dela pra perto do dele e não pensar em absolutamente nada. Quando os lábios dele encostaram nos dela, cada segundo parecia infinito. 

_ O que foi, Gustavo.
_ Como assim o que foi?
_ Porque você está me olhado desse jeito? Você nunca me olhou desse jeito!
_Que jeito?
_ Sei lá. Eu não sei. Esse jeito aí, essa cara que você está fazendo, eu não sei ler essa cara.
_ Você é linda
_ O quê?
_ É, você é linda. Eu nunca tinha percebido o quanto você é linda. Nunca tinha percebido que os seus olhos tem uma cor incrível, tem uma mistura de mel com verde e uma intensidade que me derruba. 
_ Você já cansou me ver os meus olhos, Gustavo. Somos amigos há três anos. 
_ Não, Você está enganada, Marcela. Hoje é a primeira vez que te vejo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Não era amor, eram seus olhos


Morrer de calor e de sede no deserto pode te fazer enxergar aquilo que qualquer vista exausta quer ver. Miragens. Físicos chamam isso de refração: desvios dos raios de luz que geram ilusões óticas. Não é que seja delírio das pessoas. Não. Miragens são fenômenos reais aos olhos de quem vê e que podem até ser fotografados. Elas só não podem ser tocadas.

Para os olhos que se condicionam a enxergar o que querem, não é fácil entender a diferença entre as coisas que podem ou não ser alcançadas pelo toque. Seus olhos se apaixonaram porque você só enxergava o que queria ver. E não é que você realmente não sinta algo real. Mas há sentimentos que são como miragens: eles podem até ser fotografados e postados no Facebook, mas não podem ser vividos de verdade porque nunca existiram a não ser na sua retina cansada da realidade.

Há sentimentos que são só um "você é a mulher da minha vida" em palavras, mas que são contraditórios nas atitudes. Eu, que sempre amei as palavras, passei a me desapegar delas. A minha visão romântica das relações se partiu um um bilhão de cacos - de uma forma que seria impossível voltar atrás e colar os pedaços. Deixei de aceitar subornos, porque cansei de alimentar meu ego faminto que só queria ser agradado e se sentir lisonjeado - mesmo que lá no fundo eu soubesse que esse amor de miragem jamais poderia ser sentido num abraço de verdade. 

Não quero declarações de amor incríveis e nem que você grite aos quatro ventos que me ama. Não quero que me diga que sou única. Não quero que me peça em casamento de joelhos na frente de uma multidão ou em cima de um palco no Maracanã. Não quero que me diga que sou a mulher que você sempre sonhou. Não quero ser a miragem de ninguém. Não me entenda mal, eu sei que há muita poesia nesses rompantes românticos. Mas eu realmente não quero ser a mulher da sua vida. Não, eu não quero ser isso. Desde a primeira vez que essas palavras saíram da sua boca eu soube que se fossem verdadeiras, nunca precisariam ser ditas. 

Eu não quero ser só isso: essa mulher que você sonhou e que só sonhou porque você espera que ela te dê algo que está faltando e que você estava imaginando na sua cabeça e no seu sonho. Não quero ser a mulher da sua vida porque ela é uma criação da sua retina romântica e eu sou uma mulher de carne e osso. Eu não posso e não quero ser aquilo que você sonhou, porque sou aquilo que sou. Eu sei que no momento que eu te contrariar, no momento que eu discordar de você e disser o que eu penso ou me negar a entrar no seu jogo, você vai desistir de todo esse amor eterno em três segundos.

Eu sempre desconfiei das declarações de amor barulhentas e apoteóticas, porque no meu coração o amor sempre foi silêncio. Se você precisa ouvir de mim que te amo, se precisa dizer o tempo todo o quanto sou especial, eu sinto que as palavras são um jeito de preencher o vazio, de tentar tornar real essa miragem que você vê. Meu silêncio é um sinal de que tudo é inteiro e preciso - a ponto de se sentir. E nada precisa ser explicado. 



Quando eu sinto essa incrível afeição por alguém, ao ponto de meu coração expandir, eu não quero dizer nada, não quero provar nada e não preciso que o outro entenda ou corresponda. Descrever meu amor por alguém é pobre como descrever a complexidade e a simplicidade da vida em uma frase, inútil como tentar descrever a beleza que eu senti quando chorei ao me deparar pela primeira vez, sozinha no topo de uma montanha, com o lugar mais bonito que já conheci.

Desculpe, mas só os seus olhos me amaram. Não é que seja ruim ser amada pelos seus olhos, mas é que para mim, nunca foi suficiente. É que eu só sei um jeito de viver o amor: aqui, agora, no coração e de olhos fechados.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Todas as paixões são perfeitas

Um dia me ensinaram que só é perfeito quando a gente é correspondido. E eu acreditei nisso. Acreditei mesmo.  Mais do que isso: sempre achei que ser correspondido é ser desejado de volta. Que só se vive uma paixão quando o outro corresponde as nossas expectativas de romance, beijos, noites de sexo e dormir de conchinha.

Acreditei que não ser correspondido é uma tragédia anunciada para qualquer pessoa apaixonada, ainda mais aquelas que se encontram perdida e irrevogavelmente apaixonadas. Acreditei que insistir em estar perto de alguém que queremos e que não sente o mesmo por nós é suicídio amoroso. Sempre senti que a melhor solução para nos poupar dessa tristeza parcelada em 36 meses com juros de 200% ao ano e garantia de um futuro coração partido é nos afastarmos de amores não correspondidos a todo e qualquer custo - tanto quanto deveríamos nos afastar do Ebola: quarentena é até pouco.

Acreditei em tudo isso, até conhecer você. Até ler nos seus olhos que não existem sentimentos não correspondidos, que não precisa ser menor e nem precisa ser triste quando o outro não sente a exata mesma coisa por mim. O amor não é uma via de mão dupla. Nunca foi. E me ensinaram tudo errado. Gostar de alguém é desapego, é entrega, é não ter expectativas.

Quando eu me apaixono, é dentro de mim que mora esse sentimento e são meus olhos que irradiam esse brilho de me saber apaixonada. Sou eu quem experimenta os batimentos cardíacos acelerados e é no meu sangue que se multiplicam a dopamina, a endorfina, a noradrenalina e a oxitocina. Meus dias não precisam ficar mais alegres somente se você quiser me beijar. Eles são alegres só porque eu tenho a sorte de te conhecer e porque você me lembra que sou capaz de sentir coisas bonitas. 

Eu sei. Sei que seria ótimo se você quisesse os meus beijos e se eu pudesse deitar no seu colo pra assistir a filmografia do Woody Allen numa maratona no próximo final de semana. Eu sei que seria incrível poder viver tudo da exata forma como eu gostaria. Mas não é pouco poder ter a sua companhia e rir contigo. Não é insuficiente aprender com você a me enxergar e me conhecer de um jeito que eu não conseguiria só me olhando no espelho. Não é pequeno saber que podemos construir uma história que, mesmo sem um relationship status no Facebook, é inteira.


Porque é lindo eu sentir aqui em mim esse desapego, essa capacidade de te olhar e saber que eu não preciso te ter e que eu só quero te ver feliz. E é por causa de toda a beleza instantânea que a sua presença me provoca que eu lembro que sou inteira e plena

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Não me mande flores!

Haja o que houver, jamais me mande flores. Não me importa se você pisou na bola, se enfiou o pé na jaca ou teve TPM e surtou comigo sem motivo na noite passada. Nunca me mande flores. Pouco me importa se você me ama e está feliz e quer jogar pétalas de rosas de um helicóptero sobrevoando a minha casa.

Tenha você errado ou esteja você apaixonado, as flores não tem nada a ver com isso. E elas não precisam ser arrancadas pra que você prove que está arrependido ou que me ama. Aliás, você não precisa me provar nada. 

Não, eu não estou sendo insensível, nem tenho dificuldades em demonstrar afeto e não tenho problemas em me apaixonar e me expor. Não mesmo. Eu não economizo o coração e se eu me apaixonar por você, esteja certo de que vou me permitir viver isso. Serei idiota e ridícula como qualquer pessoa apaixonada.


Mas se você errou, olhe nos meus olhos e peça desculpas. Se você quer que eu saiba que você me ama, me abrace forte ou me leve pra mergulhar às duas da manhã no mar quente do verão. Não quero presentes nem cartas de amor escritas pela reencarnação do Shakespeare - eu só quero que você segure a minha mão de um jeito que eu apenas saiba que você está ali comigo e não projetando um romance lindo que termina em felizes para sempre com uma mulher idealizada que não seja eu mesma, agora, exatamente como sou.

Os momentos mais felizes que eu vivi com as pessoas que amo nunca foram os planejados. Não foram os jantares à luz de velas, as viagens programadas para o dia dos namorados ou o aniversário de namoro. Meus olhos brilharam de verdade naquele dia que eu simplesmente não sabia como agir e te tratei de um jeito injusto e rude. E você, em vez de me criticar, entendeu que eu não estava bem, sentou ao meu lado em silêncio e me abraçou enquanto eu chorava.

Eu senti uma alegria incontrolável quando fugimos da aula repentinamente e sentamos na praia como se o tempo não existisse. Lembra daquele dia que passamos com os nossos amigos jogando baralho e rindo? Foi perfeito, né?

Não quero o amor romântico dos filmes. Não quero sacrifícios e nem provas de amor. Só quero você inteiro e pleno aqui comigo. Só quero que a gente esteja presente, que não se esqueça de olhar um pro outro com acolhimento. Se você fizer questão das flores, pode ser que as tenhamos num jardim um dia. Podemos deitar na rede no fim de tarde para admirá-las, sabendo que por mais lindas que elas sejam, jamais serão suficientes para demonstrar aquilo que só o sentir é capaz.



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Loucura também é lucidez

Era só uma sexta-feira do final de inverno e o dia não tinha nada de incomum. O sol nasceu com chuva e o barulho da cidade era o mesmo. A impaciência das pessoas no trânsito e a agitação da cidade grande não parecia novidade. Ela pulou da cama cedo, vestiu uma roupa qualquer, pegou o carro e foi resolver a vida.

Sentia uma sensação estranha de que tinha esquecido alguma coisa, mas não conseguia lembrar o que era. Parou um instante no estacionamento e ficou lá por um tempo dentro do carro, como quem esperava desacelerar da agitação do mundo. Pegou o celular da bolsa e colocou no modo silencioso. Sentou pra meditar.

Entre o silêncio e o nada, ela sentiu o corpo inteiro anestesiar. Foi como morrer subitamente e continuar viva, era uma anestesia em que ela sentia tudo, só que muito devagar. E de repente tudo ficou calmo. Ela foi ao supermercado com uma sensação de liberdade incrível e ouvia sua playlist favorita enquanto passava pelos corredores. Sentia algo que ela já nem lembrava como era: ela estava viva.




De repente, resolveu mandar uma mensagem para um cara que ela havia conhecido num aplicativo de encontros, coisa que ela nunca achou que usaria na vida. Ela não queria romance, nem sabia o que esperar desse encontro, mas queria viver aquilo e descobrir depois o que sentiria. Encontraram-se às sete da noite só para tomar um suco e bater papo. Não se pode esperar nada de um encontro assim, mas às duas da manhã eles ainda estavam conversando e rindo, com a chuva torrencial molhando a mesa que segurava duas tulipas de chope.

Não era normal marcar um encontro que nem parecia um encontro. Não era normal simplesmente conversar sem qualquer obrigação de romance ou encontros futuros ou ainda mensagens no dia seguinte. Não era normal conversar durante tantas horas com um completo desconhecido sem se perguntar onde aquilo ia dar. 


Aquele encontro teria tudo pra fazer uma mulher se apaixonar. Ele era completamente perfeito: bonito, cheio de afinidades com ela, com uma energia e uma presença incrivelmente agradáveis e uma grande maturidade no jeito de levar a vida e se relacionar.
 

Não era normal viver tão no presente, sem qualquer previsão sobre o futuro, sem querer chegar a lugar algum, sem criar um conto de fadas na cabeça e sem esperar absolutamente nada. Foi um encontro sem beijos e sem ninguém saber o que aconteceria depois. 

Como seria a vida se você não esperasse nada em troca e tudo que você tivesse a oferecer fosse a sua presença? Às três da manhã, eles ouviam música no carro e, assim, de repente, ela soube que havia enlouquecido: era capaz de se relacionar e viver sem expectativas, com uma leveza tão bonita e fácil quanto respirar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Relatioship Status: Eu devia

Eu devia ter brincado mais e devia ter te desarmado com um sorriso sempre que eu percebi que uma briga boba ia começar. E eu devia saber que o resultado da soma de muitas brigas bobas é essa distância intransponível que vai surgindo lentamente entre duas pessoas, ainda que elas durmam na mesma cama. Eu devia ter olhado mais pra mim mesma e devia ter percebido que não existe amor quando há qualquer necessidade de que uma das partes se anule ou se sacrifique para que a outra seja feliz.

Eu devia ter entendido que sexo é uma via de mão dupla e que mulheres precisam ser seduzidas tanto quanto os homens querem ser. Devia saber que cada vez que eu permiti que você fosse ríspido comigo e guardei uma mágoa, perdi um pedaço de mim em que morava uma delicadeza com a qual eu queria ter te abraçado - e que esse abraço cheio de afeto me fez falta. Eu devia ter percebido o quanto precisava me sentir desejada de tantas outras maneiras que não tinham nada a ver com sexo.  

Eu devia ter te enxergado com diferentes olhares e ter te acolhido em vez de te criticar quando você não agia como eu esperava. E devia ter te elogiado mais por tantas coisas que você fazia por mim, em vez de só me dar conta das suas qualidades quando elas já não estiverem mais à minha disposição.

Eu devia ter percebido que só eu mesma posso me conhecer, me entender e trabalhar meus medos - porque como eu me sinto é minha responsabilidade e não do outro. Eu devia me responsabilizar por tudo o que sinto e por tudo o que deixo de sentir por simplesmente não conseguir me expressar, mas é tão mais fácil e cômodo colocar a culpa pela infelicidade que sinto no comportamento "errado" do outro, né? Eu devia saber que é muito fácil guardar as coisas que sinto em forma de mágoas, mas que pode ser incrivelmente difícil ter que lidar com a dor desse meu silêncio quando ela vem à tona em forma de raiva e frustração.

E eu devia entender que nenhuma relação minha jamais poderá ser plena e feliz enquanto eu não me conhecer e for capaz de me expor e me expressar sem esforço, como eu realmente sou e sinto. Eu devia chorar mais e entender que falar ajuda a equilibrar minhas emoções. Eu devia saber que a coisa mais importante entre duas pessoas é a comunicação e que me comunicar não é reclamar das coisas que o outro faz e que me irritam ou culpá-lo pela minha insatisfação e infelicidade.

Eu devia saber que só pode existir uma relação de verdade quando cada um se sente capaz de dizer como se sente sem se colocar no lugar de vítima e, ao mesmo tempo, responsável por ouvir o outro sem julgamentos. Mas eu devia mesmo era saber que pra entender tudo isso, a gente às vezes precisa aceitar dor e desconforto, sentir, sofrer e perder a nós mesmos e ao outro pelo caminho de se conhecer de verdade.

A gente se acostuma a viver num emaranhado de pensamentos, desejos e frustrações sem fazer nada a respeito, sem olhar pra dentro, como se esse fosse o estado normal de existir, quando não é.  

 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Até tu, Chico

A amiga da amiga tem um amigo que joga futebol no Polytheama, time do Chico Buarque. Segundo relatos do amigo da amiga da amiga, na noite em que Chico deu canja no Semente, ele havia terminado com a namorada, a também cantora Tais Gullin.
Nasce uma nova lenda urbana: até o DEUSO que é o Chico Buarque fica mal e vai pra Lapa beber quando termina o namoro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre o Tinder e a insustentável beleza do ser

Como a Luca já fez questão de jogar aos quatro ventos, eu entrei no Tinder há uma semana. Pra uma pessoa que escreve num blog sobre relacionamentos, estou bastante atrasada, já que o Tinder está bombando há anos. Confesso que entrei cheia de vergonha de encontrar pessoas conhecidas e preocupada com a minha reputação e com o que essas pessoas iam pensar de mim, dada a má fama desse aplicativo e considerando que ninguém saberia que o meu objetivo é ter inspiração para escrever no blog.

Não, não há nada de ruim em existir uma ferramenta que facilita encontros. Pessoas que querem só se pegar, farão isso e sairão felizes e satisfeitas. Que mal pode haver nisso? Pessoas que estão ali só por curiosidade, vão matar sua curiosidade. E pessoas que estão procurando o príncipe encantado continuarão na mesma loteria de sempre: porque eu acredito que no Tinder ou fora dele, encontrar um grande amor não é coisa fácil. Eu sei. Sei que de onde menos se espera podem surgir coisas incríveis. E coisas incríveis podem surgir até mesmo no Tinder.

Mas a verdade é que me deu uma certa tristeza ficar olhando centenas de fotos de pessoas com essa possibilidade de descartar ou curtir alguém num lapso de segundos, com base em algo como gostei da sua cara e das três palavras que você escreveu pra se descrever.

De repente, eu lembrei que as pessoas mais incríveis que já conheci e pelas quais me apaixonei perdidamente, eu não teria jamais selecionado se tivesse visto as fotos delas no Tinder. Os homens mais incríveis que conheci não eram lindos e nem sarados: ao primeiro olhar, pelo contrário: pareciam bastante comuns e talvez até um pouco esquisitos ou desajustados. 


A gente cruza com esses homens nos elevadores, nas escadas rolantes e no caixa dos supermercados ou até mesmo no Tinder. E não queremos puxar papo com essas pessoas e nem queremos curtí-las no Tinder porque em 3 segundos julgamos que elas não fazem nosso tipo e, assim, seguimos nosso caminho sem nunca saber o que estamos perdendo.

Não nego que seja gostoso olhar homens bonitos e sarados, mas isso não me provoca nada além de prazer visual ou eventualmente algum desejo. Também não estou dizendo que pessoas lindas por fora não possam ser incríveis por dentro. Mas a beleza que realmente me encanta é aquela que se constrói como um caleidoscópio: você é capaz de enxergar as várias pequenas coisas que juntas, sob um olhar atento, fazem com que surja uma beleza incrível e única e que se pode admirar em vários ângulos e formas sem alterar o conteúdo.

Só que as belezas de caleidoscópio precisam de luz para serem vistas. Precisamos de sensibilidade para ir além de um corpo sarado. Precisamos nos permitir conversar com aquele cara do elevador pra descobrir que ele tem um senso de humor que vale mais que mil abdomens trincados - e que todas as coisas que preenchem essa beleza nunca poderão ser representadas por fotos ou descrições de uma, duas ou três frases sobre minha profissão, meus hobbies e citações de terceiros.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Desafio

A Pah arrumar um namorado pelo Tinder e eu arrumar um one night stand pelo Faceglória. O que será mais difícil?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Inspiração para a semana.

Era carnaval na Bahia. Cada um estava com seus amigos, em bares de lados opostos da rua, e se olhavam. Após alguns minutos, ela atravessa a rua pra falar com ele:
- Provavelmente só teremos essa chance.
Não só eram da mesma cidade, mas moravam no mesmo bairro.
Namoraram.

sábado, 22 de agosto de 2015

Eu tenho medo de ter medo do medo

O que você faria se não sentisse medo? Essa foi a pergunta que um amigo meu fez há uns dias atrás. Não respondi nada na hora, mas fiquei pensando bastante a respeito, porque achei que valia à pena responder com calma. Eis a minha reposta:

Quando eu era bem pequena, meu pai me ensinou a andar de bicicleta. A minha não tinha rodinha e, no início, meu pai segurava a bicicleta pela parte de trás do banco e ia me empurrando enquanto eu dava as primeiras pedaladas inseguras. Tem pai que, depois de um tempo, solta a bicicleta e não avisa nada e a criança vai pedalando sozinha e feliz, contando com a mão do pai que já não está mais lá a segurar o selim.

Mas meu pai não era assim. De uma hora pra outra, quando ele achou que eu estava indo bem, ele soltou o banco e falou alto pra eu ouvir: "soltei o banco filha, você consegue sozinha". Talvez, se eu não soubesse que ele não estava mais me segurando, fosse mais fácil continuar a pedalar. No segundo em que você se dá conta de que nada te impede de um estabaco, como é que você se sente? Já faz tempo, eu tinha só quatro anos. Mas me senti viva, me senti responsável: "Deixa comigo, eu consigo".

A vida é isso: você pode ficar imaginando que tem alguém te segurando pra você não cair, ou você pode simplesmente viver sabendo quais os riscos e conviver com isso. A questão é que viver sem medo, com base em falsas seguranças, pode deixar a vida mais fácil, mas os tombos podem ser muito bruscos e podem machucar incrivelmente, especialmente porque você vai se sentir enganado pela vida que te prometeu segurança. Só tem medo de cair quem sabe que a vida não vem com rodinha. Só encaramos os riscos de frente quando temos consciência deles.

O medo pode facilmente se tornar uma desculpa para a covardia, pode te fazer querer ter as rodinhas pra sempre e você nunca vai saber como seria sem elas. Não encaro sentimento algum como  mocinho nem vilão - o problema não é o medo, mas o que você faz com ele. Porque o medo também pode te trazer a consciência do momento presente, pode te fazer sentir vivo, quando você não tem apego ao resultado. Tudo bem cair, né?

Sentir medo te incomoda? Será que você acredita que é o medo que te impede de fazer o que você quer? Ou será que o medo te impede de descobrir quem você é - que pode talvez te mostrar o que de fato você quer?

Mas, então, o que eu faria se não sentisse medo? Sinceramente, eu não sei e talvez, se você visse o medo como eu vejo, você não me faria essa pergunta. Eu não quero não sentir medo. Prefiro pedalar sabendo que posso cair, porque o medo da queda me traz a consciência de que sou frágil e vulnerável, mas me traz também a responsabilidade de dar o meu melhor. Sinto que sentir medo é um jeito mais realista de viver, porque não existe essa coisa chamada segurança. Eu sei que nem sempre vou me sentir pronta pra tudo. Encarar o medo não é estar no controle, mas aceitar a falta de controle, as consequências, os "erros" e "acertos", a queda ou a perfeição de ter dado a volta no quarteirão com quatro anos sem um arranhão.

Tem hora que temos que nos jogar e, como não sentir medo? Quando fiz queda livre e rapel, todas as vezes as minhas pernas tremeram e eu não me sentia pronta, mas eu fui. E foi lindo, mas tudo bem se não tivesse sido legal.

Me diz Mau: você não acha que o medo te deixa mais vivo? O que você prefere: a falsa certeza do felizes pra sempre ou a consciência plena de que todo dia você pode "perder" a mulher que você ama? Como é que você beijaria a mulher da sua vida se soubesse que pode perdê-la a qualquer momento? Como você a beijaria hoje se estivesse certo de que ela vai estar lá para você poder beijá-la pelos próximos 50 anos?

Se eu não sentisse medo, a vida seria menos desafiadora, mais cômoda e eu talvez não entendesse o poder da coragem. Se a coragem for ignorância dos reais riscos, ela serve pra quê? Se o medo, por outro lado, for covardia, ele serve pra quê? Se você observar o medo em vez de tentar eliminá-lo, talvez descubra que ele é apenas a consciência de que a vida está no presente, é a voz dentro de você que te diz que esse dia de hoje nunca mais vai se repetir, por mais que você faça tudo igual amanhã. O medo pode ser um lembrete do coração te pedindo pra não sacrificar o presente perfeito e imperfeito como só ele pode ser por um futuro ideal.


Favor manusear com cuidado


Era quinta-feira quando ele enviou uma mensagem pra ela dizendo que tinha medo, que se sentia vulnerável e que nunca havia se sentido assim com mulher alguma. Ele se sentia quase que com raiva de si mesmo por causa dessa sensação de que essa mulher poderia ter o que quisesse dele. 

Talvez não exista maior prova de fragilidade do que sentir raiva por se sentir vulnerável. Pessoas que nunca se permitiram a vulnerabilidade, fatalmente nunca vão entender quanta beleza há nisso: ser vulnerável é se permitir sentir, em vez de viver tudo friamente calculado. Ser vulnerável é dizer: "tudo bem, eu não tenho garantias de nada, a não ser de que quero viver cada segundo como se fosse o primeiro e o último". Ser vulnerável é entender que não temos controle sobre a vida, nem sobre outra pessoa.

Eu só vivo quando me permito sentir o que quer que seja. Só vive quem entende que a vida é imprevisível e que não há qualquer garantia - e nunca houve. As pessoas não entendem que não há seguro de vida, que o seguro é só de morte - porque essa sim é a única coisa certa por aqui.

Para mim, será sempre triste quando eu vir alguém sentir medo de se entregar a um sentimento ou a outra pessoa. Será sempre triste ver quanta gente faz matemática com o amor e tenta calcular quanto vai se jogar e quanto vai se permitir gostar do outro ou quanto vai se expor, com base no outro ou na ideia do que o outro sente. Esse é um jeito egoísta de gostar de alguém, em que a gente só se doa quando há garantias de um retorno na mesma proporção.

Quando não me permito sentir, tenho a falsa sensação de que estou seguro, porque não entendo que  me defender é sinal de que tenho medo e, portanto, me sinto inseguro e incapaz de lidar com meus sentimentos. Não quero me sentir vulnerável porque não quero perder o controle.  

Não quero perder, não quero fazer fazer papel de boba, não quero ser a pobre coitada que não foi amada de volta. Bom mesmo é garantir um coração intacto e nunca se entregar ao que quer que seja. Bom mesmo é embrulhar o coração em papel de presente ou plastificá-lo e impermeabilizá-lo para admirá-lo na estante ou dentro do caixão.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A poesia de um coração partido

Existe poesia no caos e existe beleza naquele momento em que um vidro se rompe em um número incontável de cacos que dançam no ar até tocarem o chão.  Ao contrário do que se pode pensar, não é o coração partido que dói, porque viver o bastante para se saber frágil,  com um coração passível de quebrar e também de se colocar inteiro de novo, é se sentir vivo. O que dói é que você queria mais - e é exatamente esse não poder ter mais de um amor que parte o coração.

Porque você queria mais beijos, queria mais abraços e queria ter visto o pôr-do-sol. Parte o coração e dói não saber como seria o que imaginou pra amanhã. Sem saber, você tinha planos, não é? E agora você não vai descobrir como seria viajar com esse amor até aquela montanha, não vai poder ouvir junto aquela trilha sonora, nem ver aquele filme, nem mesmo conhecer lugares secretos.


Corações partidos são tristes e solitários. É assim que quase todo mundo vê, mas, pra mim, corações partidos são só corações. Estamos acostumados a desejar os finais felizes, mas o problema é que os finais felizes são e sempre serão uma invenção. Não porque não exista felicidade, mas porque a felicidade não acontece no futuro, ela vive no agora. Não percebemos isso porque estamos constantemente tentando adivinhar o caminho, sempre olhando à frente e perseguindo objetivos e metas que acreditamos que nos deixarão satisfeitos.


Somos aquela pessoa sedenta que caminha ansiosa na direção do oásis que está à frente.  A felicidade futura é uma miragem que se move sempre mais à frente a cada passo que damos na direção dela. Se eu mal sei quem eu sou agora, como lutar para saber o que seria um final feliz amanhã? Final feliz é quando se fica junto? É só isso?


A beleza de um coração partido está em se saber pequeno, em se saber humano. Corações partidos são uma oportunidade única de parar de perseguir a miragem pra sentir o aqui e o agora. No silêncio de um coração partido é que a gente escuta a alma nos dizer baixinho que qualquer amor vale à pena e que não importa como termina: só importa o que foi vivido entre o início e o fim e se você foi capaz de perder o controle e viver tudo como só se vive quando não se faz ideia do que acontece amanhã. Como você beijaria a pessoa que você ama se soubesse que tudo o que você tem é o agora e que esse beijo nunca mais vai se repetir?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Sobre a ponte que cedeu ao peso do amor

A famosa Ponte das Artes de Paris cedeu com o peso do amor. [Se você viajou pra Paris e prendeu seu amor lá, tá na hora de ligar pro prefeito e pedir o cadeado de volta pra prender noutro canto]. Ler essa notícia hoje me fez pensar no que é que passou pela cabeça de uma criatura para inventar uma tradição dessas: a de prender seu amor a um cadeado.

Todos os amores deveriam ter o peso leve da alma e a simplicidade de quando não é preciso pensar em nada, basta apenas andar de mãos dadas por aí, assistir o sol se pôr nos dias bonitos de verão, fazer as brincadeiras que pessoas apaixonadas e ridículas fazem e dormir de conchinha.

Mas como é que a gente faz quando, de uma hora pra outra, esse amor tão leve cai sobre o seu peito com um peso de mil toneladas? Como é que você vive num mundo em que não sabe como viver o amor que sente e, ao mesmo tempo, dói muito deixá-lo partir? 

A leveza mais insustentável de todas é a de um amor livre. Aquele  amor que você jamais vai poder prender num cadeado em uma ponte qualquer e cada vez que doer ter que deixá-lo ir embora, você vai saber que mais difícil que a saudade, seria viver esse amor preso a um cadeado e limitado de tal forma que quase nem ia parecer amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Amores platônicos também são correspondidos

Ela consegue visualizar o momento em que pega a nuca dele e puxa a sua boca contra a dela. É quase como se fosse real a vontade de tirar a camisa dele e toda a intensidade que isso provocaria. Futuros do pretérito. 

Ela poderia tê-lo mordido e tê-lo virado do avesso. Mas, lá no fundo, antes mesmo de tentar, abriu mão de tudo isso. Ela o deseja de um jeito que é quase desumano, mas, ao mesmo tempo, sabe que será incrivelmente feliz sem nunca experimentar nada disso, porque sabe que ele ama outra mulher.

Ele não entende o porquê dela dizer que o ama, talvez porque esteja acostumado com o jeito que todo mundo sempre diz isso como se esperasse uma resposta de volta. Não é esse o caso. Ela o ama só de raiva, só pra contrariá-lo, só porque ela é capaz de amar assim. Ela o ama muito, por motivo nenhum, ou talvez porque consiga enxergar toda a fragilidade que ele tem - de um jeito só dela e que só ela poderia enxergar, porque sem saber, é só pra ela que ele se abre e se mostra assim inteiro, complexo, confuso e intenso, medroso, bonito, pornográfico e puro.

Ela abre mão de tentar viver isso porque sabe que sempre terão o mais bonito um do outro: essa coisa única que só entendem as pessoas que tem alguém com quem conseguem conversar por horas e horas como se o tempo não existisse. E nem mesmo a distância ou o tempo conseguem mudar a perfeição de se sentirem à vontade e tão eles mesmos na presença um do outro.

Ao contrário de todas as paixões antes dessa, não há ciúme por ela saber que ele ama outra. Ela queria muito beijá-lo, às vezes, por um segundo, é o que ela mais quer. Mas aí, ela sabe que isso passa, e que, no final das contas, ela quer mesmo que ele seja dele mesmo e de mais ninguém. E que quanto mais ele for ele mesmo, ou o que quer que ele queira ser, mais ele será dela.

Mas e ele? Bom, ele a ama só um pouco, quase nada. Dizem que amor não se mede e, mesmo num pouquinho de amor cabe o infinito. E o infinito será sempre suficiente pra se saber amado de volta.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Em terra de cego... sexo a dois é mènage

Entre dois amigos:

_ Deve ser bom quanto tua mulher convida uma amiga pra participar
_ Já é difícil demais quando eu participo, então, não, não deve ser bom. Eu já fico feliz quando ela lembra de ME convidar.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Casamento

Falácias do Twitter: 

O cara que inventou o casamento era muito louco! Tipo: te amo tanto que quero envolver Deus e o governo.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Você nunca vai me conhecer


Eu sou a menina que você nunca vai conhecer. Sou eu quem vai te acordar de manhã com um beijo e, no dia seguinte, sem querer, vou te acordar com uma cotovelada por causa de uma noite de sono agitado. 

Sou a mulher que vai te agarrar de um jeito totalmente louco, que vai te fazer achar que você nunca foi tão desejado. É a mim que você vai ver nua sem fazer ideia de como desvendar o mistério do meu olhar. E, no dia seguinte, serei a menina que vai pular em você pra te matar de cócegas e depois vai se enroscar em você e apagar sem te dar beijo de boa noite e sem sequer escovar os dentes. E você vai me colocar pra dormir na sua cama, com a sensação de que mesmo de calça jeans você está me vendo inteiramente nua, de tão frágil e exposta. 

Sou a mulher irritantemente obcecada com limpeza que vai rolar na lama com você em um dia de chuva. Vou te enlouquecer de tanto falar e, de repente, vou passar um nascer do sol inteiro em silêncio sentindo a sua pele na minha. 

Sou a mulher que um dia você vai achar que conhece, e que na semana seguinte vai mudar tanto que você ficará sem chão quando perceber que está se apaixonando por outra, só que ainda sou eu. Vou acordar atrasada pro trabalho e não vou nem dar bom dia pra quem estiver no elevador. E, na volta, vou ficar conversando com a velhinha do andar de cima com toda a minha ternura.

Sou a mulher que vai sair pra dançar com você de salto alto e batom vermelho no sábado à noite e que vai passar a semana seguinte inteira de tênis, calça jeans e camiseta. Sou aquela que vai te fazer cafuné até você dormir, depois de um dia exaustivo, e que vai acordar no dia seguinte reclamando porque a casa está uma bagunça.

Sou a mulher que pulou de um prédio de 50 andares sem cordas e que , no meio do pânico da queda livre, descobriu que gostava de voar. Sou uma menina que nunca vai crescer e que vai se apaixonar por você pelos motivos mais improváveis e inesperados. Vou me chocar comigo mesma: com a minha imensa coragem pra encarar a dor que eu sinto às vezes e com meu pânico repentino por causa de um corte no dedo. 

Sou a mulher que você nunca, nunca, nunca vai conhecer por inteiro e nem pela metade. Mas, subitamente, você vai saber exatamente quem eu sou quando eu te olhar bem no olhos: você vai entender que eu sou livre, que não quero ter a obrigação de ser boazinha nem escrota. Que não posso ser a mesma pessoa a vida inteira quando eu tenho tanta coisa pra aprender sobre a vida e sobre mim. 

Sou a mulher que você nunca vai conhecer, porque eu vou mudar constantemente, eu vou ser eu mesma, só que nem sempre serei a mesma. Sou eu que não quero ter a obrigação de ser sua pra sempre. E, mesmo assim, e talvez exatamente por isso, pode ser que eu queira ser sua pra sempre, mas só vou descobrir amanhã e depois  - e todos os dias depois de amanhã.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Quase um beijo

Cada vez que se viam era como entrar em um universo paralelo em que o tempo e as obrigações não existem e é permitido simplesmente ser quem se é ou, ainda, não saber quem se é. Podiam dizer o que sentiam e o que viam sem medo de julgamentos, sem esperar nada em troca.

De um dia pro outro, de repente, eles se sabiam apaixonados. Porque dizem que apaixonar-se é como queda livre - aquela sensação de não ter controle, não ter como parar e nem conseguir continuar a cair, porque não há nenhuma corda pra te segurar. Ao mesmo tempo, parecia que o que sentiam não tinha nome, não era paixão, era outra coisa: era o jeito que ela o olhava nos olhos, era alguma coisa que ela via quando ele desviava o olhar.

Eles se conheciam já há mais de dois anos, sempre se encontrando casualmente, mas nunca haviam de fato reparado bem um no outro. E repentinamente, sem qualquer explicação, se olhavam de um jeito totalmente diferente. Ambos sabiam o que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, nenhum dos dois podia explicar o que estava acontecendo. Mas ela não podia simplesmente continuar olhando pra ele e não dizer que sabia que algo tinha mudado. Um dia, sem meias palavras, ela simplesmente disse: Me apaixonei por você. E ponto.

Continuaram se vendo e se falando, como se fosse normal estarem apaixonados, como se fosse permitido que as as árvores dessem flores no inverno e estivessem por todo lugar, mas só eles conseguissem enxergar. Sentindo o que sentiam, eles conversaram por infinitas semanas sem sequer encostar uma mão na outra, como se fosse proibido sentir. Ela sentia como se, por alguma razão, fosse se desintegrar em partículas se o abraçasse, mas não existia nada que ela quisesse mais do que abraçá-lo e, ao mesmo tempo, era assustador imaginar o que isso poderia desencadear.

Se abraçaram numa terça-feira de tempo feio e vendaval, como se fosse simples. Estavam sentados num café, quando ela não aguentou mais - arrastou a cadeira pra perto dele e o abraçou, simplesmente porque não abraçá-lo parecia errado. Uma enxurrada de sensações invadiu os dois e sentiam o cheiro um do outro, o calor da pele e a pressão do abraço. Ela beijou seu pescoço, apertou as costas dele como se quisesse prendê-lo ali pra sempre e sentiu a barba dele roçar no rosto dela, pra lembrá-la de que suas bocas estavam há poucos centímetros uma da outra. Queriam se beijar e parecia que a qualquer momento um dos dois iria percorrer esses centímetros que os separavam de um beijo.

Mas ela soube antes que não iria vencer esses centímetros. Não porque não quisesse ou não pudesse, mas porque, de alguma forma, sentia que ele hesitava e oscilava o tempo todo. Sentiam uma intensidade explosiva quando o relógio os lembrou que ele tinha que pegar um avião. Abraçaram-se em frente ao portão de embarque, e, dessa vez, toda a intensidade estava misturada a uma calmaria e uma paz repentina. Ele a abraçou como se não fosse nunca mais soltá-la, ela se despediu falando baixinho no ouvido dele - e era hora de embarcar no avião. Ele não a beijou.

Do lado de dentro do portão já haviam chamado o nome dele para embarque imediato, mais de uma vez. Ele olhou pra trás antes de sumir da vista dela. E foi nesse olhar que ela soube que eles já tinham se beijado, só não havia acontecido ainda