sexta-feira, 31 de julho de 2015

Em terra de cego... sexo a dois é mènage

Entre dois amigos:

_ Deve ser bom quanto tua mulher convida uma amiga pra participar
_ Já é difícil demais quando eu participo, então, não, não deve ser bom. Eu já fico feliz quando ela lembra de ME convidar.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Casamento

Falácias do Twitter: 

O cara que inventou o casamento era muito louco! Tipo: te amo tanto que quero envolver Deus e o governo.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Você nunca vai me conhecer


Eu sou a menina que você nunca vai conhecer. Sou eu quem vai te acordar de manhã com um beijo e, no dia seguinte, sem querer, vou te acordar com uma cotovelada por causa de uma noite de sono agitado. 

Sou a mulher que vai te agarrar de um jeito totalmente louco, que vai te fazer achar que você nunca foi tão desejado. É a mim que você vai ver nua sem fazer ideia de como desvendar o mistério do meu olhar. E, no dia seguinte, serei a menina que vai pular em você pra te matar de cócegas e depois vai se enroscar em você e apagar sem te dar beijo de boa noite e sem sequer escovar os dentes. E você vai me colocar pra dormir na sua cama, com a sensação de que mesmo de calça jeans você está me vendo inteiramente nua, de tão frágil e exposta. 

Sou a mulher irritantemente obcecada com limpeza que vai rolar na lama com você em um dia de chuva. Vou te enlouquecer de tanto falar e, de repente, vou passar um nascer do sol inteiro em silêncio sentindo a sua pele na minha. 

Sou a mulher que um dia você vai achar que conhece, e que na semana seguinte vai mudar tanto que você ficará sem chão quando perceber que está se apaixonando por outra, só que ainda sou eu. Vou acordar atrasada pro trabalho e não vou nem dar bom dia pra quem estiver no elevador. E, na volta, vou ficar conversando com a velhinha do andar de cima com toda a minha ternura.

Sou a mulher que vai sair pra dançar com você de salto alto e batom vermelho no sábado à noite e que vai passar a semana seguinte inteira de tênis, calça jeans e camiseta. Sou aquela que vai te fazer cafuné até você dormir, depois de um dia exaustivo, e que vai acordar no dia seguinte reclamando porque a casa está uma bagunça.

Sou a mulher que pulou de um prédio de 50 andares sem cordas e que , no meio do pânico da queda livre, descobriu que gostava de voar. Sou uma menina que nunca vai crescer e que vai se apaixonar por você pelos motivos mais improváveis e inesperados. Vou me chocar comigo mesma: com a minha imensa coragem pra encarar a dor que eu sinto às vezes e com meu pânico repentino por causa de um corte no dedo. 

Sou a mulher que você nunca, nunca, nunca vai conhecer por inteiro e nem pela metade. Mas, subitamente, você vai saber exatamente quem eu sou quando eu te olhar bem no olhos: você vai entender que eu sou livre, que não quero ter a obrigação de ser boazinha nem escrota. Que não posso ser a mesma pessoa a vida inteira quando eu tenho tanta coisa pra aprender sobre a vida e sobre mim. 

Sou a mulher que você nunca vai conhecer, porque eu vou mudar constantemente, eu vou ser eu mesma, só que nem sempre serei a mesma. Sou eu que não quero ter a obrigação de ser sua pra sempre. E, mesmo assim, e talvez exatamente por isso, pode ser que eu queira ser sua pra sempre, mas só vou descobrir amanhã e depois  - e todos os dias depois de amanhã.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Quase um beijo

Cada vez que se viam era como entrar em um universo paralelo em que o tempo e as obrigações não existem e é permitido simplesmente ser quem se é ou, ainda, não saber quem se é. Podiam dizer o que sentiam e o que viam sem medo de julgamentos, sem esperar nada em troca.

De um dia pro outro, de repente, eles se sabiam apaixonados. Porque dizem que apaixonar-se é como queda livre - aquela sensação de não ter controle, não ter como parar e nem conseguir continuar a cair, porque não há nenhuma corda pra te segurar. Ao mesmo tempo, parecia que o que sentiam não tinha nome, não era paixão, era outra coisa: era o jeito que ela o olhava nos olhos, era alguma coisa que ela via quando ele desviava o olhar.

Eles se conheciam já há mais de dois anos, sempre se encontrando casualmente, mas nunca haviam de fato reparado bem um no outro. E repentinamente, sem qualquer explicação, se olhavam de um jeito totalmente diferente. Ambos sabiam o que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, nenhum dos dois podia explicar o que estava acontecendo. Mas ela não podia simplesmente continuar olhando pra ele e não dizer que sabia que algo tinha mudado. Um dia, sem meias palavras, ela simplesmente disse: Me apaixonei por você. E ponto.

Continuaram se vendo e se falando, como se fosse normal estarem apaixonados, como se fosse permitido que as as árvores dessem flores no inverno e estivessem por todo lugar, mas só eles conseguissem enxergar. Sentindo o que sentiam, eles conversaram por infinitas semanas sem sequer encostar uma mão na outra, como se fosse proibido sentir. Ela sentia como se, por alguma razão, fosse se desintegrar em partículas se o abraçasse, mas não existia nada que ela quisesse mais do que abraçá-lo e, ao mesmo tempo, era assustador imaginar o que isso poderia desencadear.

Se abraçaram numa terça-feira de tempo feio e vendaval, como se fosse simples. Estavam sentados num café, quando ela não aguentou mais - arrastou a cadeira pra perto dele e o abraçou, simplesmente porque não abraçá-lo parecia errado. Uma enxurrada de sensações invadiu os dois e sentiam o cheiro um do outro, o calor da pele e a pressão do abraço. Ela beijou seu pescoço, apertou as costas dele como se quisesse prendê-lo ali pra sempre e sentiu a barba dele roçar no rosto dela, pra lembrá-la de que suas bocas estavam há poucos centímetros uma da outra. Queriam se beijar e parecia que a qualquer momento um dos dois iria percorrer esses centímetros que os separavam de um beijo.

Mas ela soube antes que não iria vencer esses centímetros. Não porque não quisesse ou não pudesse, mas porque, de alguma forma, sentia que ele hesitava e oscilava o tempo todo. Sentiam uma intensidade explosiva quando o relógio os lembrou que ele tinha que pegar um avião. Abraçaram-se em frente ao portão de embarque, e, dessa vez, toda a intensidade estava misturada a uma calmaria e uma paz repentina. Ele a abraçou como se não fosse nunca mais soltá-la, ela se despediu falando baixinho no ouvido dele - e era hora de embarcar no avião. Ele não a beijou.

Do lado de dentro do portão já haviam chamado o nome dele para embarque imediato, mais de uma vez. Ele olhou pra trás antes de sumir da vista dela. E foi nesse olhar que ela soube que eles já tinham se beijado, só não havia acontecido ainda


 

domingo, 26 de julho de 2015

O amor mais lindo que nunca existiu


Ela tinha 15 anos e era verão quando o conheceu. Não dá pra acreditar que há não muito tempo atrás, dois adolescentes trocaram cartas de amor com fotos, poemas e marcas de beijo de batom durante anos - mas essa foi exatamente a história deles: eles se apaixonaram, mas moravam distantes um do outro e esperar cada carta era como esperar por um encontro. Por quase dez anos, tudo o que eles tinham experimentado um do outro foi um encostar de lábios, um quase beijo.

Eles nunca conseguiram se encontrar no mesmo tempo e espaço e foi inevitável que, com o tempo, essa paixão adolescente virasse uma amizade bonita, daquelas em que depois de longos períodos sem contato, um ligava pro outro as onze da noite e os dois conversavam por horas, como se nunca tivessem ficado sem se falar.

Às vezes, saíam pra jantar, iam ao cinema assistir duas sessões seguidas, passeavam juntos só pra jogar conversa fora ou se falavam ao telefone por horas e horas. Mesmo quando ele viajou o mundo em um navio, não ficaram sem saber um do outro: ele mandou pra ela um cartão postal de cada país que visitou, como havia prometido quando se conheceram.

Dez anos se passaram e, quando menos se esperava, veio um beijo de verdade, um beijo seguido de vários outros beijos que mudaram tudo de lugar. Ela, que já havia esquecido daquele sentimento da adolescência, de repente quis saber o que vinha depois desse beijo. Durante todos esses anos ele a amava secretamente, sem nunca ter coragem de dizer o que sentia, e de repente a estava beijando como havia desejado por tanto tempo, como não imaginava que fosse acontecer.

Pra ela, foi como voltar no tempo, como se de repente tivesse de novo quinze anos. Mas ele... ele sentiu um caos repentino, uma sensação absurda de que aquilo não era real. Como é que um beijo pode mudar tudo? Não era só um beijo? Eles estavam ali, no mesmo espaço e tempo e alguma coisa não parecia estar no lugar. Ele tinha alguém, alguém que ele não amava, que ele sequer podia sonhar em querer como queria a mulher que ele finalmente beijava pela primeira vez.

Por  medo, culpa e loucura - ou talvez covardia, ele simplesmente se afastou dela sem dar qualquer explicação. Ela enviou muitas mensagens dizendo que queria vê-lo, que aquele beijo mexeu com ela, que ela queria estar com ele. Sem ter qualquer resposta que fizesse sentido, ela desistiu de entender o que estava acontecendo e, depois de um tempo aceitou que, de alguma forma, não era pra ser.

Um dia, ao acaso, ela o encontra num restaurante e então vai até a mesa dele dizer olá. Fazia quinze anos desde o dia que eles tinham se conhecido e agora os dois estavam acompanhados: ela com o marido, ele com a esposa. Ela estava feliz por encontrá-lo, por vê-lo feliz. Quando ele a viu, no entanto, sentiu como se tivesse tomado um soco na boca do estômago: imediatamente ele sentiu o quanto ainda era apaixonado por ela e, naquele exato momento, teve certeza de que sempre seria.

Ele tentou controlar sua reação, porque afinal, estava ali com sua esposa. Mas, o seu olhar entregava que ele estava ali olhando para aquela menina que ele sempre amou, aquela menina que mandava cartas que ele amava ler.  Como olhar para aquela mulher e esconder tudo o que vinha à tona? Como olhar pro marido dela e não pensar que poderia ser ele ali com ela?

Nos dois minutos que se cumprimentaram e apresentaram os casais, ele sentiu faltar o ar: lembrou do beijo, de sua covardia imensa. Se perguntou um milhão de vezes em um segundo como poderia seguir com sua vida normalmente a partir dali, aceitando que ele a havia perdido. Como estar casado com uma mulher que ele sabia amar, mas que nunca seria aquela menina com quem ele sonhou a vida inteira? A história não ia poder ser reescrita, ele nunca saberia como poderia ter sido se ele não tivesse fugido e, apesar de se achar feliz, ele simplesmente não se sentia inteiro, completo.

Os mais céticos dirão que ele fantasiou tudo isso, que de repente a relação dele com ela não seria nada do que ele sonhou. Os mais céticos irão dizer também que o tempo não volta, que ele deveria parar de lamentar e seguir em frente.

Talvez, seja possível transformar um arrependimento em poesia. E talvez seja possível fazer as pazes com esse fantasma de nunca saber como teria sido viver uma história de amor com ela. O que dói não é que ele pense que sua felicidade tenha que ser com ela, mas que poderia ter sido com ela - e não foi.

Às vezes, o coração tem esse conflito impossível de resolver pela razão: vivemos um sentimento para o qual é cedo demais pra dizer adeus e tarde demais para vir a ser. Outras vezes, apenas não nos damos conta de que esse amor mais lindo do mundo só é lindo assim porque não foi vivido e nunca foi testado pelas tardes de tédio de domingo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O sexo e outros demônios III



Mas e os homens? São eles os escrotos aproveitadores das relações? Será que eles não prestam?

Tudo o que eu percebo é que os homens também são vítimas dessa cultura centrada no sexo. Há até bem pouco tempo atrás, era super normal levar um adolescente em um puteiro para que ele perdesse a virgindade. Ainda hoje, muitos meninos são educados para não sentir, enquanto as meninas são educadas para fingir o que sentem. Meninos não andam de mãos dadas com os amigos, não podem brincar de certas coisas, não podem ficar abraçados com seus amigos. Se uma menina brinca de carrinho, até vai, mas se um menino ousar brincar de boneca, a maioria dos pais ficaria de cabelo em pé.

Vejo o feminino e masculino mais como energia do que como gênero, então sempre acreditei que meninos e meninas deveriam ser livres para desenvolver naturalmente força e delicadeza, de forma que se permitam sentir e se relacionar com o mundo com liberdade. Nenhum homem deveria ser educado para competir, para ir pra guerra, para se destacar, para ser o melhor no que faz e bom de cama, e bom de tudo. E mulheres também não deveriam ser educadas para serem bonequinhas, para se comportarem, para a maternidade, pela perspectiva de contos de fada da Disney. Meninas também não deveriam ser criadas sob a ótica do feminismo xiita, em que precisam provar que são tão boas quanto os homens - ou melhores.

Ambos os sexos deveriam ser educados apenas para sentir, para serem livres para descobrir em si mesmos seu próprio equilíbrio entre feminino e masculino, para serem o que quiserem ser - porque quem somos não é determinado pelo nosso gênero. Alguns homens serão mais sensíveis que outros, e algumas mulheres serão mais brutas - e isso é a beleza de ter uma educação livre. Temos toda a questão biológica e hormonal - claro! - mas o ser humano é muito mais complexo que isso.



O problema, na minha opinião, é que a sociedade espere certos comportamentos de alguém baseada no sexo da pessoa, porque isso é uma forma de escravidão. É uma violência tremenda que a maioria de nós passe a vida inteira sendo quem fomos educados pra ser, e não quem de fato somos. É muito triste que alguns homens tenham sido educados para achar que sexo é intimidade e que eles só podem se permitir suprir sua necessidade de carinho e de intimidade em uma relação sexual.

Não acho um problema e nem acho feio que as pessoas façam sexo só pelo sexo: a questão é não haver consciência sobre isso, e não ser capaz de ir além disso em nenhuma relação. Eu acho que o ser humano precisa de intimidade, de trocas menos superficiais - e acho que a vida perde muito da beleza sem isso, porque intimidade de verdade é muito bom e faz falta.

Em um mundo em que ninguém acha lamentável se vender carro e cerveja com peitos e bundas saradas à mostra, em que mulheres são colocadas para ficar rebolando seminuas no plano de fundo de programas de auditórios, é quase um milagre que homens que pensam em sexo trocentas vezes por dia algum dia se questionem do porquê eles fazem isso: se é porque querem ou se é porque eles foram adestrados a vida inteira a erotizar a existência. Não acho que podemos julgá-los por isso, mas podemos sim mostrar que há outras coisas além disso.

Em um mundo em que o padrão de beleza é quase uma ditadura, é lindo quando um homem olha pra mulher e não enxerga só peito, bunda e abdome sarado - mas enxerga alguém com quem gosta de conversar e de ficar em silêncio, a despeito de se vão ou não fazer sexo. É lindo quando homens e mulheres percebem que o relacionamento é mais do que sexo, e que quanto mais um relacionamento for além do sexo, melhor o sexo será. E mais do que isso: quando o sexo deixa de ser o centro da relação, é possível sentir muito prazer em tudo o que se faz junto: de um beijo lento e demorado a sair pra correr na praia juntos.



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A fonte de toda a confusão

Pra mim, não há como realmente falar de sexo, sem começar do começo: a educação sexual que não temos. Porque, claro, saber onde ficam os órgãos sexuais e saber como funciona o "sistema reprodutor" não é educação sexual. Aprendemos a sexualizar e erotizar tudo, mas não aprendemos a conhecer nosso corpo, a aguçar nossos sentidos e enxergar o sexo como uma de muitas formas de contato físico que podem gerar prazer. Mais do que isso: não somos ensinados que há outras coisas além do sexo e que essas outras coisas são importantes também.

Mas meninos são criados se masturbando escondidos no banheiro, vendo revistas pornográficas com mulheres irreais e vídeos com um sexo coreografado e igualmente distante da realidade. Meninas são criadas se vestindo de princesa e assistindo aos contas de fadas da Disney, onde sempre tem um príncipe fofo. Ou, hoje em dia, algumas meninas também são criadas com uma sensualização precoce, por uma cultura ao mesmo tempo repressora e que as veste como mulher-objeto desde muito antes de elas despertarem o corpo para o sexo: com saias curtas, saltos, maquiagem e uma existência centrada no poder da atração pela beleza.

Meninos são criados para serem dominadores, conquistadores. Quanto mais mulheres eles conseguirem levar pra cama, mais garanhões eles serão. E meninas são criadas para serem uma espécie de troféu de bunda sarada, num eterno concurso de beleza com outras mulheres e numa eterna dança do acasalamento com os homens. Quantas amigas minhas já não ficaram arrasadas porque foram "trocadas" por uma mulher mais bonita? E quantas já não ficaram ainda mais arrasadas por terem sido trocadas por uma mulher mais feia? E estamos apenas falando da cultura "ocidental", nem vou comentar outras realidades mais duras, onde mulheres são mutiladas ou ainda negociadas como mercadoria ainda crianças, e meninos são ensinados a tratá-las como tal.

É triste saber que mulheres são criadas para competir umas com as outras pelo desejo dos homens, e também é triste, por outro lado, ver que muitas mulheres, de tanto serem massacradas pelo machismo, estão se fechando para si mesmas: em vez de descobrirem o que é ser feminina - que obviamente não está em usar saia e vestido, ter a unha pintada e coisas do tipo - estão ficando cada vez mais brutas e inacessíveis, reagindo agressivamente a qualquer mínima atitude machista. Muitas mulheres acham que irão superar toda a opressão simplesmente usando os homens sexualmente e depois jogando fora, como se isso fosse "vingar" o que os homens fizeram com as mulheres desde sempre.

É muito difícil falar de sexo, porque pra começo de conversa, somos todos vítimas de uma criação patriarcal tremendamente limitadora, baseada em azul e rosa, balé e judô, na extrema diferenciação da percepção do sexo para homens e mulheres. E a sensação que eu tenho é que todos saem perdendo - ok, as mulheres historicamente perderam mais, porque foram violentadas, usadas e discriminadas desde sempre, tudo em nome da satisfação sexual dos homens.

Mas não acho que vamos mudar o fato de que as mulheres foram e ainda são objetos sexuais a serviço dos homens fazendo o mesmo com eles. Não vamos equilibrar as relações e fazer as pazes com nossa sexualidade excluindo o sexo oposto. Como mulher, sinto que meu papel é encerrar o ciclo de clube do bolinha e da luluzinha. Em lugar de reforçar a separação, de dizer que os homens são todos iguais e que homem não presta, desejo incentivar meu filho, meus amigos e amigas a escreverem uma nova história, bem diferente da história que vivemos na sociedade patriarcal.


E, para mudar essa história, precisamos falar de sexo num contexto em que as pessoas se permitam sentir, em lugar de usarem umas às outras. Isso é difícil, porque requer que sejamos capazes de entrar em contato com nossas emoções e com as emoções do outro. 


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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Descompasso

Em uma relação a dois, passamos por muita coisa sem entender o que está acontecendo e, no momento da confusão, dificilmente temos condições de nos abrir com o outro pra tentar entender a dois um momento em que nos sentimos perdidos.

Em lugar de conversar, ficamos mal humorados, exigentes, impacientes, implicantes, insatisfeitos e indispostos com o outro. Por todos os motivos. Por qualquer motivo. E finalmente, por motivo nenhum.

E quando a gente se dá conta de que o problema acontece de um só lado, quando nos damos conta do que acontecia dentro da gente, já mudamos tanto que não cabemos mais dentro do nós dois. Como lidar com esse descompasso? O que fazer quando, de uma hora pra outra você acorda e está tudo diferente, pelo simples fato de que você mudou?
 

Não parece ser justo com o outro que, de uma hora pra outra, a gente simplesmente mude. Mas, é possível começar tudo do zero? Desinstalar o software antigo e simplesmente começar um novo relacionamento com a mesma pessoa, quando nos percebemos tão diferentes? Ou, pelo contrário, a mudança é tão grande que o que se sente é que o seu mundo se expandiu a ponto de não caber mais naquela relação?



terça-feira, 21 de julho de 2015

O sexo e outros demônios I




A gente conhece esse ciclo: início de relacionamento: sexo todo dia, às vezes mais de uma vez por dia. O tempo vai passando, a coisa vai esfriando e, eventualmente, quando se mora junto, acontecem fases em que há muito pouco sexo. Que atire a primeira pedra [não vale se for a Luca] a mulher que nunca passou por isso: por simplesmente não ter vontade de nada, seja porque está estressada com outras coisas, ou porque tem estado muito cansada e blá blá blá.

Para um homem, não ter tanto sexo quanto se deseja é um problema. E dos grandes, desses que gera muita frustração e deixa a pessoa de mau humor. Quem nunca ouviu um cara casado e com filhos recém chegados reclamar absurdos disso? Aliás, quem nunca conheceu um cara casado com um recém nascido que arrumou outra mulher para resolver o problema da falta de sexo?

Por que a gente usa o sexo como termômetro de uma relação? Pra começo de conversa, para a maioria das pessoas, sexo é o que diferencia uma amizade de um namoro. É só isso e é tudo isso [e eu não vou falar aqui de amizades coloridas e coisas do tipo, senão o post vai ser infinito]. Com amigos, a gente sai, ri, viaja, briga, faz as pazes, conversa, mora junto, racha a conta, divide experiências e pede conselhos. E com um parceiro, namorido, namorado e marido a gente faz tudo isso + sexo.

Tanta gente se relaciona quase que só pelo sexo garantido e disponível 24 horas por dia. É mais fácil do que sair à rua e ter que encontrar um desconhecido que esteja disposto, né? Só que, em tantos relacionamentos, não existe o tudo isso que mecionei que os amigos tem. E, se falta sexo, falta muita coisa. Falta tudo, às vezes. E a relação perde o sentido: porque se não se tem sexo e não sobra nada além disso, qual o sentido? Nem todo mundo se dá conta de que a insatisfação não está relacionada somente a falta de sexo, mas a falta de coisas essenciais que podem ser compartilhadas por um casal. É mais prático colocar toda a culpa no outro, ou no sexo ruim, ou na falta de sexo.

Sexo é tão ridiculamente supervalorizado, que a maioria das relações são medidas pela quantidade de sexo que se tem ou pelo sexo que não se tem. Não deveria ser necessariamente um problema ter sexo demais ou de menos. Acho que o ideal é ter apenas o suficiente, que tem muito mais a ver com qualidade do que a quantidade. E sexo suficiente, pode ser nenhum em alguns momentos: pode ser apenas dormir de conchinha com um beijo de boa noite na testa.





Continuação: 
O sexo e outros demônios II
O Sexo e outros demônios III

domingo, 19 de julho de 2015

O que você quer de mim?



Acho que quero contar todas as pintas da sua íris pra ser a única que sabe uma coisa exata sobre você. E quero tirar a sua camisa e sentir a sua pele. Talvez eu queira te ver todo pelado, só que de um jeito que eu nem precise tirar a sua roupa. Eu quero poder falar com você às 3 da manhã se eu tiver insônia, quero poder ouvir a sua voz quando eu não puder te ver. 



Quero te beijar muito devagar. Quero te abraçar todo suado, quero te ver xingando todo mundo no futebol, porque quero conhecer tudo o que você não gosta em você, só pra me sentir à vontade ao seu lado por também ser apenas humana.

Quero sentir a sua respiração no meu
pescoço. 



Quero que você me enxergue mais real, menos linda. Quero andar de bicicleta com você, subir uma montanha, ir pra Machu Picchu e pra Transiberiana. Quero que você me obrigue a ir pra Europa contra a minha vontade, só pra vencer a minha implicância. Quero te morder. 


Tenho uma lista infinita de coisas que quero com você e de você. Algumas nem tem nome. Acho que eu quero tudo. E ao mesmo tempo, não quero absolutamente nada a não ser a tua presença consentida, ou sentir que, de alguma forma, eu te ajudo a encontrar o seu caminho, mesmo que ele te leve pra algum lugar que meus braços nunca alcancem. 

sábado, 18 de julho de 2015

Mesa pra dois?

Tem sido muito gostoso escrever novamente. Mas, além disso: tenho me divertido lendo meus textos antigos. Alguns textos eu sinto que são tão atuais, que dá até vontade de publicar novamente. E o Mesa pra Dois é um deles:


Solteira sim, sozinha também 

No restaurante, a moça da entrada pergunta: Mesa pra dois?. Respondo sorrindo: Não, estou sozinha. A simpática recepcionista insiste: Mas você vai esperar alguém

Quando me dei conta de que há meses estou solteira & sozinha, passei algum tempo de ócio pensando no conceito de solidão. De tantas incursões que fiz desacompanhada nessa temporada solo, ficou óbvio e ululante que o mundo tem aversão a solidão.

Parece inconcebível eu querer, por vontade própria, sentar à mesa comigo mesma. Mais do que isso: é uma cena triste pra quem observa, parece que as pessoas pensam que levei um bolo, ou que não tenho amigos.

Ir ao cinema sozinho é quase crime inafiançável. Viajar sozinha então, nem se fala. Especialmente para mulheres, fazer qualquer coisa sozinha – até mesmo ir ao banheiro - é algo ainda estranho, como se contrariasse a natureza humana.

Por que isso acontece? Por que estar só é uma coisa mal vista, que soa como algo que não pode ser escolhido?

Estar só é uma escolha e isolamento é um exercício bom e saudável de autoconhecimento. Solidão, por outro lado, é um fantasma mais assustador, ou, pelo menos, deveria ser. Todo mundo foge de estar só, mas, a maioria não percebe a solidão que existe no meio da multidão. E essa é a única solidão ruim que eu experimentei: a de se sentir estrangeiro no seu próprio país, sentir-se só, ainda que acompanhada. No livro A Alma Imoral, Nilton Bonder conseguiu colocar em palavras a única solidão da qual eu realmente tenho medo:

“Aqueles que se permitem as transgressões da alma com certeza são vistos e recebidos pelos outros como estrangeiros. Os que mudam de emprego radicalmente, os que refazem relações amorosas, os que abandonam vícios, os que perdem medos, os que se libertam e os que rompem experimentam a solidão que só pode ser quebrada por outro que conheça essas experiências. A natureza da experiência pode ser totalmente distinta, mas eles se tornarão parceiros enquanto 'forasteiros'“.


Fazendo as pazes com a solidão


Na ânsia de preencher a existência e o vazio, pessoas se casam, tem filhos, um emprego, amigos, um papel social, um espaço em que se possa dizer Eu existo e faço parte. Mas a despeito de todo esse esforço, a solidão ainda está à espreita, porque ela não está em estar só.

A única maneira que eu conheço de aplacar essa solidão é encontrar seus pares estrangeiros: amigos de verdade, daqueles em que você se comunica pelo olhar; amores sinceros, que não sejam funcionais, mas cujo único propósito seja gostar e ser gostado; filhos desejados: não para preencher a existência ou dar continuidade ou um sentido à vida, mas pela vontade de compartilhar uma vida que já é cheia de sentido, de recomeço, de se doar e reconstruir o mundo.

Mesmo sozinha no cinema, é alegre saber que eu tenho algumas poucas pessoas na vida que, ainda que totalmente diferentes de mim, são capazes de me fazer sentir em casa: eu não preciso me explicar, nem me defender, porque tanto um quanto o outro nos sabemos forasteiros... e mesmo em completo silêncio, mesmo longe, a solidão não existe e, em lugar do desespero de estar só encontramos a saudade, a vontade de estar junto, a felicidade de saber que existe outro que de fato entende o que eu sou me faz sentir parte do mundo.

E quem se sente parte do mundo - mesmo um mundo de 10 pessoas - jamais se sente sozinho.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Eu lembro do que esqueci


Meu coração é a soma de tudo o que eu já senti. Desde a primeira vez que eu me apaixonei, cada intensidade ficou registrada. Beleza. Alegria. Beijo. Desejo. Resignação. Saudade. Surpresa. Mágoa. Desejo. Compreensão. Aceitação. Paz.

Todas as coisas que vivi foram repletas de significado - das mais densas às mais cheias de leveza. Alguns relacionamentos foram mais fáceis e outros mais difíceis. E algumas alegrias foram tão boas que terminaram em tristeza só porque acabaram. E algumas tristezas se dissolveram tão fácil como se nunca tivessem existido. Acho que não faria nada diferente, mesmo que às vezes eu sinta que, em tantas horas, eu queria ter sido melhor, mais madura, mais sábia, mais calma. 


Apagar o que vivi seria o mesmo que excluir parte do que eu sou agora, porque eu aprendi sentindo e errando, quase nunca aprendi acertando. Não quero apagar nem mesmo (e muito menos) as coisas mais difíceis e dolorosas, porque com o tempo, elas se transformaram em cicatrizes bonitas, em fonte de inspiração e em força. Mesmo as coisas mais doloridas, eu aceito como parte da minha história: nunca acordei querendo mudar o que vivi.

Mas, apesar de tanta intensidade, eu sinto uma inquietação. Sinto como se meu coração tivesse alguns espaços vazios. É como se nesses espaços fosse morar algum sentimento muito esperado, mas aí, alguma coisa aconteceu fora do compasso. A gente pode conviver com a soma de todas as mágoas e mesmo assim ser capaz de perdoar ao outro e a nós mesmos. Podemos ser felizes de novo, mesmo depois de acharmos que nunca poderemos ser mais felizes do que fomos naquele verão que nunca teremos igual. Mas, como é que a gente aprende a aceitar esses espaços que ficam aqui no coração pelo que não conseguimos viver e sentir como queríamos? 

Existem vazios que nada preenche. Aquilo que não foi é a mais dolorida das memórias: é como aquele sonho louco e perfeito que você teve, mas no momento que você acorda não consegue lembrar de absolutamente nada. Quase como em O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças: você lembra mesmo tendo esquecido, como se soubesse tudo de sentir, mas a memória simplesmente não está lá. E dói antes mesmo de lembrar. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Let Go


Toda vez que eu me pego em uma situação altamente sufocante num relacionamento, em que estou completamente perdida, e não faço ideia se quero ou não continuar na relação, se vale ou não à pena insistir ou se preciso me permitir encerrar um ciclo e me jogar no desconhecido, eu gosto muito de escutar música. Com o som bem alto. Se possível for, dançando. E se tudo for perfeito, no meio da natureza, sem ninguém por perto.

Já passei por alguns momentos em que analisei tanto as coisas, à beira da exaustão e, mesmo assim (ou talvez por isso) não conseguia ver nada claramente. NADA. Não existia saída possível que me agradasse. Terminar parecia errado, continuar parecia covardia. 

E, no meio do caos, a gente vive esse momento de colapso, em que não há mais forças pra nada e a única coisa que sobra é o silêncio. Uma leveza insustentável e ao mesmo tempo, bonita. 


A gente passa horas e horas procurando a chave do carro. Ficamos extremamente irritados e, no final das contas, quando decidimos ir de táxi e vamos tomar um copo d'água antes de sair, descobrimos a chave dentro da geladeira.
Às vezes, o melhor jeito de entender é não tentar entender. E o melhor jeito de resolver é não tentar resolver. Desistir de tudo. E, de repente, acordar de manhã e simplesmente saber o que fazer, de um jeito tão ridiculamente simples que dá vontade de rir por não termos percebido antes.

domingo, 12 de julho de 2015

Os vários ângulos de uma traição


Um amigo meu sofre de ansiedade crônica e está sempre indo a consultas com seu psiquiatra. Em muitas consultas, ele sempre retornava ao tema que era também monólogo das nossas conversas: sua história com uma paixão da adolescência que até hoje mexia muito com ele. 

Frequentemente ele tinha vontade de largar tudo pra ficar com essa mulher. Mas os dois eram casados e, apesar  de bastante infelizes, quase sempre em vias de se separarem, em relações com brigas constantes, achavam que seria complicado ficarem juntos, porque os dois estavam casados há muitos anos e também por causa dos filhos. 


O meu amigo e a mulher por quem ele é apaixonado desde a adolescência, trocavam e-mails com certa frequência, sobre como nunca tinham esquecido um ao outro, às vezes considerando tomar coragem de acabar com seus casamentos para ficarem juntos. Quase sempre ele se sentia culpado, porque ao trocar e-mails com outra mulher, traía sua esposa. Ao que o psiquiatra retrucou:

"Realmente, vocês são dois adúlteros. Você tem traído a mulher que você ama há anos com sua esposa. E a mulher que você ama também tem te traído com o marido dela".

Na maioria das culturas, amar uma mulher que não seja sua esposa ou um homem que não seja seu marido é um grande ato de traição. Mas, talvez, do ponto de vista do amor, às vezes a maior traição sobre a qual não nos damos conta é quando traímos a nós mesmos, nos negando viver um amor verdadeiro, por pura covardia, enquanto oferecemos aos nossos maridos e esposas um casamento de mentira por uma vida inteira.

sábado, 11 de julho de 2015

Problemas nos relacionamentos: ter ou não ter, eis a questão

Tenho certeza de que há alguma coisa muito errada com o mundo quando percebo que a maioria das pessoas tem nos relacionamentos uma fonte de problemas e frustração. São tantas as reclamações que se houvesse um SAC pra relacionamento, eu poderia apostar que as operadoras de telefonia móvel ficariam no chinelo nas estatísticas de reclamações.

Fico imaginando como seria esse SAC. As mulheres e homens ligariam pra reclamar de traição, ciúmes, machismo, excesso de cobranças, mau humor, carência, grude, controle (onde você está? Por que ainda não chegou em casa? Blá blá blá). O que aconteceria se, só por um instante, fosse possível mudar o foco? E se todos os problemas de uma relação estivessem diretamente relacionados ao jeito que as pessoas da relação interpretam a vida e o mundo? E se a maior parte dos problemas fossem criações da nossa própria mente?

E se não estivermos nos frustrando com as pessoas pelo que elas são, mas porque elas NÃO são como a gente espera?  E se não estivermos chateados com os "defeitos" que vemos, mas com a ausência das coisas que queremos? Se não estamos chateados porque o pneu furou e sim putos da vida porque queríamos o pneu cheio [e sempre], 
bastaria trocar o pneu e seguir em frente, sem qualquer problema, certo? 

Claro, nas relações, trocar pneu não é necessariamente trocar de pessoa. Nesse caso, a metáfora do pneu se refere a perceber a real origem da frustração e seguir em frente. Porque, afinal, estarmos chateados com a vida como ela é e com as pessoas como elas são, é o mesmo que ir lá fora e não aceitar que o céu é azul: é uma batalha perdida, uma frustração que não tem conserto. A mera percepção desse equívoco deveria dissolver o problema.

Mas não é isso que acontece na maioria dos casos. Além de não aceitarmos o que é, ainda tentamos fazer o outro mudar. E quem nunca?

Como meu dever de casa, sempre vejo que preciso aceitar mais o outro como ele é e parar de enxergar o que é como um problema, apenas porque não é o que eu espero e nem o que me agrada. E, mais que isso, também preciso aprender que é tremendamente injusto que eu determine que o outro é responsável pela minha felicidade e satisfação - não só porque ninguém pode me conhecer melhor que eu mesma para assumir bem essa missão, mas também porque é impossível que o outro me faça feliz.

E, sem qualquer drama ou mimimi desnecessários, deveríamos apenas aceitar que, certas pessoas não formam um bom par com a gente. E, às vezes, é mais fácil ser feliz sozinho do que ficar tentando uma vida inteira encaixar um parceiro incompatível na nossa forma imaginária de par ideal.





E pra encerrar o post, Oscar wild: "Selfishness is not living as one wishes to live, it is asking others to live as one wishes to live".

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Separação: caminhos fáceis e difíceis


Num momento difícil da minha relação, uma amiga fez o seguinte comentário: "Casamento é assim mesmo. Desentendimentos acontecem. Cabe ao casal tentar 'consertar' ou sair pelo caminho mais fácil e mais comum hoje em dia: separar. Se houver amor é possível consertar, ao menos tentar consertar".

Como eu poderia dizer algo sobre esse comentário/conselho? Primeiro, não posso discordar mais do que discordo dessa opinião. E, segundo, senti que a minha opinião colocaria em questão o próprio relacionamento de muitos e muitos anos dessa amiga, que é baseado, em grande parte, nessa filosofia do é assim mesmo


Mas, não teve jeito, deu vontade de escrever sobre isso. Então, vamos por partes, como diria o Jack:



Casamento é assim mesmo.


É mesmo? Todos os casamentos são iguais? Todo mundo casa pelos mesmos motivos? Todo mundo se mantém casado pelas mesmas razões? Eu sempre acreditei e continuo acreditando que uma das coisas mais importante nas relações é conseguirmos olhar cada momento da relação como ele é no agora, sem tomar como base o que aconteceu no passado. Porque o passado da relação até pode ser uma referência para o casal, em termos da história da relação. Mas, usar o passado como referência para avaliar a relação ou resolver problemas no AGORA é, pra mim, um equívoco. No geral, em situações de crise, o passado serve muito mais para apontar dedos por "erros" e mágoas, para cobrar do outro promessas feitas, para frustrar expectativas geradas por um comportamento esperado que já não é o mesmo ou, pior ainda: para idealizar a relação bonita do passado achando que ela vai voltar a ser igual em algum momento do futuro.


O que quero dizer é: problemas não deveriam se acumular. Cada divergência entre um casal deveria ser resolvida momento a momento e encerrada definitivamente. Aceitar que casamento é assim mesmo é, pra mim, um jeito covarde de conformismo, de não olhar pra divergência e pra fase ruim que se está vivendo com um olhar novo, atento e presente. E isso só dá ainda mais combustível pra guardar esse problema na gaveta e usar essa mesma frase quando surgirem outras questões.


Não, pra mim casamento não é assim mesmo. Viver é complexo e a vida tem muitos altos e baixos e muitas fases. E passamos por isso em todas as nossas relações: com a família, entre casais, no trabalho etc. E, seja qual for a dificuldade, achar que "é assim mesmo" não me parece a melhor forma de encarar de frente um momento difícil.  



"Cabe ao casal tentar 'consertar' ou sair pelo caminho mais fácil e mais comum hoje em dia: separar".  

É impressionante como as pessoas criam essas frases clichê sobre relacionamentos. Meodeos!!! Primeiro,  não consigo achar que uma relação se conserta, porque não é um motor de carro que quebrou. Uma relação é uma coisa viva, que tem que ser vivida toda dia e que, invariavelmente deve mudar ao longo do tempo, porque as próprias pessoas mudam muito ao longo da vida, in first place.


Segundo: eu não conseguiria assumir como verdade que separar é o caminho mais fácil. Porque, para a maioria das relações que eu conheço, separação é uma coisa muito difícil. Muitas pessoas preferem se mumificar lentamente em seus casamentos a ter que se separar. E são muitos os motivos tortos: seja por questões financeiras, ou porque morrem de medo de ficar sozinhas, ou porque acham que os filhos vão sofrer, ou por algum senso de responsabilidade, ou porque a relação é ruim mas previsível e melhor que ficar à deriva sem saber o que fazer da vida, ou porque o outro ameaçou se jogar da ponte. 


Vamos levando a vida achando que é assim mesmo, que casamento é difícil mesmo, que mês que vem melhora ou que esse é apenas um ano difícil. Bom, não estou aqui pra dizer que é fácil. Mas estou aqui pra dizer que, por outro lado, casamento só deveria ter sentido se for uma fonte de companheirismo, de aprendizado, de respeito. E, mesmo em momentos difíceis, essas coisas essenciais deveriam se manter vivas, porque é a partir delas que é possível fazer o que importa: rever a relação, conversar, se abrir, se renovar, olhar o outro de forma aberta e compreensiva. Acho que só a partir disso é que pode surgir energia para escolher ficar junto ou coragem para admitir que separar é a melhor opção.


Claro que a gente vai esbarrar em casais que, como dizem, se separam na primeira dificuldade. Existem muitos, é verdade. Talvez sejam a maioria. Mas, sinceramente, essa percepção é um tanto distorcida, na minha opinião. A questão não é que as pessoas se separem por qualquer motivo, mas muito antes, a maioria se casa por qualquer motivo!


"Se houver amor é possível consertar, ao menos tentar consertar".


Bom, não acho que o amor seja suficiente, nem de longe. Senso de responsabilidade e vontade de cuidar do outro, se importar com seus sentimentos e amá-lo incondicionalmente mantém uma amizade, o carinho, mas não acho que mantenha uma relação. 


Decidir separar ou continuar junto não é uma decisão tão fácil, especialmente entre duas pessoas que se amam, mas cuja relação tenha se percebido inviável. Acho necessária uma boa dose de autoconhecimento e de sensibilidade não só para tomar essa decisão, mas antes, para sentar e conversar abertamente sobre isso sem responsabilizar o outro pelo fim da relação.


De toda forma, não enxergo uma separação com toda a carga de drama e de fracasso que a maioria enxerga. Eu sempre achei que a vida é aprendizado e crescimento e simplesmente não entendo essa obsessão social com o 'felizes para sempre". Já é tão raro a gente encontrar casais verdadeiramente felizes no agora e as pessoas ainda ficam desejando ser felizes pelos próximos 800 anos! Eu prefiro me concentrar em viver um dia de cada vez. Num mundo de relações de mentira, acho bonito quando um casal tem a coragem fazer algo a respeito de uma relação que acabou: como eu já disse em outro post sobre o tema, separar-se é um ato de coragem e, entre pessoas que se recusam a viver uma relação cômoda, é também um sinal de enorme respeito pela relação que já existiu. 


Sim, cada caso é uma caso. Podem existir outras saídas que não a separação. Mas, seja lá qual for a escolha, o que eu realmente não consigo entender é como as pessoas aceitam como lei que os caminhos certos são os mais difíceis, como se tivéssemos que nos matar de sofrimento para alcançar a felicidade. 


Relação é aprendizado, crescimento, cumplicidade. Não estamos aqui para mudar o outro ou moldá-lo para atender às nossas necessidades e, em qualquer situação, deveríamos decidir se queremos ficar ou partir com base no que o outro é e não no que poderia ser ou no que gostaríamos que fosse. 


Separação não é escolher entre caminhos fáceis ou difíceis, mas escolher sobre o tipo de relação que se quer ter. E, pra mim, escolher ficar junto e permanecer junto deveria ser alegre, sempre. 



quinta-feira, 9 de julho de 2015

Estatística e Amostragem Fail

Minha conversa com uma amiga que anda, ultimamente, um tanto chateada com homens e relacionamentos (mentira, nem é ultimamente, é desde sempre, rsrsrs):

Amiga: Meu amigo do trabalho está ficando com uma menina há quase dois meses. Se chamam de amor, um tem a foto do outro em portarretrato em casa, a mina está dando a maior condição, dizendo que o que sente é entre eu gosto e eu te amo e ele não quer pedir pra namorar. Desisti de entender homens aqui e agora.

Eu: Hahahahahaha. mas você quer entender todos os homens através de um só? Ai fica difícil...

Amiga: Quero. Vou fazer prova de estatística hoje, porra. E na vida já tive uma grande amostragem.

Eu: Quase 7 bilhões de pessoas no mundo. Você conheceu uns 200 homens na vida e acha que isso serve de amostra válida?

É uma falácia atrás da outra...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sobre a saudade infinita que vive aqui comigo


Sinto saudade da minha infância: de brincar na rua até tarde, de dar a volta na cidade de bicicleta, ir pra escola à pé e sair à noite sem me preocupar com nenhum perigo iminente. Sinto saudade do meu pai, dos acampamentos que ele me levava, dos dias à deriva indo de caiaque de uma ilha a outra, do jeito que ele tinha de me mostrar que a vida é incrível e que eu jamais deveria me permitir viver se não fosse pra ser feliz. Ser feliz seria sempre uma escolha.

Sinto saudade da primeira vez que me apaixonei, de trocar cartas de amor, sair escondida pra namorar, de ficar contanto as horas pra sair da escola e encontrá-lo e, principalmente, do quanto era simples estar apaixonada: era só estar, e não era preciso nenhuma complicação a mais.

A saudade, pra mim, é uma coisa presente e, de certa forma, muito alegre - raramente uma nostalgia com fundo triste, porque quando eu olho pra trás e vejo tudo o que vivi, sempre acho que fui o melhor que poderia ser em cada momento. E cada um desses momentos foi importante pra que eu revisse minha forma de pensar, meu jeito de agir e, principalmente, o que me fazia plena e feliz.

Não é porque eu sempre faço as pazes com a saudade que é fácil mudar de fase, deixar pra trás ou ser deixado pra trás por alguém que vai embora, ou por alguma coisa que simplesmente não tem como continuar igual e nem como ser mantida se for modificada. Mas, mesmo assim, não é difícil ficar serena depois de algum tempo com relação ao que passou.

Pode parecer muito estranho, mas eu também sinto falta do que eu nunca vivi. O Ziraldo disse uma vez que "adultos vivem tendo saudade do que passou" mas que "criança tem saudade do futuro". Eu sou essa criança às vezes, tenho saudade do que não foi. Pra mim, essa é a saudade mais difícil de todas: a que rouba meu sono e torna os dias intermináveis.

O ser humano é complexo a esse ponto: ele sente falta das coisas que a vida não permitiu que ele chegasse a viver e sentir. E sente um estranhamento completo cada vez que acorda num mundo em que a realidade não faz jus ao que desejou sonhando.


A vida me parece bonita assim como ela é. Mas, mesmo assim, morrerei de saudade dos planos que nunca vão sair do papel. E, se desisto de agarrar os sonhos quando acordo, não é por covardia, mas pela coragem que me invade quando eu lembro que a felicidade mora no agora e que meus braços humanos não podem alcançar futuros do pretérito. 

De toda forma, a saudade sempre passa - mesmo aquela saudade inventada.

Onde mora o amor?

O amor acontece em três tempos, como tudo na vida: início, meio e fim. A ciência – matematicamente – afirma que um relacionamento acaba geralmente sete anos depois que começou, que é quando o corpo acha que a monogamia deixa de fazer sentido. Não sei bem se isso se aplica e até que ponto podemos achar que o amor pode ser explicado pela lógica matemática.

O início e o fim do amor são fáceis de detectar. O primeiro é marcado pela paixão, coração acelerado, sentir saudade quando a pessoa nem saiu do seu lado ainda. O mundo fica colorido, os passarinhos cantam lá fora a despeito de não ter passarinho nenhum (apenas um tráfego maluco de cidade grande com ambulância, buzinas e alarmes berrantes).

O fim também é fácil: o outro deixa de ser importante para você num sentido existencial. Você deixa de se importar com a presença ou com a ausência, perde a vontade de estar junto, de fazer planos, de beijar, de abraçar, de conversar. A apatia toma conta da relação, você começa a se sentir mais você e mais livre quando está longe do outro e qualquer coisa é desculpa para uma briga que os aproxime logo de um ponto final. Você implora, mesmo inconscientemente, pra ser capaz de "sem querer", fazer alguma coisa que leve o outro a desistir de você, porque a apatia é tanta que até o término é um esforço sobre-humano.

Que discordem de mim aqueles para quem a primeira impressão é a que fica, mas entre o início e o fim, acho que importa mais como termina do que como começa. Eu questiono grandes amores que terminam em ódio (mas esse talvez seja assunto pra outro post!), porque o jeito que você termina diz muito sobre a veracidade do relação que existiu e que, em certa medida, nunca vai deixar de existir, apenas vai se transformar em outra coisa que não inclua atração física e sexo.




Dure o tempo que durar e seja como for, acredito que existe um tempo em que podemos encontrar o amor em seu estado mais puro: no meio, exatamente entre o início e o fim. É nesse tempo que tudo acontece de um jeito mais verdadeiro, é quando as pessoas se permitem deixar o outro enxergá-las sem máscaras. Se um dia você precisar pensar se uma relação que você teve foi ou não pra valer, esqueça o começo e o fim e olhe pro meio: é nele que, sem as fantasias da paixão ou a letargia do fim, podemos enxergar a beleza e a intensidade de um relacionamento.

Mandar flores quando se está apaixonado é fácil. Não começar uma briga inútil quando já estamos cansados demais pra querer tentar qualquer coisa também é fácil. Você pode atravessar o oceano pra ver o ser amado e isso não ser realmente grande coisa quando se está apaixonado. Ou você pode acabar com seu casamento por causa de uma toalha molhada na cama - porque quando um não sente mais nada pelo outro, uma toalha molhada pode ser completamente inadmissível (acredite!).

Mas a coisa mais difícil de encontrar, de verdade, é o amor dentro da realidade dos dias, nas pequenas gentilezas, em flores numa quarta-feira cinzenta sem nenhum motivo especial, nos pequenos sacrifícios no dia-a-dia; no esforço em chegar na hora mesmo quando a intimidade às vezes sugere que atrasos devem ser tolerados, no companheirismo necessário pra encarar uma falta de grana, na parceria de dividir tarefas domésticas e se revezar pra cuidar dos filhos, nas noites de sexo que renovam a intimidade e nos fazem sentir ainda desejados; nas noites de febre e cólica, no respeito e na tolerância àquele que é diferente de você, no carinho de uma massagem antes de dormir, na atenção ao que outro fala, no estímulo à realização dos sonhos, no apoio incondicional.

Difícil é, no meio, sentir encanto, ter vontade de perceber o outro sem máscaras, sem fantasia: a olho nu. Felizes daqueles que conseguiram ou conseguirão encontrar a morada do amor. Seja no Alasca ou subúrbio, na zona sul ou zona norte, no primeiro ou no terceiro mundo, na rua, na chuva ou na fazenda, a sensação é de estar no melhor lugar do mundo!

Bem que a CVC podia ter um super pacote pra lá, né?




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NOTA DA AUTORA: Como disse há alguns posts atrás, não acho que o amor seja um sentimento patenteado e, por isso, esse sentimento pode significar muitas coisas diferentes pra cada um. O amor, pra mim, não é exclusivo de casais, mas se estende a amigos, irmão etc. e o amor também é uma coisa imutável: é se importar com o outro de forma incondicional, aceitar, acolher, permitir que o outro seja livre, independente das nossas vontades e preferências.

Então, entre gostar e amar, se me perguntassem o que é mais importante pra um relacionamento equilibrado, eu diria que é GOSTAR.

Mas aqui nesse texto (como em outros em que falo do amor) como forma de licença poética (dessa a Gabi vai rir), uso essa palavra amor mais como um gostar e menos como a essência do que acredito que seja.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Quem tem medo do lobo mau?

Não é novidade pra ninguém (ou talvez ainda seja) que vivemos numa sociedade repressora e que cultiva o medo e a culpa como se fosse alface numa horta. 

Somos proibidos pelo professor de sentar ao lado do coleguinha com quem falamos demais. Somos proibidos de andar com o fulano-de-tal que é má influência. Somos proibidos de matar aula, de comer porcaria, de pegar friagem.

Deixamos de ir lá fora por causa do bicho papão. Nos tornamos bons meninos por causa do papai Noel ou do papai do céu. Fomos treinados a seguir convenções com base no medo de um castigo, raramente com base na compreensão do real perigo e com a permissão de escolhermos nós mesmos que riscos queremos correr. 

Não fomos ensinados a pensar, a refletir, a entender a vida, a conhecer a nós mesmos, a saber de onde vem o medo, quando devemos respeitá-lo ou quando devemos peitá-lo.

Tudo o que faz parte da vida nos é apresentado de forma distorcida. Somos mães e pais culpados por trabalharmos demais, por um tapa ou um presente negado. Somos filhos culpados por não visitarmos nossos pais com mais frequência. 

Depois de uma vida inteira aprendendo a sentir culpa e medo, parece natural a presença constante desses sentimentos e, nas relações a dois, isso não aparenta ser diferente e acho que a maioria de nós nem se dá conta de que esses sentimentos pairam o tempo inteiro sobre nossas cabeças.

O problema de cultivar a culpa, ainda que sem perceber, é que continuamos a ter medo de sair lá fora, mesmo que o bicho papão já não esteja mais lá, mesmo que ele sequer tenha existido algum dia. Quem aprende a ter medo sem motivo, tem muita dificuldade de diferenciar riscos reais de riscos imaginários.



E assim, temos medo de perder até aquilo que nunca tivemos. Temos medo do humano e inevitável que é errar. E temos tanto medo de não conseguirmos lidar com as consequências dos nossos erros. E esse medo que temos, que todo mundo tem, é quase reconfortante, quase uma proteção que nos impede de pular de um precipício nesse exato segundo.


A questão é: como saber quando o medo é proteção e quando é limitação? Como vamos saber se existe ou não um bicho papão lá fora se algum dia não tivermos coragem de sair e olhar? Às vezes, não tem como saber e podemos estar perdendo toda a vida que está do outro lado da porta - seja essa vida um encontro com o bicho papão ou a descoberta de que existe muito mais pra viver fora da nossa zona segura.


De onde tirar a coragem pra abrir a porta e sair da casa quentinha que nos protege contra o desconhecido, quando ninguém nunca nos ensinou onde mora a calma que só tem quem sabe que não existe e nem nunca existiu uma vida segura?

Sobre o quase e o nunca mais



História 1:

Depois de alguns anos de solteirice, ela conheceu um cara incrível e se apaixonou de um jeito tão bonito como nem sequer sabia ser capaz. Aquele sentimento transformou não só seu humor, mas mudou de um jeito incrível tudo o que ela sabia, até então, sobre gostar de alguém.

Mas aí, como se o mundo já não fosse injusto o suficiente, seu par ia mudar de cidade e, assim, era bem provável que o seu sonho tivesse data de validade, até porque, ele não sinalizou que pretendia levar o relacionamento adiante, à distância.

Qual é a receita pra gente viver com leveza e presença sem pensar que esse relacionamento que nos acordou pra vida, tem prazo de validade? Como é que aceitamos o último beijo, o último abraço, a última noite e o até nunca mais?

Se despedir de alguém contra nossa vontade é uma coisa difícil de fazer. Nunca mais é um tempo muito longo quando desejamos o sempre.

História 2:

Ele conheceu uma mulher que virou tudo do avesso: ela parecia ser exatamente a mulher que ele sempre sonhou, e que tinha plena certeza de que nunca iria realmente existir. Mais que isso: ela era até melhor do que ele conseguia ter imaginado. E a única coisa que o separava dela era a distância de braços estendidos que imploravam pelo abraço mais longo que pudesse existir.

Mas ela apareceu na hora errada, no dia errado, no mês errado, na lua trocada, na maré vazante. Ele era comprometido, ela também. Ele queria abraçá-la, beijá-la, sentir o seu cheiro. Mais do que isso e tanto: ele queria passar os finais de semana com ela, as noites em claro conversando sobre o mundo, sobre o tudo e sobre o nada. Queria passar o dia em silêncio, com ela.

Acontece que, de tão intenso que era esse sentimento, ele tinha medo que tudo se desintegrasse em um beijo. Tinha medo do que viria depois, do que aconteceria com os relacionamentos de cada um. Tinha medo de descobrir que ela realmente era essa mulher que ele só conhecia na imaginação. Tinha mais medo ainda por pensar que eles jamais poderiam ficar juntos.

O nunca mais é realmente assustador. Mas, pelo menos, ele vem de uma coisa que foi vivida. O que fazer com um quase abraço, um quase beijo, um quase qualquer coisa? Como viver sem nunca saber como teria sido beijar fora da sua imaginação a mulher que talvez fique guardada lá pra sempre?

Entre o quase e o nunca, existe um infinito de probabilidades que jamais poderão ser alcançadas por aqueles que simplesmente não se permitem transgredir o medo de tentar.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A palavra amor não é sentimento

Depois de mais de dois anos sem escrever, eis que um moço chamado Rodrigo Ramiro (não faço ideia de quem seja) fez um comentário enfurecido em uma postagem que escrevi em 2010,  sobre eu não acreditar na falácia de que "só se ama de verdade uma vez"

O Rodrigo ficou muito bravo com a minha opinião, disse que eu não sei o que é o amor, que nunca amei de verdade e deu a entender que no dia que eu amasse de verdade ia mudar meus conceitos.

Fiquei me perguntando o que será que ele entende por amor. Fiquei me perguntando se alguém patenteou esse sentimento em algum lugar. Será? Como chegar a uma conclusão única sobre uma palavra que tanta gente usa pra descrever tanta coisa? Porque a gente ama um deus, a gente ama uma causa. A gente diz que ama o irmão, o amigo, os pais e que ama sorvete.

Será que esse moço que está bravo comigo sabe o que eu sinto? Será que ele sabe que, pra mim, amor não tem nada a ver com atração física, com estar apaixonado?

De onde eu vejo, amor é uma coisa simples, mas muito, muito difícil de encontrar por aí, principalmente entre casais. A gente encontra muito ciúme, infinitas tentativas de controle, de moldar o outro pra satisfazer nossos próprios desejos. A gente encontra total incapacidade de simplesmente olhar pra quem amamos e enxergarmos quem está ali nesse exato momento, sem fazer uma projeção do par ideal.

E raramente a gente encontra aceitação, acolhimento e desapego. Quando falo de desapego, não falo de não se importar, de ser indiferentemente superior  porque-eu-me-basto. Falo de amarmos alguém tão profundamente, que podemos perceber que não somos donos da pessoa e que muito embora a presença dessa pessoa nos faça muito felizes, existe liberdade para ir e vir, existe a clareza de que todo mundo está sujeito a simplesmente se apaixonar por outra pessoa, a mudar de rumo, mudar de escolha. Que tipo de pessoa sou eu se deixo de amar meu par perfeito quando ele não atende mais aos meus interesses? Que tipo de sentimento eu tenho se da noite pro dia passo a odiar um cara que eu sempre disse amar, porque ele escolheu não ficar mais comigo?




Querido Rodrigo Ramiro: não fique bravo comigo. Talvez eu nunca saiba o que é o amor. Talvez seja só uma palavra. Talvez cada um sinta tudo diferente. E o jeito que eu sinto é esse jeito em que cada sentimento por outra pessoa por quem me apaixonei é único e insubstituível. Eu me permito não fazer mais comparações, porque percebi que comparar é a forma mais injusta de medir o valor das nossas experiências e do outro.

Me perdoe, Rodrigo: eu não acho que amor seja uma receita de bolo. Não acho impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo. Nesse exato momento, eu amo meu irmão, minha mãe, meu marido, meu filho e meus amigos de infância. Sobre o amor entre casais, acho que é só um amor entre pessoas, no final das contas. O que provavelmente complica tudo é que esse amor também envolve outros sentimentos que nada tem a ver com amor e, por isso, acho totalmente possível amar sem limite, o número de pessoas que tivermos que amar, sem prazo de validade, porque não viemos com uma quantidade finita de amor pra gastar durante a vida.

Porque o amor não tem nada a ver com controle, mas com entrega. Porque, pra mim, todo amor vale à pena. Não acho impossível nem feio amar ao mesmo tempo duas pessoas. Sequer acho feio sentir atração física por duas pessoas ao mesmo tempo. O que eu sinto diz respeito somente a mim e, no meu coração, eu não sinto que só posso amar uma pessoa de cada vez. Mais que isso e, pelo contrário, sinto que é possível amar várias vezes, de tantas formas, uma mesma pessoa, ao longo do tempo.

Desculpe de novo Rodrigo, mas o que eu sinto não condiz com a sua opinião. Eu amei muitas pessoas até aqui. Nunca deixei de amar nenhuma delas porque nunca deixei de desejar que elas fossem felizes, mesmo sem mim. Nunca deixei de me importar com elas, de oferecer ajuda, de sentir alegria na companhia delas, de rir das suas piadas.

Num mundo tão egoísta, em que as pessoas se relacionam com as outras apenas pra satisfazer seus interesses, seus planos de ter uma família e para exibir no Facebook lindas fotos de uma vida de mentira, só posso achar triste limitarmos a quantidade de pessoas que podemos amar nessa vida. Só poderia me sentir pequena em querer definir uma única forma de amor, que seja exclusiva e que tenha sua intensidade medida e comparada ao longo do tempo.

Gosto de pensar que eu posso amar mais do que isso: com total respeito aos sentimentos do outro, sem qualquer necessidade de ser amada de volta e com a entrega de quem pensa que não precisa de mais nada além do privilégio sentir algo tão incrível.

Mas essa sou eu. Acho que talvez você nunca entenda...