quarta-feira, 1 de julho de 2015

A palavra amor não é sentimento

Depois de mais de dois anos sem escrever, eis que um moço chamado Rodrigo Ramiro (não faço ideia de quem seja) fez um comentário enfurecido em uma postagem que escrevi em 2010,  sobre eu não acreditar na falácia de que "só se ama de verdade uma vez"

O Rodrigo ficou muito bravo com a minha opinião, disse que eu não sei o que é o amor, que nunca amei de verdade e deu a entender que no dia que eu amasse de verdade ia mudar meus conceitos.

Fiquei me perguntando o que será que ele entende por amor. Fiquei me perguntando se alguém patenteou esse sentimento em algum lugar. Será? Como chegar a uma conclusão única sobre uma palavra que tanta gente usa pra descrever tanta coisa? Porque a gente ama um deus, a gente ama uma causa. A gente diz que ama o irmão, o amigo, os pais e que ama sorvete.

Será que esse moço que está bravo comigo sabe o que eu sinto? Será que ele sabe que, pra mim, amor não tem nada a ver com atração física, com estar apaixonado?

De onde eu vejo, amor é uma coisa simples, mas muito, muito difícil de encontrar por aí, principalmente entre casais. A gente encontra muito ciúme, infinitas tentativas de controle, de moldar o outro pra satisfazer nossos próprios desejos. A gente encontra total incapacidade de simplesmente olhar pra quem amamos e enxergarmos quem está ali nesse exato momento, sem fazer uma projeção do par ideal.

E raramente a gente encontra aceitação, acolhimento e desapego. Quando falo de desapego, não falo de não se importar, de ser indiferentemente superior  porque-eu-me-basto. Falo de amarmos alguém tão profundamente, que podemos perceber que não somos donos da pessoa e que muito embora a presença dessa pessoa nos faça muito felizes, existe liberdade para ir e vir, existe a clareza de que todo mundo está sujeito a simplesmente se apaixonar por outra pessoa, a mudar de rumo, mudar de escolha. Que tipo de pessoa sou eu se deixo de amar meu par perfeito quando ele não atende mais aos meus interesses? Que tipo de sentimento eu tenho se da noite pro dia passo a odiar um cara que eu sempre disse amar, porque ele escolheu não ficar mais comigo?




Querido Rodrigo Ramiro: não fique bravo comigo. Talvez eu nunca saiba o que é o amor. Talvez seja só uma palavra. Talvez cada um sinta tudo diferente. E o jeito que eu sinto é esse jeito em que cada sentimento por outra pessoa por quem me apaixonei é único e insubstituível. Eu me permito não fazer mais comparações, porque percebi que comparar é a forma mais injusta de medir o valor das nossas experiências e do outro.

Me perdoe, Rodrigo: eu não acho que amor seja uma receita de bolo. Não acho impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo. Nesse exato momento, eu amo meu irmão, minha mãe, meu marido, meu filho e meus amigos de infância. Sobre o amor entre casais, acho que é só um amor entre pessoas, no final das contas. O que provavelmente complica tudo é que esse amor também envolve outros sentimentos que nada tem a ver com amor e, por isso, acho totalmente possível amar sem limite, o número de pessoas que tivermos que amar, sem prazo de validade, porque não viemos com uma quantidade finita de amor pra gastar durante a vida.

Porque o amor não tem nada a ver com controle, mas com entrega. Porque, pra mim, todo amor vale à pena. Não acho impossível nem feio amar ao mesmo tempo duas pessoas. Sequer acho feio sentir atração física por duas pessoas ao mesmo tempo. O que eu sinto diz respeito somente a mim e, no meu coração, eu não sinto que só posso amar uma pessoa de cada vez. Mais que isso e, pelo contrário, sinto que é possível amar várias vezes, de tantas formas, uma mesma pessoa, ao longo do tempo.

Desculpe de novo Rodrigo, mas o que eu sinto não condiz com a sua opinião. Eu amei muitas pessoas até aqui. Nunca deixei de amar nenhuma delas porque nunca deixei de desejar que elas fossem felizes, mesmo sem mim. Nunca deixei de me importar com elas, de oferecer ajuda, de sentir alegria na companhia delas, de rir das suas piadas.

Num mundo tão egoísta, em que as pessoas se relacionam com as outras apenas pra satisfazer seus interesses, seus planos de ter uma família e para exibir no Facebook lindas fotos de uma vida de mentira, só posso achar triste limitarmos a quantidade de pessoas que podemos amar nessa vida. Só poderia me sentir pequena em querer definir uma única forma de amor, que seja exclusiva e que tenha sua intensidade medida e comparada ao longo do tempo.

Gosto de pensar que eu posso amar mais do que isso: com total respeito aos sentimentos do outro, sem qualquer necessidade de ser amada de volta e com a entrega de quem pensa que não precisa de mais nada além do privilégio sentir algo tão incrível.

Mas essa sou eu. Acho que talvez você nunca entenda...

9 comentários:

  1. eu me identifiquei não achu que exista isso de amar apenas uma pessoa e apenas uma vez o tempo muda e as circunstancias mudam ....

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  2. te amo, Rodrigo.
    Não por concordar com sua revolta, muito menos com sua opinião.
    Mas te amo por ter realimentado a sementinha que tava perdida dentro da mileumapalomas! :D

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  3. Deus abençoe esse Rodrigo! O primeiro texto dela que eu li, foi esse em que ele fez esse comentário, e aí vi que graças a isso ela voltou a escrever, e caramba! Estou há quase 50 minutos me deleitando com textos maravilhosos. Não poderia encontrar opiniões mais sábias e mais maduras. Concordo que não existe quantidade limitada de amor. Devemos amar infinitamente, sempre. Gosto de pensar que o melhor sempre está por vir! Amar sem correntes, sem esperar algo em troca. Amor leve. Pra mim, só existe um amor, que é esse amor leve. É ele que, se sentirmos igualmente pelos familiares, amigos, e "amor a 2", teremos uma vida plena, leve e feliz. Essa é minha opinião. Obrigado de novo, autora!! ^^
    Abraços!

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  4. Caio, é muito bom ler o seu comentário :-)
    Porque escrever é o que mais amo fazer e estava já há bastante tempo sem conseguir encontrar tempo pra isso. E saber além da alegria que eu sinto quando escrevo, ainda divido isso com outras pessoas, é o melhor combustível pra encontrar tempo pra continuar escrevendo. Abraços, Paloma

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  5. As pessoas confundem amor com sentimento. Amor é uma escolha. A paixão sim é um sentimento efêmero que leva um ser a se apaixonar várias vezes. Por isso, tem gente que vive de paixão em paixão (por que tem a concepção que o "amor" acabou). Já o amor é uma decisão e não um sentimento. Você decide amar alguém apesar de... Apesar no sentindo de valorizar o outro mesmo com todos os seus defeitos e limitações. Quando alguém é capaz de se doar incondicionalmente ao outro, esse descobriu o significado do amor. Pois o amor não se acaba, o que acaba é a decisão de amar.

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  6. Caramba super me identifiquei. Venho aqui declarar todo meu Obrigado a Rodrigo, por que veio dele a iniciativa para essa belo texto.

    Primeiramente queria dizer que Concordo plenamente com vc.

    Ainda venho complementar: Amor e vivencia tem os mesmos sentidos e determinadas semelhanças. Temos que amar e agradecer tudo que vivemos, o que passamos e o que vamos passar. Vamos amar os momentos, vamos amar as pessoas, vamos amar o que te faz bem e não deixar de amar o que te faz mal. Amar não é um sentimento efêmero e único,o amor se caracteriza e se apresenta de varias formas sejam em pessoas, gestos, atitudes, um toque, num simples gesto de carinho ou ver bem.

    Vamos amar hoje o hoje e vamos deixar para amar amanhã o amanhã.


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  7. Concordo com o Rodrigo, para mim amor é só uma vez, e quem ama mas de uma vez é porque não conhece o amor, e confundi com paixão, ou talvez ainda vai amar de verdade, diferente do amor entre familiares e amigos, amor entre casais é um sentimento único, que quem sentir já mas vai sentir o msm sentimento por nenhum outro.

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