sábado, 18 de julho de 2015

Mesa pra dois?

Tem sido muito gostoso escrever novamente. Mas, além disso: tenho me divertido lendo meus textos antigos. Alguns textos eu sinto que são tão atuais, que dá até vontade de publicar novamente. E o Mesa pra Dois é um deles:


Solteira sim, sozinha também 

No restaurante, a moça da entrada pergunta: Mesa pra dois?. Respondo sorrindo: Não, estou sozinha. A simpática recepcionista insiste: Mas você vai esperar alguém

Quando me dei conta de que há meses estou solteira & sozinha, passei algum tempo de ócio pensando no conceito de solidão. De tantas incursões que fiz desacompanhada nessa temporada solo, ficou óbvio e ululante que o mundo tem aversão a solidão.

Parece inconcebível eu querer, por vontade própria, sentar à mesa comigo mesma. Mais do que isso: é uma cena triste pra quem observa, parece que as pessoas pensam que levei um bolo, ou que não tenho amigos.

Ir ao cinema sozinho é quase crime inafiançável. Viajar sozinha então, nem se fala. Especialmente para mulheres, fazer qualquer coisa sozinha – até mesmo ir ao banheiro - é algo ainda estranho, como se contrariasse a natureza humana.

Por que isso acontece? Por que estar só é uma coisa mal vista, que soa como algo que não pode ser escolhido?

Estar só é uma escolha e isolamento é um exercício bom e saudável de autoconhecimento. Solidão, por outro lado, é um fantasma mais assustador, ou, pelo menos, deveria ser. Todo mundo foge de estar só, mas, a maioria não percebe a solidão que existe no meio da multidão. E essa é a única solidão ruim que eu experimentei: a de se sentir estrangeiro no seu próprio país, sentir-se só, ainda que acompanhada. No livro A Alma Imoral, Nilton Bonder conseguiu colocar em palavras a única solidão da qual eu realmente tenho medo:

“Aqueles que se permitem as transgressões da alma com certeza são vistos e recebidos pelos outros como estrangeiros. Os que mudam de emprego radicalmente, os que refazem relações amorosas, os que abandonam vícios, os que perdem medos, os que se libertam e os que rompem experimentam a solidão que só pode ser quebrada por outro que conheça essas experiências. A natureza da experiência pode ser totalmente distinta, mas eles se tornarão parceiros enquanto 'forasteiros'“.


Fazendo as pazes com a solidão


Na ânsia de preencher a existência e o vazio, pessoas se casam, tem filhos, um emprego, amigos, um papel social, um espaço em que se possa dizer Eu existo e faço parte. Mas a despeito de todo esse esforço, a solidão ainda está à espreita, porque ela não está em estar só.

A única maneira que eu conheço de aplacar essa solidão é encontrar seus pares estrangeiros: amigos de verdade, daqueles em que você se comunica pelo olhar; amores sinceros, que não sejam funcionais, mas cujo único propósito seja gostar e ser gostado; filhos desejados: não para preencher a existência ou dar continuidade ou um sentido à vida, mas pela vontade de compartilhar uma vida que já é cheia de sentido, de recomeço, de se doar e reconstruir o mundo.

Mesmo sozinha no cinema, é alegre saber que eu tenho algumas poucas pessoas na vida que, ainda que totalmente diferentes de mim, são capazes de me fazer sentir em casa: eu não preciso me explicar, nem me defender, porque tanto um quanto o outro nos sabemos forasteiros... e mesmo em completo silêncio, mesmo longe, a solidão não existe e, em lugar do desespero de estar só encontramos a saudade, a vontade de estar junto, a felicidade de saber que existe outro que de fato entende o que eu sou me faz sentir parte do mundo.

E quem se sente parte do mundo - mesmo um mundo de 10 pessoas - jamais se sente sozinho.

5 comentários:

  1. " Ela é um satélite
    e só quer me amar ...
    e não há promessas, não
    é só um novo lugar...

    Viver é bom ....
    nas curvas da estrada ...
    solidão que nada ...
    Viver é bom ...
    Partida e chagada ...
    solidão que nada .... "

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  2. Que bom ler isso. Ainda mais quando a solidão tá grande e não encontro outros outsiders... Não que não tenha sido assim a vida toda. Enfim, alento. Obrigada.

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