domingo, 26 de julho de 2015

O amor mais lindo que nunca existiu


Ela tinha 15 anos e era verão quando o conheceu. Não dá pra acreditar que há não muito tempo atrás, dois adolescentes trocaram cartas de amor com fotos, poemas e marcas de beijo de batom durante anos - mas essa foi exatamente a história deles: eles se apaixonaram, mas moravam distantes um do outro e esperar cada carta era como esperar por um encontro. Por quase dez anos, tudo o que eles tinham experimentado um do outro foi um encostar de lábios, um quase beijo.

Eles nunca conseguiram se encontrar no mesmo tempo e espaço e foi inevitável que, com o tempo, essa paixão adolescente virasse uma amizade bonita, daquelas em que depois de longos períodos sem contato, um ligava pro outro as onze da noite e os dois conversavam por horas, como se nunca tivessem ficado sem se falar.

Às vezes, saíam pra jantar, iam ao cinema assistir duas sessões seguidas, passeavam juntos só pra jogar conversa fora ou se falavam ao telefone por horas e horas. Mesmo quando ele viajou o mundo em um navio, não ficaram sem saber um do outro: ele mandou pra ela um cartão postal de cada país que visitou, como havia prometido quando se conheceram.

Dez anos se passaram e, quando menos se esperava, veio um beijo de verdade, um beijo seguido de vários outros beijos que mudaram tudo de lugar. Ela, que já havia esquecido daquele sentimento da adolescência, de repente quis saber o que vinha depois desse beijo. Durante todos esses anos ele a amava secretamente, sem nunca ter coragem de dizer o que sentia, e de repente a estava beijando como havia desejado por tanto tempo, como não imaginava que fosse acontecer.

Pra ela, foi como voltar no tempo, como se de repente tivesse de novo quinze anos. Mas ele... ele sentiu um caos repentino, uma sensação absurda de que aquilo não era real. Como é que um beijo pode mudar tudo? Não era só um beijo? Eles estavam ali, no mesmo espaço e tempo e alguma coisa não parecia estar no lugar. Ele tinha alguém, alguém que ele não amava, que ele sequer podia sonhar em querer como queria a mulher que ele finalmente beijava pela primeira vez.

Por  medo, culpa e loucura - ou talvez covardia, ele simplesmente se afastou dela sem dar qualquer explicação. Ela enviou muitas mensagens dizendo que queria vê-lo, que aquele beijo mexeu com ela, que ela queria estar com ele. Sem ter qualquer resposta que fizesse sentido, ela desistiu de entender o que estava acontecendo e, depois de um tempo aceitou que, de alguma forma, não era pra ser.

Um dia, ao acaso, ela o encontra num restaurante e então vai até a mesa dele dizer olá. Fazia quinze anos desde o dia que eles tinham se conhecido e agora os dois estavam acompanhados: ela com o marido, ele com a esposa. Ela estava feliz por encontrá-lo, por vê-lo feliz. Quando ele a viu, no entanto, sentiu como se tivesse tomado um soco na boca do estômago: imediatamente ele sentiu o quanto ainda era apaixonado por ela e, naquele exato momento, teve certeza de que sempre seria.

Ele tentou controlar sua reação, porque afinal, estava ali com sua esposa. Mas, o seu olhar entregava que ele estava ali olhando para aquela menina que ele sempre amou, aquela menina que mandava cartas que ele amava ler.  Como olhar para aquela mulher e esconder tudo o que vinha à tona? Como olhar pro marido dela e não pensar que poderia ser ele ali com ela?

Nos dois minutos que se cumprimentaram e apresentaram os casais, ele sentiu faltar o ar: lembrou do beijo, de sua covardia imensa. Se perguntou um milhão de vezes em um segundo como poderia seguir com sua vida normalmente a partir dali, aceitando que ele a havia perdido. Como estar casado com uma mulher que ele sabia amar, mas que nunca seria aquela menina com quem ele sonhou a vida inteira? A história não ia poder ser reescrita, ele nunca saberia como poderia ter sido se ele não tivesse fugido e, apesar de se achar feliz, ele simplesmente não se sentia inteiro, completo.

Os mais céticos dirão que ele fantasiou tudo isso, que de repente a relação dele com ela não seria nada do que ele sonhou. Os mais céticos irão dizer também que o tempo não volta, que ele deveria parar de lamentar e seguir em frente.

Talvez, seja possível transformar um arrependimento em poesia. E talvez seja possível fazer as pazes com esse fantasma de nunca saber como teria sido viver uma história de amor com ela. O que dói não é que ele pense que sua felicidade tenha que ser com ela, mas que poderia ter sido com ela - e não foi.

Às vezes, o coração tem esse conflito impossível de resolver pela razão: vivemos um sentimento para o qual é cedo demais pra dizer adeus e tarde demais para vir a ser. Outras vezes, apenas não nos damos conta de que esse amor mais lindo do mundo só é lindo assim porque não foi vivido e nunca foi testado pelas tardes de tédio de domingo.

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