quinta-feira, 23 de julho de 2015

O sexo e outros demônios III



Mas e os homens? São eles os escrotos aproveitadores das relações? Será que eles não prestam?

Tudo o que eu percebo é que os homens também são vítimas dessa cultura centrada no sexo. Há até bem pouco tempo atrás, era super normal levar um adolescente em um puteiro para que ele perdesse a virgindade. Ainda hoje, muitos meninos são educados para não sentir, enquanto as meninas são educadas para fingir o que sentem. Meninos não andam de mãos dadas com os amigos, não podem brincar de certas coisas, não podem ficar abraçados com seus amigos. Se uma menina brinca de carrinho, até vai, mas se um menino ousar brincar de boneca, a maioria dos pais ficaria de cabelo em pé.

Vejo o feminino e masculino mais como energia do que como gênero, então sempre acreditei que meninos e meninas deveriam ser livres para desenvolver naturalmente força e delicadeza, de forma que se permitam sentir e se relacionar com o mundo com liberdade. Nenhum homem deveria ser educado para competir, para ir pra guerra, para se destacar, para ser o melhor no que faz e bom de cama, e bom de tudo. E mulheres também não deveriam ser educadas para serem bonequinhas, para se comportarem, para a maternidade, pela perspectiva de contos de fada da Disney. Meninas também não deveriam ser criadas sob a ótica do feminismo xiita, em que precisam provar que são tão boas quanto os homens - ou melhores.

Ambos os sexos deveriam ser educados apenas para sentir, para serem livres para descobrir em si mesmos seu próprio equilíbrio entre feminino e masculino, para serem o que quiserem ser - porque quem somos não é determinado pelo nosso gênero. Alguns homens serão mais sensíveis que outros, e algumas mulheres serão mais brutas - e isso é a beleza de ter uma educação livre. Temos toda a questão biológica e hormonal - claro! - mas o ser humano é muito mais complexo que isso.



O problema, na minha opinião, é que a sociedade espere certos comportamentos de alguém baseada no sexo da pessoa, porque isso é uma forma de escravidão. É uma violência tremenda que a maioria de nós passe a vida inteira sendo quem fomos educados pra ser, e não quem de fato somos. É muito triste que alguns homens tenham sido educados para achar que sexo é intimidade e que eles só podem se permitir suprir sua necessidade de carinho e de intimidade em uma relação sexual.

Não acho um problema e nem acho feio que as pessoas façam sexo só pelo sexo: a questão é não haver consciência sobre isso, e não ser capaz de ir além disso em nenhuma relação. Eu acho que o ser humano precisa de intimidade, de trocas menos superficiais - e acho que a vida perde muito da beleza sem isso, porque intimidade de verdade é muito bom e faz falta.

Em um mundo em que ninguém acha lamentável se vender carro e cerveja com peitos e bundas saradas à mostra, em que mulheres são colocadas para ficar rebolando seminuas no plano de fundo de programas de auditórios, é quase um milagre que homens que pensam em sexo trocentas vezes por dia algum dia se questionem do porquê eles fazem isso: se é porque querem ou se é porque eles foram adestrados a vida inteira a erotizar a existência. Não acho que podemos julgá-los por isso, mas podemos sim mostrar que há outras coisas além disso.

Em um mundo em que o padrão de beleza é quase uma ditadura, é lindo quando um homem olha pra mulher e não enxerga só peito, bunda e abdome sarado - mas enxerga alguém com quem gosta de conversar e de ficar em silêncio, a despeito de se vão ou não fazer sexo. É lindo quando homens e mulheres percebem que o relacionamento é mais do que sexo, e que quanto mais um relacionamento for além do sexo, melhor o sexo será. E mais do que isso: quando o sexo deixa de ser o centro da relação, é possível sentir muito prazer em tudo o que se faz junto: de um beijo lento e demorado a sair pra correr na praia juntos.



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