terça-feira, 28 de julho de 2015

Quase um beijo

Cada vez que se viam era como entrar em um universo paralelo em que o tempo e as obrigações não existem e é permitido simplesmente ser quem se é ou, ainda, não saber quem se é. Podiam dizer o que sentiam e o que viam sem medo de julgamentos, sem esperar nada em troca.

De um dia pro outro, de repente, eles se sabiam apaixonados. Porque dizem que apaixonar-se é como queda livre - aquela sensação de não ter controle, não ter como parar e nem conseguir continuar a cair, porque não há nenhuma corda pra te segurar. Ao mesmo tempo, parecia que o que sentiam não tinha nome, não era paixão, era outra coisa: era o jeito que ela o olhava nos olhos, era alguma coisa que ela via quando ele desviava o olhar.

Eles se conheciam já há mais de dois anos, sempre se encontrando casualmente, mas nunca haviam de fato reparado bem um no outro. E repentinamente, sem qualquer explicação, se olhavam de um jeito totalmente diferente. Ambos sabiam o que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, nenhum dos dois podia explicar o que estava acontecendo. Mas ela não podia simplesmente continuar olhando pra ele e não dizer que sabia que algo tinha mudado. Um dia, sem meias palavras, ela simplesmente disse: Me apaixonei por você. E ponto.

Continuaram se vendo e se falando, como se fosse normal estarem apaixonados, como se fosse permitido que as as árvores dessem flores no inverno e estivessem por todo lugar, mas só eles conseguissem enxergar. Sentindo o que sentiam, eles conversaram por infinitas semanas sem sequer encostar uma mão na outra, como se fosse proibido sentir. Ela sentia como se, por alguma razão, fosse se desintegrar em partículas se o abraçasse, mas não existia nada que ela quisesse mais do que abraçá-lo e, ao mesmo tempo, era assustador imaginar o que isso poderia desencadear.

Se abraçaram numa terça-feira de tempo feio e vendaval, como se fosse simples. Estavam sentados num café, quando ela não aguentou mais - arrastou a cadeira pra perto dele e o abraçou, simplesmente porque não abraçá-lo parecia errado. Uma enxurrada de sensações invadiu os dois e sentiam o cheiro um do outro, o calor da pele e a pressão do abraço. Ela beijou seu pescoço, apertou as costas dele como se quisesse prendê-lo ali pra sempre e sentiu a barba dele roçar no rosto dela, pra lembrá-la de que suas bocas estavam há poucos centímetros uma da outra. Queriam se beijar e parecia que a qualquer momento um dos dois iria percorrer esses centímetros que os separavam de um beijo.

Mas ela soube antes que não iria vencer esses centímetros. Não porque não quisesse ou não pudesse, mas porque, de alguma forma, sentia que ele hesitava e oscilava o tempo todo. Sentiam uma intensidade explosiva quando o relógio os lembrou que ele tinha que pegar um avião. Abraçaram-se em frente ao portão de embarque, e, dessa vez, toda a intensidade estava misturada a uma calmaria e uma paz repentina. Ele a abraçou como se não fosse nunca mais soltá-la, ela se despediu falando baixinho no ouvido dele - e era hora de embarcar no avião. Ele não a beijou.

Do lado de dentro do portão já haviam chamado o nome dele para embarque imediato, mais de uma vez. Ele olhou pra trás antes de sumir da vista dela. E foi nesse olhar que ela soube que eles já tinham se beijado, só não havia acontecido ainda


 

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