sexta-feira, 3 de julho de 2015

Quem tem medo do lobo mau?

Não é novidade pra ninguém (ou talvez ainda seja) que vivemos numa sociedade repressora e que cultiva o medo e a culpa como se fosse alface numa horta. 

Somos proibidos pelo professor de sentar ao lado do coleguinha com quem falamos demais. Somos proibidos de andar com o fulano-de-tal que é má influência. Somos proibidos de matar aula, de comer porcaria, de pegar friagem.

Deixamos de ir lá fora por causa do bicho papão. Nos tornamos bons meninos por causa do papai Noel ou do papai do céu. Fomos treinados a seguir convenções com base no medo de um castigo, raramente com base na compreensão do real perigo e com a permissão de escolhermos nós mesmos que riscos queremos correr. 

Não fomos ensinados a pensar, a refletir, a entender a vida, a conhecer a nós mesmos, a saber de onde vem o medo, quando devemos respeitá-lo ou quando devemos peitá-lo.

Tudo o que faz parte da vida nos é apresentado de forma distorcida. Somos mães e pais culpados por trabalharmos demais, por um tapa ou um presente negado. Somos filhos culpados por não visitarmos nossos pais com mais frequência. 

Depois de uma vida inteira aprendendo a sentir culpa e medo, parece natural a presença constante desses sentimentos e, nas relações a dois, isso não aparenta ser diferente e acho que a maioria de nós nem se dá conta de que esses sentimentos pairam o tempo inteiro sobre nossas cabeças.

O problema de cultivar a culpa, ainda que sem perceber, é que continuamos a ter medo de sair lá fora, mesmo que o bicho papão já não esteja mais lá, mesmo que ele sequer tenha existido algum dia. Quem aprende a ter medo sem motivo, tem muita dificuldade de diferenciar riscos reais de riscos imaginários.



E assim, temos medo de perder até aquilo que nunca tivemos. Temos medo do humano e inevitável que é errar. E temos tanto medo de não conseguirmos lidar com as consequências dos nossos erros. E esse medo que temos, que todo mundo tem, é quase reconfortante, quase uma proteção que nos impede de pular de um precipício nesse exato segundo.


A questão é: como saber quando o medo é proteção e quando é limitação? Como vamos saber se existe ou não um bicho papão lá fora se algum dia não tivermos coragem de sair e olhar? Às vezes, não tem como saber e podemos estar perdendo toda a vida que está do outro lado da porta - seja essa vida um encontro com o bicho papão ou a descoberta de que existe muito mais pra viver fora da nossa zona segura.


De onde tirar a coragem pra abrir a porta e sair da casa quentinha que nos protege contra o desconhecido, quando ninguém nunca nos ensinou onde mora a calma que só tem quem sabe que não existe e nem nunca existiu uma vida segura?

6 comentários:

  1. Que texto sensacional! As palavras certas nos seus lugares exatos! Maravilhoso tocar nesses assuntos - culpa e medo - dos quais vivemos fugindo! Nossa, amei o texto!!!!

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  2. Eu achei que chegaria no final do texto e teria a resposta.

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  3. Desculpe Luca. Se eu tivesse a exata resposta pra questões como essa, viraria conselheira amorosa e estaria rica! Rsrsrsrs. Esse é o tipo de resposta que cada um vai ter que descobrir sozinho

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  4. Cadê a resposta da parada? Luciana tem que mandar uma "parte 2" desse texto porque também fiquei na expectativa e a Paloma tá achando que a descoberta é de cada um sozinho. Bota uma fórmula nessa parada aí! =)

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  5. Felipe e Luca, a resposta pra pergunta não está no texto. Vocês não conseguiram achar, porque estão presos na pergunta, rs.Querem saber quando o medo é proteção e quando é limitação? Isso, a gente só sabe vivendo. Não tem uma só resposta pra todos os casos. A solução, por outro lado, é tomar a coragem de abrir as portas que sempre estiveram fechadas pra confirmarmos por nós mesmos se há ou não bicho papão lá fora! A solução em si, é simples. A execução da coisa é que pode ser difícil, a depender de quanto medo a gente tem...

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