sexta-feira, 10 de julho de 2015

Separação: caminhos fáceis e difíceis


Num momento difícil da minha relação, uma amiga fez o seguinte comentário: "Casamento é assim mesmo. Desentendimentos acontecem. Cabe ao casal tentar 'consertar' ou sair pelo caminho mais fácil e mais comum hoje em dia: separar. Se houver amor é possível consertar, ao menos tentar consertar".

Como eu poderia dizer algo sobre esse comentário/conselho? Primeiro, não posso discordar mais do que discordo dessa opinião. E, segundo, senti que a minha opinião colocaria em questão o próprio relacionamento de muitos e muitos anos dessa amiga, que é baseado, em grande parte, nessa filosofia do é assim mesmo


Mas, não teve jeito, deu vontade de escrever sobre isso. Então, vamos por partes, como diria o Jack:



Casamento é assim mesmo.


É mesmo? Todos os casamentos são iguais? Todo mundo casa pelos mesmos motivos? Todo mundo se mantém casado pelas mesmas razões? Eu sempre acreditei e continuo acreditando que uma das coisas mais importante nas relações é conseguirmos olhar cada momento da relação como ele é no agora, sem tomar como base o que aconteceu no passado. Porque o passado da relação até pode ser uma referência para o casal, em termos da história da relação. Mas, usar o passado como referência para avaliar a relação ou resolver problemas no AGORA é, pra mim, um equívoco. No geral, em situações de crise, o passado serve muito mais para apontar dedos por "erros" e mágoas, para cobrar do outro promessas feitas, para frustrar expectativas geradas por um comportamento esperado que já não é o mesmo ou, pior ainda: para idealizar a relação bonita do passado achando que ela vai voltar a ser igual em algum momento do futuro.


O que quero dizer é: problemas não deveriam se acumular. Cada divergência entre um casal deveria ser resolvida momento a momento e encerrada definitivamente. Aceitar que casamento é assim mesmo é, pra mim, um jeito covarde de conformismo, de não olhar pra divergência e pra fase ruim que se está vivendo com um olhar novo, atento e presente. E isso só dá ainda mais combustível pra guardar esse problema na gaveta e usar essa mesma frase quando surgirem outras questões.


Não, pra mim casamento não é assim mesmo. Viver é complexo e a vida tem muitos altos e baixos e muitas fases. E passamos por isso em todas as nossas relações: com a família, entre casais, no trabalho etc. E, seja qual for a dificuldade, achar que "é assim mesmo" não me parece a melhor forma de encarar de frente um momento difícil.  



"Cabe ao casal tentar 'consertar' ou sair pelo caminho mais fácil e mais comum hoje em dia: separar".  

É impressionante como as pessoas criam essas frases clichê sobre relacionamentos. Meodeos!!! Primeiro,  não consigo achar que uma relação se conserta, porque não é um motor de carro que quebrou. Uma relação é uma coisa viva, que tem que ser vivida toda dia e que, invariavelmente deve mudar ao longo do tempo, porque as próprias pessoas mudam muito ao longo da vida, in first place.


Segundo: eu não conseguiria assumir como verdade que separar é o caminho mais fácil. Porque, para a maioria das relações que eu conheço, separação é uma coisa muito difícil. Muitas pessoas preferem se mumificar lentamente em seus casamentos a ter que se separar. E são muitos os motivos tortos: seja por questões financeiras, ou porque morrem de medo de ficar sozinhas, ou porque acham que os filhos vão sofrer, ou por algum senso de responsabilidade, ou porque a relação é ruim mas previsível e melhor que ficar à deriva sem saber o que fazer da vida, ou porque o outro ameaçou se jogar da ponte. 


Vamos levando a vida achando que é assim mesmo, que casamento é difícil mesmo, que mês que vem melhora ou que esse é apenas um ano difícil. Bom, não estou aqui pra dizer que é fácil. Mas estou aqui pra dizer que, por outro lado, casamento só deveria ter sentido se for uma fonte de companheirismo, de aprendizado, de respeito. E, mesmo em momentos difíceis, essas coisas essenciais deveriam se manter vivas, porque é a partir delas que é possível fazer o que importa: rever a relação, conversar, se abrir, se renovar, olhar o outro de forma aberta e compreensiva. Acho que só a partir disso é que pode surgir energia para escolher ficar junto ou coragem para admitir que separar é a melhor opção.


Claro que a gente vai esbarrar em casais que, como dizem, se separam na primeira dificuldade. Existem muitos, é verdade. Talvez sejam a maioria. Mas, sinceramente, essa percepção é um tanto distorcida, na minha opinião. A questão não é que as pessoas se separem por qualquer motivo, mas muito antes, a maioria se casa por qualquer motivo!


"Se houver amor é possível consertar, ao menos tentar consertar".


Bom, não acho que o amor seja suficiente, nem de longe. Senso de responsabilidade e vontade de cuidar do outro, se importar com seus sentimentos e amá-lo incondicionalmente mantém uma amizade, o carinho, mas não acho que mantenha uma relação. 


Decidir separar ou continuar junto não é uma decisão tão fácil, especialmente entre duas pessoas que se amam, mas cuja relação tenha se percebido inviável. Acho necessária uma boa dose de autoconhecimento e de sensibilidade não só para tomar essa decisão, mas antes, para sentar e conversar abertamente sobre isso sem responsabilizar o outro pelo fim da relação.


De toda forma, não enxergo uma separação com toda a carga de drama e de fracasso que a maioria enxerga. Eu sempre achei que a vida é aprendizado e crescimento e simplesmente não entendo essa obsessão social com o 'felizes para sempre". Já é tão raro a gente encontrar casais verdadeiramente felizes no agora e as pessoas ainda ficam desejando ser felizes pelos próximos 800 anos! Eu prefiro me concentrar em viver um dia de cada vez. Num mundo de relações de mentira, acho bonito quando um casal tem a coragem fazer algo a respeito de uma relação que acabou: como eu já disse em outro post sobre o tema, separar-se é um ato de coragem e, entre pessoas que se recusam a viver uma relação cômoda, é também um sinal de enorme respeito pela relação que já existiu. 


Sim, cada caso é uma caso. Podem existir outras saídas que não a separação. Mas, seja lá qual for a escolha, o que eu realmente não consigo entender é como as pessoas aceitam como lei que os caminhos certos são os mais difíceis, como se tivéssemos que nos matar de sofrimento para alcançar a felicidade. 


Relação é aprendizado, crescimento, cumplicidade. Não estamos aqui para mudar o outro ou moldá-lo para atender às nossas necessidades e, em qualquer situação, deveríamos decidir se queremos ficar ou partir com base no que o outro é e não no que poderia ser ou no que gostaríamos que fosse. 


Separação não é escolher entre caminhos fáceis ou difíceis, mas escolher sobre o tipo de relação que se quer ter. E, pra mim, escolher ficar junto e permanecer junto deveria ser alegre, sempre. 



2 comentários:

  1. Perfeito! Eh bem por ai mesmo...
    Adorei seu Blog, o Mauricio (vulgo, gaucho) que me indicou!
    Congrats :)

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  2. Oi Elita! Bem-vinda! Dei uma olhada no seu blog, bem bacana também!!! (Maurício também me indicou, rsrsrs).;-)

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