quarta-feira, 29 de julho de 2015

Você nunca vai me conhecer


Eu sou a menina que você nunca vai conhecer. Sou eu quem vai te acordar de manhã com um beijo e, no dia seguinte, sem querer, vou te acordar com uma cotovelada por causa de uma noite de sono agitado. 

Sou a mulher que vai te agarrar de um jeito totalmente louco, que vai te fazer achar que você nunca foi tão desejado. É a mim que você vai ver nua sem fazer ideia de como desvendar o mistério do meu olhar. E, no dia seguinte, serei a menina que vai pular em você pra te matar de cócegas e depois vai se enroscar em você e apagar sem te dar beijo de boa noite e sem sequer escovar os dentes. E você vai me colocar pra dormir na sua cama, com a sensação de que mesmo de calça jeans você está me vendo inteiramente nua, de tão frágil e exposta. 

Sou a mulher irritantemente obcecada com limpeza que vai rolar na lama com você em um dia de chuva. Vou te enlouquecer de tanto falar e, de repente, vou passar um nascer do sol inteiro em silêncio sentindo a sua pele na minha. 

Sou a mulher que um dia você vai achar que conhece, e que na semana seguinte vai mudar tanto que você ficará sem chão quando perceber que está se apaixonando por outra, só que ainda sou eu. Vou acordar atrasada pro trabalho e não vou nem dar bom dia pra quem estiver no elevador. E, na volta, vou ficar conversando com a velhinha do andar de cima com toda a minha ternura.

Sou a mulher que vai sair pra dançar com você de salto alto e batom vermelho no sábado à noite e que vai passar a semana seguinte inteira de tênis, calça jeans e camiseta. Sou aquela que vai te fazer cafuné até você dormir, depois de um dia exaustivo, e que vai acordar no dia seguinte reclamando porque a casa está uma bagunça.

Sou a mulher que pulou de um prédio de 50 andares sem cordas e que , no meio do pânico da queda livre, descobriu que gostava de voar. Sou uma menina que nunca vai crescer e que vai se apaixonar por você pelos motivos mais improváveis e inesperados. Vou me chocar comigo mesma: com a minha imensa coragem pra encarar a dor que eu sinto às vezes e com meu pânico repentino por causa de um corte no dedo. 

Sou a mulher que você nunca, nunca, nunca vai conhecer por inteiro e nem pela metade. Mas, subitamente, você vai saber exatamente quem eu sou quando eu te olhar bem no olhos: você vai entender que eu sou livre, que não quero ter a obrigação de ser boazinha nem escrota. Que não posso ser a mesma pessoa a vida inteira quando eu tenho tanta coisa pra aprender sobre a vida e sobre mim. 

Sou a mulher que você nunca vai conhecer, porque eu vou mudar constantemente, eu vou ser eu mesma, só que nem sempre serei a mesma. Sou eu que não quero ter a obrigação de ser sua pra sempre. E, mesmo assim, e talvez exatamente por isso, pode ser que eu queira ser sua pra sempre, mas só vou descobrir amanhã e depois  - e todos os dias depois de amanhã.

4 comentários: