segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Inspiração para a semana.

Era carnaval na Bahia. Cada um estava com seus amigos, em bares de lados opostos da rua, e se olhavam. Após alguns minutos, ela atravessa a rua pra falar com ele:
- Provavelmente só teremos essa chance.
Não só eram da mesma cidade, mas moravam no mesmo bairro.
Namoraram.

sábado, 22 de agosto de 2015

Eu tenho medo de ter medo do medo

O que você faria se não sentisse medo? Essa foi a pergunta que um amigo meu fez há uns dias atrás. Não respondi nada na hora, mas fiquei pensando bastante a respeito, porque achei que valia à pena responder com calma. Eis a minha reposta:

Quando eu era bem pequena, meu pai me ensinou a andar de bicicleta. A minha não tinha rodinha e, no início, meu pai segurava a bicicleta pela parte de trás do banco e ia me empurrando enquanto eu dava as primeiras pedaladas inseguras. Tem pai que, depois de um tempo, solta a bicicleta e não avisa nada e a criança vai pedalando sozinha e feliz, contando com a mão do pai que já não está mais lá a segurar o selim.

Mas meu pai não era assim. De uma hora pra outra, quando ele achou que eu estava indo bem, ele soltou o banco e falou alto pra eu ouvir: "soltei o banco filha, você consegue sozinha". Talvez, se eu não soubesse que ele não estava mais me segurando, fosse mais fácil continuar a pedalar. No segundo em que você se dá conta de que nada te impede de um estabaco, como é que você se sente? Já faz tempo, eu tinha só quatro anos. Mas me senti viva, me senti responsável: "Deixa comigo, eu consigo".

A vida é isso: você pode ficar imaginando que tem alguém te segurando pra você não cair, ou você pode simplesmente viver sabendo quais os riscos e conviver com isso. A questão é que viver sem medo, com base em falsas seguranças, pode deixar a vida mais fácil, mas os tombos podem ser muito bruscos e podem machucar incrivelmente, especialmente porque você vai se sentir enganado pela vida que te prometeu segurança. Só tem medo de cair quem sabe que a vida não vem com rodinha. Só encaramos os riscos de frente quando temos consciência deles.

O medo pode facilmente se tornar uma desculpa para a covardia, pode te fazer querer ter as rodinhas pra sempre e você nunca vai saber como seria sem elas. Não encaro sentimento algum como  mocinho nem vilão - o problema não é o medo, mas o que você faz com ele. Porque o medo também pode te trazer a consciência do momento presente, pode te fazer sentir vivo, quando você não tem apego ao resultado. Tudo bem cair, né?

Sentir medo te incomoda? Será que você acredita que é o medo que te impede de fazer o que você quer? Ou será que o medo te impede de descobrir quem você é - que pode talvez te mostrar o que de fato você quer?

Mas, então, o que eu faria se não sentisse medo? Sinceramente, eu não sei e talvez, se você visse o medo como eu vejo, você não me faria essa pergunta. Eu não quero não sentir medo. Prefiro pedalar sabendo que posso cair, porque o medo da queda me traz a consciência de que sou frágil e vulnerável, mas me traz também a responsabilidade de dar o meu melhor. Sinto que sentir medo é um jeito mais realista de viver, porque não existe essa coisa chamada segurança. Eu sei que nem sempre vou me sentir pronta pra tudo. Encarar o medo não é estar no controle, mas aceitar a falta de controle, as consequências, os "erros" e "acertos", a queda ou a perfeição de ter dado a volta no quarteirão com quatro anos sem um arranhão.

Tem hora que temos que nos jogar e, como não sentir medo? Quando fiz queda livre e rapel, todas as vezes as minhas pernas tremeram e eu não me sentia pronta, mas eu fui. E foi lindo, mas tudo bem se não tivesse sido legal.

Me diz Mau: você não acha que o medo te deixa mais vivo? O que você prefere: a falsa certeza do felizes pra sempre ou a consciência plena de que todo dia você pode "perder" a mulher que você ama? Como é que você beijaria a mulher da sua vida se soubesse que pode perdê-la a qualquer momento? Como você a beijaria hoje se estivesse certo de que ela vai estar lá para você poder beijá-la pelos próximos 50 anos?

Se eu não sentisse medo, a vida seria menos desafiadora, mais cômoda e eu talvez não entendesse o poder da coragem. Se a coragem for ignorância dos reais riscos, ela serve pra quê? Se o medo, por outro lado, for covardia, ele serve pra quê? Se você observar o medo em vez de tentar eliminá-lo, talvez descubra que ele é apenas a consciência de que a vida está no presente, é a voz dentro de você que te diz que esse dia de hoje nunca mais vai se repetir, por mais que você faça tudo igual amanhã. O medo pode ser um lembrete do coração te pedindo pra não sacrificar o presente perfeito e imperfeito como só ele pode ser por um futuro ideal.


Favor manusear com cuidado


Era quinta-feira quando ele enviou uma mensagem pra ela dizendo que tinha medo, que se sentia vulnerável e que nunca havia se sentido assim com mulher alguma. Ele se sentia quase que com raiva de si mesmo por causa dessa sensação de que essa mulher poderia ter o que quisesse dele. 

Talvez não exista maior prova de fragilidade do que sentir raiva por se sentir vulnerável. Pessoas que nunca se permitiram a vulnerabilidade, fatalmente nunca vão entender quanta beleza há nisso: ser vulnerável é se permitir sentir, em vez de viver tudo friamente calculado. Ser vulnerável é dizer: "tudo bem, eu não tenho garantias de nada, a não ser de que quero viver cada segundo como se fosse o primeiro e o último". Ser vulnerável é entender que não temos controle sobre a vida, nem sobre outra pessoa.

Eu só vivo quando me permito sentir o que quer que seja. Só vive quem entende que a vida é imprevisível e que não há qualquer garantia - e nunca houve. As pessoas não entendem que não há seguro de vida, que o seguro é só de morte - porque essa sim é a única coisa certa por aqui.

Para mim, será sempre triste quando eu vir alguém sentir medo de se entregar a um sentimento ou a outra pessoa. Será sempre triste ver quanta gente faz matemática com o amor e tenta calcular quanto vai se jogar e quanto vai se permitir gostar do outro ou quanto vai se expor, com base no outro ou na ideia do que o outro sente. Esse é um jeito egoísta de gostar de alguém, em que a gente só se doa quando há garantias de um retorno na mesma proporção.

Quando não me permito sentir, tenho a falsa sensação de que estou seguro, porque não entendo que  me defender é sinal de que tenho medo e, portanto, me sinto inseguro e incapaz de lidar com meus sentimentos. Não quero me sentir vulnerável porque não quero perder o controle.  

Não quero perder, não quero fazer fazer papel de boba, não quero ser a pobre coitada que não foi amada de volta. Bom mesmo é garantir um coração intacto e nunca se entregar ao que quer que seja. Bom mesmo é embrulhar o coração em papel de presente ou plastificá-lo e impermeabilizá-lo para admirá-lo na estante ou dentro do caixão.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A poesia de um coração partido

Existe poesia no caos e existe beleza naquele momento em que um vidro se rompe em um número incontável de cacos que dançam no ar até tocarem o chão.  Ao contrário do que se pode pensar, não é o coração partido que dói, porque viver o bastante para se saber frágil,  com um coração passível de quebrar e também de se colocar inteiro de novo, é se sentir vivo. O que dói é que você queria mais - e é exatamente esse não poder ter mais de um amor que parte o coração.

Porque você queria mais beijos, queria mais abraços e queria ter visto o pôr-do-sol. Parte o coração e dói não saber como seria o que imaginou pra amanhã. Sem saber, você tinha planos, não é? E agora você não vai descobrir como seria viajar com esse amor até aquela montanha, não vai poder ouvir junto aquela trilha sonora, nem ver aquele filme, nem mesmo conhecer lugares secretos.


Corações partidos são tristes e solitários. É assim que quase todo mundo vê, mas, pra mim, corações partidos são só corações. Estamos acostumados a desejar os finais felizes, mas o problema é que os finais felizes são e sempre serão uma invenção. Não porque não exista felicidade, mas porque a felicidade não acontece no futuro, ela vive no agora. Não percebemos isso porque estamos constantemente tentando adivinhar o caminho, sempre olhando à frente e perseguindo objetivos e metas que acreditamos que nos deixarão satisfeitos.


Somos aquela pessoa sedenta que caminha ansiosa na direção do oásis que está à frente.  A felicidade futura é uma miragem que se move sempre mais à frente a cada passo que damos na direção dela. Se eu mal sei quem eu sou agora, como lutar para saber o que seria um final feliz amanhã? Final feliz é quando se fica junto? É só isso?


A beleza de um coração partido está em se saber pequeno, em se saber humano. Corações partidos são uma oportunidade única de parar de perseguir a miragem pra sentir o aqui e o agora. No silêncio de um coração partido é que a gente escuta a alma nos dizer baixinho que qualquer amor vale à pena e que não importa como termina: só importa o que foi vivido entre o início e o fim e se você foi capaz de perder o controle e viver tudo como só se vive quando não se faz ideia do que acontece amanhã. Como você beijaria a pessoa que você ama se soubesse que tudo o que você tem é o agora e que esse beijo nunca mais vai se repetir?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Sobre a ponte que cedeu ao peso do amor

A famosa Ponte das Artes de Paris cedeu com o peso do amor. [Se você viajou pra Paris e prendeu seu amor lá, tá na hora de ligar pro prefeito e pedir o cadeado de volta pra prender noutro canto]. Ler essa notícia hoje me fez pensar no que é que passou pela cabeça de uma criatura para inventar uma tradição dessas: a de prender seu amor a um cadeado.

Todos os amores deveriam ter o peso leve da alma e a simplicidade de quando não é preciso pensar em nada, basta apenas andar de mãos dadas por aí, assistir o sol se pôr nos dias bonitos de verão, fazer as brincadeiras que pessoas apaixonadas e ridículas fazem e dormir de conchinha.

Mas como é que a gente faz quando, de uma hora pra outra, esse amor tão leve cai sobre o seu peito com um peso de mil toneladas? Como é que você vive num mundo em que não sabe como viver o amor que sente e, ao mesmo tempo, dói muito deixá-lo partir? 

A leveza mais insustentável de todas é a de um amor livre. Aquele  amor que você jamais vai poder prender num cadeado em uma ponte qualquer e cada vez que doer ter que deixá-lo ir embora, você vai saber que mais difícil que a saudade, seria viver esse amor preso a um cadeado e limitado de tal forma que quase nem ia parecer amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Amores platônicos também são correspondidos

Ela consegue visualizar o momento em que pega a nuca dele e puxa a sua boca contra a dela. É quase como se fosse real a vontade de tirar a camisa dele e toda a intensidade que isso provocaria. Futuros do pretérito. 

Ela poderia tê-lo mordido e tê-lo virado do avesso. Mas, lá no fundo, antes mesmo de tentar, abriu mão de tudo isso. Ela o deseja de um jeito que é quase desumano, mas, ao mesmo tempo, sabe que será incrivelmente feliz sem nunca experimentar nada disso, porque sabe que ele ama outra mulher.

Ele não entende o porquê dela dizer que o ama, talvez porque esteja acostumado com o jeito que todo mundo sempre diz isso como se esperasse uma resposta de volta. Não é esse o caso. Ela o ama só de raiva, só pra contrariá-lo, só porque ela é capaz de amar assim. Ela o ama muito, por motivo nenhum, ou talvez porque consiga enxergar toda a fragilidade que ele tem - de um jeito só dela e que só ela poderia enxergar, porque sem saber, é só pra ela que ele se abre e se mostra assim inteiro, complexo, confuso e intenso, medroso, bonito, pornográfico e puro.

Ela abre mão de tentar viver isso porque sabe que sempre terão o mais bonito um do outro: essa coisa única que só entendem as pessoas que tem alguém com quem conseguem conversar por horas e horas como se o tempo não existisse. E nem mesmo a distância ou o tempo conseguem mudar a perfeição de se sentirem à vontade e tão eles mesmos na presença um do outro.

Ao contrário de todas as paixões antes dessa, não há ciúme por ela saber que ele ama outra. Ela queria muito beijá-lo, às vezes, por um segundo, é o que ela mais quer. Mas aí, ela sabe que isso passa, e que, no final das contas, ela quer mesmo que ele seja dele mesmo e de mais ninguém. E que quanto mais ele for ele mesmo, ou o que quer que ele queira ser, mais ele será dela.

Mas e ele? Bom, ele a ama só um pouco, quase nada. Dizem que amor não se mede e, mesmo num pouquinho de amor cabe o infinito. E o infinito será sempre suficiente pra se saber amado de volta.