sábado, 22 de agosto de 2015

Eu tenho medo de ter medo do medo

O que você faria se não sentisse medo? Essa foi a pergunta que um amigo meu fez há uns dias atrás. Não respondi nada na hora, mas fiquei pensando bastante a respeito, porque achei que valia à pena responder com calma. Eis a minha reposta:

Quando eu era bem pequena, meu pai me ensinou a andar de bicicleta. A minha não tinha rodinha e, no início, meu pai segurava a bicicleta pela parte de trás do banco e ia me empurrando enquanto eu dava as primeiras pedaladas inseguras. Tem pai que, depois de um tempo, solta a bicicleta e não avisa nada e a criança vai pedalando sozinha e feliz, contando com a mão do pai que já não está mais lá a segurar o selim.

Mas meu pai não era assim. De uma hora pra outra, quando ele achou que eu estava indo bem, ele soltou o banco e falou alto pra eu ouvir: "soltei o banco filha, você consegue sozinha". Talvez, se eu não soubesse que ele não estava mais me segurando, fosse mais fácil continuar a pedalar. No segundo em que você se dá conta de que nada te impede de um estabaco, como é que você se sente? Já faz tempo, eu tinha só quatro anos. Mas me senti viva, me senti responsável: "Deixa comigo, eu consigo".

A vida é isso: você pode ficar imaginando que tem alguém te segurando pra você não cair, ou você pode simplesmente viver sabendo quais os riscos e conviver com isso. A questão é que viver sem medo, com base em falsas seguranças, pode deixar a vida mais fácil, mas os tombos podem ser muito bruscos e podem machucar incrivelmente, especialmente porque você vai se sentir enganado pela vida que te prometeu segurança. Só tem medo de cair quem sabe que a vida não vem com rodinha. Só encaramos os riscos de frente quando temos consciência deles.

O medo pode facilmente se tornar uma desculpa para a covardia, pode te fazer querer ter as rodinhas pra sempre e você nunca vai saber como seria sem elas. Não encaro sentimento algum como  mocinho nem vilão - o problema não é o medo, mas o que você faz com ele. Porque o medo também pode te trazer a consciência do momento presente, pode te fazer sentir vivo, quando você não tem apego ao resultado. Tudo bem cair, né?

Sentir medo te incomoda? Será que você acredita que é o medo que te impede de fazer o que você quer? Ou será que o medo te impede de descobrir quem você é - que pode talvez te mostrar o que de fato você quer?

Mas, então, o que eu faria se não sentisse medo? Sinceramente, eu não sei e talvez, se você visse o medo como eu vejo, você não me faria essa pergunta. Eu não quero não sentir medo. Prefiro pedalar sabendo que posso cair, porque o medo da queda me traz a consciência de que sou frágil e vulnerável, mas me traz também a responsabilidade de dar o meu melhor. Sinto que sentir medo é um jeito mais realista de viver, porque não existe essa coisa chamada segurança. Eu sei que nem sempre vou me sentir pronta pra tudo. Encarar o medo não é estar no controle, mas aceitar a falta de controle, as consequências, os "erros" e "acertos", a queda ou a perfeição de ter dado a volta no quarteirão com quatro anos sem um arranhão.

Tem hora que temos que nos jogar e, como não sentir medo? Quando fiz queda livre e rapel, todas as vezes as minhas pernas tremeram e eu não me sentia pronta, mas eu fui. E foi lindo, mas tudo bem se não tivesse sido legal.

Me diz Mau: você não acha que o medo te deixa mais vivo? O que você prefere: a falsa certeza do felizes pra sempre ou a consciência plena de que todo dia você pode "perder" a mulher que você ama? Como é que você beijaria a mulher da sua vida se soubesse que pode perdê-la a qualquer momento? Como você a beijaria hoje se estivesse certo de que ela vai estar lá para você poder beijá-la pelos próximos 50 anos?

Se eu não sentisse medo, a vida seria menos desafiadora, mais cômoda e eu talvez não entendesse o poder da coragem. Se a coragem for ignorância dos reais riscos, ela serve pra quê? Se o medo, por outro lado, for covardia, ele serve pra quê? Se você observar o medo em vez de tentar eliminá-lo, talvez descubra que ele é apenas a consciência de que a vida está no presente, é a voz dentro de você que te diz que esse dia de hoje nunca mais vai se repetir, por mais que você faça tudo igual amanhã. O medo pode ser um lembrete do coração te pedindo pra não sacrificar o presente perfeito e imperfeito como só ele pode ser por um futuro ideal.


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