sábado, 22 de agosto de 2015

Favor manusear com cuidado


Era quinta-feira quando ele enviou uma mensagem pra ela dizendo que tinha medo, que se sentia vulnerável e que nunca havia se sentido assim com mulher alguma. Ele se sentia quase que com raiva de si mesmo por causa dessa sensação de que essa mulher poderia ter o que quisesse dele. 

Talvez não exista maior prova de fragilidade do que sentir raiva por se sentir vulnerável. Pessoas que nunca se permitiram a vulnerabilidade, fatalmente nunca vão entender quanta beleza há nisso: ser vulnerável é se permitir sentir, em vez de viver tudo friamente calculado. Ser vulnerável é dizer: "tudo bem, eu não tenho garantias de nada, a não ser de que quero viver cada segundo como se fosse o primeiro e o último". Ser vulnerável é entender que não temos controle sobre a vida, nem sobre outra pessoa.

Eu só vivo quando me permito sentir o que quer que seja. Só vive quem entende que a vida é imprevisível e que não há qualquer garantia - e nunca houve. As pessoas não entendem que não há seguro de vida, que o seguro é só de morte - porque essa sim é a única coisa certa por aqui.

Para mim, será sempre triste quando eu vir alguém sentir medo de se entregar a um sentimento ou a outra pessoa. Será sempre triste ver quanta gente faz matemática com o amor e tenta calcular quanto vai se jogar e quanto vai se permitir gostar do outro ou quanto vai se expor, com base no outro ou na ideia do que o outro sente. Esse é um jeito egoísta de gostar de alguém, em que a gente só se doa quando há garantias de um retorno na mesma proporção.

Quando não me permito sentir, tenho a falsa sensação de que estou seguro, porque não entendo que  me defender é sinal de que tenho medo e, portanto, me sinto inseguro e incapaz de lidar com meus sentimentos. Não quero me sentir vulnerável porque não quero perder o controle.  

Não quero perder, não quero fazer fazer papel de boba, não quero ser a pobre coitada que não foi amada de volta. Bom mesmo é garantir um coração intacto e nunca se entregar ao que quer que seja. Bom mesmo é embrulhar o coração em papel de presente ou plastificá-lo e impermeabilizá-lo para admirá-lo na estante ou dentro do caixão.

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