segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Loucura também é lucidez

Era só uma sexta-feira do final de inverno e o dia não tinha nada de incomum. O sol nasceu com chuva e o barulho da cidade era o mesmo. A impaciência das pessoas no trânsito e a agitação da cidade grande não parecia novidade. Ela pulou da cama cedo, vestiu uma roupa qualquer, pegou o carro e foi resolver a vida.

Sentia uma sensação estranha de que tinha esquecido alguma coisa, mas não conseguia lembrar o que era. Parou um instante no estacionamento e ficou lá por um tempo dentro do carro, como quem esperava desacelerar da agitação do mundo. Pegou o celular da bolsa e colocou no modo silencioso. Sentou pra meditar.

Entre o silêncio e o nada, ela sentiu o corpo inteiro anestesiar. Foi como morrer subitamente e continuar viva, era uma anestesia em que ela sentia tudo, só que muito devagar. E de repente tudo ficou calmo. Ela foi ao supermercado com uma sensação de liberdade incrível e ouvia sua playlist favorita enquanto passava pelos corredores. Sentia algo que ela já nem lembrava como era: ela estava viva.




De repente, resolveu mandar uma mensagem para um cara que ela havia conhecido num aplicativo de encontros, coisa que ela nunca achou que usaria na vida. Ela não queria romance, nem sabia o que esperar desse encontro, mas queria viver aquilo e descobrir depois o que sentiria. Encontraram-se às sete da noite só para tomar um suco e bater papo. Não se pode esperar nada de um encontro assim, mas às duas da manhã eles ainda estavam conversando e rindo, com a chuva torrencial molhando a mesa que segurava duas tulipas de chope.

Não era normal marcar um encontro que nem parecia um encontro. Não era normal simplesmente conversar sem qualquer obrigação de romance ou encontros futuros ou ainda mensagens no dia seguinte. Não era normal conversar durante tantas horas com um completo desconhecido sem se perguntar onde aquilo ia dar. 


Aquele encontro teria tudo pra fazer uma mulher se apaixonar. Ele era completamente perfeito: bonito, cheio de afinidades com ela, com uma energia e uma presença incrivelmente agradáveis e uma grande maturidade no jeito de levar a vida e se relacionar.
 

Não era normal viver tão no presente, sem qualquer previsão sobre o futuro, sem querer chegar a lugar algum, sem criar um conto de fadas na cabeça e sem esperar absolutamente nada. Foi um encontro sem beijos e sem ninguém saber o que aconteceria depois. 

Como seria a vida se você não esperasse nada em troca e tudo que você tivesse a oferecer fosse a sua presença? Às três da manhã, eles ouviam música no carro e, assim, de repente, ela soube que havia enlouquecido: era capaz de se relacionar e viver sem expectativas, com uma leveza tão bonita e fácil quanto respirar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Relatioship Status: Eu devia

Eu devia ter brincado mais e devia ter te desarmado com um sorriso sempre que eu percebi que uma briga boba ia começar. E eu devia saber que o resultado da soma de muitas brigas bobas é essa distância intransponível que vai surgindo lentamente entre duas pessoas, ainda que elas durmam na mesma cama. Eu devia ter olhado mais pra mim mesma e devia ter percebido que não existe amor quando há qualquer necessidade de que uma das partes se anule ou se sacrifique para que a outra seja feliz.

Eu devia ter entendido que sexo é uma via de mão dupla e que mulheres precisam ser seduzidas tanto quanto os homens querem ser. Devia saber que cada vez que eu permiti que você fosse ríspido comigo e guardei uma mágoa, perdi um pedaço de mim em que morava uma delicadeza com a qual eu queria ter te abraçado - e que esse abraço cheio de afeto me fez falta. Eu devia ter percebido o quanto precisava me sentir desejada de tantas outras maneiras que não tinham nada a ver com sexo.  

Eu devia ter te enxergado com diferentes olhares e ter te acolhido em vez de te criticar quando você não agia como eu esperava. E devia ter te elogiado mais por tantas coisas que você fazia por mim, em vez de só me dar conta das suas qualidades quando elas já não estavam mais à minha disposição.

Eu devia ter percebido que só eu mesma posso me conhecer, me entender e trabalhar meus medos - porque como eu me sinto é minha responsabilidade e não do outro. Eu devia me responsabilizar por tudo o que sinto e por tudo o que deixo de sentir por simplesmente não conseguir me expressar, mas é tão mais fácil e cômodo colocar a culpa pela infelicidade que sinto no comportamento "errado" do outro, né? Eu devia saber que é muito fácil guardar as coisas que sinto em forma de mágoas, mas que pode ser incrivelmente difícil ter que lidar com a dor desse meu silêncio quando ela vem à tona em forma de raiva e frustração.

E eu devia entender que nenhuma relação minha jamais poderá ser plena e feliz enquanto eu não me conhecer e for capaz de me expor e me expressar sem esforço, como eu realmente sou e sinto. Eu devia chorar mais e entender que falar ajuda a equilibrar minhas emoções. Eu devia saber que a coisa mais importante entre duas pessoas é a comunicação e que me comunicar não é reclamar das coisas que o outro faz e que me irritam ou culpá-lo pela minha insatisfação e infelicidade.

Eu devia saber que só pode existir uma relação de verdade quando cada um se sente capaz de dizer como se sente sem se colocar no lugar de vítima e, ao mesmo tempo, responsável por ouvir o outro sem julgamentos. Mas eu devia mesmo era saber que pra entender tudo isso, a gente às vezes precisa aceitar dor e desconforto, sentir, sofrer e perder a nós mesmos e ao outro pelo caminho de se conhecer de verdade.

A gente se acostuma a viver num emaranhado de pensamentos, desejos e frustrações sem fazer nada a respeito, sem olhar pra dentro, como se esse fosse o estado normal de existir, quando não é.  

 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Até tu, Chico

A amiga da amiga tem um amigo que joga futebol no Polytheama, time do Chico Buarque. Segundo relatos do amigo da amiga da amiga, na noite em que Chico deu canja no Semente, ele havia terminado com a namorada, a também cantora Tais Gullin.
Nasce uma nova lenda urbana: até o DEUSO que é o Chico Buarque fica mal e vai pra Lapa beber quando termina o namoro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre o Tinder e a insustentável beleza do ser

Como a Luca já fez questão de jogar aos quatro ventos, eu entrei no Tinder há uma semana. Pra uma pessoa que escreve num blog sobre relacionamentos, estou bastante atrasada, já que o Tinder está bombando há anos. Confesso que entrei cheia de vergonha de encontrar pessoas conhecidas e preocupada com a minha reputação e com o que essas pessoas iam pensar de mim, dada a má fama desse aplicativo e considerando que ninguém saberia que o meu objetivo é ter inspiração para escrever no blog.

Não, não há nada de ruim em existir uma ferramenta que facilita encontros. Pessoas que querem só se pegar, farão isso e sairão felizes e satisfeitas. Que mal pode haver nisso? Pessoas que estão ali só por curiosidade, vão matar sua curiosidade. E pessoas que estão procurando o príncipe encantado continuarão na mesma loteria de sempre: porque eu acredito que no Tinder ou fora dele, encontrar um grande amor não é coisa fácil. Eu sei. Sei que de onde menos se espera podem surgir coisas incríveis. E coisas incríveis podem surgir até mesmo no Tinder.

Mas a verdade é que me deu uma certa tristeza ficar olhando centenas de fotos de pessoas com essa possibilidade de descartar ou curtir alguém num lapso de segundos, com base em algo como gostei da sua cara e das três palavras que você escreveu pra se descrever.

De repente, eu lembrei que as pessoas mais incríveis que já conheci e pelas quais me apaixonei perdidamente, eu não teria jamais selecionado se tivesse visto as fotos delas no Tinder. Os homens mais incríveis que conheci não eram lindos e nem sarados: ao primeiro olhar, pelo contrário: pareciam bastante comuns e talvez até um pouco esquisitos ou desajustados. 


A gente cruza com esses homens nos elevadores, nas escadas rolantes e no caixa dos supermercados ou até mesmo no Tinder. E não queremos puxar papo com essas pessoas e nem queremos curtí-las no Tinder porque em 3 segundos julgamos que elas não fazem nosso tipo e, assim, seguimos nosso caminho sem nunca saber o que estamos perdendo.

Não nego que seja gostoso olhar homens bonitos e sarados, mas isso não me provoca nada além de prazer visual ou eventualmente algum desejo. Também não estou dizendo que pessoas lindas por fora não possam ser incríveis por dentro. Mas a beleza que realmente me encanta é aquela que se constrói como um caleidoscópio: você é capaz de enxergar as várias pequenas coisas que juntas, sob um olhar atento, fazem com que surja uma beleza incrível e única e que se pode admirar em vários ângulos e formas sem alterar o conteúdo.

Só que as belezas de caleidoscópio precisam de luz para serem vistas. Precisamos de sensibilidade para ir além de um corpo sarado. Precisamos nos permitir conversar com aquele cara do elevador pra descobrir que ele tem um senso de humor que vale mais que mil abdomens trincados - e que todas as coisas que preenchem essa beleza nunca poderão ser representadas por fotos ou descrições de uma, duas ou três frases sobre minha profissão, meus hobbies e citações de terceiros.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Desafio

A Pah arrumar um namorado pelo Tinder e eu arrumar um one night stand pelo Faceglória. O que será mais difícil?