quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre o Tinder e a insustentável beleza do ser

Como a Luca já fez questão de jogar aos quatro ventos, eu entrei no Tinder há uma semana. Pra uma pessoa que escreve num blog sobre relacionamentos, estou bastante atrasada, já que o Tinder está bombando há anos. Confesso que entrei cheia de vergonha de encontrar pessoas conhecidas e preocupada com a minha reputação e com o que essas pessoas iam pensar de mim, dada a má fama desse aplicativo e considerando que ninguém saberia que o meu objetivo é ter inspiração para escrever no blog.

Não, não há nada de ruim em existir uma ferramenta que facilita encontros. Pessoas que querem só se pegar, farão isso e sairão felizes e satisfeitas. Que mal pode haver nisso? Pessoas que estão ali só por curiosidade, vão matar sua curiosidade. E pessoas que estão procurando o príncipe encantado continuarão na mesma loteria de sempre: porque eu acredito que no Tinder ou fora dele, encontrar um grande amor não é coisa fácil. Eu sei. Sei que de onde menos se espera podem surgir coisas incríveis. E coisas incríveis podem surgir até mesmo no Tinder.

Mas a verdade é que me deu uma certa tristeza ficar olhando centenas de fotos de pessoas com essa possibilidade de descartar ou curtir alguém num lapso de segundos, com base em algo como gostei da sua cara e das três palavras que você escreveu pra se descrever.

De repente, eu lembrei que as pessoas mais incríveis que já conheci e pelas quais me apaixonei perdidamente, eu não teria jamais selecionado se tivesse visto as fotos delas no Tinder. Os homens mais incríveis que conheci não eram lindos e nem sarados: ao primeiro olhar, pelo contrário: pareciam bastante comuns e talvez até um pouco esquisitos ou desajustados. 


A gente cruza com esses homens nos elevadores, nas escadas rolantes e no caixa dos supermercados ou até mesmo no Tinder. E não queremos puxar papo com essas pessoas e nem queremos curtí-las no Tinder porque em 3 segundos julgamos que elas não fazem nosso tipo e, assim, seguimos nosso caminho sem nunca saber o que estamos perdendo.

Não nego que seja gostoso olhar homens bonitos e sarados, mas isso não me provoca nada além de prazer visual ou eventualmente algum desejo. Também não estou dizendo que pessoas lindas por fora não possam ser incríveis por dentro. Mas a beleza que realmente me encanta é aquela que se constrói como um caleidoscópio: você é capaz de enxergar as várias pequenas coisas que juntas, sob um olhar atento, fazem com que surja uma beleza incrível e única e que se pode admirar em vários ângulos e formas sem alterar o conteúdo.

Só que as belezas de caleidoscópio precisam de luz para serem vistas. Precisamos de sensibilidade para ir além de um corpo sarado. Precisamos nos permitir conversar com aquele cara do elevador pra descobrir que ele tem um senso de humor que vale mais que mil abdomens trincados - e que todas as coisas que preenchem essa beleza nunca poderão ser representadas por fotos ou descrições de uma, duas ou três frases sobre minha profissão, meus hobbies e citações de terceiros.

4 comentários:

  1. Pô, não joguei aos quatro ventos não. E por acaso eu entrei no Faceglória?

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    1. Não entrou? To puta contigo....hahahahahah

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  2. você tem dom. escreve sobre o óbvio de forma muito bonita e diferente...

    "A gente cruza com esses homens nos elevadores, nas escadas rolantes e no caixa dos supermercados ou até mesmo no Tinder. E não queremos puxar papo com essas pessoas e nem queremos curtí-las no Tinder porque em 3 segundos julgamos que elas não fazem nosso tipo e, assim, seguimos nosso caminho sem nunca saber o que estamos perdendo. "

    eu falo isso direto pras pessoas, embora 99,9% cague pra mim.... perdemos muita coisa boa sem ao menos perceber.

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  3. Tinder e FaceGlória foi punk. Vocês estão jogando pesado ou a curiosidade tá matando?

    De qualquer forma, na minha opinião mais modesta, qualquer gadget ou novidade que se baseie na estética e na "estética religiosa" não gera nada de bom e acho que vai ser difícil achar qualquer inspiração ou ideia pra escrever lá, que não seja dizendo que são ideias ruins e fracas. Quando inventarem um aplicativo ou site que reflita as afinidades reais e não tanto os egos como o Facebook (que já é algo relativamente melhor que o Tinder e o FaceGlória), aí eu acredito em alguma coisa.

    Quando inventarem um aplicativo que espelhe o "olho-no-olho" e o toque, aí o bicho vai pegar! Eu chamaria de "mesa de bar", "brinde (no sentido de taças daquele vinho certo para a hora certa)" ou "chopp gelado", porque entendo serem as plataformas mais adequadas e sinceras. =)

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