quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Não era amor, eram seus olhos


Morrer de calor e de sede no deserto pode te fazer enxergar aquilo que qualquer vista exausta quer ver. Miragens. Físicos chamam isso de refração: desvios dos raios de luz que geram ilusões óticas. Não é que seja delírio das pessoas. Não. Miragens são fenômenos reais aos olhos de quem vê e que podem até ser fotografados. Elas só não podem ser tocadas.

Para os olhos que se condicionam a enxergar o que querem, não é fácil entender a diferença entre as coisas que podem ou não ser alcançadas pelo toque. Seus olhos se apaixonaram porque você só enxergava o que queria ver. E não é que você realmente não sinta algo real. Mas há sentimentos que são como miragens: eles podem até ser fotografados e postados no Facebook, mas não podem ser vividos de verdade porque nunca existiram a não ser na sua retina cansada da realidade.

Há sentimentos que são só um "você é a mulher da minha vida" em palavras, mas que são contraditórios nas atitudes. Eu, que sempre amei as palavras, passei a me desapegar delas. A minha visão romântica das relações se partiu um um bilhão de cacos - de uma forma que seria impossível voltar atrás e colar os pedaços. Deixei de aceitar subornos, porque cansei de alimentar meu ego faminto que só queria ser agradado e se sentir lisonjeado - mesmo que lá no fundo eu soubesse que esse amor de miragem jamais poderia ser sentido num abraço de verdade. 

Não quero declarações de amor incríveis e nem que você grite aos quatro ventos que me ama. Não quero que me diga que sou única. Não quero que me peça em casamento de joelhos na frente de uma multidão ou em cima de um palco no Maracanã. Não quero que me diga que sou a mulher que você sempre sonhou. Não quero ser a miragem de ninguém. Não me entenda mal, eu sei que há muita poesia nesses rompantes românticos. Mas eu realmente não quero ser a mulher da sua vida. Não, eu não quero ser isso. Desde a primeira vez que essas palavras saíram da sua boca eu soube que se fossem verdadeiras, nunca precisariam ser ditas. 

Eu não quero ser só isso: essa mulher que você sonhou e que só sonhou porque você espera que ela te dê algo que está faltando e que você estava imaginando na sua cabeça e no seu sonho. Não quero ser a mulher da sua vida porque ela é uma criação da sua retina romântica e eu sou uma mulher de carne e osso. Eu não posso e não quero ser aquilo que você sonhou, porque sou aquilo que sou. Eu sei que no momento que eu te contrariar, no momento que eu discordar de você e disser o que eu penso ou me negar a entrar no seu jogo, você vai desistir de todo esse amor eterno em três segundos.

Eu sempre desconfiei das declarações de amor barulhentas e apoteóticas, porque no meu coração o amor sempre foi silêncio. Se você precisa ouvir de mim que te amo, se precisa dizer o tempo todo o quanto sou especial, eu sinto que as palavras são um jeito de preencher o vazio, de tentar tornar real essa miragem que você vê. Meu silêncio é um sinal de que tudo é inteiro e preciso - a ponto de se sentir. E nada precisa ser explicado. 



Quando eu sinto essa incrível afeição por alguém, ao ponto de meu coração expandir, eu não quero dizer nada, não quero provar nada e não preciso que o outro entenda ou corresponda. Descrever meu amor por alguém é pobre como descrever a complexidade e a simplicidade da vida em uma frase, inútil como tentar descrever a beleza que eu senti quando chorei ao me deparar pela primeira vez, sozinha no topo de uma montanha, com o lugar mais bonito que já conheci.

Desculpe, mas só os seus olhos me amaram. Não é que seja ruim ser amada pelos seus olhos, mas é que para mim, nunca foi suficiente. É que eu só sei um jeito de viver o amor: aqui, agora, no coração e de olhos fechados.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Todas as paixões são perfeitas

Um dia me ensinaram que só é perfeito quando a gente é correspondido. E eu acreditei nisso. Acreditei mesmo.  Mais do que isso: sempre achei que ser correspondido é ser desejado de volta. Que só se vive uma paixão quando o outro corresponde as nossas expectativas de romance, beijos, noites de sexo e dormir de conchinha.

Acreditei que não ser correspondido é uma tragédia anunciada para qualquer pessoa apaixonada, ainda mais aquelas que se encontram perdida e irrevogavelmente apaixonadas. Acreditei que insistir em estar perto de alguém que queremos e que não sente o mesmo por nós é suicídio amoroso. Sempre senti que a melhor solução para nos poupar dessa tristeza parcelada em 36 meses com juros de 200% ao ano e garantia de um futuro coração partido é nos afastarmos de amores não correspondidos a todo e qualquer custo - tanto quanto deveríamos nos afastar do Ebola: quarentena é até pouco.

Acreditei em tudo isso, até conhecer você. Até ler nos seus olhos que não existem sentimentos não correspondidos, que não precisa ser menor e nem precisa ser triste quando o outro não sente a exata mesma coisa por mim. O amor não é uma via de mão dupla. Nunca foi. E me ensinaram tudo errado. Gostar de alguém é desapego, é entrega, é não ter expectativas.

Quando eu me apaixono, é dentro de mim que mora esse sentimento e são meus olhos que irradiam esse brilho de me saber apaixonada. Sou eu quem experimenta os batimentos cardíacos acelerados e é no meu sangue que se multiplicam a dopamina, a endorfina, a noradrenalina e a oxitocina. Meus dias não precisam ficar mais alegres somente se você quiser me beijar. Eles são alegres só porque eu tenho a sorte de te conhecer e porque você me lembra que sou capaz de sentir coisas bonitas. 

Eu sei. Sei que seria ótimo se você quisesse os meus beijos e se eu pudesse deitar no seu colo pra assistir a filmografia do Woody Allen numa maratona no próximo final de semana. Eu sei que seria incrível poder viver tudo da exata forma como eu gostaria. Mas não é pouco poder ter a sua companhia e rir contigo. Não é insuficiente aprender com você a me enxergar e me conhecer de um jeito que eu não conseguiria só me olhando no espelho. Não é pequeno saber que podemos construir uma história que, mesmo sem um relationship status no Facebook, é inteira.


Porque é lindo eu sentir aqui em mim esse desapego, essa capacidade de te olhar e saber que eu não preciso te ter e que eu só quero te ver feliz. E é por causa de toda a beleza instantânea que a sua presença me provoca que eu lembro que sou inteira e plena

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Não me mande flores!

Haja o que houver, jamais me mande flores. Não me importa se você pisou na bola, se enfiou o pé na jaca ou teve TPM e surtou comigo sem motivo na noite passada. Nunca me mande flores. Pouco me importa se você me ama e está feliz e quer jogar pétalas de rosas de um helicóptero sobrevoando a minha casa.

Tenha você errado ou esteja você apaixonado, as flores não tem nada a ver com isso. E elas não precisam ser arrancadas pra que você prove que está arrependido ou que me ama. Aliás, você não precisa me provar nada. 

Não, eu não estou sendo insensível, nem tenho dificuldades em demonstrar afeto e não tenho problemas em me apaixonar e me expor. Não mesmo. Eu não economizo o coração e se eu me apaixonar por você, esteja certo de que vou me permitir viver isso. Serei idiota e ridícula como qualquer pessoa apaixonada.


Mas se você errou, olhe nos meus olhos e peça desculpas. Se você quer que eu saiba que você me ama, me abrace forte ou me leve pra mergulhar às duas da manhã no mar quente do verão. Não quero presentes nem cartas de amor escritas pela reencarnação do Shakespeare - eu só quero que você segure a minha mão de um jeito que eu apenas saiba que você está ali comigo e não projetando um romance lindo que termina em felizes para sempre com uma mulher idealizada que não seja eu mesma, agora, exatamente como sou.

Os momentos mais felizes que eu vivi com as pessoas que amo nunca foram os planejados. Não foram os jantares à luz de velas, as viagens programadas para o dia dos namorados ou o aniversário de namoro. Meus olhos brilharam de verdade naquele dia que eu simplesmente não sabia como agir e te tratei de um jeito injusto e rude. E você, em vez de me criticar, entendeu que eu não estava bem, sentou ao meu lado em silêncio e me abraçou enquanto eu chorava.

Eu senti uma alegria incontrolável quando fugimos da aula repentinamente e sentamos na praia como se o tempo não existisse. Lembra daquele dia que passamos com os nossos amigos jogando baralho e rindo? Foi perfeito, né?

Não quero o amor romântico dos filmes. Não quero sacrifícios e nem provas de amor. Só quero você inteiro e pleno aqui comigo. Só quero que a gente esteja presente, que não se esqueça de olhar um pro outro com acolhimento. Se você fizer questão das flores, pode ser que as tenhamos num jardim um dia. Podemos deitar na rede no fim de tarde para admirá-las, sabendo que por mais lindas que elas sejam, jamais serão suficientes para demonstrar aquilo que só o sentir é capaz.