segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ensaio sobre a leveza





Ele a beijou dez anos e dois meses depois de tê-la visto pela primeira vez. Exatamente três mil setecentos e doze dias, considerando os anos bissextos. Esse foi o primeiro beijo, mesmo que eles já tenham se beijado antes por cinco segundos num descompasso. Mas agora era a primeira vez que ela também estava apaixonada por ele.

_ Por que você está me olhando desse jeito, Luiza?

_ Que jeito, Felipe?

_ Esse jeito de enigma da esfinge.

_ É que a gente acabou de se beijar, e passaram pela minha cabeça todos os desencontros dos últimos dez anos. E você sempre brincando comigo que vivia uma paixão platônica. Teve aquele dia na Lapa, que você disse que ia me chamar pra dançar, mas eu saí antes de você conseguir falar comigo, e mesmo assim você desceu as escadas correndo pra me encontrar, mas eu já tinha desaparecido na rua. E teve todos os dias que nos encontramos no ônibus e nenhum dos dois tomou a iniciativa de puxar conversa. Eu sempre achei que você estava brincando sobre ser apaixonado por mim.

Felipe riu e não quis dizer absolutamente nada. Não era preciso. Só o silêncio e esse sorriso eram a resposta completa. Luiza deitou no colo desse homem que ela acabara de beijar e que ela agora sabia que foi platonicamente apaixonado por ela por uma década, e levantou o braço até alcançar a nuca dele para fazer carinho.

_ Sabe o que? Hoje, só hoje, eu estou completamente apaixonada por você. Exatamente agora, te olhando, eu não consigo pensar em nada, não quero estar em nenhum outro lugar. Hoje, a sua paixão platônica foi revogada. 


Felipe olhou Luiza com olhos de quem não esperava ouvir aquilo. Ela o beijou como se tivesse dito que amanhã vai chover e os dois esqueceram de tudo o que poderia existir para além daquele beijo. Porque de verdade, nada mais poderia existir.

Três mil setecentos e doze dias pode parecer uma longa espera, se você estiver contando os dias. Mas quando a gente vive sem esperar nada, até os cem anos do García Marquez passam com leveza. Porque a coisa mais difícil de encontrar em qualquer relação não é o amor, nem a perfeita sincronia que existe quando duas pessoas estão apaixonadas no mesmo tempo e espaço.

A coisa mais difícil de todas é ter leveza. A leveza que só tem aqueles que se permitem viver o agora, que não tem medo do que vai acontecer ou do que pode não acontecer ou ainda do que deixaria de acontecer amanhã. A leveza de quem sabe que a gente não pode agarrar sentimentos, nem controlá-los no tempo. E que não adianta querer marcar território, preencher a agenda do outro e arrumar logo um status para a relação (Mas que relação? foi só um beijo).

Ele poderia querer viver dez anos em um beijo. Poderia, a partir daquele beijo, começar a pensar em como seria se os dois namorassem, em como ia ser para conseguirem mais tempo para se verem. Ele poderia pensar para onde eles poderiam viajar nas próximas férias. Poderia ligar para Luiza no dia seguinte e todos os dias seguintes com uma urgência de morte para encontrá-la a qualquer custo, como se ele tivesse acabado de voltar da guerra dos 335 anos. Ou ele poderia apenas acordar leve e feliz, ainda sentindo o cheiro dela na camisa dele, e mandar uma mensagem para dizer apenas que a noite foi linda. E nada mais.

Sim, ele poderia querer viver dez anos em um beijo, mas ele sabe que beijo nenhum tem esse poder de condensação do tempo. E ele também sabe que quando trazemos para o presente os quases e tudo aquilo que não foi quando a gente desejou que fosse, não se vive o que é.

No jogo do amor

Eu sou a Miss Colômbia 2015.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Amanhã eu não sei




É fato que eu nunca vou poder entender as minhas próprias razões para gostar das pessoas que eu gosto. É como eu tentar explicar porque eu gosto de quiabo, ou de raiz de bardana. Eu simplesmente gosto e ponto (pausa para procurarmos no Google a raiz de bardana que, sim, existe!).

Todas as vezes que tentei entender o que eu sentia e os porquês, me senti absurdamente estranha. E a razão disso é que, lá no fundo do meu coração bizarro, eu não quero explicar o que eu sinto, porque eu só preciso VIVER o que sinto. Quero viver como se fosse um tapa bem no meio da cara, para o qual eu jamais estive preparada.

Porque a vida é mais ou menos aquilo que acontece enquanto a maioria de nós está imaginando como as coisas vão ser, ou ainda como gostaríamos que fossem. Mas a gente não sabe, nem de longe. E é só porque a gente não sabe e não tem como saber que existem as cartomantes: só pra fingirmos aceitar melhor essa coisa obscura que nos espera amanhã. Porque amanhã eu posso me apaixonar. Amanhã posso me desapaixonar. Amanhã um mundo completamente assustador de possibilidades infinitas me espera.

Se apaixonar é viver numa realidade aumentada, é poder enxergar a vida em ultra alta resolução e perceber detalhes que ninguém mais percebe, como todos os redemoinhos da barba dele e o jeito que ele sempre pisca os olhos quando fica um pouco tímido. Ou ainda a forma como ela mexe nos cabelos dele quando o beija e a mania desastrada que ela tem de derrubar as coisas e acertar as quinas.

Sonhar não é problema. O problema é ser só sonho. O problema é não entendermos a diferença entre uma coisa e outra e não permitirmos que a realidade nos surpreenda. Eu posso imaginar um milhão de coisas lindas que gostaria de viver com você. No meu sonho, não tem sapatinho de cristal e cavalos brancos - eu particularmente prefiro pular essa parte, porque é muito traumático quando a minha imaginação toda se autodestrói com uma toalha molhada na cama.

Mas o amanhã que eu desconheço só é possível quando eu estou pronta para enxergar toda a beleza que existe fora do sonho, no lugar onde a vida de fato acontece. Nesse tempo-espaço em que eu sou só uma garota comum apaixonada, sem saber explicar como isso aconteceu nem onde isso vai dar, mas acordada o suficiente pra me permitir viver tudo o que vier.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Eu não me apaixonei por você


Eu não estou apaixonada por você. Já chequei várias vezes, só pra ter certeza. Não acho que conte o fato de o meu coração acelerar só um pouquinho quando eu recebo uma mensagem sua no celular, porque eu sinto o meu coração estressar também quando meu chefe me manda mensagem às 22:00 marcando reunião para as 17:00 no dia seguinte, no centro. Então acho que a possibilidade de eu estar apaixonada por você está descartada.

Não posso estar apaixonada por você só porque eu sinto tanto sua falta quando você não está comigo. Eu também sinto falta da minha infância, da minha primeira bicicleta e dos amigos do colégio. Todo mundo sente falta de alguma coisa, então sentir saudade não é parâmetro, certo?


Eu admito que gosto do seu beijo e que gosto do jeito que você segura a minha nuca. Eu adoro encostar a minha cabeça no seu ombro e fazer carinho nas suas costas. Gosto do jeito que você me olha como se eu não fosse de verdade e do jeito que você implica comigo e me contraria o tempo todo, só por esporte. Adoro o jeito que você me faz rir. Mas a gente conhece tantas pessoas que gostam de tudo isso em alguém, e nem por isso a gente pode afirmar que essas pessoas estão apaixonadas.

Eu não devo estar apaixonada por você, porque eu não quero que você mude. Todo mundo sabe que o sinal universal das pessoas que estão apaixonadas é querer que o outro mude, nem que seja só um pouquinho. Mas como eu não quero que você faça dieta e fique logo sarado, que pare de ser tão dramático e que mude urgente de guardarroupa ou ainda que pare de jogar videogame, então é certo que não estou mesmo apaixonada por você. É meio que oficial até.

Eu confesso que cheguei a ficar em dúvida ontem, porque nos falamos o dia inteiro e me deu uma sensação absurda de que se eu batesse com a cabeça e perdesse toda a minha memória, ainda assim, de alguma forma, eu ia lembrar de você. Mas todo mundo sabe que eu sou maluca e isso foi só um pensamento que devia estar pairando no ar e se chocou com a minha cabeça. A gente nunca sabe de onde vem essas ideias.  


Mas não se preocupe, porque eu não estou apaixonada por você. A não ser que eu esteja. Mas eu NÃO estou. O que eu sinto por você é completamente desprovido de lógica e eu jamais conseguiria explicar. O que eu sinto por você ainda não foi inventado, não é paixão e definitivamente tem outro nome

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre gaiolas e pássaros


Era quarta-feira de lua cheia quando você me falou que eu tinha que ser só sua. Era um momento mágico de noite de eclipse que só acontece a cada 30 anos. Eu estava num jantar à luz de velas quando você  olhou bem nos meus olhos e disse tudo o que eu queria ouvir e ainda prometeu o que ninguém poderia prometer. O que importava era eu saber que você era a pessoa certa. Você falaria ou faria qualquer coisa pra eu te querer para sempre e para eu não desejar ser de mais ninguém.

Não lembro bem ao certo, mas acho agora que foi isso que você disse. Ou foi outra coisa? Não, talvez você tenha falado, olhando nos meus olhos, que ia me ter pelas promessas de amor eterno, me manter ao seu lado por causa do meu medo da solidão e me fazer refém da culpa por eu não ser capaz de retribuir o amor de um homem como você, que tantas mulheres sonham em ter.

É, acho que foi isso. Não, espera. Na verdade você falou algo sobre eu ser a pessoa mais incrível que você já conheceu e que você me achava linda e inteligente e ainda que queria casar comigo e me fazer feliz e envelhecer junto. Acho que você também disse que ia me levar pra conhecer os lugares dos meus sonhos ou algo assim. Que ia ser fiel até que a morte nos separe. Lembro de você ter colocado uma aliança no meu dedo enquanto me dizia que aquela era a decisão mais acertada que você já tomou na vida.

Magicamente, meu corpo era seu. Meus pensamentos teriam que ser só seus - ainda que tudo isso perdesse completamente a beleza por não ser mais livre e espontâneo. Ainda que você fosse passar o resto da vida dono do meu canto às custas de me ter numa gaiola invisível. 

Eu nasci em uma gaiola. Como eu nunca havia voado livre, nunca me dei conta de tudo o que eu não tinha e só me concentrei em ter medo de perder o que me ensinaram a amar. Eu nunca soube como era ter o vento na cara ou como se sente ao contemplar raios e trovoadas no galho de uma árvore, em dia de tempestade. Porque me deram à luz num mundo onde não basta admirar os pássaros voando livres e cantando pra todo mundo poder ouvir. É preciso possuir aquilo que os olhos admiram, diziam. E mais do que isso: humanos tem todo o direito de prender pássaros em gaiolas para ouvir seu canto. É trivial. É normal. 

Mas eu sempre achei que essa gaiola triste era só para os pássaros. Ou para as focas, pinguins e golfinhos do Sea World. Ou para os bichos que os humanos admiram nos zoológicos e que aplaudem nos circos. Ou pros africanos escravizados ou dizimados pelo comércio de diamantes para que uma mulher carente em algum lugar do mundo se sinta a mulher da vida de um homem.

O que eu não sabia mesmo era que eu percebia tudo isso de dentro da minha própria gaiola. Eu não fazia ideia que o pássaro na gaiola também era eu, porque eu precisava de você para aplacar meus medos e me alimentar. Eu era um pássaro na gaiola porque para ter minha auto estima em dia, eu precisava ser amada e precisava de provas de amor. Eu precisava ouvir eu te amo a cada cinco minutos e faria tudo ao meu alcance para te dar o que quer que te fizesse continuar me dando o que eu precisava. 

Nada do que me ensinaram a amar poderia existir fora da minha gaiola e agora eu sinto medo de sair dela, porque eu não aprendi a viver lá fora, livre. Ser livre dá trabalho, porque eu não preciso de motivo algum pra fazer nada. Ser livre dá muito trabalho e é perigoso, porque não dá garantias de nada. Ser livre requer encarar a amplidão do mundo lá fora e coragem pra enfrentar o que vier. Por outro lado, quando a gente finalmente percebe que não é livre, voar para fora da gaiola é a única opção possível, porque essa percepção vem junto com a certeza de que só os amores livres valem à pena. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A pessoa certa pode ser a errada



Preciso confessar um crime: quando eu era adolescente e ia alugar filme na locadora, colocava os filmes de comédia romântica na sessão de ficção científica, só por rebeldia. Nunca acreditei nessa sádica história de que, em algum lugar desse mundo,  existiria uma pessoa certa pra alguém (mentira, talvez eu tenha acreditado nisso algumas vezes, por três ou quatro segundos. Talvez até um pouco mais, só porque eu assisti muitos contos de fada da Disney).

É difícil admitir isso publicamente, porque eu tenho uma reputação de ogra a manter, mas apesar de eu abominar romantismo, flores e jantares com coraçõezinhos, eu adoro assistir comédias românticas. Só que as comédias românticas estão para mim como uma partida de futebol da terceira divisão de juniores da Tanzânia está para os homens: é uma coisa que eu sento no sofá tomando uma cerveja e assisto pra descansar a cabeça e não pensar em nada. 

Por isso, se eu vejo um homem que me chama atenção, seja pela beleza, pelo humor ou pela inteligência, jamais fantasio coisas absurdas com ele. A não ser que o homem em questão reúna essas três qualidades em níveis estratosféricos - nessa caso, seria crime inafiançável eu não me imaginar passando a lua de mel com esse homem (que obviamente não existe ou não é desse planeta) na Toscana.   

Provavelmente existe lá fora um cara que ame trilha, banho gelado de cachoeira ou banho de mar à noite no verão. Que adora o Woody Allen e o Tarantino e que se mataria para conseguir um ingresso de pista premium para o show do Pearl Jam no Maracanã. É possível que exista um homem que ama viajar e tenha vontade de fazer a transsiberiana e assistir a aurora boreal do outro lado do continente. E que de quebra, talvez ame rock, jazz e crianças e seja capaz de se reunir com meus amigos para jogar Imagem & Ação sem morrer de vergonha por todos serem idiotas quando fazem mímicas.

Mas não existe lá fora uma pessoa certa me esperando. O fato de um homem ser do jeito que eu gosto e ter as qualidades que eu penso que combinariam comigo não faz dele a pessoa certa. Nem de longe. E sabem como eu sei isso? Porque não estou esperando ninguém. E as pessoas que são como eu, guardam um segredo. Nós sabemos que por não esperarmos nada, podemos enxergar a vida de um jeito incrivelmente lindo: somos capazes de olhar cada pessoa de um jeito único, sem colocar sobre ninguém o peso das nossas expectativas.

Quando você não espera nada de ninguém, não existe certo e errado. E você pode se apaixonar perdidamente por uma cara que só anda com a roupa amarrotada e com absolutamente tudo descombinado, que tem pelo de gato no sofá e que usa camisa social com estampa florida e colete com calça jeans. Quando você não espera nada de ninguém, a pessoa errada pode ser certa, e qualquer pessoa certa pode ser tão absurdamente errada quanto usar pochete.  

Quando você  não acredita em príncipe encantado, as pessoas reais são mais bonitas e mais inteiras. Elas não precisam te agradar em tudo, porque você sabe que a coisa mais incrível do mundo é ver uma pessoa ser ela mesma, sem precisar disfarçar nada para agradar você ou para não desagradar ninguém. Quando você não espera nada, pode se apaixonar pela pessoa errada, que pode ser a pessoa certa pra você, mesmo que tudo nesse planeta pareça dizer que aquela pessoa é de outra galáxia. 

Uma pessoa certa pode facilitar a sua vida em tudo, pode te acompanhar onde você for sem qualquer esforço. E vocês podem combinar irritantemente em tudo. Mas são as pessoas erradas, mais do que qualquer pessoa certa, que são capazes de te mostrar todos os mundos que você não conhecia e virar a sua cabeça pelo avesso pra você enxergar algo que você já conhecia pela primeira vez. 

A pessoa errada é aquela que, exatamente por ser diferente de você, te traz desconforto - ou te tira da zona de conforto - só pra te lembrar que a vida precisa ser mais do que viver o que for mais fácil, pra viver de um jeito que a gente se sinta vivo de verdade. Uma pessoa errada certamente vai te irritar por causa da louça na pia, ou da toalha molhada em cima da cama e dos livros e sapatos espalhados pela casa. Mas ela também vai te mostrar que nada disso é um problema quando ela te colocar no colo e te fizer carinho.  

A nossa felicidade jamais deveria depender de outra pessoa, seja ela certa ou errada. Mas toda felicidade depende, em certa medida, de sermos capazes de enxergar a vida além das nossas expectativas, das aparências e dos julgamentos. Porque só quando a gente não julga o outro por ele não ser o que esperamos, podemos enxergar tudo o que ele é e que não poderíamos jamais ter sonhado se tivéssemos um modelo mental fechado da pessoa certa.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A primeira vez é sempre a última



_ Me beija
_ O quê?
_ Você entendeu. Eu quero que você me beije
_ Mas assim, do nada?
_ Você não queria me beijar há mais de um mês? Então, qual o problema agora?
_ Não sei. É que eu… 
_ Você o que?!
_ Sei lá, eu não esperava por isso. Eu estou surpreso. Eu não sei como agir, isso é tão maluco. Eu…
_ Para de falar e me beija logo
_ Mas é que eu achei que você não queria que eu te beijasse
_ Mas agora eu quero. Porque hoje é quinta-feira, e está chovendo. E eu tenho 32 anos e 337 dias de vida. E esse dia nunca mais vai se repetir. Eu não tenho nada a perder 
_ Mas é muita responsabilidade. Você não pode fazer isso assim, do nada. E se você não gostar do meu beijo? E se essa for a única chance que eu tenho de te conquistar?
_ Você está me deixando ma-lu-ca, Gustavo. Você vai me beijar ou não?
_ Marcela, eu quero muito te beijar. Eu quis te beijar provavelmente até mesmo antes de saber que você existia. Eu quero tanto te beijar que eu estou em pânico pela possibilidade de tudo o que pode acontecer ou deixar de acontecer por causa desse beijo.
_ Gustavo, você enlouqueceu? 
_ Claro que não! Marcela, eu tenho medo. Tenho medo desse beijo nunca mais se repetir. Acho que eu prefiro não saber como é o seu beijo, porque eu prefiro não ter que lidar com o fato de que esse beijo, esse beijo que eu poderia te dar nesse exato momento, pode ser o beijo mais incrível da minha vida e ele pode nunca mais se repetir. E não é melhor que eu nem saiba como ele seria a ter que viver pra sempre querendo outro beijo?
_ Sério, Gustavo. É só um beijo. Não é o apocalipse nem nada
_ Marcela, você não entende. Eu não consigo parar de te olhar. A sua presença é a coisa mais inspiradora e incrível que eu já conheci. Estar perto de você é como tomar um coquetel de ansiolítico com remédio pra dormir e pra depressão juntos - só que melhor. Eu me sinto vivo, sabe? Quando eu te vejo, é como se eu nem soubesse o que é ansiedade. E está uma chuva do cacete.
_ Espera, mas o que isso tem a ver Gustavo? O que tem a porra da chuva? 
_ Marcela, você não entende? Você teve o pior dia do ano no trabalho, pegou um engarrafamento de três horas e ainda por cima sujou a calça de lama por causa de um ônibus que passou voando por uma poça d’água. Você está estressada, tensa e mal humorada. Eu não posso te beijar hoje. Vai dar tudo errado. Eu preciso que seja perfeito.
_ Gustavo, você não tem como saber.
_ Saber o que?
_ Saber como vai ser o nosso beijo. Esse beijo, que você não quer me dar, ele é único, entende?
_ O que você está dizendo?
_ Que ele nunca mais vai se repetir, Gustavo. Nun-ca.
_ Como assim? Você está dizendo que já sabe que se eu te beijar agora, nós nunca mais iremos nos beijar de novo?
_ Não, Gustavo. Não é isso. É que eu não faço ideia de como vai ser amanhã. Quer dizer, a previsão do tempo diz que vai fazer sol. Mas e daí?
_ E daí o que?
_ E daí que vai fazer sol? E pode ser que não tenha nenhum engarrafamento e que o meu chefe esteja de bom humor. E pode ser que eu me sinta extremamente relaxada e sexy. E eu posso não querer te beijar de novo. Mas eu posso querer te beijar também. E tudo pode acontecer. Mas agora, nesse exato segundo, eu quero que você me beije como se o amanhã não fosse existir. 
_Mas e se você não gostar do meu beijo?
_Ca-ra-lho Gustavo. Isso não existe. Você não existe. Essa porra toda é surreal. Você tem medo de me beijar, tem medo da morte e medo de avião. Você tem medo da vida!
_ Não é isso.
_ É. E te digo mais. Você não sabe como é me beijar. Como é me ganhar ou me perder. Você tem medo é do que você perdeu no passado, das coisas que você fez na hora errada e de tudo o que já passou. Você não consegue ver a diferença? Eu estou te dizendo que hoje é quinta-feira, dia três de dezembro de 2015. Esse dia nunca existiu antes. Eu, você, isso tudo está acontecendo pela primeira vez. A gente não sabe o que acontece depois.

E por trinta segundos, pela primeira vez na vida, ele esqueceu tudo o que sabia, tudo o que já havia sentido. Ele era uma folha em branco. Tudo o que ele sabia é que a mulher por quem ele era estupidamente apaixonado estava ali bem na frente dele, pedindo pra ser beijada. E de repente, a única opção possível era segurar a nuca dela, puxar o corpo dela pra perto do dele e não pensar em absolutamente nada. Quando os lábios dele encostaram nos dela, cada segundo parecia infinito. 

_ O que foi, Gustavo.
_ Como assim o que foi?
_ Porque você está me olhado desse jeito? Você nunca me olhou desse jeito!
_Que jeito?
_ Sei lá. Eu não sei. Esse jeito aí, essa cara que você está fazendo, eu não sei ler essa cara.
_ Você é linda
_ O quê?
_ É, você é linda. Eu nunca tinha percebido o quanto você é linda. Nunca tinha percebido que os seus olhos tem uma cor incrível, tem uma mistura de mel com verde e uma intensidade que me derruba. 
_ Você já cansou me ver os meus olhos, Gustavo. Somos amigos há três anos. 
_ Não, Você está enganada, Marcela. Hoje é a primeira vez que te vejo.