quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A primeira vez é sempre a última



_ Me beija
_ O quê?
_ Você entendeu. Eu quero que você me beije
_ Mas assim, do nada?
_ Você não queria me beijar há mais de um mês? Então, qual o problema agora?
_ Não sei. É que eu… 
_ Você o que?!
_ Sei lá, eu não esperava por isso. Eu estou surpreso. Eu não sei como agir, isso é tão maluco. Eu…
_ Para de falar e me beija logo
_ Mas é que eu achei que você não queria que eu te beijasse
_ Mas agora eu quero. Porque hoje é quinta-feira, e está chovendo. E eu tenho 32 anos e 337 dias de vida. E esse dia nunca mais vai se repetir. Eu não tenho nada a perder 
_ Mas é muita responsabilidade. Você não pode fazer isso assim, do nada. E se você não gostar do meu beijo? E se essa for a única chance que eu tenho de te conquistar?
_ Você está me deixando ma-lu-ca, Gustavo. Você vai me beijar ou não?
_ Marcela, eu quero muito te beijar. Eu quis te beijar provavelmente até mesmo antes de saber que você existia. Eu quero tanto te beijar que eu estou em pânico pela possibilidade de tudo o que pode acontecer ou deixar de acontecer por causa desse beijo.
_ Gustavo, você enlouqueceu? 
_ Claro que não! Marcela, eu tenho medo. Tenho medo desse beijo nunca mais se repetir. Acho que eu prefiro não saber como é o seu beijo, porque eu prefiro não ter que lidar com o fato de que esse beijo, esse beijo que eu poderia te dar nesse exato momento, pode ser o beijo mais incrível da minha vida e ele pode nunca mais se repetir. E não é melhor que eu nem saiba como ele seria a ter que viver pra sempre querendo outro beijo?
_ Sério, Gustavo. É só um beijo. Não é o apocalipse nem nada
_ Marcela, você não entende. Eu não consigo parar de te olhar. A sua presença é a coisa mais inspiradora e incrível que eu já conheci. Estar perto de você é como tomar um coquetel de ansiolítico com remédio pra dormir e pra depressão juntos - só que melhor. Eu me sinto vivo, sabe? Quando eu te vejo, é como se eu nem soubesse o que é ansiedade. E está uma chuva do cacete.
_ Espera, mas o que isso tem a ver Gustavo? O que tem a porra da chuva? 
_ Marcela, você não entende? Você teve o pior dia do ano no trabalho, pegou um engarrafamento de três horas e ainda por cima sujou a calça de lama por causa de um ônibus que passou voando por uma poça d’água. Você está estressada, tensa e mal humorada. Eu não posso te beijar hoje. Vai dar tudo errado. Eu preciso que seja perfeito.
_ Gustavo, você não tem como saber.
_ Saber o que?
_ Saber como vai ser o nosso beijo. Esse beijo, que você não quer me dar, ele é único, entende?
_ O que você está dizendo?
_ Que ele nunca mais vai se repetir, Gustavo. Nun-ca.
_ Como assim? Você está dizendo que já sabe que se eu te beijar agora, nós nunca mais iremos nos beijar de novo?
_ Não, Gustavo. Não é isso. É que eu não faço ideia de como vai ser amanhã. Quer dizer, a previsão do tempo diz que vai fazer sol. Mas e daí?
_ E daí o que?
_ E daí que vai fazer sol? E pode ser que não tenha nenhum engarrafamento e que o meu chefe esteja de bom humor. E pode ser que eu me sinta extremamente relaxada e sexy. E eu posso não querer te beijar de novo. Mas eu posso querer te beijar também. E tudo pode acontecer. Mas agora, nesse exato segundo, eu quero que você me beije como se o amanhã não fosse existir. 
_Mas e se você não gostar do meu beijo?
_Ca-ra-lho Gustavo. Isso não existe. Você não existe. Essa porra toda é surreal. Você tem medo de me beijar, tem medo da morte e medo de avião. Você tem medo da vida!
_ Não é isso.
_ É. E te digo mais. Você não sabe como é me beijar. Como é me ganhar ou me perder. Você tem medo é do que você perdeu no passado, das coisas que você fez na hora errada e de tudo o que já passou. Você não consegue ver a diferença? Eu estou te dizendo que hoje é quinta-feira, dia três de dezembro de 2015. Esse dia nunca existiu antes. Eu, você, isso tudo está acontecendo pela primeira vez. A gente não sabe o que acontece depois.

E por trinta segundos, pela primeira vez na vida, ele esqueceu tudo o que sabia, tudo o que já havia sentido. Ele era uma folha em branco. Tudo o que ele sabia é que a mulher por quem ele era estupidamente apaixonado estava ali bem na frente dele, pedindo pra ser beijada. E de repente, a única opção possível era segurar a nuca dela, puxar o corpo dela pra perto do dele e não pensar em absolutamente nada. Quando os lábios dele encostaram nos dela, cada segundo parecia infinito. 

_ O que foi, Gustavo.
_ Como assim o que foi?
_ Porque você está me olhado desse jeito? Você nunca me olhou desse jeito!
_Que jeito?
_ Sei lá. Eu não sei. Esse jeito aí, essa cara que você está fazendo, eu não sei ler essa cara.
_ Você é linda
_ O quê?
_ É, você é linda. Eu nunca tinha percebido o quanto você é linda. Nunca tinha percebido que os seus olhos tem uma cor incrível, tem uma mistura de mel com verde e uma intensidade que me derruba. 
_ Você já cansou me ver os meus olhos, Gustavo. Somos amigos há três anos. 
_ Não, Você está enganada, Marcela. Hoje é a primeira vez que te vejo.

5 comentários:

  1. Muito gostoso de ler, Pah! Parabéns! E parabéns à Marcela, que aguentou toda essa loucura do Gustavo.

    Mas não dá a impressão de que a vida deles gira em torno dela?

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    1. Mau, de onde você tirou essa impressão?

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    2. Eu sei que tudo ou quase tudo é interpretação minha - não me culpe por isso. Eu também sei que qualquer semelhança é mera coincidência. =)
      Mas fora querer beijá-lo out of nowhere e ter um poço infinito de paciência, o que nós podemos dizer sobre como eles se relacionam?

      Ela decidiu completamente do vácuo que tinha que ser beijada pelo Gustavo, que aparentemente sempre esteve por perto e nunca escondeu que a Foz do Iguaçu é moleza perto da queda que tem por ela. O pobre Gustavo parece procurar a presença dela sem restrições - coisa ridícula que só os apaixonados fazem. O que ele fazia com ela no final do dia estressante de trabalho e engarrafamento e chuva e banho de lama?

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  2. É muita imaginação pra uma segunda-feira! Hahahaha. E eu lá vou saber p que eles faziam!

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  3. A Marcela é uma fofa que finge que não é fofa.

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