quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre gaiolas e pássaros


Era quarta-feira de lua cheia quando você me falou que eu tinha que ser só sua. Era um momento mágico de noite de eclipse que só acontece a cada 30 anos. Eu estava num jantar à luz de velas quando você  olhou bem nos meus olhos e disse tudo o que eu queria ouvir e ainda prometeu o que ninguém poderia prometer. O que importava era eu saber que você era a pessoa certa. Você falaria ou faria qualquer coisa pra eu te querer para sempre e para eu não desejar ser de mais ninguém.

Não lembro bem ao certo, mas acho agora que foi isso que você disse. Ou foi outra coisa? Não, talvez você tenha falado, olhando nos meus olhos, que ia me ter pelas promessas de amor eterno, me manter ao seu lado por causa do meu medo da solidão e me fazer refém da culpa por eu não ser capaz de retribuir o amor de um homem como você, que tantas mulheres sonham em ter.

É, acho que foi isso. Não, espera. Na verdade você falou algo sobre eu ser a pessoa mais incrível que você já conheceu e que você me achava linda e inteligente e ainda que queria casar comigo e me fazer feliz e envelhecer junto. Acho que você também disse que ia me levar pra conhecer os lugares dos meus sonhos ou algo assim. Que ia ser fiel até que a morte nos separe. Lembro de você ter colocado uma aliança no meu dedo enquanto me dizia que aquela era a decisão mais acertada que você já tomou na vida.

Magicamente, meu corpo era seu. Meus pensamentos teriam que ser só seus - ainda que tudo isso perdesse completamente a beleza por não ser mais livre e espontâneo. Ainda que você fosse passar o resto da vida dono do meu canto às custas de me ter numa gaiola invisível. 

Eu nasci em uma gaiola. Como eu nunca havia voado livre, nunca me dei conta de tudo o que eu não tinha e só me concentrei em ter medo de perder o que me ensinaram a amar. Eu nunca soube como era ter o vento na cara ou como se sente ao contemplar raios e trovoadas no galho de uma árvore, em dia de tempestade. Porque me deram à luz num mundo onde não basta admirar os pássaros voando livres e cantando pra todo mundo poder ouvir. É preciso possuir aquilo que os olhos admiram, diziam. E mais do que isso: humanos tem todo o direito de prender pássaros em gaiolas para ouvir seu canto. É trivial. É normal. 

Mas eu sempre achei que essa gaiola triste era só para os pássaros. Ou para as focas, pinguins e golfinhos do Sea World. Ou para os bichos que os humanos admiram nos zoológicos e que aplaudem nos circos. Ou pros africanos escravizados ou dizimados pelo comércio de diamantes para que uma mulher carente em algum lugar do mundo se sinta a mulher da vida de um homem.

O que eu não sabia mesmo era que eu percebia tudo isso de dentro da minha própria gaiola. Eu não fazia ideia que o pássaro na gaiola também era eu, porque eu precisava de você para aplacar meus medos e me alimentar. Eu era um pássaro na gaiola porque para ter minha auto estima em dia, eu precisava ser amada e precisava de provas de amor. Eu precisava ouvir eu te amo a cada cinco minutos e faria tudo ao meu alcance para te dar o que quer que te fizesse continuar me dando o que eu precisava. 

Nada do que me ensinaram a amar poderia existir fora da minha gaiola e agora eu sinto medo de sair dela, porque eu não aprendi a viver lá fora, livre. Ser livre dá trabalho, porque eu não preciso de motivo algum pra fazer nada. Ser livre dá muito trabalho e é perigoso, porque não dá garantias de nada. Ser livre requer encarar a amplidão do mundo lá fora e coragem pra enfrentar o que vier. Por outro lado, quando a gente finalmente percebe que não é livre, voar para fora da gaiola é a única opção possível, porque essa percepção vem junto com a certeza de que só os amores livres valem à pena. 

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