sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Onde está você?

Uma pessoa que eu amo muito brigou comigo e eu com ela. Que sensação ruim essa de se perceber pensando tão diferente de alguém que você ama, ainda mais quando se pensa diferente em questões que gente considera importantes e cheias de significado. 

Vivemos tempos difíceis. Estamos acelerados e exaustos pelo número de horas trabalhadas e desperdiçadas no trânsito e nas relações sem sentido e sem afeto. Tem tanta tecnologia, tanta informação, tanto aplicativo e tantas coisas pra darmos conta que a presença se tornou uma coisa rara - não só a presença de estar junto fisicamente em tempos de Videochamadas e WhatsApp, mas a presença de prestar atenção plena ao que estamos fazendo no exato momento em que estamos fazendo. 

Essa é a nossa doença: estamos em tantos lugares ao mesmo tempo que não estamos de verdade em nenhum. Pensar e processar informações ocupa tudo com tanta intensidade que deixamos de ser quem somos e estar onde estamos. E eu esqueci que nenhuma discussão e opinião é mais importante que a relação de duas pessoas que se querem bem e que se importam uma com a outra. É ridículo esquecer uma coisa dessas,  né?

Mas parece que não sou só eu a única ridícula do planeta. Pode ser só impressão minha, mas eu nunca tinha vivido dias de tanta propagação gratuita de ódio, de tantas brigas por opiniões e ideologias e falta de espaço para diálogo e trocas verdadeiras. É compreensível: conversas pelo WhatsApp e redes sociais não facilitam em nada a empatia, a sororidade e muito menos a compaixão. E se pessoalmente a gente já não tem dado conta de se relacionar de verdade com os outros, imagina virtualmente - com chances exponenciais de sermos mal interpretados. Com chances estratosféricas de não termos acesso a informações de qualidades, que promovam debate em lugar de nos influenciar a escolher um lado, uma ideologia e uma verdade onde não se encaixe o diálogo e a pluralidade dos olhares. 

Ao me perceber em lugar nenhum, lembrei de me perguntar uma coisa essencial dos relacionamentos: onde estou agora? Todo mundo quer estar num lugar em que se sinta acolhido e com alguém com quem se possa conversar. Não vale à pena estar em nenhum lugar onde a minha opinião (que pode mudar semana que vem) é mais importante que uma pessoa que eu amo ou que qualquer pessoa que esteja disposta a dialogar. A gente pode escolher onde quer estar e com quem quer estar, claro. Mas o que pouca gente se dá conta é que podemos SER esse lugar onde queremos estar. 

Quando somos a pessoa que acolhe e ouve o outro de forma amorosa e que se coloca no lugar do outro, não há espaço para estar onde não se está. E só se aproximam da gente as pessoas que querem estar aqui e agora com quem somos. 



segunda-feira, 4 de abril de 2016

A solidão mais dolorida de todas

 
Faz tempo que nós perdemos a conexão. Faz tempo que estamos sem sinal, fora de área e ilhados. Não é fácil perceber isso ao dar bom dia na cama pra pessoa que dorme com a gente ou pro vizinho do elevador. Não é fácil perceber quantas vezes por dia perguntamos "tudo bem?" pra alguém sem nem olhar nos olhos da outra pessoa, sem nos interessarmos de verdade por saber se está tudo bem mesmo. Não é fácil perceber que a gente não sente o que diz e nem diz de verdade o que sente.

Faz tempo que perdemos a sensibilidade. Nos achamos uma espécie tão inteligente, e com todos os nossos equipamentos ultra modernos, são os animais que sobem a montanha primeiro quando acontece um maremoto, antes que chegue o tsunami. Nós, humanos, ficamos aqui distraídos na piscina do resort e só nos damos conta quando a onda já nos engoliu. Perdemos a sensibilidade não só para olhar à nossa volta e nos conectar de verdade com a natureza ou com as outras pessoas - nós perdemos a nós mesmos: não conseguimos reconhecer sequer o que sentimos, mas nos sentimos no direito de achar que sabemos como o outro se sente, sem nem sequer perguntar. 

A solidão mais dolorida de todas é aquela de duas pessoas que resolvem ficar sozinhas juntas. A outra pessoa está lá, eu estou lá, mas ninguém está em lugar nenhum porque ninguém está inteiro. A gente pode pensar em muitos motivos para duas pessoas se perceberem sozinhas morando juntas. Pode ser falta de coragem de terminar, pode ser falta de amor, falta de compatibilidade. Pode ser falta de vergonha na cara, falta de amor próprio, baixa auto-estima ou falta de grana. Pode ser medo de ficar sozinho. O que quase nunca ocorre pensar é que, de todas as coisas essenciais numa relação, a coisa mais importante e, quase sempre a que mais falta, é o diálogo. 

Eu poderia dizer que a comunicação é mais importante do que amor e do que ter afinidades. E arrisco dizer que a nossa falta de habilidade de estabelecer uma comunicação verdadeira com as pessoas é o que envenena a maioria das relações. Não estou falando de falar enlouquecidamente. Não estou falando de reclamar. Não estou falando de criticar o outro, de dizermos o que queremos, ou como queremos que o outro nos trate e se comporte a todo momento. Estou falando de se comunicar de verdade - e isso nem sempre requer usar palavras. 

Quando a gente se comunica de verdade, a gente percebe que precisa não só dizer mais vezes "eu te amo" e "me desculpa". Percebemos que se importar com o outro é, também, lavar a louça que se acumula na pia e estender a roupa no varal. Quando a gente aprende a se expressar de verdade, percebe que cada sentimento guardado cria um espaço a mais que nos separa do outro e da alegria de estar junto. E esses espaços viram facilmente uma mágoa. Achamos que a nossa raiva do outro é por culpa da pia cheia de louça suja, porque a gente não percebe como as mágoas podem virar impaciência, implicância e orgulho num piscar de olhos. 

Se comunicar é, antes de mais nada, se permitir sentir sem julgamento.Se comunicar é dizer agora como nos sentimos, com carinho, respeito e acolhimento - sem guardar nada que possa virar ressentimento amanhã. Se comunicar é também saber ouvir o outro com a mesma atenção e carinho que queremos quando nos abrimos. 

Não importa muito o que a gente sente numa relação e não precisamos julgar o que o outro sente. Pode ser ciúme, pode ser qualquer sentimento barato. O que o outro sente não representa quem ele é. É o que fazemos com o que sentimos que diz muito sobre quem somos. A solidão mais dolorida de todas não é só aquela de duas pessoas sozinhas e juntas. É aquela de quando nos fechamos dentro de nós mesmos, de quando não permitimos que os sentimentos saiam e não percebemos que, ao guardarmos tanto, também não resta espaço para ninguém entrar.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Eu não quero um namorado romântico


Não é exatamente um segredo que eu tenho certa dificuldade de lidar com homens românticos. Eles andam por aí soltos, sem nenhuma supervisão e, infelizmente, eles não vem com uma identificação do tipo "cuidado, homem romântico! Favor manusear com cuidado". Eu confesso, eles me assustam!

Não me entenda mal. É lindo ser acordada com um café da manhã na cama. Derrete o coração receber uma carta escrita à mão e deixada pessoalmente na sua caixa de correio, todos os dias por quase um mês - quando já existe telefone, e-mail, Facebook e WhatsApp.

Mas a minha implicância com os homens românticos não é pelo romantismo em si. Eu poderia dizer que tenho algo contra pessoas que curtem o drama humano, amores trágicos tipo Romeu e Julieta, ideais utópicos e desejos de escapismo. Poderia achar absurda a tendência que os românticos tem de idealizar a vida e sonhar e fantasiar em amar e ser amado para todo o sempre. Mas eu não tenho nada contra os românticos. A não ser que eu tenha. Mas acredite, eu não tenho.

Meu problema com homens românticos é que todos os românticos que conheci são excessivamente carentes. Eles demandam uma atenção surreal. E precisam colocar tudo pra fora, senão morrem sufocados. Eles são absurdamente sensíveis e choram mais do que eu. Eles se apaixonam porque precisam se apaixonar, porque precisam desesperadamente estar em um relacionamento. Não se apaixonam por você, mas se apaixonam pela ideia do relacionamento que teriam com você. E o pior de tudo, eles geralmente querem viver seus sentimentos apoteoticamente: choram, sangram, querem gritar que te amam no meio de uma multidão. Quando você menos espera, eles surgem como um pop up querendo casar com você amanhã, passar a lua de mel nas ilhas gregas e passar cinquenta anos de mãos dadas olhando as estrelas.

Perto de qualquer homem romântico eu me sinto uma troglodita, uma ogra. Eu não consigo suportar a ideia de que alguém queira viver tão simbioticamente comigo. E, principalmente, não conseguiria retribuir todo esse romantismo. Eu me sinto sufocada só de pensar em toda essa intensidade, porque sempre precisei de espaço. Como se não bastasse, geralmente os românticos carentes são extremamente magoativos! Paidoceu! É complicadíssimo fazer qualquer crítica. Se você não soltar fogos com as flores, a declaração e o helicóptero com pétalas de rosas, pode se preparar pra ouvir reclamações e choramingos sobre você não valorizá-lo.

Você, romântico assumido que está lendo esse texto, por favor, não fique magoado comigo. Não é pessoal. É uma dificuldade que eu tenho. Mas aproveita que você está aqui e me diz uma coisa: algum dia alguém na sua vida saiu correndo e pulou o portão de embarque para te impedir de pegar um voo? Seu(sua) ex que você nunca esqueceu invadiu inesperadamente o seu casamento e gritou "você não pode casar com ele(ela) porque eu te amo"?

Não né? Pois é, a vida normal não é uma comédia romântica - eu diria que é muito melhor que isso. Não precisa tanto esforço, por favor! Não precisa se rasgar inteiro, disparar uma metralhadora de fofuras e arremessar presentes pra todo lado! Até o segundo jantar à luz de velas, a gente se encanta e se surpreende, mas depois, todos os dias dos namorados, os aniversários de namoro e essas datas comemorativas ficam muito iguais. Vai ser como se você tivesse festa surpresa no seu aniversário todos os anos. Já não é mais surpresa. E tudo vai parecer uma obrigação - sem falar na imensa pressão que é corresponder a todo esse romantismo. Eu posso apostar com você que toda essa loucura de amor e essa intensidade vão ter cansar. E posso apostar também que, mesmo sem querer, lá no fundo, você vai esperar algo em troca.

Eu prefiro ser surpreendida por momentos simples todos os dias. Prefiro viver um dia-a-dia que não seja apoteótico e nem cheio de flores, presentes e declarações de amor. Mas que tenha a presença do outro de uma forma viva, uma atenção plena e os sentidos aguçados. As coisas simples e sinceras são lindas e não requerem nenhum esforço. E elas fazem um bem danado pra alma!

Eu não preciso de um namorado romântico. Eu não quero um namorado romântico. Aliás, não quero um namorado, nem status, nem promessa, nem um presente de aniversário de namoro ou uma viagem pro Caribe. Eu só quero você. E você pode ser romântico em doses homeopáticas. Pode querer um colo de vez em quando. E eu sei fazer um cafuné muito gostoso e o meu carinho nas costas é imbatível.

Olha, a viagem pro Caribe não é má ideia. E eu aceito olhar as estrelas com você, mas só por uma noite, até o sol nascer. Mas nem pensar em rosas jogadas de um helicóptero, pedidos de casamento em público e drama, tá?

quarta-feira, 2 de março de 2016

Espero que você nunca espere nada de mim



Mas Pah, o que você tem contra os românticos fofos cheios de expectativa? Bom, eu não tenho nada contra as pessoas que tem expectativas - não digo o mesmo quanto aos românticos, mas isso é tema do próximo post. Veja bem: é difícil ter zero expectativa na vida. Porque no fundo, mesmo que seja beeeeem lá no fundo, a gente sempre espera alguma coisa. Secretamente, a gente espera aquele rompante romântico, aquela surpresa específica, aquela loucura planejada. A gente espera ser sequestrada para passar um dia na Serra em plena quarta-feira.

Não há nada de errado em querer alguma coisa. Mas é bom saber a diferença entre uma comédia romântica e a vida real. Não deveríamos ser uma criança que assiste desenhos de super herói e tenta pular do sofá achando que vai voar. Ou até podemos, mas assim: você vai dar com a cara no chão.  Também não tem problema nenhum dar com a cara no chão, porque a cara é sua e você faz com ela o que quiser. 

O que é injusto é jogar toda a responsabilidade das nossas expectativas em cima do outro. É fazer o outro se sentir mal por não agir como VOCÊ esperava. Não tenho medo de quem tem expectativas, tenho medo é das pessoas que não sabem que são cheias de expectativa. Sabe aquele cara que diz pra você escolher o restaurante, e aí quando você escolhe, ele pergunta: "Mas você não prefere um japonês"? Sabe quando ele diz que está tudo bem se vocês forem apenas amigos, mas não está nada bem? Sabe quando ele JURA que não tem expectativa? Não credite nisso: das duas uma (ou as duas): ele está mentindo pra si mesmo ou pra você. E muito provavelmente já está planejando a lua de mel na Itália, já sabe o nome dos dois filhos que vocês vão ter e até o nome do cachorro. 

Acredite em mim quando digo que de todas as coisas estúpidas que um ser humano pode fazer em um relacionamento, ter expectativa é a pior delas. Safado? Ok, a gente tenta. Gay? Ok, a gente experimenta. Distraído? Ok, prestenção aqui meu filho! Imaturo? Ok, vamos ver no que dá. Tem expectativas? Não, nããããão, por favor não! O próximo da fila, por favor.
 

Crie minhocas, elefantes, um leão ou lobos selvagens, crie mofo, mas não crie expectativas. Porque a frustração é o destino certo de toda expectativa, já que a vida não segue um roteiro. E mesmo o melhor dos roteiros de cinema sempre vai esbarrar na improvisação do ator - que às vezes pode ser genial, outra vezes pode ser um idiota. Mas a gente precisa correr esse risco. 

As expectativas são aquele universo conhecido e desejado: de flores, surpresas, viagens de lua de mel, declarações de amor em público, de ser feliz. E quando em vez disso terminamos chorando no banheiro às 3 da manhã, nos dando conta de que ele se apaixonou por outra ou descobrimos que é muito mais difícil do que tudo que já vivemos antes, dói. Mas dói de um jeito paralisante, porque a gente tinha um chão, e esse chão eram as nossas expectativas. De repente, não temos onde pisar. 

Ninguém tem a expectativa de viver um amor, ser traído e perdoar. A gente fica mirando no comercial de margarina, mas deveríamos saber que o outro é capaz de qualquer coisa - tanto quanto eu sou capaz de qualquer imperfeição. E quando não temos em mente o final feliz, existe espaço para aprender. E existe espaço para percebermos que quando as coisas não são como a gente imaginou, não precisamos culpar ninguém, nem a nós mesmos . E não precisamos nos tornar pessoas infelizes, que brigam, esperneiam e cobram do outro. Não precisamos ser quem não somos porque nos sabemos capazes de lidar com nossas expectativas da mesma forma que entendemos que os super heróis são só desenhos.

Não ter expectativas é difícil. Mas mais difícil ainda é viver sem se permitir experimentar
o que um relacionamento tem de mais lindo: o inesperado. Quando a gente não espera, é possível sentir cada coisa sem nenhuma referência anterior. É possível aceitar todas as partes - das mais fáceis às mais difíceis. E é possível nos apaixonarmos pela primeira vez, mesmo que já tenhamos nos apaixonado mil vezes antes.


Zero expectativas é difícil. Mas se for pra esperar alguma coisa do outro, que seja só uma massagem no pé hoje à noite. Se for pra esperar, que seja pegar um cinema no sábado. Lidar com as expectativas não significa que eu não possa planejar nada. Eu posso fazer um jantar lindo hoje à noite. Posso fazer uma surpresa. Eu só não quero a vida pronta. Eu não quero buscar emoções, quero buscar as primeiras vezes.

Espero que você nunca espere nada de mim. Mas dizem que quarta-feira é um ótimo dia para sequestrar alguém e passar o dia na Serra, sabia?

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Tenho medo que nada nunca mude




Como o ser humano pode ter tanto medo de mudar e, ao mesmo tempo, ser capaz de passar uma vida inteira esperando que o outro mude? Aliás, também não entendo como tanta gente diz por aí que ninguém muda. Como alguém poderia passar por esse mundo maluco sem ser afetado por ele? Todo mundo vai mudar durante a vida, só que na maioria das vezes, as pessoas não vão se transformar naquilo que você espera delas, mas naquilo que elas querem ou podem ser.

A gente muda. O tempo todo. Algumas pessoas mudam tão lentamente que quase nem se nota. Outras pessoas mudam silenciosamente e às custas de muita dor. E há pessoas que mudam como quem toma um tapa no meio da cara - repentinamente, radicalmente, de uma hora pra outra, por causa de uma frase mal colocada, um pé na bunda, um acidente de avião ou um anúncio de uma doença grave.  Nos relacionamentos, nosso problema não é com a mudança em si, mas com o fato de que não controlamos a mudança do outro - e às vezes nem mesmo a nossa. 

Nem sempre queremos que o outro mude por ele mesmo. Às vezes só queremos mesmo é transformar o outro naquilo que desejamos ou precisamos que seja, quase como quem diz: eu não te amo, mas posso amar a pessoa na qual quero te transformar. Outras vezes não queremos que nada mude porque estamos estupidamente felizes numa relação que ainda não foi testada pelo tempo, pelas brigas, pela vizinha gostosa, pelos esquecimentos dos aniversários de namoro, noites mal dormidas, tédio e uma sogra que bem que poderia morar no Japão. 

Existem várias razões para alguém mudar: um beijo, um sonho, um abraço, uma briga, um milhão de brigas, um desencontro, um trauma, uma grande perda, uma unha encravada ou simplesmente uma vontade incontrolável de ser melhor, de ser feliz e se encontrar. Seja lá o que for que faça alguém mudar, uma coisa é certa: me assusta infinitamente mais viver num mundo em que as pessoas não mudam do que ter que lidar com o fato de que a vida é movimento - mesmo que às vezes ela se mova numa direção que eu não queria.

Se eu aprendi alguma coisa com os meus relacionamentos é que  eu prometo que vou mudar é uma coisa com a qual não só não deveríamos contar, mas que jamais deveríamos permitir que fizesse parte de um diálogo entre duas pessoas que se amam. Quem realmente quer mudar, toma uma atitude e muda. E ponto. Sem colocar anúncio no jornal, sem prometer nada. Sem desculpas, sem pedir mais uma chance a cada constatação de que nada mudou. 

Não é feio admitir quando não somos capazes de continuar uma relação com uma pessoa do jeito que ela é. Muita gente colocou na cabeça essa ideia romântica de que o amor suporta tudo  - como se aceitar tudo, seja lá o que for - fosse o máximo da evolução, da maturidade, da tolerância. A gente pode aceitar o outro como ele é, mas nem sempre é possível continuar junto como casal. Em alguns momentos, se aquilo que as pessoas são ou querem ser não for aquilo que você está preparado para aceitar, o melhor é terminar, desapegar e seguir em frente. 

A gente devia se conhecer o suficiente para saber até onde o nosso coração pode ir. Até onde as diferenças trazem vida para a relação e nos fazem crescer e em que ponto essas diferenças tiram toda a nossa energia. Nem sempre a gente percebe esse tal ponto. Nem sempre sabemos quando devemos insistir ou desistir. Paciência, a vida não é matemática.

Fazer as pazes com o movimento da vida é aceitar que às vezes uma relação linda se desfaz em mil pedaços e não dá pra colar. Outras vezes, uma relação muito ruim não vai melhorar e ponto. Não mudamos como quem toma remédio de 8 em 8 horas até desaparecerem os sintomas do nosso velho eu, ou do pior eu. Não agendamos a nossa mudança ou a do outro para semana que vem ou pra quando chegar o verão. 

Ninguém muda de verdade só para não perder uma mulher ou um amigo. Muda-se de verdade exatamente quando a gente perde, quando cansamos de não fazer algo a respeito. A gente muda justamente quando percebe que já é tarde demais, mas que ainda dá tempo de mudarmos para não ser tarde demais de novo um dia. 

Mude agora. A si mesmo. Ou daqui a um ano você vai desejar ter começado hoje, e vai ser tarde demais. De novo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Por uma felicidade mais humana



Eu abro o celular e vejo as fotos lindas de uma amiga que está de férias na Tailândia. E vejo também a foto da barriga sarada de um amigo tirada no espelho da academia. Abaixo, a foto de capa de um casal de amigos com as filhas gêmeas. Descendo um pouco mais, tem uma declaração de amor da namorada para o namorado pelos quatro anos de namoro. E logo depois, uma filha postando a foto da mãe, "a melhor mãe do mundo".

Não me entendam mal, eu gosto de fotos - elas são uma recordação bacana, que imortalizam fases da vida, viagens e pessoas queridas. Também é lindo receber uma declaração de amor daquelas sinceras. Mas é realmente necessário gritar tudo pro mundo todo o tempo inteiro? Às vezes, eu me sinto vivendo num mundo tão de comercial de margarina. 

 
Quando eu era adolescente, a internet praticamente não existia. Não tinha Orkut, nem Facebook, nem instagram, nem celular. A vida era aquela coisa de verdade e a gente mal tirava foto nas férias enquanto passava o dia na praia pegando jacaré, descendo as dunas, jogando War e Banco Imobiliário e batendo papo com os amigos. Se algum amigo meu fosse passar as férias na Bahia, a gente não fazia ideia do que ele estaria fazendo, nem das praias e festas que estava indo, ou do acarajé que estava comendo. Ou da praia catastroficamente cheia de mosquitos e do programa de índio que as férias foram. Na volta às aulas é que todo mundo compartilhava as histórias e aventuras. Quando muito, a gente via lá umas poucas fotos reveladas a partir do negativo. 


Passamos disso para um excesso de exposição impensável. A vida virtual parece tão feliz, com tantas festas, viagens, lugares lindos e gente sarada. A vida virtual é tão mais solidária que a real e, ao mesmo tempo, tão fútil. Meodeossssssss, porque que precisamos tanto fazer parecer que a vida é uma coisa que não é? Eu sinto que quando mais elevamos a nossa felicidade a patamares irreais, mais as pessoas ao nosso redor acreditam nessa "felicidade" ostensiva. 


Não é humanamente possível chegar a um tal nível de diversão, amor e alegria verdadeiros enquanto postamos tudo o tempo todo. E sabe como eu sei disso? Porque quando estamos absurdamente felizes, nunca pensamos em parar pra tirar uma foto desse momento. Porque quando estamos vivendo de verdade, não saímos correndo pro Facebook pra dizer "eu te amo". Estamos gastando tempo demais fazendo a vida parecer uma coisa que ela nem sempre é, enquanto poderíamos gastar esse tempo efetivamente vivendo.

Poderia dizer que a amiga da Tailândia nem é tão feliz quanto parece, que o casal das gêmeas se separou e agora ele está no Happn, que um mês depois dos quatro anos de namoro aquele casal terminou e nunca mais se falaram e que a filha que tem a melhor mãe do mundo nunca passou um dia sem brigar com ela. Poderia argumentar muitas coisas para pedir para as pessoas pararem de postar felicidade falsa no Facebook.  


Mas em vez de pedir pras pessoas pararem de fingir uma felicidade que não existe, eu acho que só quero lembrar a mim mesma que a vida não é perfeita. Que nem toda felicidade postada é falsa, mas que a vida de ninguém é representada virtualmente. Ninguém em sã consciência posta fotos das brigas (tirando os seres incompreensíveis que postam vídeo da mulher com o amante e coisas do tipo, que eu obviamente nunca vou poder entender - mas certamente não é coisa de alguém em sã consciência).

Eu sei que algumas fotos capturam a felicidade de uma maneira muito bonita e valem à pena ser compartilhadas como forma de espalhar alegria. E vale à pena registrar momentos da vida pra lembrar deles com carinho daqui a 20 anos. Mas no final das contas, a sensação que eu tenho é que, quanto menos se ouve e vê os anúncios de uma relação perfeita, mais feliz ela é. E o melhor sinal de uma relação feliz de verdade parecer ser não haver nenhum sinal dela no mundo virtual. 


Porque tem coisas que a gente precisa viver pra dentro. E tem declaração de amor que tem que ser escrita à mão e entregue pelo correio ou dita sussurrada no ouvido antes de dormir.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Não te prometo nada



Eu te prometo que eu não te prometo nada, a não ser que eu quero você como se o mundo fosse acabar hoje à noite. Não te prometo sequer que amanhã continuarei te querendo assim. Não te prometo que vai dar certo, nem que nada vai sair errado - mas eu sei que quero ver filme no sofá com você no sábado à noite.

Não posso te prometer que eu sei o que estamos fazendo, nem que eu sei o caminho e muito menos que faço alguma ideia de pra onde estamos indo. Não passa pela minha cabeça te prometer que vou saber reagir bem a todas as inevitáveis mudanças que vida traz, nem que vou saber as respostas pros momentos em que você se sentir meio perdido e confuso.

Mas eu sei que posso sentar em silêncio com você quando ninguém souber o que dizer ou fazer - e nesse silêncio, a gente pode encontrar espaço pra um abraço, ou dois - porque eu sempre acho que abraços de verdade curam tudo e, se não curam, são tão bons que não tem porque não tentar.

Não te prometo segurança, porque isso ninguém pode prometer. Mas eu quero te dar colo quando você precisar, e quero te ajudar a entender o mundo que eu também não entendo. Ou podemos juntos parar de tentar entender o mundo e só viver. Não ouso te prometer que vou te fazer feliz - porque isso seria completamente absurdo pra mim. Mas eu te ofereço a minha alegria, e compartilho com você a felicidade genuína que eu sinto, só porque eu sou apaixonada pela vida, mesmo nos dias de chuva e ainda mais quando tudo dá errado.

Eu poderia te dizer também que não te prometo que vai ser fácil. Poderia dizer que os caminhos mais difíceis são sempre os mais bonitos quando você tem a companhia certa e olha tudo com a atenção de quem não pensa em chegar.

Mas acontece que eu não sei o caminho, lembra? Não sei se é mais fácil ou difícil que outros. Não faço ideia de onde vai dar essa estrada. Não te prometo bússola nem GPS. Não te prometo sequer que existe uma estrada. Mas eu te prometo que não te prometo nada. Você só precisa saber que, no meu caminho, os abraços não tem hora pra acabar e eles são apertados. E os beijos são sinceros e cheios de intenção e as surpresas são melhores do que tudo o que eu poderia te prometer.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

É tão simples que chega a ser complicado


_Eu acho que o amor é uma coisa simples, as pessoas complicam muito e pensam que só podemos sentir isso num relacionamento, depois de algum tempo. Eu acho possível dizer 'eu te amo' mesmo pra uma menina com quem eu esteja só ficando. O que você acha que é amor?

Era noite de sexta-feira e estávamos num bar quando o Fernando fez essa pergunta descabida.
Tentei responder, mas não conseguia colocar em palavras. Cheguei em casa e sentei pra escrever sobre isso, pra ver se as palavras saíam. Nada. Respirei diante da tela do notebook e não sabia por onde começar. Pedi ajuda ao Wiki, ao Aurélio, ao Google. Li Fernando Pessoa, Buda, Rubem Alves. Nada. Parti pra ignorância e li umas frases do Paulo Coelho, do Crepúsculo, do Wesley Safadão. Nenhuma luz acendeu.


O amor pode ser simples. Você olha pra ele e bum! Você apenas sabe que sente. Mas explicá-lo pode ser mais difícil que resolver o teorema de Fermat e com certeza vai levar mais do que trezentos anos. Mentira. Não vai levar trezentos anos, porque o tempo infinito não dura o suficiente para colocar o amor em palavras.
 

Vai ver o amor é tão simples que tem exatamente a medida da minha capacidade de sentí-lo. Eu quero debater política (ou não), e falar sobre mobilidade urbana, machismo, maternidade, sobre a fome na África ou sobre como o mundo está complicado. Quero tentar explicar as guerras e quero conversar sobre como podemos fazer do mundo um lugar melhor e mais pacífico. Mas não quero explicar o amor. 

Não quero debater sobre o que eu acho que ele é. Se é fácil ou difícil, simples ou complicado. Não, isso eu realmente não quero. Não quero ler no Google, não quero te ouvir dizer o que você acha que é ou não é. Certamente também não quero falar disso que as pessoas chamam de amor, mas que mais parece uma lista de afazeres cheia de obrigações sempre disfarçadas pelas palavras respeito, consideração, companheirismo e fidelidade. Não quero discutir se amor, atração física, desejo e paixão se misturam.

Eu não sei definir o que é o amor, mas posso dizer o que ele não é. Definitivamente, o amor não é argumento, nem ponto de vista. Se eu pudesse responder a pergunta do meu amigo, diria que o amor é a forma mais pura do Bem, que o amor é o desejo sincero de querer bem alguém. Mas eu não posso definir, então, melhor deixar pra lá.

Mas voltemos à minha conversa do bar. :

_ Eu concordo quando você diz que o amor é simples. Mas só porque é simples, não significa que seja fácil de expressar ou de encontrar ou ainda de definir. É fácil querer bem a superfície de alguém que julgamos simp
ático, legal, divertido, atraente e interessante. Mas quando todas as luzes se apagam, para além das aparências, será que o amor dá as caras? Sem o sorriso de comercial de pasta de dente, nem as noites maravilhosas de sexo, mas nas noites de tédio, nas tardes de tristeza, na divergência, na rotina, nas feridas abertas.  


Ele me olhou sem entender nada:

_ Mas você não respondeu a minha pergunta.

_ Eu sei. Eu não sei responder, é isso. Apesar de tudo o que posso explicar a partir do que já experimentei, nenhuma definição sobre o amor me satisfaz totalmente, nem a minha própria. Com relação ao amor, desconheço a sensação de pisar em terra firme. Porque, às vezes, eu juro que a única coisa que sabemos de verdade sobre o amor é que não sabemos nada. E talvez nem precisemos mesmo saber mais do que precisamos sentir. Cada amor é único, imprevisível, inconclusivo e impossível de explicar. O amor é uma pergunta sem resposta.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Me encontra no desencontro


Se Deus escreve certo por linhas tortas, isso eu não sei. Quer dizer, se eu fosse Deus e fosse a perfeição em pessoa, eu acho que não ia escrever por linhas tortas. Mas eu não sou Deus, pelo menos a última vez que eu chequei e me belisquei ainda doía o suficiente para eu ter certeza de que sou só humana.

Tem dias que a vida parece tão aleatória, tão bagunçada.  Tem horas que a gente se pergunta se a ordem dos acontecimentos tem lógica. Será que não era melhor ser que nem eu li naquele texto que não lembro quem escreveu, de morrermos primeiro, para nos livrarmos logo disso? E aí a gente iria vivendo de trás pra frente até terminar tudo em um orgasmo. Será que não seria melhor você tê-la conhecido há dez anos atrás? Será que não seria melhor você tê-lo conhecido hoje? Ou não era melhor vocês terem se beijado pela primeira vez em 2009?

Timing é essa ideia de perfeita perfeição na ordem de todos os acontecimentos. Timing é aquela linha perfeita de Deus, que coloca as pessoas no mesmo tempo e espaço em que tudo flui. A gente pode brigar com a vida quando tem essa sensação de que as linhas estão todas tortas, e de que talvez fosse melhor ter vivido o agora num outro momento, ou de outra forma. Porque TALVEZ tivesse sido bem melhor, ou mais fácil. 

Mas esse talvez, que eu destaco em caixa alta pra não me esquecer de que ele faz toda a diferença, é uma grande pegadinha. Sabe por quê? Porque a gente não sabe. A gente não vai saber como teria sido se fosse diferente do que é, porque nada nunca vai ser diferente do que é, considerando que a gente não está capacitado a dirigir um carro a 88 milhas por hora para viajar no tempo como em De Volta para o Futuro.

Aí eu lembro que, apesar de eu não saber se Deus fez aula de caligrafia e escreve retinho ou loucamente, que nem as linhas do meu eletroencefalograma, eu sei de uma coisa que eu sinto: tudo acontece por uma razão. Todos os encontros e desencontros acontecem na hora certa. O timing da vida é perfeito, a gente é que teima em querer brigar com a vida como ela é, pra que ela seja o que a gente gostaria ou acha que deveria ser. A verdade é que , hoje, eu ainda não sei o quanto vai ser importante pra Paloma de amanhã o que eu estou vivendo agora. Eu não sei o quanto o desencontro de ontem foi importante para que eu estivesse pronta para um reencontro mais perfeito do que seria possível no primeiro encontro. 

A vida pode ser essa coisa desesperadora se a gente lamentar não ter chegado trinta segundos depois naquele local em que quebramos a perna num acidente. Ou pode ser a aceitação de que não entendemos de timing e que os dias de hospital com a perna quebrada serão essenciais pra mudar a nossa vida de um jeito que a gente precisa que mude. 

A gente quer evitar a dor, a saudade, o coração partido, o não. A gente não faz ideia de que um universo inteiro pode estar conspirando pra dar tudo "errado", porque é disso que a gente precisava pra dar tudo "certo" agora.

No final das contas, nem sequer existe certo e errado, é tudo parte de uma história inteira que a gente vive. Prazer e dor andam juntos. A tristeza é quem revela a alegria e, sem uma delas, a gente talvez nem soubesse que a outra existe. 

Não existem desencontros, porque cada segundo torto escrito pelo universo infinitamente maior que eu (você pode chamar isso de Deus, ou do que quiser), vale mais do que a eternidade de linhas "perfeitas" que a minha imaginação poderia ter escrito. 

Eu não entendo tudo agora. Mas eu aceito e vivo o máximo que eu puder. Mesmo que a saudade seja dolorida. Mesmo que o coração esteja partido. Mesmo que eu sinta medo. A gente se encontra no desencontro,  pra se encontrar de vez

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Não é nada disso que você está pensando

_ Roberto, senta aqui.
_ O que foi, meu amor?
_ Não foi nada demais, Roberto. É que eu tenho um amante.
_ Silvia, para com essas brincadeiras. Você sabe que eu não gosto.
_ Eu sei Roberto. Eu sei que você não gosta. Você não gosta de brincadeira nenhuma.
_ Mas o que é que você queria me falar, Sílvia?
_ Que eu trepei com um cara. Várias vezes. Em dias diferentes. E tenho me sentido ótima, como há muito não me sentia.

Enquanto Roberto se deu três segundos para entender se aquilo era ou não um pesadelo, ele levantou do sofá e começou a andar enlouquecido pela sala, de um lado pro outro.

_ Silvia, que porra é essa?
_ Um amante, Roberto. Eu já não falei isso antes?
_ Eu não estou te reconhecendo. Por que você faria uma coisa dessas?
_ Eu não faria. Eu FIZ, Roberto. Fiz e venho fazendo há um mês.
_ Eu não quero mais ouvir nada, Sílvia. Quero apenas que você vá embora agora.
_ Não Roberto, eu não vou embora até você ouvir tudo o que eu tenho pra dizer.
_ Quem é esse cara, Sílvia?
_ O Beto.
_ O quê? O Beto? Nosso amigo Beto? Aquele Beto? EU vou matar vocês dois. Puta que pariu.
 

Roberto para de andar pela sala e fica imóvel, com o rosto vermelho de raiva. Silvia, por sua vez, permanece absolutamente calma no sofá.

_ Senta aqui Roberto. Escuta o que eu tenho para te dizer. Depois que você escutar você pode matar quem você quiser.
_ Eu não quero sentar.
_ Mas eu preciso que você sente aqui pra me ouvir. Agora.
_ Você nunca falou assim comigo, Silvia, nunca.O que deu em você?
_ Senta logo, Roberto, eu já estou perdendo a calma.
_ O que? Você está perdendo a calma? Quer dizer... eu acabo de saber que eu sou corno, que você me traiu com um amigo nosso, depois de 25 anos de casamento, e você quer que eu fique calmo?
_ É Roberto. Eu quero que você fique calmo sim. Quero que você fique tão calmo quanto você ficou quanto trepou com a mulher do Beto, entendeu?
_ O quê?! O que você está falando? De onde você tirou isso?
_ Roberto, senta no ca-ra-lho do sofá.

Sem saber como reagir, Roberto dá mais uma volta pela sala e finalmente senta no sofá o mais longe possível de Sílvia.

_ Posso falar agora? Você vai me ouvir?
_ Eu não sei de onde você tirou essa de que eu e a Carlinha tivemos alguma coisa.
_ Roberto, para de negar. Não perca seu tempo mentindo pra mim.
_ Eu…
_ Olha só Roberto, desde que eu descobri sobre você e a Carlinha, eu fiquei absolutamente furiosa. Primeiro, eu quis fazer um escândalo. Mas isso parecia pouco perto da grande sacanagem que foi você me trair com a mulher do seu melhor amigo. Com alguém que frequenta a nossa casa há mais de quinze anos!
_ Mas Silvia, eu e a Carlinha…
_ Cala a boca, Roberto. Deixa eu terminar antes que as crianças cheguem em casa. Quando eu descobri sobre a sua traição, eu resolvi que não queria fazer escândalo. Não queria que as crianças soubessem, até porque, você sabe que nossos filhos adoram os filhos do Beto e da Carlinha, né? Eu resolvi marcar com o Beto, para conversar e contar tudo pra ele.
_ Você contou pro Beto que eu e a Carlinha tivemos alguma coisa?
_ Roberto, se você não me deixar terminar de falar, eu juro, quem vai te matar sou eu.
_ Tá, tudo bem. Tô te ouvindo. Mas sério: você não podia simplesmente fazer um escândalo, como qualquer mulher normal faria?
_ Não, Roberto. Eu não podia e eu não queria. Por isso eu liguei pro Beto, disse pra ele que precisava muito conversar com ele e perguntei se podíamos tomar um café juntos. Marcamos o café e, quando eu cheguei lá, parecia que o Beto precisava conversar até mais do que eu. Ele se abriu comigo sobre a relação dele com a Carlinha, contou que as coisas estavam muito ruins entre eles e que ele inclusive até achava que ela tinha um amante. Ele chorou ali na minha frente e eu não tive coragem de contar nada pra ele. Eu não podia fazer isso com nosso amigo de anos. E ele me pediu desculpas por estar naquele estado e quando ele me perguntou o que eu queria falar, eu inventei qualquer coisa sobre o nosso casamento também estar passando por uma fase difícil. E nós acabamos marcando outro café, pra desabafarmos. Acontece que com essa situação toda, depois de três cafés, me dei conta que o Beto é um homem incrível, sabe? E cada vez que a gente se via, eu ficava mais impressionada. Como a Carlinha podia fazer isso com ele?
_ Do que você está falando, Silvia?
_ Roberto, eu me apaixonei pelo Beto. É isso. Me apaixonei por ele.
_ Pelo Beto? Pelo meu melhor amigo?
_ Que melhor amigo, Roberto? Que porra de melhor amigo é você? Do tipo que come a mulher dele?
_ Eu não acredito que você se apaixonou pelo Beto. Não posso acreditar nisso. Não acredito que o Beto tenha tido a coragem de fazer isso comigo.
_ Essa conversa não está acontecendo, está? Eu não consigo acreditar no que estou ouvindo. Você consegue lembrar que você e a Carlinha são amantes, certo?
_ Silvia, eu e a Carlinha não somos amantes.
_ Que parte de não mente pra mim você não entendeu?
_ Silvia, eu e a Carlinha não somos e nem nunca fomos amantes. Eu nunca te traí com ninguém.
_ Como você não me traiu? Eu te vi na rua num café, se agarrando com a Carlinha. E depois disso, segui você mais algumas vezes, vocês estavam saindo juntos. Vocês são amantes!
_ Silvia, como você sabe, a Carlinha trabalha no centro, num prédio próximo do meu escritório. Um dia, no meu horário de almoço, eu a encontrei por acaso comendo sozinha. Resolvi sentar com ela porque eu também estava sozinho. Perguntei como ela estava, assim, de um jeito totalmente trivial, e ela simplesmente desabou em lágrimas no meio do almoço. Eu a abracei durante um longo tempo, porque não sabia o que fazer. Nós não estávamos nos agarrando.
_ O que?
_ É isso mesmo Silvia. Eu me encontrei várias vezes com a Carlinha para conversar. Ela me pediu e quase implorou para eu não te contar nada e não falar com ninguém, nem com o Beto. Ela não conseguia parar de chorar toda vez que falava no assunto e não queria se abrir com outras pessoas porque era muito dolorido.
_ Roberto, eu não estou acreditando em nada disso.
_ Então, converse com a Carlinha, Silvia. Agora, eu se fosse você, cancelava os planos de viver uma paixão com o Beto, porque além dele estar trepando com você, ele também está trepando com a secretária de 23 anos dele e a Carlinha acaba de descobrir que a secretária gostosa do Beto está grávida. E agora me dá licença que eu vou fazer suas malas, você não fica mais nem um segundo nessa casa.



Roberto se levanta calmamente e se dirige para o quarto, enquanto Silvia desmaia no sofá sem poder acreditar em nada do que acabara de ouvir.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Tarde demais


Hoje é dia primeiro de fevereiro e faltam só trezentos e trinta e cinco dias para o fim do ano. Então, vou direto ao ponto, curta e grossa: você não tem a vida inteira como pode parecer e é muito mais tarde do que você imagina. Sei que o ano nem começou direito, porque todo mundo sabe que o ano só começa depois do carnaval, mas alguém precisava te dizer a verdade.

Sem meias palavras: é tarde para não viver. Tarde para passar a vida inteira à margem de si mesmo. Tarde para não amadurecer de verdade. Tarde para continuar infinitamente reclamando da vida, enquanto comete os mesmos erros. Tarde para não se amar com toda a paz e aceitação que você merece . De verdade, você está atrasado pra caralho e já passou da hora de trocar seus olhos. Olha o dia lindo que faz lá fora e me diz: tem como não ser feliz? Tem né? Ela não te ama. Ou ela te ama, mas não é do jeito que você queria. Foda-se.

Olha de novo lá fora: esse céu com os desenhos de nuvem que nunca vão se repetir e você aí no Facebook. E você assistindo outra vez How I met Your Mother desde a primeira temporada. Você não faz ideia do quão tarde está para você se apaixonar pela primeira vez. Esqueça isso de "a pessoa certa", apaixone-se pela vida - porque por via das dúvidas, você só tem essa. 

Noites de sexo versus noites de insônia por não saber como resolver um problema - só quem é apaixonado pela vida sabe lidar com o sobre-desce dos dias. Aprende logo, porque já passou da hora. É tarde para não saber que ficar triste é normal, qualquer ser humano fica. Mas só alguém irremediavelmente apaixonado pela vida lembra que ela é incrível demais pra não ser vivida. Estupidamente única para a olharmos sempre com olhos distraídos, enquanto você digita no celular. É linda demais pra viver sem alma. É preciosa demais pra não entendermos que fugir seria uma estupidez.

Aceita os dias tristes. Ria de si mesmo. Olha de novo lá fora. Está tudo lá pra você. E aproveita e olha também pra dentro: você já tem tudo o que precisa.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Uma carta para o nosso fim


Sei que não faltou filme no sofá e banhos de mar e de cachoeira nos domingos de sol. Sei que não faltou colo naquelas horas mais tristes que sempre chegam e que não faltou cinema com pipoca. E mais do que tudo, eu sei que não faltou amor. E é porque eu sei de tudo isso que também sei que dói no coração ver chegar o fim muito antes do pra sempre. 

Eu podia te dizer que você me perdeu, mas falar isso seria minimizar  o quanto a gente era muito mais bonito junto do que eu sou sozinha. Não, você não me perdeu. Você perdeu a gente. Nós perdemos. Não sei quando foi o exato momento que nos perdemos - se foi quando você começou a guardar tudo pra você - mesmo as coisas que você não tinha o direito de guardar, porque também me diziam respeito - ou se foi quando você simplesmente parou de olhar pra mim. Não sei se foi quando eu deixei de ser quem era, pra dar lugar a essa pessoa triste, sem vida e sem o brilho nos olhos - que era o que eu tinha de mais bonito.


Vai ver nos perdemos quando deixei de tentar me comunicar, porque tudo o que eu dizia era agressivo ou absurdo na sua visão de mundo. Vai ver nos perdemos tão lentamente que nem nos demos conta de que deixou de haver comunicação. Não sei se viemos nos perdendo no caminho ou se isso aconteceu num estalo no dia em que você gritou comigo na cozinha.  


Mas sei que, um dia de manhã,  levantei da cama onde eu já dormia sozinha há meses, mesmo quando você estava lá comigo, e percebi que a minha tristeza não era por nada que você tenha feito ou deixado de fazer. Eu estava triste por não sermos felizes exatamente quando tínhamos tudo pra ser. Tudo. Não existia qualquer razão pra você se isolar e me afastar de você no momento em que a gente mais precisava cuidar um do outro e apoiar um ao outro. 

Tenho vontade de pedir desculpas pra mim mesma por não ter tido coragem de terminar antes que eu vivesse com você como se você não existisse mais, antes que eu não quisesse mais me importar se você estava feliz ou não, porque eu sempre quis a sua felicidade e o seu bem.


Se eu tivesse imaginado o fim, eu teria imaginado um fim mais poético que esse. Mas agora eu apenas aceito que não tenha sido eterno enquanto durou. Eu aceito que esteja doendo - não pelo fim - mas por tudo  que não foi o meio, por tudo que poderia ter sido tão mais bonito e tão mais pleno pra nós dois. 


Aos poucos vou voltando a ser eu mesma. Tenho amigos incríveis que me ouvem sem pedir nada em troca, amigos que me dão crises de riso capazes de curar qualquer dor - até mesmo de dente, pedra no rim e coração partido. Aos poucos eu vou me permitindo ser feliz com esse coração que agora já não te cabe mais. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Só os amores livres valem à pena

Os brinquedos que o meu filho mais deseja são os proibidos. Ele corre pro quintal pra tentar mexer nas plantas com espinhos, só porque eu digo que não pode. Parece inerente ao ser humano querer experimentar as coisas por si mesmo. No momento que eu o deixo solto e livre para mexer no que ele quiser, eu dou a ele a opção de sentir, experimentar e viver por ele mesmo. Mas cada vez que eu o proíbo de fazer algo, rejeito a natureza livre dele, crio nele um desejo pelo proibido que suprime o sentir, e faz com que ele se concentre naquilo que ele não pode ter em vez de descobrir o que ele quer. 

Quando eu simplesmente não proíbo nada, mas explico os perigos (e óbvio, retiro da vista aquilo pode machucá-lo de verdade) ele perde o interesse pelas coisas que eram proibidas e passa a simplesmente prestar atenção no que ele quer, porque ele pode tudo. E só por isso, ele resolve passar horas a fio com o seu brinquedo favorito - que pode ser uma garrafa PET, ou a escova de pelos do gato. Quando ele tem a total liberdade, ele então escolhe o que quer com base no coração, no que desperta o real interesse dele e não por obrigação ou porque é o que foi oferecido como opção pra ele.

Ser livre não é uma escolha, mas a condição natural do ser humano. Não é uma questão de opinião. Isso vale pra tudo e mais ainda para os relacionamentos. Ninguém é de ninguém e você pode discordar de mim, mas isso não muda o fato de que, nesse exato momento, "o amor da sua vida" pode dobrar a esquina e se apaixonar por outra pessoa. 


Sua mente insegura e que tem medo de admitir que não existe nada que controle os encontros e desencontros da vida pode te fazer acreditar que você tem uma relação fechada e estável. Mas saiba que, em algum momento, ainda que você tente se convencer de que a sua relação é à prova de desencontros, a vida vai esfregar na sua cara que você não controla sentimento. E quanto mais você quiser proibir o outro, menos você vai SE permitir.

E se permitir é se conectar com alguém de verdade, é ser livre, é se enxergar como se é e deixar que o outro seja o que tiver que ser. É parar de agir como se o domínio sobre o outro fosse o que dá o sentimento de relação entre duas pessoas, ou que os contratos, os papéis e o status social podem ser mais fortes que o sentimento. Se fosse, não seríamos neuróticos, possessivos e extremamente controladores e ciumentos. Lá no fundo, sabemos que o outro não é e nem nunca será nosso, ainda que se assinem papéis com o próprio sangue.


Porque podem existir alianças de brilhantes e um juiz de paz, mas não existe nada que te garanta exclusividade ou um felizes para sempre. Apaixonar-se por alguém, seja lá o que isso for, não é algo regido pelas leis de Newton ou pelo código moral vigente. E é justamente aceitar essa condição de total imprevisibilidade que pode trazer para uma relação a chance  de sentir de verdade, de viver cada dia como se fosse o último - mesmo que seja só o primeiro.

O que faz uma relação de verdade existir não pode ser escrito, nem falado, nem comprado e muito menos postado no Facebook. Sentimentos verdadeiros existem independente de rótulos, porque o eu te amo é sentido de verdade muito antes de ser dito ou pensado e porque eu casei com você muito antes de você me pedir.

Em toda a natureza, a monogamia é um fenômeno raro. O casamento monogâmico não foi uma escolha voluntária, mas uma imposição à mulher, para garantir a herança dos filhos. Isso não significa necessariamente que a vida precise ser uma constante suruba, mas pode indicar que, para nos relacionarmos de uma forma realmente verdadeira - e feliz, precisamos desconstruir e negar todos os modelos que nos foram impostos. Eu posso querer ser um pinguim monogâmico, ou posso querer ser um frequentador de casa de swing. Não importa.

Não existe um modelo de relação livre - se existisse, não seria livre. Não precisamos de um manual para a felicidade, mas precisamos urgentemente apenas permitir que cada um viva suas relações sem rótulos, sem ponto de partida e de chegada. Porque queiramos ou não, todos os relacionamentos são abertos. Sem exceção. Todos. Absolutamente todos. Até mesmo aqueles monogâmicos tradicionais.

Para termos relações livres, precisamos ensinar nossos filhos a enxergar as mulheres como eles enxergam a si mesmos: pessoas que se apaixonam, que sentem desejo e que não devem ser julgadas por isso. 
E para permitir que as relações sejam realmente livres, precisamos parar de chamar as Fabíolas e Marias e Luizas de vagabundas porque elas pularam a cerca, ou porque fizeram sexo na primeira noite, ou porque fizeram sexo com quem quiseram. 

Para haver liberdade de verdade, precisamos mostrar aos homens que sexo e pornografia são coisas absolutamente diferentes e que qualquer imposição de padrões de beleza e de comportamento é uma forma de violência não só com as mulheres, mas com os próprios homens. Porque enquanto só enxergarmos peitos e bundas ou mulheres para casar ou só para pegar, estaremos deixando de ver e sentir muitas outras coisas que estão além disso e que valem muito à pena. Aliás, precisamos parar de julgar, enquadrar e reprimir comportamentos que são diferentes do que a gente quer ou espera, com medo de que, ao permitir que a Fabíola traia o marido, estejamos abrindo precedente para a fulana agarrar o nosso marido.

Para termos relações livres, não podemos sofrer qualquer tipo de pressão social ou moral que determine - mesmo que de forma muito sutil - nossas escolhas e comportamentos. E para viver uma relação de entrega, precisamos perder esse enorme medo de sermos substituíveis, porque só conseguiremos saber o que de fato queremos quando formos inteiramente livres para descobrir tudo o que não queremos.

Talvez, quando te permitirem ter a mesma liberdade que o meu filho, você descubra que quer apenas a felicidade simples de brincar com um só brinquedo. Talvez você descubra que não quer brincar com brinquedo algum, ou que casamento e monogamia não são pra você. E ao longo da vida, você pode mudar de ideia a hora que quiser. 

Você pode ter papéis assinados, dois filhos e um financiamento imobiliário e ainda assim, viver um amor livre. Mas também pode não ter status no Facebook, nem festa, nem casa, nem nada - somente essa coisa incrível de querer estar junto, de querer sentir o cheiro do outro quando você virar na cama no meio da noite. Pode ser só você e eu, agora, sentindo uma saudade desumana - querendo um abraço e um beijo de boa noite que dure até o amanhecer.




Porque o amor não mora no relacionamento entre duas pessoas, com todos os acordos e concessões que nascem disso. O amor é essa coisa livre e linda que eu sinto dentro de mim mesma. Não vale à pena viver qualquer amor que não seja livre. Eu nunca poderia ser sua, e é só assim que você realmente me terá pra sempre.

sábado, 2 de janeiro de 2016

O amor que eu quero ser


Ela ficou três décadas pensando no amor que queria ter. Na pessoa certa, na casa com jardim+cachorro+amor da sua vida. Ele sempre esperou por alguém com quem ele pudesse ser ele mesmo, alguém que o entendesse, o aceitasse, o amasse incondicionalmente e o fizesse acreditar de verdade no amor - na prática, não só na teoria.

A gente deseja uma lista interminável de coisas, mesmo que não seja o que a gente precisa pra ser feliz. Mas aí a felicidade não é uma lista de coisas a cumprir, nem a meta de um tal amor que eu vou sentar no sofá e esperar aparecer a minha vida inteira.  A felicidade é uma coisa que  acontece quando a gente se distrai e não está pensando em nada. Quando a gente desiste de tudo e aceita que não dá mais pra procurar, que não dá mais pra fazer que nem o meu filho de um ano tentando encaixar a peça quadrada no lugar do triângulo. Só as pessoas que desistem podem enxergar o que é.   

Só quem desiste aprende o que não pode ser ensinado por ninguém: a vida não é uma jornada para encontrar a pessoa que eu quero pra mim, mas para descobrir a pessoa que queremos ser pra nós mesmos, porque é essa pessoa que também seremos para alguém.

Eu quero ser a pessoa que vai te buscar no aeroporto e pular no seu colo. Quero ser pra você a pessoa que não vai se importar se o seu corpo não for perfeito, nem se a vida tiver feito você aparecer quando a minha vida está um caos. Quero ser a pessoa que vai te fazer cafuné amanhã à noite sem medo de demonstrar que estou perdidamente apaixonada por você, sem pensar se vou ou não ser correspondida.

Quero ser o amor mais leve do mundo, a pessoa que você nunca vai precisar pra nada - nem pra te acalmar, nem pra cuidar de você numa crise alérgica daquelas. Quero não exigir nunca absolutamente nada de você, exceto que você me faça massagem compulsivamente.   

Quero ser a mulher que não precisa ser inédita, nem a mais incrível que você já conheceu, nem a mais inteligente ou a mais bonita e muito menos a que você esperou a vida inteira. Eu quero ser a mulher que você não esperava e que nunca imaginou mas que, assim do nada, te fez esquecer qualquer lista de coisas que a mulher perfeita poderia preencher. 

Quanto mais sei quem sou, mais eu percebo que não importa quem vai chegar na minha vida, nem por quanto tempo vai ficar. Eu só sei que enquanto durar, eu vou estar distraída te fazendo carinho nas costas e te mandando mensagem às três da manhã pra dizer que estou com saudade. 

Só sei que vou te olhar com a curiosidade de uma criança que vê o mar pela primeira vez, e que não fazia ideia que isso existia. Vou ficar surpresa e espantada com toda a sua imensidão, mas a mulher que sou e quero ser, o amor que sinto e quero demonstrar é daqueles em que eu mergulho sem saber o que acontece, sem medo de água gelada e dos corais que possam estar lá no fundo. 

Porque o amor que quero ser eu já sou, nesse exato momento. E esse amor é perfeito do jeito que é, porque não foi sonhado e nem esperado a minha vida inteira. E pra esse amor ser vivido, ele só precisa encontrar alguém que queira não pensar em nada comigo, nas manhãs de chuva do inverno.