sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Só os amores livres valem à pena

Os brinquedos que o meu filho mais deseja são os proibidos. Ele corre pro quintal pra tentar mexer nas plantas com espinhos, só porque eu digo que não pode. Parece inerente ao ser humano querer experimentar as coisas por si mesmo. No momento que eu o deixo solto e livre para mexer no que ele quiser, eu dou a ele a opção de sentir, experimentar e viver por ele mesmo. Mas cada vez que eu o proíbo de fazer algo, rejeito a natureza livre dele, crio nele um desejo pelo proibido que suprime o sentir, e faz com que ele se concentre naquilo que ele não pode ter em vez de descobrir o que ele quer. 

Quando eu simplesmente não proíbo nada, mas explico os perigos (e óbvio, retiro da vista aquilo pode machucá-lo de verdade) ele perde o interesse pelas coisas que eram proibidas e passa a simplesmente prestar atenção no que ele quer, porque ele pode tudo. E só por isso, ele resolve passar horas a fio com o seu brinquedo favorito - que pode ser uma garrafa PET, ou a escova de pelos do gato. Quando ele tem a total liberdade, ele então escolhe o que quer com base no coração, no que desperta o real interesse dele e não por obrigação ou porque é o que foi oferecido como opção pra ele.

Ser livre não é uma escolha, mas a condição natural do ser humano. Não é uma questão de opinião. Isso vale pra tudo e mais ainda para os relacionamentos. Ninguém é de ninguém e você pode discordar de mim, mas isso não muda o fato de que, nesse exato momento, "o amor da sua vida" pode dobrar a esquina e se apaixonar por outra pessoa. 


Sua mente insegura e que tem medo de admitir que não existe nada que controle os encontros e desencontros da vida pode te fazer acreditar que você tem uma relação fechada e estável. Mas saiba que, em algum momento, ainda que você tente se convencer de que a sua relação é à prova de desencontros, a vida vai esfregar na sua cara que você não controla sentimento. E quanto mais você quiser proibir o outro, menos você vai SE permitir.

E se permitir é se conectar com alguém de verdade, é ser livre, é se enxergar como se é e deixar que o outro seja o que tiver que ser. É parar de agir como se o domínio sobre o outro fosse o que dá o sentimento de relação entre duas pessoas, ou que os contratos, os papéis e o status social podem ser mais fortes que o sentimento. Se fosse, não seríamos neuróticos, possessivos e extremamente controladores e ciumentos. Lá no fundo, sabemos que o outro não é e nem nunca será nosso, ainda que se assinem papéis com o próprio sangue.


Porque podem existir alianças de brilhantes e um juiz de paz, mas não existe nada que te garanta exclusividade ou um felizes para sempre. Apaixonar-se por alguém, seja lá o que isso for, não é algo regido pelas leis de Newton ou pelo código moral vigente. E é justamente aceitar essa condição de total imprevisibilidade que pode trazer para uma relação a chance  de sentir de verdade, de viver cada dia como se fosse o último - mesmo que seja só o primeiro.

O que faz uma relação de verdade existir não pode ser escrito, nem falado, nem comprado e muito menos postado no Facebook. Sentimentos verdadeiros existem independente de rótulos, porque o eu te amo é sentido de verdade muito antes de ser dito ou pensado e porque eu casei com você muito antes de você me pedir.

Em toda a natureza, a monogamia é um fenômeno raro. O casamento monogâmico não foi uma escolha voluntária, mas uma imposição à mulher, para garantir a herança dos filhos. Isso não significa necessariamente que a vida precise ser uma constante suruba, mas pode indicar que, para nos relacionarmos de uma forma realmente verdadeira - e feliz, precisamos desconstruir e negar todos os modelos que nos foram impostos. Eu posso querer ser um pinguim monogâmico, ou posso querer ser um frequentador de casa de swing. Não importa.

Não existe um modelo de relação livre - se existisse, não seria livre. Não precisamos de um manual para a felicidade, mas precisamos urgentemente apenas permitir que cada um viva suas relações sem rótulos, sem ponto de partida e de chegada. Porque queiramos ou não, todos os relacionamentos são abertos. Sem exceção. Todos. Absolutamente todos. Até mesmo aqueles monogâmicos tradicionais.

Para termos relações livres, precisamos ensinar nossos filhos a enxergar as mulheres como eles enxergam a si mesmos: pessoas que se apaixonam, que sentem desejo e que não devem ser julgadas por isso. 
E para permitir que as relações sejam realmente livres, precisamos parar de chamar as Fabíolas e Marias e Luizas de vagabundas porque elas pularam a cerca, ou porque fizeram sexo na primeira noite, ou porque fizeram sexo com quem quiseram. 

Para haver liberdade de verdade, precisamos mostrar aos homens que sexo e pornografia são coisas absolutamente diferentes e que qualquer imposição de padrões de beleza e de comportamento é uma forma de violência não só com as mulheres, mas com os próprios homens. Porque enquanto só enxergarmos peitos e bundas ou mulheres para casar ou só para pegar, estaremos deixando de ver e sentir muitas outras coisas que estão além disso e que valem muito à pena. Aliás, precisamos parar de julgar, enquadrar e reprimir comportamentos que são diferentes do que a gente quer ou espera, com medo de que, ao permitir que a Fabíola traia o marido, estejamos abrindo precedente para a fulana agarrar o nosso marido.

Para termos relações livres, não podemos sofrer qualquer tipo de pressão social ou moral que determine - mesmo que de forma muito sutil - nossas escolhas e comportamentos. E para viver uma relação de entrega, precisamos perder esse enorme medo de sermos substituíveis, porque só conseguiremos saber o que de fato queremos quando formos inteiramente livres para descobrir tudo o que não queremos.

Talvez, quando te permitirem ter a mesma liberdade que o meu filho, você descubra que quer apenas a felicidade simples de brincar com um só brinquedo. Talvez você descubra que não quer brincar com brinquedo algum, ou que casamento e monogamia não são pra você. E ao longo da vida, você pode mudar de ideia a hora que quiser. 

Você pode ter papéis assinados, dois filhos e um financiamento imobiliário e ainda assim, viver um amor livre. Mas também pode não ter status no Facebook, nem festa, nem casa, nem nada - somente essa coisa incrível de querer estar junto, de querer sentir o cheiro do outro quando você virar na cama no meio da noite. Pode ser só você e eu, agora, sentindo uma saudade desumana - querendo um abraço e um beijo de boa noite que dure até o amanhecer.




Porque o amor não mora no relacionamento entre duas pessoas, com todos os acordos e concessões que nascem disso. O amor é essa coisa livre e linda que eu sinto dentro de mim mesma. Não vale à pena viver qualquer amor que não seja livre. Eu nunca poderia ser sua, e é só assim que você realmente me terá pra sempre.

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