quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Me encontra no desencontro


Se Deus escreve certo por linhas tortas, isso eu não sei. Quer dizer, se eu fosse Deus e fosse a perfeição em pessoa, eu acho que não ia escrever por linhas tortas. Mas eu não sou Deus, pelo menos a última vez que eu chequei e me belisquei ainda doía o suficiente para eu ter certeza de que sou só humana.

Tem dias que a vida parece tão aleatória, tão bagunçada.  Tem horas que a gente se pergunta se a ordem dos acontecimentos tem lógica. Será que não era melhor ser que nem eu li naquele texto que não lembro quem escreveu, de morrermos primeiro, para nos livrarmos logo disso? E aí a gente iria vivendo de trás pra frente até terminar tudo em um orgasmo. Será que não seria melhor você tê-la conhecido há dez anos atrás? Será que não seria melhor você tê-lo conhecido hoje? Ou não era melhor vocês terem se beijado pela primeira vez em 2009?

Timing é essa ideia de perfeita perfeição na ordem de todos os acontecimentos. Timing é aquela linha perfeita de Deus, que coloca as pessoas no mesmo tempo e espaço em que tudo flui. A gente pode brigar com a vida quando tem essa sensação de que as linhas estão todas tortas, e de que talvez fosse melhor ter vivido o agora num outro momento, ou de outra forma. Porque TALVEZ tivesse sido bem melhor, ou mais fácil. 

Mas esse talvez, que eu destaco em caixa alta pra não me esquecer de que ele faz toda a diferença, é uma grande pegadinha. Sabe por quê? Porque a gente não sabe. A gente não vai saber como teria sido se fosse diferente do que é, porque nada nunca vai ser diferente do que é, considerando que a gente não está capacitado a dirigir um carro a 88 milhas por hora para viajar no tempo como em De Volta para o Futuro.

Aí eu lembro que, apesar de eu não saber se Deus fez aula de caligrafia e escreve retinho ou loucamente, que nem as linhas do meu eletroencefalograma, eu sei de uma coisa que eu sinto: tudo acontece por uma razão. Todos os encontros e desencontros acontecem na hora certa. O timing da vida é perfeito, a gente é que teima em querer brigar com a vida como ela é, pra que ela seja o que a gente gostaria ou acha que deveria ser. A verdade é que , hoje, eu ainda não sei o quanto vai ser importante pra Paloma de amanhã o que eu estou vivendo agora. Eu não sei o quanto o desencontro de ontem foi importante para que eu estivesse pronta para um reencontro mais perfeito do que seria possível no primeiro encontro. 

A vida pode ser essa coisa desesperadora se a gente lamentar não ter chegado trinta segundos depois naquele local em que quebramos a perna num acidente. Ou pode ser a aceitação de que não entendemos de timing e que os dias de hospital com a perna quebrada serão essenciais pra mudar a nossa vida de um jeito que a gente precisa que mude. 

A gente quer evitar a dor, a saudade, o coração partido, o não. A gente não faz ideia de que um universo inteiro pode estar conspirando pra dar tudo "errado", porque é disso que a gente precisava pra dar tudo "certo" agora.

No final das contas, nem sequer existe certo e errado, é tudo parte de uma história inteira que a gente vive. Prazer e dor andam juntos. A tristeza é quem revela a alegria e, sem uma delas, a gente talvez nem soubesse que a outra existe. 

Não existem desencontros, porque cada segundo torto escrito pelo universo infinitamente maior que eu (você pode chamar isso de Deus, ou do que quiser), vale mais do que a eternidade de linhas "perfeitas" que a minha imaginação poderia ter escrito. 

Eu não entendo tudo agora. Mas eu aceito e vivo o máximo que eu puder. Mesmo que a saudade seja dolorida. Mesmo que o coração esteja partido. Mesmo que eu sinta medo. A gente se encontra no desencontro,  pra se encontrar de vez

Um comentário: