quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Por uma felicidade mais humana



Eu abro o celular e vejo as fotos lindas de uma amiga que está de férias na Tailândia. E vejo também a foto da barriga sarada de um amigo tirada no espelho da academia. Abaixo, a foto de capa de um casal de amigos com as filhas gêmeas. Descendo um pouco mais, tem uma declaração de amor da namorada para o namorado pelos quatro anos de namoro. E logo depois, uma filha postando a foto da mãe, "a melhor mãe do mundo".

Não me entendam mal, eu gosto de fotos - elas são uma recordação bacana, que imortalizam fases da vida, viagens e pessoas queridas. Também é lindo receber uma declaração de amor daquelas sinceras. Mas é realmente necessário gritar tudo pro mundo todo o tempo inteiro? Às vezes, eu me sinto vivendo num mundo tão de comercial de margarina. 

 
Quando eu era adolescente, a internet praticamente não existia. Não tinha Orkut, nem Facebook, nem instagram, nem celular. A vida era aquela coisa de verdade e a gente mal tirava foto nas férias enquanto passava o dia na praia pegando jacaré, descendo as dunas, jogando War e Banco Imobiliário e batendo papo com os amigos. Se algum amigo meu fosse passar as férias na Bahia, a gente não fazia ideia do que ele estaria fazendo, nem das praias e festas que estava indo, ou do acarajé que estava comendo. Ou da praia catastroficamente cheia de mosquitos e do programa de índio que as férias foram. Na volta às aulas é que todo mundo compartilhava as histórias e aventuras. Quando muito, a gente via lá umas poucas fotos reveladas a partir do negativo. 


Passamos disso para um excesso de exposição impensável. A vida virtual parece tão feliz, com tantas festas, viagens, lugares lindos e gente sarada. A vida virtual é tão mais solidária que a real e, ao mesmo tempo, tão fútil. Meodeossssssss, porque que precisamos tanto fazer parecer que a vida é uma coisa que não é? Eu sinto que quando mais elevamos a nossa felicidade a patamares irreais, mais as pessoas ao nosso redor acreditam nessa "felicidade" ostensiva. 


Não é humanamente possível chegar a um tal nível de diversão, amor e alegria verdadeiros enquanto postamos tudo o tempo todo. E sabe como eu sei disso? Porque quando estamos absurdamente felizes, nunca pensamos em parar pra tirar uma foto desse momento. Porque quando estamos vivendo de verdade, não saímos correndo pro Facebook pra dizer "eu te amo". Estamos gastando tempo demais fazendo a vida parecer uma coisa que ela nem sempre é, enquanto poderíamos gastar esse tempo efetivamente vivendo.

Poderia dizer que a amiga da Tailândia nem é tão feliz quanto parece, que o casal das gêmeas se separou e agora ele está no Happn, que um mês depois dos quatro anos de namoro aquele casal terminou e nunca mais se falaram e que a filha que tem a melhor mãe do mundo nunca passou um dia sem brigar com ela. Poderia argumentar muitas coisas para pedir para as pessoas pararem de postar felicidade falsa no Facebook.  


Mas em vez de pedir pras pessoas pararem de fingir uma felicidade que não existe, eu acho que só quero lembrar a mim mesma que a vida não é perfeita. Que nem toda felicidade postada é falsa, mas que a vida de ninguém é representada virtualmente. Ninguém em sã consciência posta fotos das brigas (tirando os seres incompreensíveis que postam vídeo da mulher com o amante e coisas do tipo, que eu obviamente nunca vou poder entender - mas certamente não é coisa de alguém em sã consciência).

Eu sei que algumas fotos capturam a felicidade de uma maneira muito bonita e valem à pena ser compartilhadas como forma de espalhar alegria. E vale à pena registrar momentos da vida pra lembrar deles com carinho daqui a 20 anos. Mas no final das contas, a sensação que eu tenho é que, quanto menos se ouve e vê os anúncios de uma relação perfeita, mais feliz ela é. E o melhor sinal de uma relação feliz de verdade parecer ser não haver nenhum sinal dela no mundo virtual. 


Porque tem coisas que a gente precisa viver pra dentro. E tem declaração de amor que tem que ser escrita à mão e entregue pelo correio ou dita sussurrada no ouvido antes de dormir.

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