sexta-feira, 4 de março de 2016

Eu não quero um namorado romântico


Não é exatamente um segredo que eu tenho certa dificuldade de lidar com homens românticos. Eles andam por aí soltos, sem nenhuma supervisão e, infelizmente, eles não vem com uma identificação do tipo "cuidado, homem romântico! Favor manusear com cuidado". Eu confesso, eles me assustam!

Não me entenda mal. É lindo ser acordada com um café da manhã na cama. Derrete o coração receber uma carta escrita à mão e deixada pessoalmente na sua caixa de correio, todos os dias por quase um mês - quando já existe telefone, e-mail, Facebook e WhatsApp.

Mas a minha implicância com os homens românticos não é pelo romantismo em si. Eu poderia dizer que tenho algo contra pessoas que curtem o drama humano, amores trágicos tipo Romeu e Julieta, ideais utópicos e desejos de escapismo. Poderia achar absurda a tendência que os românticos tem de idealizar a vida e sonhar e fantasiar em amar e ser amado para todo o sempre. Mas eu não tenho nada contra os românticos. A não ser que eu tenha. Mas acredite, eu não tenho.

Meu problema com homens românticos é que todos os românticos que conheci são excessivamente carentes. Eles demandam uma atenção surreal. E precisam colocar tudo pra fora, senão morrem sufocados. Eles são absurdamente sensíveis e choram mais do que eu. Eles se apaixonam porque precisam se apaixonar, porque precisam desesperadamente estar em um relacionamento. Não se apaixonam por você, mas se apaixonam pela ideia do relacionamento que teriam com você. E o pior de tudo, eles geralmente querem viver seus sentimentos apoteoticamente: choram, sangram, querem gritar que te amam no meio de uma multidão. Quando você menos espera, eles surgem como um pop up querendo casar com você amanhã, passar a lua de mel nas ilhas gregas e passar cinquenta anos de mãos dadas olhando as estrelas.

Perto de qualquer homem romântico eu me sinto uma troglodita, uma ogra. Eu não consigo suportar a ideia de que alguém queira viver tão simbioticamente comigo. E, principalmente, não conseguiria retribuir todo esse romantismo. Eu me sinto sufocada só de pensar em toda essa intensidade, porque sempre precisei de espaço. Como se não bastasse, geralmente os românticos carentes são extremamente magoativos! Paidoceu! É complicadíssimo fazer qualquer crítica. Se você não soltar fogos com as flores, a declaração e o helicóptero com pétalas de rosas, pode se preparar pra ouvir reclamações e choramingos sobre você não valorizá-lo.

Você, romântico assumido que está lendo esse texto, por favor, não fique magoado comigo. Não é pessoal. É uma dificuldade que eu tenho. Mas aproveita que você está aqui e me diz uma coisa: algum dia alguém na sua vida saiu correndo e pulou o portão de embarque para te impedir de pegar um voo? Seu(sua) ex que você nunca esqueceu invadiu inesperadamente o seu casamento e gritou "você não pode casar com ele(ela) porque eu te amo"?

Não né? Pois é, a vida normal não é uma comédia romântica - eu diria que é muito melhor que isso. Não precisa tanto esforço, por favor! Não precisa se rasgar inteiro, disparar uma metralhadora de fofuras e arremessar presentes pra todo lado! Até o segundo jantar à luz de velas, a gente se encanta e se surpreende, mas depois, todos os dias dos namorados, os aniversários de namoro e essas datas comemorativas ficam muito iguais. Vai ser como se você tivesse festa surpresa no seu aniversário todos os anos. Já não é mais surpresa. E tudo vai parecer uma obrigação - sem falar na imensa pressão que é corresponder a todo esse romantismo. Eu posso apostar com você que toda essa loucura de amor e essa intensidade vão ter cansar. E posso apostar também que, mesmo sem querer, lá no fundo, você vai esperar algo em troca.

Eu prefiro ser surpreendida por momentos simples todos os dias. Prefiro viver um dia-a-dia que não seja apoteótico e nem cheio de flores, presentes e declarações de amor. Mas que tenha a presença do outro de uma forma viva, uma atenção plena e os sentidos aguçados. As coisas simples e sinceras são lindas e não requerem nenhum esforço. E elas fazem um bem danado pra alma!

Eu não preciso de um namorado romântico. Eu não quero um namorado romântico. Aliás, não quero um namorado, nem status, nem promessa, nem um presente de aniversário de namoro ou uma viagem pro Caribe. Eu só quero você. E você pode ser romântico em doses homeopáticas. Pode querer um colo de vez em quando. E eu sei fazer um cafuné muito gostoso e o meu carinho nas costas é imbatível.

Olha, a viagem pro Caribe não é má ideia. E eu aceito olhar as estrelas com você, mas só por uma noite, até o sol nascer. Mas nem pensar em rosas jogadas de um helicóptero, pedidos de casamento em público e drama, tá?

quarta-feira, 2 de março de 2016

Espero que você nunca espere nada de mim



Mas Pah, o que você tem contra os românticos fofos cheios de expectativa? Bom, eu não tenho nada contra as pessoas que tem expectativas - não digo o mesmo quanto aos românticos, mas isso é tema do próximo post. Veja bem: é difícil ter zero expectativa na vida. Porque no fundo, mesmo que seja beeeeem lá no fundo, a gente sempre espera alguma coisa. Secretamente, a gente espera aquele rompante romântico, aquela surpresa específica, aquela loucura planejada. A gente espera ser sequestrada para passar um dia na Serra em plena quarta-feira.

Não há nada de errado em querer alguma coisa. Mas é bom saber a diferença entre uma comédia romântica e a vida real. Não deveríamos ser uma criança que assiste desenhos de super herói e tenta pular do sofá achando que vai voar. Ou até podemos, mas assim: você vai dar com a cara no chão.  Também não tem problema nenhum dar com a cara no chão, porque a cara é sua e você faz com ela o que quiser. 

O que é injusto é jogar toda a responsabilidade das nossas expectativas em cima do outro. É fazer o outro se sentir mal por não agir como VOCÊ esperava. Não tenho medo de quem tem expectativas, tenho medo é das pessoas que não sabem que são cheias de expectativa. Sabe aquele cara que diz pra você escolher o restaurante, e aí quando você escolhe, ele pergunta: "Mas você não prefere um japonês"? Sabe quando ele diz que está tudo bem se vocês forem apenas amigos, mas não está nada bem? Sabe quando ele JURA que não tem expectativa? Não credite nisso: das duas uma (ou as duas): ele está mentindo pra si mesmo ou pra você. E muito provavelmente já está planejando a lua de mel na Itália, já sabe o nome dos dois filhos que vocês vão ter e até o nome do cachorro. 

Acredite em mim quando digo que de todas as coisas estúpidas que um ser humano pode fazer em um relacionamento, ter expectativa é a pior delas. Safado? Ok, a gente tenta. Gay? Ok, a gente experimenta. Distraído? Ok, prestenção aqui meu filho! Imaturo? Ok, vamos ver no que dá. Tem expectativas? Não, nããããão, por favor não! O próximo da fila, por favor.
 

Crie minhocas, elefantes, um leão ou lobos selvagens, crie mofo, mas não crie expectativas. Porque a frustração é o destino certo de toda expectativa, já que a vida não segue um roteiro. E mesmo o melhor dos roteiros de cinema sempre vai esbarrar na improvisação do ator - que às vezes pode ser genial, outra vezes pode ser um idiota. Mas a gente precisa correr esse risco. 

As expectativas são aquele universo conhecido e desejado: de flores, surpresas, viagens de lua de mel, declarações de amor em público, de ser feliz. E quando em vez disso terminamos chorando no banheiro às 3 da manhã, nos dando conta de que ele se apaixonou por outra ou descobrimos que é muito mais difícil do que tudo que já vivemos antes, dói. Mas dói de um jeito paralisante, porque a gente tinha um chão, e esse chão eram as nossas expectativas. De repente, não temos onde pisar. 

Ninguém tem a expectativa de viver um amor, ser traído e perdoar. A gente fica mirando no comercial de margarina, mas deveríamos saber que o outro é capaz de qualquer coisa - tanto quanto eu sou capaz de qualquer imperfeição. E quando não temos em mente o final feliz, existe espaço para aprender. E existe espaço para percebermos que quando as coisas não são como a gente imaginou, não precisamos culpar ninguém, nem a nós mesmos . E não precisamos nos tornar pessoas infelizes, que brigam, esperneiam e cobram do outro. Não precisamos ser quem não somos porque nos sabemos capazes de lidar com nossas expectativas da mesma forma que entendemos que os super heróis são só desenhos.

Não ter expectativas é difícil. Mas mais difícil ainda é viver sem se permitir experimentar
o que um relacionamento tem de mais lindo: o inesperado. Quando a gente não espera, é possível sentir cada coisa sem nenhuma referência anterior. É possível aceitar todas as partes - das mais fáceis às mais difíceis. E é possível nos apaixonarmos pela primeira vez, mesmo que já tenhamos nos apaixonado mil vezes antes.


Zero expectativas é difícil. Mas se for pra esperar alguma coisa do outro, que seja só uma massagem no pé hoje à noite. Se for pra esperar, que seja pegar um cinema no sábado. Lidar com as expectativas não significa que eu não possa planejar nada. Eu posso fazer um jantar lindo hoje à noite. Posso fazer uma surpresa. Eu só não quero a vida pronta. Eu não quero buscar emoções, quero buscar as primeiras vezes.

Espero que você nunca espere nada de mim. Mas dizem que quarta-feira é um ótimo dia para sequestrar alguém e passar o dia na Serra, sabia?