segunda-feira, 4 de abril de 2016

A solidão mais dolorida de todas

 
Faz tempo que nós perdemos a conexão. Faz tempo que estamos sem sinal, fora de área e ilhados. Não é fácil perceber isso ao dar bom dia na cama pra pessoa que dorme com a gente ou pro vizinho do elevador. Não é fácil perceber quantas vezes por dia perguntamos "tudo bem?" pra alguém sem nem olhar nos olhos da outra pessoa, sem nos interessarmos de verdade por saber se está tudo bem mesmo. Não é fácil perceber que a gente não sente o que diz e nem diz de verdade o que sente.

Faz tempo que perdemos a sensibilidade. Nos achamos uma espécie tão inteligente, e com todos os nossos equipamentos ultra modernos, são os animais que sobem a montanha primeiro quando acontece um maremoto, antes que chegue o tsunami. Nós, humanos, ficamos aqui distraídos na piscina do resort e só nos damos conta quando a onda já nos engoliu. Perdemos a sensibilidade não só para olhar à nossa volta e nos conectar de verdade com a natureza ou com as outras pessoas - nós perdemos a nós mesmos: não conseguimos reconhecer sequer o que sentimos, mas nos sentimos no direito de achar que sabemos como o outro se sente, sem nem sequer perguntar. 

A solidão mais dolorida de todas é aquela de duas pessoas que resolvem ficar sozinhas juntas. A outra pessoa está lá, eu estou lá, mas ninguém está em lugar nenhum porque ninguém está inteiro. A gente pode pensar em muitos motivos para duas pessoas se perceberem sozinhas morando juntas. Pode ser falta de coragem de terminar, pode ser falta de amor, falta de compatibilidade. Pode ser falta de vergonha na cara, falta de amor próprio, baixa auto-estima ou falta de grana. Pode ser medo de ficar sozinho. O que quase nunca ocorre pensar é que, de todas as coisas essenciais numa relação, a coisa mais importante e, quase sempre a que mais falta, é o diálogo. 

Eu poderia dizer que a comunicação é mais importante do que amor e do que ter afinidades. E arrisco dizer que a nossa falta de habilidade de estabelecer uma comunicação verdadeira com as pessoas é o que envenena a maioria das relações. Não estou falando de falar enlouquecidamente. Não estou falando de reclamar. Não estou falando de criticar o outro, de dizermos o que queremos, ou como queremos que o outro nos trate e se comporte a todo momento. Estou falando de se comunicar de verdade - e isso nem sempre requer usar palavras. 

Quando a gente se comunica de verdade, a gente percebe que precisa não só dizer mais vezes "eu te amo" e "me desculpa". Percebemos que se importar com o outro é, também, lavar a louça que se acumula na pia e estender a roupa no varal. Quando a gente aprende a se expressar de verdade, percebe que cada sentimento guardado cria um espaço a mais que nos separa do outro e da alegria de estar junto. E esses espaços viram facilmente uma mágoa. Achamos que a nossa raiva do outro é por culpa da pia cheia de louça suja, porque a gente não percebe como as mágoas podem virar impaciência, implicância e orgulho num piscar de olhos. 

Se comunicar é, antes de mais nada, se permitir sentir sem julgamento.Se comunicar é dizer agora como nos sentimos, com carinho, respeito e acolhimento - sem guardar nada que possa virar ressentimento amanhã. Se comunicar é também saber ouvir o outro com a mesma atenção e carinho que queremos quando nos abrimos. 

Não importa muito o que a gente sente numa relação e não precisamos julgar o que o outro sente. Pode ser ciúme, pode ser qualquer sentimento barato. O que o outro sente não representa quem ele é. É o que fazemos com o que sentimos que diz muito sobre quem somos. A solidão mais dolorida de todas não é só aquela de duas pessoas sozinhas e juntas. É aquela de quando nos fechamos dentro de nós mesmos, de quando não permitimos que os sentimentos saiam e não percebemos que, ao guardarmos tanto, também não resta espaço para ninguém entrar.

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