sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Onde está você?

Uma pessoa que eu amo muito brigou comigo e eu com ela. Que sensação ruim essa de se perceber pensando tão diferente de alguém que você ama, ainda mais quando se pensa diferente em questões que gente considera importantes e cheias de significado. 

Vivemos tempos difíceis. Estamos acelerados e exaustos pelo número de horas trabalhadas e desperdiçadas no trânsito e nas relações sem sentido e sem afeto. Tem tanta tecnologia, tanta informação, tanto aplicativo e tantas coisas pra darmos conta que a presença se tornou uma coisa rara - não só a presença de estar junto fisicamente em tempos de Videochamadas e WhatsApp, mas a presença de prestar atenção plena ao que estamos fazendo no exato momento em que estamos fazendo. 

Essa é a nossa doença: estamos em tantos lugares ao mesmo tempo que não estamos de verdade em nenhum. Pensar e processar informações ocupa tudo com tanta intensidade que deixamos de ser quem somos e estar onde estamos. E eu esqueci que nenhuma discussão e opinião é mais importante que a relação de duas pessoas que se querem bem e que se importam uma com a outra. É ridículo esquecer uma coisa dessas,  né?

Mas parece que não sou só eu a única ridícula do planeta. Pode ser só impressão minha, mas eu nunca tinha vivido dias de tanta propagação gratuita de ódio, de tantas brigas por opiniões e ideologias e falta de espaço para diálogo e trocas verdadeiras. É compreensível: conversas pelo WhatsApp e redes sociais não facilitam em nada a empatia, a sororidade e muito menos a compaixão. E se pessoalmente a gente já não tem dado conta de se relacionar de verdade com os outros, imagina virtualmente - com chances exponenciais de sermos mal interpretados. Com chances estratosféricas de não termos acesso a informações de qualidades, que promovam debate em lugar de nos influenciar a escolher um lado, uma ideologia e uma verdade onde não se encaixe o diálogo e a pluralidade dos olhares. 

Ao me perceber em lugar nenhum, lembrei de me perguntar uma coisa essencial dos relacionamentos: onde estou agora? Todo mundo quer estar num lugar em que se sinta acolhido e com alguém com quem se possa conversar. Não vale à pena estar em nenhum lugar onde a minha opinião (que pode mudar semana que vem) é mais importante que uma pessoa que eu amo ou que qualquer pessoa que esteja disposta a dialogar. A gente pode escolher onde quer estar e com quem quer estar, claro. Mas o que pouca gente se dá conta é que podemos SER esse lugar onde queremos estar. 

Quando somos a pessoa que acolhe e ouve o outro de forma amorosa e que se coloca no lugar do outro, não há espaço para estar onde não se está. E só se aproximam da gente as pessoas que querem estar aqui e agora com quem somos.