quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Você decide o que é liberdade ou prisão



Eu chego em casa cansada, faço um café e sento no meu canto preferido do sofá. E não tem ninguém além de mim, do meu café quentinho e do aconchego da luz do fim do dia que entra pela janela da sala. E sou eu quem decide se isso é solidão ou liberdade. 

Eu levei uns bons trinta anos pra aprender a gostar de mim e me aceitar como sou. Acho que não tenho esse tempo todo pra convencer mais ninguém, então você pode gostar de mim, ou não. Tá tudo bem se não gostar dessa minha liberdade e do fato de eu não precisar de você. 

Já fui uma menina convencida pelas histórias de contos de fada que a minha existência não faria sentido sem encontrar um grande amor. Eu procurei, procurei, procurei. Muitas vezes me neguei a enxergar o que estava na minha cara porque eu só queria me convencer de que a busca tinha acabado.

De alguma forma, emendei um namoro no outro e no casamento e não ia parar até achar. Mas aí eu não encontrei. No meu coração partido, encontrei foi a mim mesma - e de repente o meu verdadeiro amor foi essa liberdade de ser quem sou. Aprendi a ser feliz com toda a leveza que existe em saber a diferença entre solitude e solidão.

Posso ser livre sozinha ou acompanhada. Não precisar de você é o maior presente que te dou agora. Eu só te quero aqui comigo se fizer sentido. Se der frio na espinha. Se for recíproco. Se for de verdade.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Notas sobre ele

Ele é  bravo e genioso. É do signo de danem-se: os signos, os ascendentes e as luas, as probabilidades, os planos, as convenções sociais. Ele é do tipo que redecora sua casa inteira sem tirar nada do lugar: o sofá passa a ter memórias de beijo e da preguiça de ir pra cama; a cama fica com a bagunça que só ele sabe fazer - e até às vezes com a arrumação que te faz lembrar que ele esteve contigo. 

Ele coa o café com coador como se não fosse 2017. E ele ama música sem saber dançar, odeia atrasos e nunca faz um elogio pra agradar. Ele paralisa cada vez que percebe que o coração pode mandar nele mais do que a razão. Ele não finge amor, valoriza os sentimentos e cuida do que faz bem.  

Discretamente ciumento, diz que vai brigar por 24 horas mas não aguenta nem cinco minutos. Humildemente marrento - a não ser que seja só marrento. Ele é homem do sorriso lindo de menino. Ele é cuidado, reciprocidade e carinho na nuca. Ele é todo ele e todo dele e só se entrega a quem sobrevive à tempestade dele ser inteiro e imperfeito.  





quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Quero ver se tu é homem mesmo

Sobre homens, machos, maturidade e rótulos:

Meu filho tem três anos e, na escolinha que ele vai, tem muitas meninas. Ele se encanta com o universo feminino e, infelizmente, as meninas o excluem de várias brincadeiras por motivo de "isso é coisa de menina". E daí que ele fica muito chateado e não entende porque ele não pode usar batom e pintar o rosto.

No começo isso me deu um estranhamento: "cacete, meu filho quer usar batom! O que eu falo pra ele"? E daí que, quando ele me pediu pra passar batom, eu deixei. Ele ficou todo feliz e foi uma coisa incrível pra ele poder experimentar isso que as amigas da escola diziam que ele não podia por ser menino. 

Bom, ele não faz ideia das caixinhas de meninos de meninas que criamos. Ele é só uma criança que quer pintar a cara pra se olhar no espelho porque viu as amigas se divertirem fazendo isso. Eu não preciso mostrar pra ele nenhuma caixinha porque o mundo vai se encarregar de fazer isso - aliás, o mundo já faz. 

Olhando pra essas caixinhas sobre o que é SER HOMEM, eu percebi que aprendemos tudo errado. Sabe aquele cara que te diz atravessado um sonoro "sou homem, não preciso que ninguém me crie" quando se ofende com alguma coisa? Bom, esses são provavelmente os que não entenderam nada sobre ser homem. 

É aqui que você, que sabe que eu não tenho um pinto entre as pernas, pode me perguntar: "O que você sabe sobre ser homem, Paloma"? Porra. Não sei nada! "Então por que caralhas vai falar sobre isso"? 

Caros, um anúncio a fazer: estamos em 2017. Eu sei. O Bolsonaro + nosso querido congresso e MBL fazem parecer que não. Mas a verdade é que a gente tá se reinventando. Estamos tocando nas feridas e revendo os antigos papéis. Estamos - ainda que de forma tão pouco amigável e polarizada - trazendo à tona temas que podem nos levar a nos repensar como sociedade em termos de valores. Isso é lindo, mas também assustador pra quem está perdido. Tem muito homem por aí confuso sem saber o que é, porque as mulheres não estão mais aceitando os homens das cavernas e muitos homens também não estão conseguindo se colocar em novos papéis. Não tá fácil, eu sei - tá todo mundo apanhando. 

Há algumas décadas era muito simples ser homem: era só trabalhar fora, sustentar a casa, coçar o saco, chegar do trabalho e assistir telejornal ou futebol. Mas, olha só que sacanagem: alguém veio e bagunçou tudo com isso de trans, identidade de gênero, feminismo, essas-coisa-tudo. Tem um povo que anda por aí dizendo que homem pode chorar, pode ser vaidoso, pode ser frágil, pode ser dono de casa, pode não ser o provedor. E tem esses homão da porra tipo Rodrigo Hilbert que tão bagunçando tudo e mostrando que dá pra ser muitas outras coisas que o pinto não cai não. Céus, e agora?

Agora, meus caros, a gente só precisa ser humano. O órgão sexual não precisa definir a gente. Ser macho é ser gente. Ser fêmea é ser gente. O lado bom disso: você não precisa provar mais nada pra ninguém. E, aliás, quanto mais você tentar provar, mais evidente vai ficar a sua insegurança sobre si mesmo e o seu estado de negação sobre o mundo novo que está aí batendo à sua porta.

Antes a sua idade te dizia sobre maturidade, tal e qual a invenção da aprovação automática nas escolas: quanto mais velho, mais respeitável você era. Você podia ser um idiota de 60, mas se tinha 60, subentendia-se que sabia da vida e tinha experiência. Agora a gente sabe que não existe idade pra ser idiota. Putz, como é que a galera vai se esconder agora?

Hoje, a gente sabe que nada sabe. Que a gente pode aprender muito com as crianças. E que a gente não nasceu pronto e pode errar pra caralho que vai ficar tudo bem. Hoje a gente sabe que a maturidade é uma coisa viva que a gente alcança em cada experiência. E que se a gente aprendeu muito em uma situação, pode ser que tenha que aprender tudo do zero em outra. É foda não estar nunca pronto. É tão bonito e libertador não estar nunca pronto e poder aprender sempre.  

No final das contas, ser homem é se sentir confortável na própria pele. É ter coragem pra encarar seus medos e fazer o que tem que ser feito independente da opinião alheia. Ser homem é ser humano: respeitar o caminho e a história do outro, é colocar um amigo no colo, dar banho no filho, não rotular todo mundo como se soubesse calçar todos sapatos. 

Ser homem é saber que a idade não te define, o sexo não te define, a sua beleza não te define e a conta bancária também não. Ser homem é saber que nada te define mais do que a sua atitude e o seu caráter. Ser homem é ter a audácia de questionar sempre, de usar as porradas e o que se aprende com elas pra ser maior e melhor nas atitudes e - não só na teoria. Ser homem é ter a humildade de não se colocar acima dos outros. 

E eu vou te falar: conheço mulheres que são mais homem que muitos homens. E, ainda bem, conheço também muito homens incríveis que me fazem acreditar que o fim do patriarcado está próximo e que, logo, vamos poder nos preocupar apenas em SER, sem qualquer outro rótulo.   





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Relatioship status

Queria anunciar que não faço ideia nenhuma do que estou fazendo. Não sei se estou tentando dominar o mundo como o Pink e o Cérebro, se estou planejando um roubo a banco ou se apenas me apaixonei e não sei o que fazer com meu coração à noite.

Eu não me engano: apaixonar-se é treta. É saber que eu me sinto vulnerável pra caralho perto de você, e ainda assim ter certeza de que eu não tenho outra escolha a não ser peitar esse medo e me permitir sentir tudo: seu beijo, seu cheiro, sua bronca, seus cabelos, sua respiração no meu ouvido.

Se apaixonar é querer dormir três dias seguidos só pra chegar a hora em que eu finalmente te vejo e te beijo. Se apaixonar é dizer tudo de uma vez em uma noite e, ao mesmo tempo, achar que só o silêncio basta. Ter certeza que sim. É a descoberta de que existe cafuné melhor que chocolate. Que existe uma cama no peito de alguém e que dormir nela é mais confortável e incrível que numa king size de hotel cinco estrelas.

Eu nunca quebrei a perna, mas a cara e o coração eu já perdi as contas. Então, por quê me permitir ser vulnerável pra você? E por que é que é COM VOCÊ que me sinto assim agora - e não com outros e antes de hoje? Não sei a resposta. Se apaixonar é não saber e não querer ter que explicar tudo. 


Gostar de você é uma afronta à minha racionalidade capricorniana, ao senso comum e às regras vigentes. E gostar de você também é uma confirmação de que o senso comum e as regras vigentes sempre estiveram errados - porque nada é mais certo que gostar de quem me faz lembrar de todas as coisas lindas que eu ainda sou capaz de sentir.

Obrigada pelo frio na barriga. Obrigada por mudar meu relationship status pra saudade: esse estado que parece permanente, sem cura e que deixa o coração apertado, mas ao qual a gente sobrevive porque nos sabemos juntos, mesmo longe. 



Obrigada por esse abraço que encaixa perfeitamente em mim - de um jeito que me faz ter certeza de que tanta precisão cirúrgica requer no mínimo umas três pós graduações. Não é normal alguém saber fazer isso sem manual, mas entre nós dois nada é muito normal mesmo. E ainda bem: seria uma pena se fôssemos tão previsíveis. 



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Como não ser, eis a questão



Eu poderia falar sobre tudo o que eu sou agora. Sobre as mudanças incríveis que fiz na vida, sobre a "coragem" que eu tive de largar empregos, relacionamentos, falsas seguranças, amores de infância.

Acontece que falar sobre aquilo que eu sou é chover no molhado. É óbvio demais ser quem eu sou, porque eu não saberia ser outra coisa. Mas dentro de tudo o que a minha vida é agora, o que as pessoas não veem é tudo o que a minha vida poderia ter sido. As coisas das quais abri mão - por imaturidade, loucura, burrice ou escolha consciente. E todas essas coisas que não fui estão escondidas na minha vida que é agora: os amores que eu escolhi não viver, o emprego que eu deixei, os caminhos que abandonei.

Tudo o que eu deixei de ser faz parte de mim e de quem eu sou hoje e me tornam maior, porque eu aprendi a amar as minhas escolhas, mesmo as mais "erradas" e questionáveis. E o fato de eu assumir e não menosprezar o que eu decidi não escolher me fazem amar o que sou agora. Eu nunca neguei as minhas dúvidas e indecisões. E se pra seguir um caminho eu precisei abrir mão de outro, nunca tentei me convencer de que o outro caminho era ruim ou menor: eu sei que às vezes a gente apenas tem que escolher no cara ou coroa, porque ficar parado na encruzilhada sem saber o que fazer nem sempre é uma opção.

Você é a minha escolha agora. E escolher você contém, ao mesmo tempo, todas as coisas das quais eu abro mão pra viver o que a gente é quando está junto. Eu poderia menosprezar a nossa história porque ela é curta, clichê e não é nenhuma novidade diante do mundo de histórias sensacionais que ouvimos por aí sobre duas pessoas que se conheceram e se gostaram.

Mas eu quero fazer isso direito e quero olhar pro que importa: você me leva pra onde minha alma se encanta. Onde mais eu poderia querer estar? Eu não entendo tudo agora. E eu não tenho zero medo de um coração partido na próxima esquina, mas tenho uma lista de coisas que eu quero não escolher pra viver o que sentimos:

Não quero ser quem fui até aqui, seria um desperdício te conhecer e não ser mais do que fui ontem. Não quero contar as probabilidades que moram entre o que somos e o que podemos vir a ser - estar com você agora é mais incrível que o infinito matemático de chances de não estar com você.

Aliás, não quero não estar com você - isso nem parece mais ser uma opção, a essa altura.

É oficial: deixo todas as minhas não escolhas na mesa e escolho você. Escolho me sentir vulnerável de novo. Escolho sentir saudade até as 3 da manhã das sextas-feiras, pra acordar sabendo que é tarde demais pra me apaixonar como adolescente e, ao mesmo tempo, é cedo demais pra me negar a viver isso.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Eu não sou a minha bunda



Vinicius de Moraes até que estava certo: beleza é fundamental. Pena que ele não explicou isso direito ou todo mundo entendeu tudo errado. Talvez a gente nem saiba o que a beleza significa, porque essa noção e o desejo associado a ela é construído social e culturalmente, tijolo a tijolo, pelo Photoshop, pelas Giseles, Gracianes, Paolas, Grazis. Pelas revistas, pelas novelas, pela indústria da moda, pela moda fitness-whey-low-carb-maromba-pugliesi e pela pornografia.

Nenhum homem nasce virando o pescoço pra olhar as bundas das mulheres. Nenhuma mulher nasce usando o corpo como mercadoria e arma pra conquistar o outro e se sentir bem. Isso não é matéria na escola, mas é algo que nos ensinam a nossa vida inteira e que reproduzimos sem saber.

A gente não sabe o que a gente deseja de verdade porque nunca ninguém nos deixou descobrir o outro com o olhar. Nos enfiam goela abaixo o padrão de fora pra dentro sobre bundas, peitos, pintos, peso, cabelos, six pack e lifestyle. Como vamos saber do que gostamos se já escolheram tudo pra gente?

Nos distanciamos tanto de olharmos as coisas e as pessoas sem esse filtro, que desaprendemos a re-conhecer o outro. Aliás, como é que a gente reaprende a olhar esse outro que já nem é mais ele mesmo? Você é o terno Armani que veste. O carro esportivo que dirige. O emprego que traz status e que diz mais do que o coração.

E a gente não olha o que está na nossa frente porque deixamos de ser quem somos para sermos essa alegoria de coisas que permitimos que nos definam: o bairro onde moramos, o emprego que temos, a profissão que escolhemos, a música que escutamos, os lugares que frequentamos, as viagens que fizemos ou pretendemos fazer. A gente já não lembra que o cheiro do outro não é o perfume Calvin Klein.

Talvez não seja óbvio, mas quanto mais homens virarem o pescoço pra olharem uma bunda e quanto mais mulheres se acharem gostosas e com a auto-estima em dia porque homens quebram o pescoço pra olhar essas mesmas bundas, maiores serão as nossas solidões. Porque precisamos sim de beleza, mas não de qualquer tipo.

Eu não estou aqui pra negar o padrão de beleza vigente e dizer que sou imune a ele. Não estou aqui pra dizer que ele não me afeta. Mas posso dizer o quanto é incrível quando a gente se percebe capaz de ir além do que nos foi oferecido como belo.

Porque a verdadeira beleza que enxergo não é feita só do que eu aprendi a achar esteticamente bonito. Beleza de verdade pode ser feita de conexão, de encontro, de saber que o outro tem vários tipos de sorrisos - desde aquele amarelo quando fica sem graça até aquele sorriso de felicidade genuína que é quase impossível capturar numa foto.


E a beleza é feita de abraços, de beijo de esquimó, de muitas pequenas coisas que só você repara nele - uma pinta ou todas as pintas que você conhece tanto que quase deu nome pra elas. A beleza é feita de se permitir ser pro outro todos os nossos personagens - até mesmo aquele ogro e orgulhoso que briga com você domingo à noite.

Quando um homem olha a minha bunda, não sinto raiva do indivíduo em questão. Sinto o peso de todo o patriarcado sobre as nossas cabeças. Sinto que a vida veio distorcendo, diminuindo e enfeiando a todos nós. Podemos ser mais do que peitos e bundas. E pode ser libertador experimentar a beleza que a gente enxerga sem abrir os olhos, a beleza que a gente sente com o nariz, com as mãos, no choro; a beleza desmedida que existe em permitir que a outra pessoa seja ela mesma, sem colocar sobre ela o peso das nossas expectativas.


Não é que eu queira que os homens parem de olhar pra minha bunda. Pra falar a verdade, eu até quero. Mas, mais que isso, o que eu realmente adoraria é que nós percebêssemos o quanto estamos perdendo por olharmos só isso. Uma bunda é muito pouco.

Talvez a gente só devesse olhar as bundas depois de aprender a olhar todas as outras coisas. Talvez a gente possa olhar uma bunda pelos motivos "certos". Talvez as bundas sejam superestimadas. Porque tem feiúra que bunda nenhuma salva.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Carta de uma mãe aos futuros pais


Você descobriu que vai ser pai. Pode ser que esteja assustado. Ou muito feliz. Ou feliz e assustado ao mesmo tempo. Pode ter sido planejado ou não. Pode ter sido quase planejado, ou muito sonhado. Ou nada disso e tudo isso junto. A gente tem um monte de ideias sobre como vai ser ou como a gente gostaria que fosse e como a gente não quer que seja. Mas a verdade é que ser pai pode mesmo ser assustador: não é um título que você ganha automaticamente só pelo fato de ter contribuído com 50% do material genético que dá origem a outro ser humano. Por mais que o seu pai tenha te falado, por mais que você tenha amigos, primos e irmão com filhos, você não faz ideia do é que ser pai, até se tornar um. 

E é exatamente isso: você se TORNA pai. Não é diferente pra mulher, ainda que pareça que nascemos pra isso e que pra gente é muito mais natural. Não, não. Ser mãe também NÃO é uma coisa que a mulher já nasce sabendo. Ninguém nasceu pronto pra isso - a gente se torna mãe e se torna pai numa jornada - que pra alguns é muito difícil e, pra outros, só difícil.

Ser pai (com P maiúsculo) não é fácil, justamente porque isso não acontece da noite pro dia. Assim como ser mãe, ser pai é como pular a faculdade e ir direto pro mercado de trabalho. É nunca ter estudado engenharia e teu chefe te pedir pra fazer um cálculo estrutural como se fosse a coisa mais normal do mundo. A princípio é meio assustador, você acha que o prédio vai desabar bem no meio da sua cabeça. Pior é que às vezes desaba mesmo. Na sua cabeça, na sua cara, no dedinho mindinho do pé.

Mas chega aqui. Vem cá que, como mãe, eu quero te acolher e te dizer que pode ser incrível: pode ser uma jornada de cura da sua infância, da sua relação com você mesmo, de se permitir ser frágil, de ressignificar o conceito de masculinidade e talvez tudo o que você entendia sobre ser forte. 


Eu imagino que não seja fácil ser pai na sociedade machista que a gente vive - já não é fácil ser apenas gente nesse mundo, e ser gente responsável por uma outra vida, traz um senso enorme de responsabilidade. Não é fácil viver num mundo com tantas exigências de todos os lados. Não é fácil porque a maioria dos pais cresceu com uma referência social de pais com papéis bem definidos, que só brincam de vez em quando ou passam o dia inteiro trabalhando. E com mães que, sobrecarregadas, muitas vezes estavam exaustas e infelizes.

Não se preocupe com trocas de fraldas, banho, trocar roupa e qualquer outra coisa parecida. Acredita em mim: você vai se sentir ridículo por ter se preocupado com isso algum dia. Isso é o mínimo pra cuidar de um bebê e você vai fazer tanto que será impossível não ficar craque. Ser pai também é isso, embora a gente viva numa sociedade na qual um pai que troca fraldas merece o prêmio nobel da paternidade. Por favor, não seja esse pai. Seja mais que isso, ou você vai perder a parte mais linda que fica no final do arco-íris.


De verdade? Claro que as fraldas sujas tem que ser trocadas e sua mulher vai precisar que você seja parceiro dela e divida as tarefas. E eu não estou aqui pra dar conselhos sensacionais e mostrar o caminho - porque esse caminho não tem mapa, meu amigo. Mas se eu tivesse que sugerir apenas uma coisa, seria: ESTEJA PRESENTE. 

A parte mais difícil - e eu acredito que a mais importante - é essa que a gente aprende a oferecer a nossa presença, nosso olhar atento capaz de permitir que nossos filhos sejam quem eles vieram ser e, ao mesmo tempo, permitir também que essa experiência nos transforme completamente. Não se trata de QUANTO tempo você passa com seu filho - embora eu possa dizer que quase tempo nenhum não é presença suficiente - mas COMO você passa esse tempo é mais importante do que a quantidade de horas.

Quando nasce essa criaturinha tão fofinha e cheia de dobrinhas 
a gente se vira do avesso. Essa coisinha frágil que chora e chora e não sabe falar pra dizer o que há de errado, que fica doente e deixa a gente sem dormir várias noites seguidas, ou meses e - acredite - talvez anos seguidos. Mas essa não é a parte mais difícil. Claro, a gente sempre acha que o nosso filho vai dormir a noite toda aos três meses. Depois que o bicho pega, a gente começa a trabalhar a mente pra sobreviver até um ano, pra no final descobrir que talvez só tenhamos uma noite inteira e sono depois que o nosso filho tiver dois. Ou três. Não conte com uma matemática exata nesse caso. Ser pai é muito impreciso. 

Ser pai não é o único desafio que te espera. Além de tudo que muda e se desestrutura e reestrutura na sua vida, você de repente passa a viver com outra mulher: uma mulher que dorme pouco, que está aprendendo a cuidar de outra vida, que sofre uma avalanche diária de hormônios, queda de cabelo, noites mal dormidas e tantas mudanças no corpo e na cabeça. Uma mulher que alimenta seu filho noite e dia sem descanso e exclusivamente por seis meses seguidos: algo como fazer 182 noitadas seguidas sem direito a cervejinha pra relaxar. E muitas vezes sem saber se está dando conta.

Acredite em mim: a mulher que você ama não morreu, ela só ganhou outras caras e, se você conseguir olhar bem pra ela, vai reconhecê-la - mesmo se ela estiver descabelada e com olheiras gigantes. Acredite em mim: ela vai sair mais forte e mais incrível do que jamais poderia ser - mas nunca é de um dia pro outro e ela precisa muito de você. Se você acha que é difícil pra você, imagina pra ela: que sofre uma pressão insuportável do mundo sobre o que é ser mãe, com todas as cobranças externas e internas. Porque se você apenas trocar as fraldas e levar no parquinho, já vai ser o pai do ano.

Mas se ela for a melhor mãe do mundo, ainda assim vai ser pouco. E nem mesmo 9 meses de gestação e a dor do parto preparam a mulher pra essa avalanche de mudanças e de cobranças. Ser mãe é sofrer o dobro de pressão que a gente já sofre por ser mulher. Seja paciente com ela e não seja mais um cara que só olha o quanto você perdeu a atenção que tinha só pra você. 


Por último, mas não menos importante: seja incrível. Ou daqui a 30 anos, você vai se arrepender de ter sido só mais um paizinho que posta foto com o filho nas redes sociais naquele passeio de fim-de-semana. E o pior de tudo é que se você for só isso, quem vai sair perdendo mais nem é o seu filho, mas você. Porque você é quem não vai estar lá pra descobrir que crianças nos dão de graça muito mais do que somos capazes de oferecer pra elas. Crianças podem ser assustadoras, mas são incrivelmente generosas e pacientes com nós, adultos que esqueceram como sermos nós mesmos e, pior ainda, como precisamos ser criança outra vez. 

domingo, 3 de setembro de 2017

Você é o meu ato falho

Dizem que as quintas-feiras são os piores dias pra se conhecer alguém. É por isso que eu prefiro conhecer alguém todos os dias da semana - só pra não dar sorte pro azar. Que fique claro: nada de bom acontece numa véspera de sexta, mas às vezes o controlador dos dias da semana dorme em serviço e deixa algumas coisas passarem. 

Eu tenho a mania inútil de dizer pra mim mesma: "tá tudo sob controle". Mas nada nunca está sob controle. E quanto mais eu achar que está, mais eu vou me assustar quando descobrir que existe no mundo uma pessoa capaz de desarmar todos os meus alarmes de proteção, pra me mostrar que a falha também pode ser perfeição. 

E aí: você. Você que eu digo que não quero beijar, mas já morrendo de vontade de morder. Você que me faz ficar tentando controlar o futuro quando no fundo eu faço zero ideia do que está acontecendo agora. Você que me obriga a concordar com Freud, com quem estou brigada desde 1983. 

Agora Freud tá em algum lugar rindo pra cacete toda vez que eu troco as palavras, porque ele já sacou que você é meu ato falho: a sequência dos erros acertados, a certeza de que nenhum gesto, palavra ou pensamento acontecem acidentalmente, nem mesmo aqueles que envolvem três taças de vinho. 

É com você que eu planejo falar uma coisa e na hora sai outra. E é com você também que eu planejo passar o final de semana. Eu digo que é loucura eu conhecer seus amigos, mas no minuto seguinte compro os ingressos do show da sua banda favorita pra estar lá com todos eles ao mesmo tempo. Você é essa dose de loucura que parece lucidez - a não ser que seja só loucura mesmo. E falta de juízo. E falta de ar.

Pra onde eu vou, eu nunca sei. Mas, do nada, eu quero que você esteja lá. Você é o meu caso de amor com todos os lugares e a máquina do tempo que mostra que, na verdade, o tempo não faz diferença quando eu deito no seu peito. 

Não vou com a lata desse tal de Freud -  ele está morto e nem vai reclamar. O fato é que eu não acredito em Freud, mas parece que ele acredita na gente.



sábado, 2 de setembro de 2017

Essa não é mais uma carta de amor

Eu podia estar na praia pegando um bronze, eu podia estar beijando alguém por aí - a não ser que não possa porque tá difícil isso de encontrar homens que não me façam desistir do beijo na primeira frase. Mas vim aqui só pra causar mais uma desilusão e dizer uma coisa que as pessoas não querem ouvir: O AMOR NÃO SUPORTA TUDO. Eu sei que está na Bíblia até, e que todos os poetas em trocentas mil línguas já disseram que o amor sempre vence no final, que ele supera qualquer coisa - desde toalha molhada em cima da cama até a traição mais desleal que houver nessa vida.

Eu sei que daqui a pouco vai aparecer aquela galera revolts pra me dizer que eu só digo isso porque eu nunca amei de verdade, porque né, se eu amasse, eu não falaria uma coisa dessas. Não é à toa que o post mais lido e comentado que escrevi (Só se ama uma vez) ainda recebe comentários revoltados, apesar de ter sido escrito em 2010. 

Sério, gentes: apenas parem . A gente precisa parar de achar que só existem finais felizes. Aliás, "final feliz" não é marca registrada e ele pode ter muitos formatos. Não, mais que isso. Precisamos nos abrir para o fato de que existe felicidade independente dos finais. E que o amor - e talvez a própria vida - pode não estar atrelado ao nosso mundinho cor de rosa cheio de caixinhas.

Existem relacionamentos que nada "salva" - nem o amor. Aliás, deixem o amor em paz, ele nunca teve essa obrigação de cumprir as exigências culturais e sociais do felizes para sempre. O amor não tem absolutamente nada pra provar pra ninguém. Se você amar alguém absurdamente e esse relacionamento mudar a sua vida inteirinha - porque, sabe, a missão do amor pode ser essa - que diferença faz se o relacionamento não durou pra todo o sempre? Foi menor por isso?

O amor não é medido na régua do tempo. O amor não é uma fórmula patenteada, uma lei da física. O amor é, no máximo, uma hipótese - não chega a teoria. Ele é isso que todo mundo diz que sente, mas não dá pra testar por métodos científicos e é impossível chegar a um denominador comum analisando algo tão subjetivo. Romance é de exatas: Príncipe+Princesa=Final Feliz. O amor é de humanas. 


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Errar é preciso



Eu ouvi uma vez de um menino muito contrariado, porque eu não correspondia o que ele sentia por mim, que eu tinha que aprender muita coisa ainda e que - tomara - eu não sofresse muito. Parecia uma praga de coração machucado, num tom de profecia, uma mágoa.

Fiquei pensando no que ele disse e no que ele queria dizer com aquilo. Porque eu tenho poucas certezas na vida: uma delas é a morte. E outra é a de que com certeza eu não vou chegar até a primeira sem gastar o coração. Significa que eu ainda vou amar muito, chorar, doer, cair e levantar muitas vezes. Por que qual seria o sentido da vida se não fosse assim? O erro é um ensaio da vida, pra gente treinar e aprender.
  
E tomara que eu leve uma vida inteira pra aprender tudo o que eu tenho que aprender. A vida seria um porre se eu soubesse de tudo e achasse que ninguém mais vai poder me mostrar as coisas que eu não conheço, me levar aos lugares que nunca fui e me dar os esporros que vão me fazer olhar pra dentro e repensar tudo - pra eu poder ficar paradoxalmente maior a cada sinal que o mundo me dá de que eu sou menos do que um grão de areia no universo.

Eu não vou dizer que quero chorar e sofrer. Seria uma tremenda mentira se eu dissesse que quero. Eu miro no alvo, mas tudo bem se eu errar e isso doer. Eu aceito todas essas partes de mim que não saem nas fotos do Instagramnão seguro nenhuma lágrima que queira cair. 

Me sinto viva por me permitir tudo isso. Me sinto viva por poder errar e por saber que tenho tanta coisa pra aprender ainda. Desculpe o transtorno: o cara que me rogou a praga de que eu tenho muito a aprender está certíssimo. Ainda vou errar pra cacete. Estranho seria se eu acertasse sempre. Estranho seria se eu soubesse tudo antes de viver. 

sábado, 12 de agosto de 2017

O maravilhoso mundo das pessoas inteiras

É difícil ser inteiro. Ser você mesmo até quando dói a ponto de você não conseguir respirar. É difícil ser inteiro e não pela metade quando o mundo te esquarteja o tempo todo, te dizendo pra ser várias pessoas e nenhuma ao mesmo tempo. Pra sempre ser quem você não é e jamais deixar alguém te conhecer de verdade - porque, claro, você sem maquiagem, sem Photoshop, sem assunto, sem intelectualidade... você sem um Instagram lifestyle, textões do Facebook e aquelas coisas todas que fazem a vida de qualquer pessoa parecer tão sensacional - sem isso tudo você deve ser feio, chato, vazio, insuportável, inculto, sem assunto, um tédio. 

Não seja idiota no trabalho. Não queira papo cabeça no bar. Não ouse rir fora de hora. Se for homem, não pode ser fraco. Se for rico, seja humilde. Se for pobre, corra atrás. Se for mulher, não seja forte nem feia. Se for feia, não seja burra. Não se esqueça de nunca ser aquela única pessoa que você de fato pode SER de verdade: você mesmo.

A gente enlouquece tanto tentando equilibrar todos os nossos personagens, sendo todas as pessoas que nos mandaram ser desde cedo. Não te parece quase surreal ver livros de autoajuda, o povo do RH, coachings e esses gurus dizendo; "seja você mesmo". Porque, PORRA, ninguém devia mandar a gente ser a gente mesmo, né? Isso devia ser a coisa mais fácil e óbvia do mundo: ser-quem-você-é. Por que se eu não for eu, serei quem?! A Madonna? A Simone de Beauvoir? 

E agora me diz: como é que a gente vive e se relaciona de um jeito equilibrado e bacana, sem saber ser quem a gente é? E pensando além: quem é que se relaciona com o mundo todo o tempo todo se não somos nós?  E, por último: quais são as consequências dessa nossa esquizofrenia socialmente incentivada?  

Claro, essa é a hora que você pode achar que eu vou responder a todas essas perguntas existenciais aí de cima. Vou não, migues. Eu ainda tô no capítulo zero tentando saber quem sou eu. Veja bem: capítulo ZE-RO. Não cheguei nem no "Ser ou não ser, eis a questão". Porque pra ser qualquer coisa, eu ainda tenho que descobrir que coisa é essa que eu sou. 

E, no capítulo zero, eu tenho zero respostas. Mas descobri uma coisa incrível: são as perguntas que me importam mais. São elas que estão me movendo, a cada segundo, na direção de um mundo inteiramente novo e desconhecido da pessoa inteira que eu sempre fui sem saber. 



terça-feira, 13 de junho de 2017

Uma carta para você que vai ser mãe


Eu te conheci quando você tinha só dois anos e agora você vai ser mãe! É claro que eu quero te falar sobre parto, sobre amamentação e sobre ser mãe. É claro que eu eu quero acompanhar vocês nesse caminho lindo e também falar sobre as pedras. Mas, de tudo que eu sei sobre SER mãe, não tem nada que eu possa te ensinar. Nada.

O que eu poderia querer te ensinar sobre isso? Qualquer coisa que eu diga, será presunçosa demais, arrogante demais. Não, eu não pretendo te ensinar qualquer coisa sobre ser mãe, porque quem vem com essa missão está nesse momento crescendo dentro de você. Eu não posso te ensinar nada, mas posso te falar muitas coisas sobre o caminho que trilhei até aqui e que talvez te ajudem a passar por esse processo de mudança se cobrando menos e mantendo o bom humor: isso já é muito mais do que a maioria de nós consegue fazer quando tem um filho. E, olha, bom humor salva a gente!

Ser mãe é definitivamente cuspir pro alto! E já começa no parto. Olha pro meu caso por exemplo: eu achei que ia ser uma musa parideira, daquelas que cospem o bebê enquanto está dormindo. Mas não,  o meu parto foi difícil pra caralho. Eu achei que não ia conseguir. E estamos aqui vivos pra contar a história.  

Olhando pra trás, o meu parto era exatamente o que eu precisava pra conhecer a força que eu não sabia que eu tinha. E essa força foi importante em muitos momentos difíceis. Então, eu acho que a gente tem o parto que a gente precisa ter, pra nascer junto com um bebê a nossa versão mãe. E eu sei que você é incrivelmente forte, amiga. 

Outra coisa que aprendi a duras penas é que ser mãe é sofrer o dobro de pressão que a gente já sofre por ser mulher. Não basta cuidar do filho, deixá-lo limpinho e alimentado. Você tem que estar linda e não pode esquecer de ser mulher: faz unha, cabelo, se depila e esconde as olheiras. Não se deixe pressionar. Porque se quem está com você te amar, vai te olhar descabelada e com a blusa cheia de leite que vazou e saber: "essa é a mulher que eu amo, e vê-la passar por toda essa transformação me faz admirá-la ainda mais".

Por te amar tanto, tudo o que eu quero dizer é que você pode contar comigo e com o meu acolhimento incondicional. Porque, às vezes, quem já trilhou o caminho antes de você pode te ajudar a pegar mais leve consigo mesma e curtir mais. E se tiver qualquer coisa que eu possa te ensinar é isso: vai ser tudo diferente do que você imagina. A gente se preocupa demais com o chá de fraldas e o enxoval, mas não para pra respirar e colocar o corpo e a mente no lugar pra criar espaço. Amiga: não esquece de res-pirar.

Umas coisas você vai tirar de letra, outras não. Ser mãe te vira do avesso. E, tudo bem, às vezes o avesso também é um lado bom seu que você não conhecia.

Eu posso te ajudar com dicas pra cólicas, amamentação, banho e alimentação. Mas, de verdade, no fim do dia, com um mundo cheio de gente que vai querer te dizer o tempo todo o que é melhor pra sua filha, eu te ofereço o que quase ninguém oferece pra gente nessas horas: ouvidos e um abraço pra te dizer "tá tudo bem - eu seguro sua filha no colo, você só precisa dormir um pouco".

Por último, mas não menos importante: vai ficar tudo bem, você vai ser uma mãe incrível e eu vou ter a sorte de poder fazer parte da vida da Cecília e ver que, como a gente, nossos filhos vão poder crescer juntos.

Amo você, Bu. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Feliz dia dos namorados. Ou não.


Sinto muito por estragar um clássico, mas Tom Jobim estava errado. Não é impossível ser feliz sozinho. Chega mais um dia dos namorados, de novo. E de novo. E todo ano tem isso e a gente não aprende. De um lado a turma que finge que tá tudo bem e que a solteirice é a melhor coisa do mundo - mesmo se não sente isso de verdade e lá no fundo bate um desespero por não ter encontrado o amor da vida. Ou, no desespero, qualquer amor serve - até um não amor. 

Do outro lado, a turma deprimida que tem que ficar explicando praquela tia porque não está namorando. Porque se você não está namorando, tem alguma coisa errada com você. Você não deve ser legal, não deve ser certo da cabeça. Ninguém te quer. 

Ser solteiro, separado, desquitado é um estigma. No meio disso tudo fica a galera que namora: entre mortos e feridos, alguns poucos se salvam, alguns poucos estão realmente em relações vivas e felizes. Quando a gente encontra gente assim, dá vontade de celebrar, porque amor de verdade não é comercial de margarina, mas é lindo de ver.

A gente não aprende que pra ficar junto tem que amar ficar sozinho. A gente não aprende que o amor pelo outro é uma extensão do nosso amor e aceitação próprios.

Se temos problemas em amar, aceitar e perdoar a nós mesmos, teremos certamente dificuldades em ter e manter relações equilibradas. Quando a gente não se ama, a gente faz da nossa relação com o outro uma fonte de auto afirmação, de preenchimento das nossas carências. Quando o nosso amor pelo outro é uma extensão da nossa falta de amor e aceitação próprios, a gente espera  que o outro resolva todos os problemas que nós não resolvemos sozinhos. E o problema é que só a gente pode resolver e se responsabilizar pela própria felicidade. 

Ser sozinho deveria ser um exercício de autorresponsabilidade e de amor próprio. Ser sozinho é criar espaço pra se olhar, respirar, se conhecer, se amar. 

Claro que a gente pode se conhecer na relação com o outro. Mas tenha certeza: se você quer fazer geléia com dois ingredientes - açúcar e uma fruta - e você coloca morango estragado na receita, não tem como salvar a geléia. O jeito é jogar fora e começar tudo do zero - ou comer a geléia estragada - se preferir. Tem gosto pra tudo e não são poucas as pessoas por aí comendo geléia estragada. 

Com a devida licença poética - porque, né, você não é morango nem açúcar e ninguém se mistura com o outro ao pé da letra - a gente precisa estar bem e estar pronto pra se relacionar com o outro. Não é problema nenhum querer ficar sozinho, pelo contrário: pode ser sinal de sanidade! Pode ser você pedindo pra parar um pouco, olhar pra dentro. Ficar sozinho pode ser você finalmente percebendo que as coisas não estão bem, e assumindo a responsabilidade em fazer as coisas ficarem bem cuidando de si mesmo - a única variável da equação sobre a qual você tem poderes.  

Se estar sozinho não for medo e uma forma de proteção, mas apenas um escolha de não estar numa relação, acredite em mim: não é uma doença e vai ficar tudo bem. Ser solteiro aumenta drasticamente suas chances de se dedicar aos seus hobbies, cultivar suas amizades, reforçar ou melhorar laços familiares. Existe vida na solteirice feliz, cara-pálida!

De novo: não que não seja possível fazer tudo isso dentro de uma relação a dois. Mas, se você não está bem consigo mesmo e com tudo isso, é a história da geléia com morango estragado, entende?

Então, esse post é só pra desejar feliz dia dos namorados pra você que é de namorado e de construir vínculos, intimidade e de se entregar numa relação. E feliz dia dos namorados pra você que namora a si mesmo. Pra aqueles que não estão nem lá nem cá, PELAMORDEDEUS, pára de esfregar geléia estragada na própria cara e chega de ser morango vencido tentando achar um açúcar pra disfarçar o gosto ruim: bora voltar pro começo do jogo e fazer tudo do zero. De novo. 

Dia dos namorados em 2018 a gente se fala outra vez, tá? 

Beijo.

sábado, 10 de junho de 2017

Não namora comigo?


Eu sei que parece uma pergunta absurda. E é exatamente dez vezes mais absurdo vindo de mim. Ou talvez nem tanto. Mas olha, namorar é chato. Pode acreditar em mim, eu consultei o Dicionário e tudo: namorar é terem duas pessoas relacionamento amoroso contínuo ou por um período de tempo. E eu não quero pensar no tempo quando estou com você e também não quero ter nada contínuo – muito antes pelo contrário, quero ficar enlouquecidamente confusa sem saber onde está o começo, o fim e o meio disso tudo. Porque vai ver que começamos pelo fim, pra pular logo essa parte e agora estamos no meio, ou quem sabe acabamos de começar.

Não namora comigo? Não namora pra gente não ter que fazer planos: assim a gente pode comemorar seu aniversário no meio de abril ou no final de junho, quem sabe até no Natal, porque, né, odeio Natal. Não namora comigo porque sem fazer planos a gente pode se jogar na piscina às 3 da manhã, a gente pode esquecer todas as datas sem culpa e saber que os melhores presentes são aqueles que não podem ser embalados e a gente dá numa quarta-feira chuvosa e triste pra fazer o outro sorrir.

Não namora comigo, pra gente poder descumprir todas as obrigações sociais e fugir de todas as festas chatas, porque só os namorados precisam se acompanhar: quem não tem status vai pra onde o coração manda. Não namora comigo não, não me inclui no seu futuro – vive comigo todo o presente porque, no final das contas, é só nele que tudo acontece de verdade. Não namora comigo, senão teremos que prestar contas pra família, vamos ter que conhecer as sogras, escolher nome pros filhos, ter um cachorro, colocar foto do outro como protetor da tela do celular e fazer essas coisas que todos os casais de namorados fazem, já sem nem saber o porquê. Não namora comigo, porque a gente pode fazer tudo diferente e consciente: a gente não precisa de nenhum calendário, flores, aniversário de namoro.

Não namora comigo, pra não me levar a sério. Assim eu posso ser boba como sempre, a gente não precisa cobrar nada um do outro, a não ser um chocolate de presente na TPM, só pra você saber que eu não sou tão diferentona não, tá?


Não namora comigo, pra gente ter o status que quiser, ou pra não termos status nenhum: só aquele status de acordar junto com a pessoa que a gente quer falar antes de dormir, de marcar de passar o final de semana junto ou de mandar mensagem pra perguntar se o outro está dormindo às duas da manhã. Não namora comigo, pra gente não namorar já sendo mais namorados do que tantos namorados que só namoram por medo de ficarem sozinhos. Não namora comigo?

sábado, 28 de janeiro de 2017

O amor é o que é



Tenta esconder o quanto você quiser ou puder, mas todo mundo tem uma régua, uma escala velada de valores e expectativas com relação à vida e às pessoas. Até aí, nada demais. Nada mais humano que isso nesse mundo em que vivemos mais a teoria que a prática e em que a maioria tenta fingir que está tudo bem.

O problema não é nosso nível de exigência e expectativa com relação ao outro. O problema é nos relacionarmos com os outros sem nunca nos darmos conta de que já viemos com tudo pronto e que já escrevemos a nossa história de amor antes mesmo dela acontecer.

Não nos sentimos amados com a medida do amor do outro. Julgamos as demonstrações de afeto em relação a nossa própria ideia de amor. E se pra mim, quem ama precisa mandar flores, eu só me sinto amado de verdade quando o entregador do Flores Online bate na minha porta no dia dos namorados.

O amor é só uma palavra até que se viva. O amor não existe, até existir sem que a gente se dê conta de que ele está lá. Não é justo com o amor que você tenha que provar que ama alguém de acordo com o que o outro acha que é o amor.

E o amor não se prova e nem se mede ou compara. Amor não existe para atender às expectativas do outro nem às nossas, porque o amor não são só essas coisas e momentos românticos e fotos de viagens e coisas boas que ficam na memória.

O amor é uma jornada para se tornar você mesmo. E é por meio do encontro com o outro que reconhecemos nossas fragilidades. Nem sempre a gente aceita que amor também é desencontro, desencanto, dor, traição. O amor é quem nos mostra nossas limitações e nos faz aceitá-las tanto quanto as limitações do outro.

O amor não é sobre encontrar alguém, é sobre encontrar você mesmo. O amor não é sobre achar a fonte da felicidade - é sobre encontrar a nossa capacidade de lidar com emoções e nossa força pra sermos maiores e mais fortes do que fomos ontem. Todo o resto que vemos é miragem. E o amor é aquilo que não vemos.







quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Se eu pudesse, eu enlouquecia

O ano mal começou e eu já quero perder a cabeça e soltar os cachorros. Sair lá na calçada e gritar até terem certeza de que eu perdi algum parafuso. Pode até ser efeito retardado de 2016, esse ano que me disseram que não queria acabar, mas acabou. Me desculpe, 2017. Eu sei que você acabou de começar e que não tem nada a ver com isso.

Se eu pudesse, eu enlouquecia. Pedia o divórcio, demissão no emprego que todo mundo quer ter, mudava de cidade, mandava uma carta desaforada pra alguém que merecesse, só me relacionava se fosse pra ser de verdade. Todas as obrigações sociais que se danem! Só ia aceitar relacionamentos genuínos, amores que cultivem a paz, um emprego onde eu não precise ganhar só pra pagar as contas sendo infeliz 12 horas por dia.

Eu sei, isso tudo é muito radical. Só pessoas malucas ficam desempregadas de propósito com um filho pra criar. A minha mãe vai querer me internar. Todo mundo vai dizer que eu vou passar fome e arrependimento e que morrerei sozinha, porque relacionamento verdadeiro simplesmente não existe - é muito melhor fingir que tá tudo bem e postar foto do mundo perfeito no Facebook.

Pra que querer mudar o que não está funcionando se você pode fingir que está tudo bem? Mudar dá muito trabalho. Mudar deixa todo mundo desconfortável. Deixa exposto demais que a maioria de nós vive uma vida de mentira.

Pela janela, o trânsito que só gente maluca dá conta, a fumaça dos carros, a gentileza robótica, a violência num grau insuportável e todo mundo dopado, anestesiado. Se eu pudesse, enlouquecia por uma via sem volta. Porque não enlouquecer num mundo tão maluco deve ser um tipo de doença pra qual ainda não inventaram um nome.

Pra falar a verdade, loucura é coisa normal hoje em dia. E ser normal não é normal.

Vai ver eu já enlouqueci e não me dei conta. Como dizia Raul: "a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser uma pessoa normal".


sábado, 7 de janeiro de 2017

Amor que se procura não se encontra



Provavelmente desde que respirou quando nasceu, ele já queria encontrá-la. Antes mesmo de andar, de estrear os joelhos no paralelepípedo e antes de todas as primeiras vezes de tudo. 

Começou a doer quando aquela menina no jardim de infância dividia a maçã do lanche do recreio com outro. Não podia ser ela. E cada vez que não era ela, doía mais do que poderia doer se fosse só mais um fim de namoro comum ou uma ficada que não foi pra frente. Cada vez que não era ela, a sensação de que ela nunca ia chegar. E de que ele nunca iria poder sossegar no aconchego de uma relação com ela que ele vinha esperando desde sempre.

Tem gente que já nasce com um sentimento de que falta alguma coisa. Aí assiste uma comédia romântica e - bingo! - acha que o que tá faltando é aquela pessoa que vai parar o avião pra pedir pra gente ficar. Não é que falte algo (às vezes pode até ser), mas acho que quase sempre, nossos vazios são só a vontade de viver por inteiro, de encontrar um sentido pra vida, de encontrar alguma coisa além de tudo que a gente conhece e de sentir alguma coisa maior que a gente mesmo. 

Mas acontece que não é sobre encontrar a The One, é sobre procurar tanto. A gente não sabe o que procura até encontrar. Então, talvez não devêssemos procurar quando não temos como saber o que estamos procurando. 

Eu sei, tá confuso de entender. Eu vou simplificar: você não precisa mais procurar. Não se preocupe em chegar lá, porque a vida não te deu o mapa, então, não há porque se cobrar tanto. Pode ficar tranquilo se estiver perdido, todos estamos. A gente não tem direção. E, às vezes, se você não sabe onde quer chegar, o jeito é viver o que há no caminho, experimentar todos os lugares. Se não temos mapa, temos o olhar e o sentir. Quando você chegar lá, você vai saber. Vai se sentir em casa e simplesmente vai saber.

E se você não chegar lá? O medo é esse? Não existe não chegar lá para quem não faz da vida uma eterna procura, entende? E você vai encontrá-la apenas quando ela não existir na sua cabeça antes de existir na sua vida. Porque tem umas coisas nesse mundo que precisam obedecer a um certa ordem. A carroça não anda se estiver na frente dos bois. O amor da vida não é uma criação, é uma construção. E o amor da sua vida pode nem ser ela: pode ser um filho, um lugar, um projeto, uma experiência, uma viagem ou descobrir como ser você mesmo.  

Amor que se procura não se encontra, porque amor a gente não procura. É ele quem encontra a gente. 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Desculpe o transtorno, preciso falar do machismo

É difícil falar sobre feminismo. Porque o feminismo, assim como o cristianismo, o islamismo e outros "ismos" são ideias e o ser humano faz com elas o que bem entende. A gente usa as ideias como nos convém, em muitos momentos de forma tão distorcida que a ideia e a prática chegam à beira da esquizofrenia. Por que, né, como é que tem cristão que não ama o próximo? E como tem budista violento?

Mas pra que falar de feminismo? O que isso tem a ver com os relacionamentos e com o mundo? Vem junto comigo... mas venha aberto a ouvir e rever suas posições e pre-conceitos, senão não vale à pena vir.

Pra entender feminismo, primeiro você precisa entender que a busca de igualdade nasceu de uma sociedade patriarcal extremamente violenta e opressiva, com o objetivo de tão somente dar voz às mulheres e mostrar que somos gente também. Se você que tá lendo isso acha que é mimimi e exagero, pensa no seguinte: a minha avó quando nasceu não tinha direito a voto simplesmente por ser mulher. Mulher só passou a ter direito a voto, no Brasil, em 1932! 

A mulher só pôde votar quase meio século depois do fim da escravidão. Assim como o fim da escravidão não determinou o fim do preconceito e das injustiças contra os negros, o direito ao voto para mulheres também não mudou automaticamente o jeito que a sociedade nos enxerga. Algumas coisas só mudam no papel e, de forma muito velada, continuamos sob a influência de uma sociedade machista, racista e de privilégios. Entenda: ontem na história a sociedade oficialmente não reconhecia a mulher como gente. A mulher era moeda de troca e tudo o mais que se pode imaginar e, ainda hoje, é objeto e é por isso que muitos homens se sentem no direito de agredi-las e matá-las.

A gente vê uma cara matar 12 pessoas - entre as quais nove mulheres e o próprio filho e ex esposa - e não consegue enxergar o machismo, não enxerga todo esse imaginário de ódio às mulheres. É mais fácil concluir que ele fez isso porque é maluco, psicopata. Acontece que a cada CINCO minutos um "psicopata" agride uma mulher no Brasil. Só enquanto escrevo esse texto, dá pra perder as contas de quantas mulheres estão sendo vítimas de um "psicopata". Até o final do dia, DEZ mulheres terão morrido - vítimas de nossa cultura machista. E 80% das agressões são praticadas pelos parceiros, ou por pessoas próximas, conhecidas. Não estamos falando do maníaco do parque. 

Há poucos meses atrás, um "pai de família" no Rio de Janeiro, morador da Barra da Tijuca, matou a mulher a facadas, jogou os dois filhos do décimo oitavo andar e depois se jogou. Motivo: estava preocupado em perder o emprego e o padrão de vida. Mas aqui também não vamos falar de machismo, coloca tudo na culpa da depressão. A pressão sobre o "macho provedor" é depressão, certo? Ele se sentir dono das vidas da mulher e dos filhos a ponto de matar todo mundo também não é machismo.  

O massacre que aconteceu em Campinas não é uma exceção e se vamos discutir isso pela ótica de que o cara que cometeu o crime era um psicopata, então, estamos contribuindo para que as coisas continuem como estão e permanecemos no sofá à espera do próximo psicopata.

E é aqui que está a questão principal que muitas pessoas não compreendem: quando se luta por igualdade, para que mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, não é uma luta contra homens, mas a favor de um novo comportamento social. Tem homem machista, mas também tem muita mulher machista! Então, essa discussão não é para atacar os homens e colocá-los como bandidos da história - é para refletir sobre o machismo! Não é pra dizer que homem é tudo filho da puta. Aliás, chamar de filho da puta é machista, entendeu? E xingar o pai do coleguinha de viadinho também é! Porque é definir papéis sobre o que homens e mulheres devem ser e como eles devem agir, é julgamento sobre como cada um deve se comportar sexualmente, moralmente e existencialmente apenas com base no gênero que a pessoa veio ao mundo. 

Não tô aqui pra falar de lugar comum, porque tá todo mundo careca de saber da jornada tripla da mulher, das injustiças nas divisões de tarefas domésticas e no valor (ou falta de valor) dado pelo mercado de trabalho à mulher. Eu queria falar de como a gente pode ser muito mais feliz sem machismo.

Porque machismo não tá só na violência de esculhambar feministas dizendo que elas são feminazi, feias, caídas, cabeludas e mal amadas não. Machismo não está somente em vendermos mulheres semi nuas em outdoors, revistas e propagandas de cerveja ou concursos de miss. O machismo está em cultivarmos um padrão de beleza feminino surreal e também está em cultivar a ideia de que homem tem que ser fortão,  musculozão, virilzão, comedorzão. O machismo está em excluirmos o homem do debate sobre igualdade, do debate sobre o aborto. Excluir é um comportamento tipicamente machista. E, em vez de feminismo - um movimento legítimo - estamos vendo mulheres atacando homens e as próprias mulheres de forma totalmente estúpida e quase ditatorial.

Nem sempre a gente se dá conta, mas ser tratada injustamente apenas por ser mulher, gera uma revolta que quase sempre se expressa de forma velada. E a gente nasce com esse sentimento, sem direito a ter voz, com esse peso daquela sociedade em que mulheres foram totalmente massacradas de formas inimagináveis. 

Sei que da minha avó pra cá as coisas melhoraram, mas ainda precisamos falar sobre machismo nas nossas relações e nos nossos relacionamentos enquanto houver feminicídio motivado por nossa cultura do estupro. Precisamos curar essa ferida para que seja possível nos relacionarmos. Empoderamento não é superioridade, é consciência do seu próprio poder e das suas responsabilidades - conceitos bem diferentes!

Pra gente falar de feminismo, temos que olhar pros comportamentos masculinos (que podem vir de homens ou de mulheres) e nos posicionar, pra dizer que não tá tudo bem e que não aceitamos esse tipo de tratamento. E isso só pode ser feito se estivermos atacando o comportamento em si, e não o gênero que o pratica, entende? 

Pra gente falar de machismo e feminismo, também temos que olhar pra dentro e perceber os nossos próprios machismos. Ele mora sutilmente nas conversas em que menosprezamos os homens pelo tamanho do pau. O machismo mora na ridicularização do homem que brochou na primeira transa entre as amigas - fazer isso não é muito diferente da atitude do homem de escolher mulher pela bunda, que a gente tanto condena. O machismo mora na ideia de que homem tem que pagar motel - porque né, a gente já tá pagando com o corpo. E gentes: não tem problema nenhum se o homem pagar a conta do motel e do restaurante. Não são as coisas que são machistas, mas a motivação a respeito dessas coisas.

Não vamos combater o machismo reproduzindo, como mulheres, os comportamentos que nos agridem. Não teremos um mundo mais humano e menos desigual se acharmos que "meu corpo, minhas regras" nos dá o direito de agredir verbalmente os homens por eles "se meterem" no debate sobre aborto. PELAMORDEDEUS, precisamos sim que os homens participem! Precisamos que eles entendam que o aborto também diz respeito a eles - porque ninguém fica grávida sozinha! Ninguém vai dizer o que temos que fazer com o nosso corpo, mas cada um precisa dizer como se sente e ser ouvido e acolhido no seu ponto de vista.

Precisamos falar de aborto, de licença maternidade e - ainda mais - de licença paternidade! Porque se o mundo é governado, em sua maioria, por homens, nada mais feminista do que exigir que pais tenham o mesmo direito que as mulheres, pelo mesmo período, para estar com seus filhos e cuidar deles e para que tudo seja dividido entre ambos os sexos. Precisamos falar da pressão para o homem ser forte, não chorar, sustentar a família, ter que ser alguém na vida, não poder ser sustentado pela mulher. Homem não pode brochar, não poder falhar, não pode apanhar - tem que bater.

Se queremos falar de feminismo, temos que tratar o homem como queremos ser tratadas. Se queremos falar de feminismo, temos que entender que há diferenças entre homens e mulheres sim, e que elas precisam ser respeitadas. Mais do que isso, essas diferenças precisam ser somadas, para que tenhamos uma sociedade mais equilibrada.  

Desculpe o transtorno. Desculpe o textão. 

Tudo isso era só pra pra dizer que quando você, homem que está lendo esse texto, olhar pra uma mulher, tenha em mente todo esse contexto. Seja essa mulher uma menina bonita ou feia que você viu na rua, seja ela a sua irmã, sua mãe ou sua namorada/esposa: quando olhar uma mulher, não esqueça de tudo que vem sendo embutido no seu olhar sem que você se dê conta. 

Quando você olhar para uma mulher, preste bem atenção: entenda que dizer orgulhoso pros seus amigos que você "ajuda em casa" é parte da cultura que faz um homem matar 12 pessoas numa festa de ano novo.  Não é sempre fácil fazer a conexão entre algo tão brutal e uma coisa tão bobinha do dia-a-dia, mas essa conexão existe. Entenda que trocar a fralda do seu filho não faz de você o super homem. Se precisa de dois pra gerar uma vida, faz sentido ter uma parceria e dividir o trabalho pra cuidar do filho. Se gabar disso, é perpetuar uma cultura de desigualdade que só traz violência.

Entenda que cada véspera de Natal em que você passa o dia bebendo enquanto as mulheres vão pra cozinha, você impede que um mundo novo comece a nascer. Porque precisamos trocar de lugar, mudar as perspectivas, parar de nos colocarmos no lugar do outro só no mundo das ideias para fazermos alguma coisa. A mudança pode ser "só" propor que só os homens da sua família cozinhem a próxima ceia de Natal. Pode ser só parar de fazer aquela piadinha sobre deixar de ser consumidor para ser fornecedor.

Desculpe o transtorno, eu ainda não acabei.

Você, mulher que está lendo esse texto: pense nisso tudo também quando olhar pra um homem. Pense na pressão que os homens sofrem. Pense em como é difícil para eles dividirem as tarefas quando desde pequenos são excluídos disso tudo. Pensa em como é difícil para eles terem um novo olhar sobre as mulheres quando eles são massacrados pela cultura do enxoval azul-carrinhos-lutas e espadas-homem não chora. Quando você olhar um homem, em vez de atacá-lo, abrace-o e convide-o a olhar junto pra tudo isso com você.

Convido as mulheres a refletirem sobre seus olhares para com os homens. Precisamos dar uma chance a eles e a nós mesmas de fazer diferente, de começar do zero. Precisamos encontrar novas formas de diálogo e abrir espaço, permitir que todos sejam ouvidos e acolhidos. Todos sofremos com o machismo. Não é só a mulher quem sofre: é o menino que cresce vendo a mãe apanhar ou apanhando do pai "pra ele aprender a ser homem". O machismo mata mulheres e homens, nos tortura psicologicamente e nos diminui como sociedade.  

No final das contas, pra lutar contra o machismo, a gente só precisa começar pelas coisas mais simples, que são justamente as que a gente menos percebe. 


E, por último, mas não menos importante: Não precisa ser uma briga entre os sexos. Não se deixe dominar por essa pressão social que exige que você assuma papéis de acordo com o seu sexo - seja você homem ou mulher. Não deixe que o machismo te transforme em um opressor(a). A gente é melhor que isso.