sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Desculpe o transtorno, preciso falar do machismo

É difícil falar sobre feminismo. Porque o feminismo, assim como o cristianismo, o islamismo e outros "ismos" são ideias e o ser humano faz com elas o que bem entende. A gente usa as ideias como nos convém, em muitos momentos de forma tão distorcida que a ideia e a prática chegam à beira da esquizofrenia. Por que, né, como é que tem cristão que não ama o próximo? E como tem budista violento?

Mas pra que falar de feminismo? O que isso tem a ver com os relacionamentos e com o mundo? Vem junto comigo... mas venha aberto a ouvir e rever suas posições e pre-conceitos, senão não vale à pena vir.

Pra entender feminismo, primeiro você precisa entender que a busca de igualdade nasceu de uma sociedade patriarcal extremamente violenta e opressiva, com o objetivo de tão somente dar voz às mulheres e mostrar que somos gente também. Se você que tá lendo isso acha que é mimimi e exagero, pensa no seguinte: a minha avó quando nasceu não tinha direito a voto simplesmente por ser mulher. Mulher só passou a ter direito a voto, no Brasil, em 1932! 

A mulher só pôde votar quase meio século depois do fim da escravidão. Assim como o fim da escravidão não determinou o fim do preconceito e das injustiças contra os negros, o direito ao voto para mulheres também não mudou automaticamente o jeito que a sociedade nos enxerga. Algumas coisas só mudam no papel e, de forma muito velada, continuamos sob a influência de uma sociedade machista, racista e de privilégios. Entenda: ontem na história a sociedade oficialmente não reconhecia a mulher como gente. A mulher era moeda de troca e tudo o mais que se pode imaginar e, ainda hoje, é objeto e é por isso que muitos homens se sentem no direito de agredi-las e matá-las.

A gente vê uma cara matar 12 pessoas - entre as quais nove mulheres e o próprio filho e ex esposa - e não consegue enxergar o machismo, não enxerga todo esse imaginário de ódio às mulheres. É mais fácil concluir que ele fez isso porque é maluco, psicopata. Acontece que a cada CINCO minutos um "psicopata" agride uma mulher no Brasil. Só enquanto escrevo esse texto, dá pra perder as contas de quantas mulheres estão sendo vítimas de um "psicopata". Até o final do dia, DEZ mulheres terão morrido - vítimas de nossa cultura machista. E 80% das agressões são praticadas pelos parceiros, ou por pessoas próximas, conhecidas. Não estamos falando do maníaco do parque. 

Há poucos meses atrás, um "pai de família" no Rio de Janeiro, morador da Barra da Tijuca, matou a mulher a facadas, jogou os dois filhos do décimo oitavo andar e depois se jogou. Motivo: estava preocupado em perder o emprego e o padrão de vida. Mas aqui também não vamos falar de machismo, coloca tudo na culpa da depressão. A pressão sobre o "macho provedor" é depressão, certo? Ele se sentir dono das vidas da mulher e dos filhos a ponto de matar todo mundo também não é machismo.  

O massacre que aconteceu em Campinas não é uma exceção e se vamos discutir isso pela ótica de que o cara que cometeu o crime era um psicopata, então, estamos contribuindo para que as coisas continuem como estão e permanecemos no sofá à espera do próximo psicopata.

E é aqui que está a questão principal que muitas pessoas não compreendem: quando se luta por igualdade, para que mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, não é uma luta contra homens, mas a favor de um novo comportamento social. Tem homem machista, mas também tem muita mulher machista! Então, essa discussão não é para atacar os homens e colocá-los como bandidos da história - é para refletir sobre o machismo! Não é pra dizer que homem é tudo filho da puta. Aliás, chamar de filho da puta é machista, entendeu? E xingar o pai do coleguinha de viadinho também é! Porque é definir papéis sobre o que homens e mulheres devem ser e como eles devem agir, é julgamento sobre como cada um deve se comportar sexualmente, moralmente e existencialmente apenas com base no gênero que a pessoa veio ao mundo. 

Não tô aqui pra falar de lugar comum, porque tá todo mundo careca de saber da jornada tripla da mulher, das injustiças nas divisões de tarefas domésticas e no valor (ou falta de valor) dado pelo mercado de trabalho à mulher. Eu queria falar de como a gente pode ser muito mais feliz sem machismo.

Porque machismo não tá só na violência de esculhambar feministas dizendo que elas são feminazi, feias, caídas, cabeludas e mal amadas não. Machismo não está somente em vendermos mulheres semi nuas em outdoors, revistas e propagandas de cerveja ou concursos de miss. O machismo está em cultivarmos um padrão de beleza feminino surreal e também está em cultivar a ideia de que homem tem que ser fortão,  musculozão, virilzão, comedorzão. O machismo está em excluirmos o homem do debate sobre igualdade, do debate sobre o aborto. Excluir é um comportamento tipicamente machista. E, em vez de feminismo - um movimento legítimo - estamos vendo mulheres atacando homens e as próprias mulheres de forma totalmente estúpida e quase ditatorial.

Nem sempre a gente se dá conta, mas ser tratada injustamente apenas por ser mulher, gera uma revolta que quase sempre se expressa de forma velada. E a gente nasce com esse sentimento, sem direito a ter voz, com esse peso daquela sociedade em que mulheres foram totalmente massacradas de formas inimagináveis. 

Sei que da minha avó pra cá as coisas melhoraram, mas ainda precisamos falar sobre machismo nas nossas relações e nos nossos relacionamentos enquanto houver feminicídio motivado por nossa cultura do estupro. Precisamos curar essa ferida para que seja possível nos relacionarmos. Empoderamento não é superioridade, é consciência do seu próprio poder e das suas responsabilidades - conceitos bem diferentes!

Pra gente falar de feminismo, temos que olhar pros comportamentos masculinos (que podem vir de homens ou de mulheres) e nos posicionar, pra dizer que não tá tudo bem e que não aceitamos esse tipo de tratamento. E isso só pode ser feito se estivermos atacando o comportamento em si, e não o gênero que o pratica, entende? 

Pra gente falar de machismo e feminismo, também temos que olhar pra dentro e perceber os nossos próprios machismos. Ele mora sutilmente nas conversas em que menosprezamos os homens pelo tamanho do pau. O machismo mora na ridicularização do homem que brochou na primeira transa entre as amigas - fazer isso não é muito diferente da atitude do homem de escolher mulher pela bunda, que a gente tanto condena. O machismo mora na ideia de que homem tem que pagar motel - porque né, a gente já tá pagando com o corpo. E gentes: não tem problema nenhum se o homem pagar a conta do motel e do restaurante. Não são as coisas que são machistas, mas a motivação a respeito dessas coisas.

Não vamos combater o machismo reproduzindo, como mulheres, os comportamentos que nos agridem. Não teremos um mundo mais humano e menos desigual se acharmos que "meu corpo, minhas regras" nos dá o direito de agredir verbalmente os homens por eles "se meterem" no debate sobre aborto. PELAMORDEDEUS, precisamos sim que os homens participem! Precisamos que eles entendam que o aborto também diz respeito a eles - porque ninguém fica grávida sozinha! Ninguém vai dizer o que temos que fazer com o nosso corpo, mas cada um precisa dizer como se sente e ser ouvido e acolhido no seu ponto de vista.

Precisamos falar de aborto, de licença maternidade e - ainda mais - de licença paternidade! Porque se o mundo é governado, em sua maioria, por homens, nada mais feminista do que exigir que pais tenham o mesmo direito que as mulheres, pelo mesmo período, para estar com seus filhos e cuidar deles e para que tudo seja dividido entre ambos os sexos. Precisamos falar da pressão para o homem ser forte, não chorar, sustentar a família, ter que ser alguém na vida, não poder ser sustentado pela mulher. Homem não pode brochar, não poder falhar, não pode apanhar - tem que bater.

Se queremos falar de feminismo, temos que tratar o homem como queremos ser tratadas. Se queremos falar de feminismo, temos que entender que há diferenças entre homens e mulheres sim, e que elas precisam ser respeitadas. Mais do que isso, essas diferenças precisam ser somadas, para que tenhamos uma sociedade mais equilibrada.  

Desculpe o transtorno. Desculpe o textão. 

Tudo isso era só pra pra dizer que quando você, homem que está lendo esse texto, olhar pra uma mulher, tenha em mente todo esse contexto. Seja essa mulher uma menina bonita ou feia que você viu na rua, seja ela a sua irmã, sua mãe ou sua namorada/esposa: quando olhar uma mulher, não esqueça de tudo que vem sendo embutido no seu olhar sem que você se dê conta. 

Quando você olhar para uma mulher, preste bem atenção: entenda que dizer orgulhoso pros seus amigos que você "ajuda em casa" é parte da cultura que faz um homem matar 12 pessoas numa festa de ano novo.  Não é sempre fácil fazer a conexão entre algo tão brutal e uma coisa tão bobinha do dia-a-dia, mas essa conexão existe. Entenda que trocar a fralda do seu filho não faz de você o super homem. Se precisa de dois pra gerar uma vida, faz sentido ter uma parceria e dividir o trabalho pra cuidar do filho. Se gabar disso, é perpetuar uma cultura de desigualdade que só traz violência.

Entenda que cada véspera de Natal em que você passa o dia bebendo enquanto as mulheres vão pra cozinha, você impede que um mundo novo comece a nascer. Porque precisamos trocar de lugar, mudar as perspectivas, parar de nos colocarmos no lugar do outro só no mundo das ideias para fazermos alguma coisa. A mudança pode ser "só" propor que só os homens da sua família cozinhem a próxima ceia de Natal. Pode ser só parar de fazer aquela piadinha sobre deixar de ser consumidor para ser fornecedor.

Desculpe o transtorno, eu ainda não acabei.

Você, mulher que está lendo esse texto: pense nisso tudo também quando olhar pra um homem. Pense na pressão que os homens sofrem. Pense em como é difícil para eles dividirem as tarefas quando desde pequenos são excluídos disso tudo. Pensa em como é difícil para eles terem um novo olhar sobre as mulheres quando eles são massacrados pela cultura do enxoval azul-carrinhos-lutas e espadas-homem não chora. Quando você olhar um homem, em vez de atacá-lo, abrace-o e convide-o a olhar junto pra tudo isso com você.

Convido as mulheres a refletirem sobre seus olhares para com os homens. Precisamos dar uma chance a eles e a nós mesmas de fazer diferente, de começar do zero. Precisamos encontrar novas formas de diálogo e abrir espaço, permitir que todos sejam ouvidos e acolhidos. Todos sofremos com o machismo. Não é só a mulher quem sofre: é o menino que cresce vendo a mãe apanhar ou apanhando do pai "pra ele aprender a ser homem". O machismo mata mulheres e homens, nos tortura psicologicamente e nos diminui como sociedade.  

No final das contas, pra lutar contra o machismo, a gente só precisa começar pelas coisas mais simples, que são justamente as que a gente menos percebe. 


E, por último, mas não menos importante: Não precisa ser uma briga entre os sexos. Não se deixe dominar por essa pressão social que exige que você assuma papéis de acordo com o seu sexo - seja você homem ou mulher. Não deixe que o machismo te transforme em um opressor(a). A gente é melhor que isso.




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