quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Se eu pudesse, eu enlouquecia

O ano mal começou e eu já quero perder a cabeça e soltar os cachorros. Sair lá na calçada e gritar até terem certeza de que eu perdi algum parafuso. Pode até ser efeito retardado de 2016, esse ano que me disseram que não queria acabar, mas acabou. Me desculpe, 2017. Eu sei que você acabou de começar e que não tem nada a ver com isso.

Se eu pudesse, eu enlouquecia. Pedia o divórcio, demissão no emprego que todo mundo quer ter, mudava de cidade, mandava uma carta desaforada pra alguém que merecesse, só me relacionava se fosse pra ser de verdade. Todas as obrigações sociais que se danem! Só ia aceitar relacionamentos genuínos, amores que cultivem a paz, um emprego onde eu não precise ganhar só pra pagar as contas sendo infeliz 12 horas por dia.

Eu sei, isso tudo é muito radical. Só pessoas malucas ficam desempregadas de propósito com um filho pra criar. A minha mãe vai querer me internar. Todo mundo vai dizer que eu vou passar fome e arrependimento e que morrerei sozinha, porque relacionamento verdadeiro simplesmente não existe - é muito melhor fingir que tá tudo bem e postar foto do mundo perfeito no Facebook.

Pra que querer mudar o que não está funcionando se você pode fingir que está tudo bem? Mudar dá muito trabalho. Mudar deixa todo mundo desconfortável. Deixa exposto demais que a maioria de nós vive uma vida de mentira.

Pela janela, o trânsito que só gente maluca dá conta, a fumaça dos carros, a gentileza robótica, a violência num grau insuportável e todo mundo dopado, anestesiado. Se eu pudesse, enlouquecia por uma via sem volta. Porque não enlouquecer num mundo tão maluco deve ser um tipo de doença pra qual ainda não inventaram um nome.

Pra falar a verdade, loucura é coisa normal hoje em dia. E ser normal não é normal.

Vai ver eu já enlouqueci e não me dei conta. Como dizia Raul: "a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser uma pessoa normal".


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