segunda-feira, 12 de junho de 2017

Feliz dia dos namorados. Ou não.


Sinto muito por estragar um clássico, mas Tom Jobim estava errado. Não é impossível ser feliz sozinho. Chega mais um dia dos namorados, de novo. E de novo. E todo ano tem isso e a gente não aprende. De um lado a turma que finge que tá tudo bem e que a solteirice é a melhor coisa do mundo - mesmo se não sente isso de verdade e lá no fundo bate um desespero por não ter encontrado o amor da vida. Ou, no desespero, qualquer amor serve - até um não amor. 

Do outro lado, a turma deprimida que tem que ficar explicando praquela tia porque não está namorando. Porque se você não está namorando, tem alguma coisa errada com você. Você não deve ser legal, não deve ser certo da cabeça. Ninguém te quer. 

Ser solteiro, separado, desquitado é um estigma. No meio disso tudo fica a galera que namora: entre mortos e feridos, alguns poucos se salvam, alguns poucos estão realmente em relações vivas e felizes. Quando a gente encontra gente assim, dá vontade de celebrar, porque amor de verdade não é comercial de margarina, mas é lindo de ver.

A gente não aprende que pra ficar junto tem que amar ficar sozinho. A gente não aprende que o amor pelo outro é uma extensão do nosso amor e aceitação próprios.

Se temos problemas em amar, aceitar e perdoar a nós mesmos, teremos certamente dificuldades em ter e manter relações equilibradas. Quando a gente não se ama, a gente faz da nossa relação com o outro uma fonte de auto afirmação, de preenchimento das nossas carências. Quando o nosso amor pelo outro é uma extensão da nossa falta de amor e aceitação próprios, a gente espera  que o outro resolva todos os problemas que nós não resolvemos sozinhos. E o problema é que só a gente pode resolver e se responsabilizar pela própria felicidade. 

Ser sozinho deveria ser um exercício de autorresponsabilidade e de amor próprio. Ser sozinho é criar espaço pra se olhar, respirar, se conhecer, se amar. 

Claro que a gente pode se conhecer na relação com o outro. Mas tenha certeza: se você quer fazer geléia com dois ingredientes - açúcar e uma fruta - e você coloca morango estragado na receita, não tem como salvar a geléia. O jeito é jogar fora e começar tudo do zero - ou comer a geléia estragada - se preferir. Tem gosto pra tudo e não são poucas as pessoas por aí comendo geléia estragada. 

Com a devida licença poética - porque, né, você não é morango nem açúcar e ninguém se mistura com o outro ao pé da letra - a gente precisa estar bem e estar pronto pra se relacionar com o outro. Não é problema nenhum querer ficar sozinho, pelo contrário: pode ser sinal de sanidade! Pode ser você pedindo pra parar um pouco, olhar pra dentro. Ficar sozinho pode ser você finalmente percebendo que as coisas não estão bem, e assumindo a responsabilidade em fazer as coisas ficarem bem cuidando de si mesmo - a única variável da equação sobre a qual você tem poderes.  

Se estar sozinho não for medo e uma forma de proteção, mas apenas um escolha de não estar numa relação, acredite em mim: não é uma doença e vai ficar tudo bem. Ser solteiro aumenta drasticamente suas chances de se dedicar aos seus hobbies, cultivar suas amizades, reforçar ou melhorar laços familiares. Existe vida na solteirice feliz, cara-pálida!

De novo: não que não seja possível fazer tudo isso dentro de uma relação a dois. Mas, se você não está bem consigo mesmo e com tudo isso, é a história da geléia com morango estragado, entende?

Então, esse post é só pra desejar feliz dia dos namorados pra você que é de namorado e de construir vínculos, intimidade e de se entregar numa relação. E feliz dia dos namorados pra você que namora a si mesmo. Pra aqueles que não estão nem lá nem cá, PELAMORDEDEUS, pára de esfregar geléia estragada na própria cara e chega de ser morango vencido tentando achar um açúcar pra disfarçar o gosto ruim: bora voltar pro começo do jogo e fazer tudo do zero. De novo. 

Dia dos namorados em 2018 a gente se fala outra vez, tá? 

Beijo.

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