sábado, 12 de agosto de 2017

O maravilhoso mundo das pessoas inteiras

É difícil ser inteiro. Ser você mesmo até quando dói a ponto de você não conseguir respirar. É difícil ser inteiro e não pela metade quando o mundo te esquarteja o tempo todo, te dizendo pra ser várias pessoas e nenhuma ao mesmo tempo. Pra sempre ser quem você não é e jamais deixar alguém te conhecer de verdade - porque, claro, você sem maquiagem, sem Photoshop, sem assunto, sem intelectualidade... você sem um Instagram lifestyle, textões do Facebook e aquelas coisas todas que fazem a vida de qualquer pessoa parecer tão sensacional - sem isso tudo você deve ser feio, chato, vazio, insuportável, inculto, sem assunto, um tédio. 

Não seja idiota no trabalho. Não queira papo cabeça no bar. Não ouse rir fora de hora. Se for homem, não pode ser fraco. Se for rico, seja humilde. Se for pobre, corra atrás. Se for mulher, não seja forte nem feia. Se for feia, não seja burra. Não se esqueça de nunca ser aquela única pessoa que você de fato pode SER de verdade: você mesmo.

A gente enlouquece tanto tentando equilibrar todos os nossos personagens, sendo todas as pessoas que nos mandaram ser desde cedo. Não te parece quase surreal ver livros de autoajuda, o povo do RH, coachings e esses gurus dizendo; "seja você mesmo". Porque, PORRA, ninguém devia mandar a gente ser a gente mesmo, né? Isso devia ser a coisa mais fácil e óbvia do mundo: ser-quem-você-é. Por que se eu não for eu, serei quem?! A Madonna? A Simone de Beauvoir? 

E agora me diz: como é que a gente vive e se relaciona de um jeito equilibrado e bacana, sem saber ser quem a gente é? E pensando além: quem é que se relaciona com o mundo todo o tempo todo se não somos nós?  E, por último: quais são as consequências dessa nossa esquizofrenia socialmente incentivada?  

Claro, essa é a hora que você pode achar que eu vou responder a todas essas perguntas existenciais aí de cima. Vou não, migues. Eu ainda tô no capítulo zero tentando saber quem sou eu. Veja bem: capítulo ZE-RO. Não cheguei nem no "Ser ou não ser, eis a questão". Porque pra ser qualquer coisa, eu ainda tenho que descobrir que coisa é essa que eu sou. 

E, no capítulo zero, eu tenho zero respostas. Mas descobri uma coisa incrível: são as perguntas que me importam mais. São elas que estão me movendo, a cada segundo, na direção de um mundo inteiramente novo e desconhecido da pessoa inteira que eu sempre fui sem saber.